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Dia
4: Destaques da primeira noite de curtas (A Lente
e a Janela, Beijo de Sal, A Chuva nos Telhados Antigos)
A Lente e a Janela, de Marcius Barbieri
O dispositivo criado por A Lente e a Janela
é algo já bastante corrente num certo
cinema de deslumbre com a imagem de vídeo, tomada
como espaço muito mais disponível (pela
leveza do aparato, pela possibilidade de registro livre
e imediato) ao aparecimento das verdades naquilo que
se filma. Barbieri parece muito consciente deste estatuto,
mas sente que, de alguma forma, ele já não
basta na apreensão desses traços do mundo.
A lente da câmera de vídeo, assumida pelo
filme como sua própria, é guiada por uma
menina que ganhou o aparelho de presente de Natal. As
primeiras experiências na captação
de imagens, com a descoberta das funções
e truques de manuseio, são fatalmente investigações
do entorno doméstico, do quartinho de bonecas,
de partes do próprio corpo, mas Verônica
e seu olhar parecem não resistir ao exterior,
e uma vez percebida a brecha na janela, será
apenas aquele espaço o motor da vontade de registrar.
Se o trajeto visual da menina já assinalava uma
relação direta entre este olhar desvinculado
de um código estético e de conduta, e
um outro, que sabe estar partindo do ponto de vista
do cinema, sua descoberta exterior instalará
definitivamente uma crise nesse modo estabelecido de
relação.
A lente de Verônica foca os meninos de rua que
vivem no gramado em frente a sua casa, e a naturalidade
com que é levada até eles parece dizer
que a experiência no mundo exterior interessa
sobretudo enquanto contato com a diferença (são
todos crianças, como ela, mas separadas por uma
divisão social radicalíssima), rejeitando
a igualdade e a proximidade do interior. É por
esta mesma questão que o cinema se debate pelo
menos há quarenta anos, desde a efervescência
dos cinemas novos nacionais, se perguntando sobre a
legitimidade dessa aproximação da realidade
social de determinado ambiente por agentes estranhos
a ela, que por falta de qualquer pareamento com uma
produção própria acaba criando
imagens-cânone desse mundo (o sertanejo, o favelado,
o miserável), referências únicas
da materialidade desse povo. A Lente e a Janela
sabe que esta idéia já se esgotou, assim
como o registro urgente do vídeo já não
é capaz, por si só, de estabelecer ligações
tão diretas. Nem mesmo a tentativa de romper
a barreira física existente entre a câmera
e o objeto pode ser bem sucedida, e antes que Verônica
consiga atravessar a rua e levar sua boneca aos meninos
abandonados, há um corte, e uma ponta preta interrompendo
o encontro. Assim, o que resta é essa vontade,
ingênua e ainda assim muito poderosa, de se recuperar
uma certa pureza do olhar, aquela mesma pureza que faz
Verônica se confrontar, inconscientemente, com
um mundo de imagens produzidas antes das suas, não
como simples elogio da inocência purificadora,
mas como única forma de se ainda despertar, de
maneira íntegra, esse desejo irrefreável
de buscar o outro (e assim, sempre que Verônica
sair de carro com seus pais, não teremos dúvida
que sua câmera irá consigo).
Beijo de Sal, de Fellipe Barbosa
A Chuva nos Telhados Antigos, de Rafael Conde
E contra toda a onda de curtas silenciosos, onde
o mudo é condição e não
modo de relação, aparecem Beijo de
Sal e A Chuva nos Telhados Antigos, filmes
totalmente falados, que encaram (e com muita propriedade)
a construção de narrativas a partir do
que delas se revela em diálogos, e que, ainda
assim, têm como matéria-prima básica
o próprio silêncio. Ao invés de
instalado na cena, onde reprimiria qualquer manifestação
que o eliminasse, esse silêncio está todo
fora do tempo dos filmes, num momento anterior a eles,
e talvez por isso a força de sua expressão
seja ainda mais radical. Há em ambos a idéia
de um retorno, de uma atualização dos
afetos perdidos pelo tempo, que do mesmo modo que mostram
toda sua disposição em se religar, deixam
evidente que algo nessa cadeia de sentidos se quebrou,
e que os efeitos disso são quase tão grandes
quanto a vontade de superá-los. Em Beijo de
Sal um núcleo de amigos com um quê
de hedonistas recebe na véspera de ano-novo um
membro antigo do grupo, saído desse círculo
e agora envolvido numa seriedade e rigidez que o tornam
estranho (há com ele uma namorada ainda mais
exterior àquele tipo de experiência). O
confronto entre este ausente e seu melhor amigo, espécie
de líder fanfarrão dessa turma proto-hippie,
dado de maneira tão intensa – e mesmo violenta
– se localiza justamente numa conexão muda entre
os dois, alimentada no passado mas já encerrada
no presente, motivos e sentimentos aos quais não
temos acesso. Do mesmo modo, A Chuva dos Telhados
Antigos é o registro de uma retomada, um
encontro entre um homem e uma mulher que mantiveram
um relacionamento forte há algum tempo atrás
e que, depois da separação, tiveram suas
vidas carregadas para caminhos quase opostos. A conversa
entre os dois segue sem grandes sobressaltos, nenhuma
revelação é feita, nenhum drama
ou dilaceramento é exposto. Somos levados até
essa história pregressa através de pequenos
índices de afetividade, um uniforme usado no
dia em que se conheceram, um filmete em super-8, uma
piada interna. Houve, no entanto, um momento em que
falar (como fazem agora) foi necessário, um telefonema
perdido que seria a chance de permanecerem juntos, mas
nesta hora o que se deu foi o silêncio.
Contudo, há uma disposição firme
de Fellipe Barbosa e Rafael Conde em desafiar essa ausência
com diálogo, e as conversas estabelecidas entre
os personagens são apenas uma pequena parte disso.
O verbo a se recuperar, nestes dois filmes, é
o do próprio cinema, e a resposta à mudez
anterior só pode vir na explosão renovadora
de uma linguagem. Por vias bem diversas, Beijo de
Sal e A Chuva nos Telhados Antigos são
dos curtas brasileiros mais bem construídos esteticamente
desta nova safra. No primeiro, por insistir na mobilidade
da câmera na mão, presente de maneira igualmente
íntegra tanto na vastidão de uma praia
quanto num pequeno quarto, tornando essa a única
forma possível de testemunhar esse reencontro
entre dois amigos sem lhes impor mais uma barreira à
aproximação, o plano fixo. Fellipe Barbosa
equilibra, como poucos (longa-metragem incluído),
a relação entre a informação
e a sensação, e assim vamos entrando nesse
mundo paralelo, perdido numa casa de praia, sabendo-o
muito mais por compartilhar seu clima (o modo como a
câmera se coloca no luau improvisado ao amanhecer
nos deixa literalmente dentro dele, curtindo junto a
música e a letargia) do que necessariamente por
estarmos inteirados dos fatos.
Já Rafael Conde, vindo de uma série de
filmes que dialogavam frontalmente com a subversão
discursiva da marginália brasileira, aposta aqui
na unidade de linguagem mais clássica do cinema,
a dinâmica de campo e contracampo. É por
eles que acompanhamos a maior parte da conversa do casal,
e quando a divisão em planos distintos parece
chegar ao limite, e quando a vontade de dividir o mesmo
quadro é maior que qualquer telefonema perdido,
vemos aquele que é um dos planos mais bonitos
do cinema brasileiro recente: harmonicamente enquadrados
a partir do exterior de uma janela, homem e mulher observam
a chuva fazer desenhos sobre o vidro, e logo ela também
estará acompanhando a chuva com suas próprias
lágrimas. E como se ainda fosse possível
ampliar esta defesa do verbo, é sob Samba
e Amor, de Chico Buarque, que o casal finalmente
reapresenta seus corpos um ao outro. Samba, amor, cinema,
tudo uma questão de gosto pela linguagem.
Rodrigo de Oliveira
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