MOSTRA DE TIRADENTES
Cobertura diária

Dia 7 : O Quadrado de Joana, de Tiago Mata Machado (Brasil, 2007)

Falando sobre seu filme na chamada institucional que a Mostra de Tiradentes exibia no início das sessões, Tiago Mata Machado dizia se tratar de um "problema para os críticos", já que insistia na imperfeição e no erro quando todo o cinema brasileiro atual exigia acerto e perfeição. Ora, antes de qualquer coisa, há que se duvidar do diretor que filma pensando nos problemas que criará para os críticos antes de pensar no que aquilo significa de desafio para si mesmo, para o equilíbrio entre um modo de ver cinema e a concretização de um fazer propriamente dito. Tampouco parece coerente essa individualização de um trabalho como ilha de diferença num mar de igualdade, sobretudo quando se tem dois conceitos tão voláteis na mão como "perfeição" e "acerto" (e talvez houvesse aqui uma referência não tão sutil assim à desastrosa transferência do material digital para a película, que fazia da cópia exibida de O Quadrado de Joana uma experiência de adivinhação do que era o filme por trás daquela camada de imagem distorcida, experiência muito ajudada pelo som em mono, o que favorecia, por acidente, certo clima depressivo do cinema do fim dos anos 60 dado pela trilha musical, mas que claramente não era o que se pretendia com a banda sonora).

Isso porque tudo o que O Quadrado de Joana quer é perfeição. Não a técnica, da iluminação ideal, da limpeza na decupagem, da concatenação precisa entre os planos, do som claro, audível (esta sendo talvez a síndrome diagnosticada pelo diretor no depoimento sobre o cinema brasileiro). Mesmo por este caminho, o filme se esbarra diversas vezes com esse mal absoluto do acerto, quando vemos planos perfeitamente construídos, composições que tiram do equilíbrio entre a plástica da imagem e o sentido embutido nela toda sua força – lembremos do momento em que o rapaz protagonista conversa com um amigo no alto de um prédio, os dois em cantos opostos do quadro, com a cidade acontecendo ao fundo, ou ainda nos travellings laterais que a câmera executará sobre o corpo desse mesmo rapaz quando, mais ao fim, ele estará deitado sobre um túmulo qualquer num cemitério daquela mesma cidade que antes o invadia. O maior atentado que O Quadrado de Joana comete contra este seu desejo de imperfeição é o modo tão evidente, quase ingênuo, com que apresenta as questões que lhe movem e com as quais pretende lidar ao longo de sua duração.

Há um partido central, segundo o qual o mundo está dividido em duas camadas de ocorrência, uma que é verdadeira (mais um conceito absolutamente impreciso cuja validade é assumida automaticamente) e outra que é falsa, pura representação. É essa duplicação que afasta os personagens um do outro, que torna impossível a relação entre aquele rapaz já mencionado com a Joana do título, e dos dois com a filha que tiveram mas que, em certo sentido, abandonaram. Para tratar do simulacro, nada melhor que criar um para si, e assim o próprio O Quadrado de Joana se dividirá em dois, um filme que acontece na camada da "verdade", onde veremos, no começo, os dois atores que interpretam o casal sendo submetidos a uma entrevista por um diretor, onde falam dos personagens que encarnarão dali para frente, numa espécie de documentário involuntário (sim, mais uma vez o documentário tomado como face da verdade), para então sermos levados à camada da "mentira", com os dramas ficcionais acontecendo aos montes (sim, mais uma vez o dispositivo do filme-dentro-do-filme como revelador dos segredos mútuos).

Não bastasse toda essa estrutura milimetricamente montada, O Quadrado de Joana ainda sentirá necessidade de verbalizar suas intenções, e em cada oportunidade que tiver o rapaz protagonista irá vaticinar contra a falsidade do mundo, onde somos todos "atores, simulando que trabalham" (recebendo do diretor, nesse momento, a imagem de várias formigas seguindo com suas vidas, elas sim as "verdadeiras trabalhadoras" desta terra). Será assim também com a intervenção de Zé do Poço, ele mesmo personagem da vida real, cantor e radialista que se aproxima do protagonista num abrigo para mendigos e que logo provoca nele uma vontade de "desvendar a encenação", e quando pensávamos que nada mais poderia ser acrescentado a essa agenda tão definida do filme, ainda ouviremos, em tom épico, que "no fundo tudo é puro teatro". Assumir esse discurso perfeito enquanto imagem não pareceu nunca uma opção, e desse modo ao invés de mergulhar na encenação, desvendá-la simplesmente, com o estabelecimento de um modelo de atuação, acaba sendo a saída mais fácil. Perfeitamente dito, perfeitamente compreendido.

O erro aqui passa a ser não aquilo que desafia a estrutura dominante (um padrão de qualidade técnica e dramática do cinema geral, por exemplo), mas tudo o que se rebela contra essa vontade interior de ordenação, de discurso estabelecido, de metas filosóficas encaradas como equações matemáticas simples. Duas seqüências "erradas" se colocam na briga contra o que o filme queria exigir delas, e dão uma idéia do que O Quadrado de Joana consegue ser sempre que sua fôrma se areja com as possibilidades daquilo que ataca, da encenação, da simulação, do cinema, enfim. Primeiro, um balé forjado com uma pequena boneca Cinderela que se arrasta pelo chão, cuja valsa é interrompida e reiniciada pelos impulsos dados pela menininha filha do casal, e depois, na cena final, o belo campo/contracampo entre este mesma menina e Joana, com ambas reconhecendo uma na outra, pela primeira vez, a chance de uma relação de mãe e filha. O sorriso das duas, que fecha o filme, é quase um grito de alívio, porque ali O Quadrado de Joana acaba, e mãe e filha estarão longe de qualquer discurso de simulação ou duplicidade, livres para serem o que quiserem. Talvez, e pela primeira vez, até imperfeitas e erradas.


Rodrigo de Oliveira