MOSTRA DE TIRADENTES
Cobertura diária

Dia 8: O Céu Está Azul Com Nuvens Vermelhas, de Dellani Lima (Brasil, 2007)

Com este primeiro longa-metragem, depois de uma carreira na videoarte, Dellani Lima consegue produzir uma quase novidade no cinema brasileiro, tão múltiplo como é hoje porque servindo a desejos bastante diferentes entre si (de José Eduardo Belmonte a Moacyr Góes, de Beto Brant a Daniel Filho, todos sempre partindo de alguma idéia de relação a se estabelecer com o cinema, com o público brasileiro, com o mundo). Porque O Céu Está Azul Com Nuvens Vermelhas dá a impressão de não ter vontade nenhuma, de não querer nada com aquilo que exibe em suas imagens, uma sensação de tal modo presente que a cada nova seqüência agrupada na tela é inevitável se perguntar para que se está fazendo tudo aquilo, o que move aquela imagem a se realizar.

Apenas frouxamente percebemos alguma direção ali: uma recorrência nos filmes mineiros exibidos em Tiradentes, onde a urbanidade é sempre tomada como paradigma do mal-estar contemporâneo (era assim em O Quadrado de Joana, do mesmo modo no curta Outono, de Pablo Lobato, e ainda uma resposta a isso em Acidente, co-direção deste último com Cao Guimarães, que faz do retorno ao interior ainda não urbanizado uma tentativa de resgate da beleza do detalhe em oposição ao gigantismo destruidor de singularidades da metrópole); ou ainda uma mesma relação entre um casal perdido entre si e uma corrente narrativa paralela, fundada no documentário, como no filme de Tiago Mata Machado, com a diferença que aqui o feminino é que pertence ao exterior, não mais ao confinamento. Uma presença ostensiva de um olhar de videoartismo e instalação de galeria, sobretudo nos pequenos clipes espalhados entre uma seqüência e outra, que abstraem a partir de ações banais dos personagens (podar uma árvore, jogar futebol de moeda num tabuleiro), e não muito mais que isso se pode notar.

Os depoimentos colhidos num parque público tampouco contribuem para qualquer dica sobre o que realmente O Céu Está Azul quer consigo mesmo, já que recusamos a idéia de que se faça um filme unicamente para descobrir qual cor está mais relacionada ao amor, se o azul ou o vermelho. Muito cedo esse dispositivo documental se esgota, e as respostas dos passantes se acumulam em repetição e falta de ar diante de uma pergunta tão restrita, constrangendo qualquer possibilidade de escape dessa estrutura rígida de depoimento às piadinhas vindas de alguns deles ("escolho o vermelho porque é a cor do socialismo" ou "o amor não tem cor"). Do outro lado, o desejo de ficção se esgota em fórmulas ridiculamente gastas, e é até com alguma surpresa que assistimos, num filme tão dado supostamente às transgressões (do modo de encenação, do olhar), uma personagem, desolada pela perda do amor, escorregar nua pela parede do banheiro até se sentar no chão, com as pernas arqueadas, gesto típico de todas as separações e decepções que já assistimos nas novelas e no mau cinema, ou ainda insistir-se na "poesia" de uma bolha de sabão sendo soprada no ar, justo este que é o primeiro expediente que qualquer estudante de artes plásticas utiliza em suas primeiras experimentações com vídeo na faculdade.

Entre os violinos altivos que insistem em acompanhar toda a experiência de O Céu Está Azul e a inserção duvidosa de certos depoimentos (entrando numa das cabines armadas pela produção no tal parque, um velho aposentado, gago, tem sua entrevista alongada como se o filme quisesse aproveitar ao máximo o ridículo e o engraçado de sua fala), nos deparamos com exercícios de puro não-cinema – não confundir com o anti-cinema sganzerliano, esse sim cheio de vontades. De modo que nem é possível dizer que o filme de Dellani Lima seja ruim, porque não há como compará-lo com qualquer outro, e daí pensar em alguma hierarquia ou escala de valor (por mais subjetiva que ela seja). O Céu Está Azul Com Nuvens Vermelhas – não é nada, não é nada – não é nada mesmo.


Rodrigo de Oliveira