Quanto Mais Quente Melhor
de Billy Wilder, Some Like It Hot, EUA, 1959

Algumas coisas são perfeitas

Segundo a lógica da célebre frase pronunciada por Osgood (Joe E. Brown) na seqüência que encerra Quanto Mais Quente Melhor, a perfeição não existiria. Mas o cinema está aí para provar o oposto. Ela pode existir, e este filme, como muitos outros de Billy Wilder, é um exemplo concreto. Exemplo também da permanência de uma comédia no imaginário cinematográfico coletivo, já que, numa votação recente, Quanto Mais Quente Melhor foi eleito o “filme mais engraçado da história do cinema”. Pensando bem, toda eleição desse tipo é discutível e subjetiva. Igualmente discutíveis são os critérios que possam vir a definir o que seja “o mais engraçado”. Ainda assim, a escolha parece se justificar.

Mais talentoso dos herdeiros diletos de Ernst Lubitsch, herança essa selada através da colaboração no roteiro do fenomenal Ninotchka (1939), que muito bem poderia ser igualmente o vencedor do pleito acima, Billy Wilder sempre soube traduzir de forma pessoal os toques de sutileza, ironia e humor dúbio característicos do cinema de seu mestre. Somando a isso o cinismo que muito lhe é particular, Wilder em alguns momentos concretizou passos que o levaram algo além de seu mestre. Estamos aqui certamente diante de um desses momentos. Mas persiste o enigma. Se na própria obra de Wilder existem outros filmes pródigos em gerar risadas, e A Mundana, O Pecado Mora Ao Lado, Se Meu Apartamento Falasse ou Cupido Não Tem Bandeira aí estão para não nos deixar mentir, por que é Quanto Mais Quente Melhor aquele que ao longo do tempo veio a ser consagrado como “o mais engraçado”?

Parte da resposta pode residir no fato que estamos diante de um dos momentos de sua obra nos quais Wilder exerceu uma das aplicações mais radicais de seu estilo, principalmente no que se refere aos diálogos irônicos e na exploração de um duplo sentido. E assim não podia deixar de ser, quando tudo parte de uma história centrada em dois homens que se vestem de mulher. O apelo dessa situação, por si só já convidativa ao riso, se amplia ao pensarmos que estes dois homens são vividos por Tony Curtis – já na época consagrado como galã em papéis de conquistador, como nos trabalhos que fizera com Blake Edwards – e Jack Lemmon – então ainda visto essencialmente como um comediante. Suas atuações permanecem até hoje como inusitadamente carismáticas e, no que tange ao duplo sentido, Lemmon e seu Jerry/Daphne encarnam a mais perfeita transcrição do conceito de “dúbio” na história do cinema.

Toda essa duplicidade que caracteriza um jogo de aparências e máscaras, força motriz do filme, se faz presente bem antes de Curtis e Lemmon assumirem suas personalidades femininas. Já nas primeiras cenas, quando um discreto carro fúnebre vai se descortinar como o veículo de gângsters que transportam armas sob os estofados e bebidas dentro de um caixão, temos aí a traçada uma linha definindo que, nesse universo criado por Wilder, as coisas, por mais óbvias que sejam, quase sempre não serão aquilo que parecem. E é assim que a necessidade vai determinar a aparência que deve ser tomada. No caso dos gângsters, para driblar a polícia e vender sua bebida em tempos de Lei Seca. No caso dos músicos protagonistas, por uma questão de sobrevivência.

Sim, e é dessa suprema necessidade humana que parece advir a principal razão da empatia infinitamente duradoura dos protagonistas de Quanto Mais Quente Melhor e, consequentemente, do filme como um todo. Se os personagens das comédias de Lubitsch exercem seus jogos de aparência por motivos aparentemente fúteis, temos aqui que a dupla de músicos vai cogitar ser aquilo que não é a princípio para comer e pagar as contas, num segundo momento para preservar a vida, ameaçada pelos bandidos, após presenciar uma chacina. Por outro lado, se jogar com as aparências é ato essencial para sobreviver, temos o na necessidade desse jogo o principal dilema de Sugar Kane (Marilyn Monroe), que não consegue ser outra coisa que não ela mesma.

Além de toda uma comicidade calcada em dilemas universais, vemos que, outra porção significativa do carisma de Quanto Mais Quente Melhor, tem origem no fato dessa ser uma comédia com os pés firmemente fincados no universo do cinema. Gãngsters, pitadas de humor físico que remetem aos filmes silenciosos, amores “impossíveis”, citações paródicas assumidas – George Raft e os mafiosos que o consagraram – ou veladas – Tony Curtis imitando Cary Grant ao assumir a persona do milionário - tudo vai se somando num conjunto magistralmente organizado por Billy Wilder e que, independente de ser ou não ser “o mais engraçado”, certamente irá gerar sorrisos e gargalhadas enquanto o ser humano permanecer dotado de qualquer manifestação de senso de humor.

Gilberto Silva Jr.