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Dia
5: Contra o medo da narrativa
(sobre “curtas de cinema”)
O abandono das narrativas em seu sentido clássico,
calcadas na tradição de um cinema contador de histórias
(hollywoodiano, mas não apenas
isso), é algo sentido de maneira geral no panorama
da cinematografia mundial, inclusive no ambiente americano
em que foram forjadas, e é bastante curioso o modo
como o curta-metragem brasileiro tem lidado com isso.
Há em boa parte das ficções uma fuga primordial do storytelling,
onde a idéia de uma estrutura dramática construída
(com um começo, um desenvolvimento e um desfecho, conclusivo
ou não) é abandonada em nome do recorte, onde apenas
um trecho dessa estrutura é considerado, e onde qualquer
origem ou destino se impõe como pura projeção. Nas
que se arriscam à fabular propriamente, aparece uma
indisposição com a urdidura da ficção cinematográfica,
onde os significados daquilo que se filma ou são delegados à extensão
automática do tempo, com o silêncio se ocupando da
tarefa descritiva dos sentimentos, ou então surgem
na forma de discursos próprios de outras linguagens,
os únicos capazes de fazer avançar aquilo que o cinema
não dá conta (um uso exaustivo do personagem que verbaliza
as sensações de seu mundo, o artifício da música como preenchedor de lacunas dramáticas). Assim, construir narrativas
e estruturá-las a partir de instrumentos primeiramente
cinematográficos passa a ser, diante desse cinema fragmentário
e extensivo, um grande problema.
Dos filmes selecionados para as seções de curtas, em
Tiradentes, muitos lidavam diretamente com a idéia
da montagem (Eisenstein e
um retorno paródico à matriz
russa, Noite de Sexta Manhã de Sábado com a
colagem de planos como a única possibilidade de fazer
conviver, num mesmo espaço, duas personagens separadas
por um oceano, Manual para Atropelar Cachorro e
o diálogo com a edição vertical e cumulativa do cinema
pop dos anos 90), mas três deles, Entre Amigos, Encanto e Viva
o Terceiro Mundo, todos trabalhando exatamente
sobre o problema da fabulação, tentando compor histórias
e contá-las com algum grau de linearidade e conseqüência,
o fazem partindo de um conceito de decupagem e montagem muito preciso. Usam, em suas narrativas,
soluções que são do domínio da própria linguagem cinematográfica.
Em Entre Amigos a intromissão de um sujeito
na relação íntima de um casal vai avançando a partir
de planos cuja conseqüência até se supõe, mas que o
corte redireciona para sentidos totalmente diversos,
desafiando a percepção que sempre nos coloca um passo à frente,
quando o filme ainda nem sinalizou que é para lá que
pretende seguir. A revelação da vontade deste sujeito
de tomar parte da intimidade vai acontecendo ao mesmo
tempo em que o próprio filme (câmera, decupagem e corte)
se deixa envolver nela, de modo que esse espírito de
participação nunca ridicularize a disposição desse
protagonista, pelo contrário. É na montagem dessa investida,
que Marcio Vianna e Rica Saito filmam tão bem, que Entre
Amigos reverbera a sensação daquilo que tematiza.
Com Viva o Terceiro Mundo e Encanto,
aquilo que escondem tem força igual ou maior do que aquilo
que revelam, e a elipse passa a ser encarada
como a partilha desses sentimentos completos em blocos
que consigam dizer tudo de si sem que, para isso, perca-se
a dimensão (física e emocional) daquele pequeno espaço
narrativo. No primeiro caso, René Brasil tem em mãos
uma verdadeira saga pessoal, que acena para diversos
cenários (um filme-manifesto, ou um policial, ou ainda um romance estrito), e
que cruzará diversos ambientes (redação de jornal,
favela, quadra de escola de samba), e ainda assim mantém-se
uma organicidade e uma fluência entre todas as camadas,
atribuídas fundamentalmente à certeza com que as elipses
são colocadas. Em quatro planos de Viva o Terceiro
Mundo vemos um casal se conhecer, se apaixonar
perdidamente, e finalmente se separar, e todo o tempo
excluído nos intervalos entre uma ação e outra é levado à cena
pelo efeito de acumulação que os cortes trazem: ao
invés de excluído, o tempo (sentimental) foi somado.
Já no filme de Leandro Duarte e Rui Calvo existe de
fato um segredo, materializado numa caixa e numa carta
que podem botar a perder uma relação recém-iniciada.
A elipse é traduzida em enredo, e se aos próprios personagens é dada
a chance de pular certas partes da vida, ignorar aquilo
que possa trazer algum mal, também Encanto terá esse
direito. Aqui, mesmo diante da infelicidade possível
numa caixinha de Pandora, a recusa em abri-la é uma
declaração de princípios, onde tudo precisa ser feito
(dizer à amiga que não há nada acontecendo, cortar
o plano antes que o conteúdo de um segredo seja revelado)
para que o amor se encarregue, por ele mesmo, de decidir
o que entra na versão final e o que será abandonado
na sala de montagem.
Rodrigo
de Oliveira
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