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Algumas
coisas são perfeitas
Segundo
a lógica da célebre frase pronunciada por Osgood (Joe
E. Brown) na seqüência que encerra Quanto
Mais Quente Melhor, a perfeição não existiria. Mas
o cinema está aí para provar o oposto. Ela pode existir,
e este filme, como muitos outros de Billy Wilder, é
um exemplo concreto. Exemplo também da permanência de
uma comédia no imaginário cinematográfico coletivo,
já que, numa votação recente, Quanto Mais Quente Melhor foi eleito o
“filme mais engraçado da história do cinema”. Pensando
bem, toda eleição desse tipo é discutível e subjetiva.
Igualmente discutíveis são os critérios que possam vir
a definir o que seja “o mais engraçado”. Ainda assim,
a escolha parece se justificar.
Mais talentoso dos herdeiros diletos de Ernst Lubitsch,
herança essa selada através da colaboração no roteiro
do fenomenal Ninotchka (1939), que muito bem poderia ser igualmente o vencedor
do pleito acima, Billy Wilder sempre soube traduzir
de forma pessoal os toques de sutileza, ironia e humor
dúbio característicos do cinema de seu mestre. Somando
a isso o cinismo que muito lhe é particular, Wilder
em alguns momentos concretizou passos que o levaram
algo além de seu mestre. Estamos aqui certamente diante
de um desses momentos. Mas persiste o enigma. Se na
própria obra de Wilder existem outros filmes pródigos
em gerar risadas, e A Mundana, O Pecado Mora Ao Lado, Se Meu
Apartamento Falasse ou Cupido
Não Tem Bandeira aí estão para não nos deixar mentir,
por que é Quanto Mais Quente Melhor aquele que ao
longo do tempo veio a ser consagrado como “o mais engraçado”?
Parte da resposta pode residir no fato que estamos diante
de um dos momentos de sua obra nos quais Wilder exerceu
uma das aplicações mais radicais de seu estilo, principalmente
no que se refere aos diálogos irônicos e na exploração
de um duplo sentido. E assim não podia deixar de ser,
quando tudo parte de uma história centrada em dois homens
que se vestem de mulher. O apelo dessa situação, por
si só já convidativa ao riso, se amplia ao pensarmos
que estes dois homens são vividos por Tony Curtis –
já na época consagrado como galã em papéis de conquistador,
como nos trabalhos que fizera com Blake Edwards – e
Jack Lemmon – então ainda visto essencialmente como
um comediante. Suas atuações permanecem até hoje como
inusitadamente carismáticas e, no que tange ao duplo
sentido, Lemmon e seu Jerry/Daphne encarnam a mais perfeita
transcrição do conceito de “dúbio” na história do cinema.
Toda essa duplicidade
que caracteriza um jogo de aparências e máscaras, força
motriz do filme, se faz presente bem antes de Curtis
e Lemmon assumirem suas personalidades femininas. Já
nas primeiras cenas, quando um discreto carro fúnebre
vai se descortinar como o veículo de gângsters que transportam
armas sob os estofados e bebidas dentro de um caixão,
temos aí a traçada uma linha definindo que, nesse universo
criado por Wilder, as coisas, por mais óbvias que sejam,
quase sempre não serão aquilo que parecem. E é assim
que a necessidade vai determinar a aparência que deve
ser tomada. No caso dos gângsters, para driblar a polícia
e vender sua bebida em tempos de Lei Seca. No caso dos
músicos protagonistas, por uma questão de sobrevivência.
Sim, e é dessa
suprema necessidade humana que parece advir a principal
razão da empatia infinitamente duradoura dos protagonistas
de Quanto Mais Quente Melhor e, consequentemente,
do filme como um todo. Se os personagens das comédias
de Lubitsch exercem seus jogos de aparência por motivos
aparentemente fúteis, temos aqui que a dupla de músicos
vai cogitar ser aquilo que não é a princípio para comer
e pagar as contas, num segundo momento para preservar
a vida, ameaçada pelos bandidos, após presenciar uma
chacina. Por outro lado, se jogar com as aparências
é ato essencial para sobreviver, temos o na necessidade
desse jogo o principal dilema de Sugar Kane (Marilyn
Monroe), que não consegue ser outra coisa que não ela
mesma.
Além de toda
uma comicidade calcada em dilemas universais, vemos
que, outra porção significativa do carisma de Quanto Mais Quente Melhor, tem origem no fato dessa ser uma comédia
com os pés firmemente fincados no universo do cinema.
Gãngsters, pitadas de humor físico que remetem aos filmes
silenciosos, amores “impossíveis”, citações paródicas
assumidas – George Raft e os mafiosos que o consagraram
– ou veladas – Tony Curtis imitando Cary Grant ao assumir
a persona do milionário - tudo vai se somando num conjunto magistralmente organizado
por Billy Wilder e que, independente de ser ou não ser
“o mais engraçado”, certamente irá gerar sorrisos e
gargalhadas enquanto o ser humano permanecer dotado
de qualquer manifestação de senso de humor.
Gilberto Silva Jr.
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