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Dia
3: Hércules 56, de Sílvio Da-Rin
(Brasil, 2006)
A maior proposta de cinema de Hércules
56 é justamente a de desfazer imagens, e
não há nisso nenhuma afronta à
arte, pelo contrário. A principal fonte daquilo
que Silvio Da-Rin constrói é exatamente
uma imagem, a foto que mostra 13 dos 15 presos políticos
libertos após o rapto, por organizações
revolucionárias, do embaixador americano no Brasil,
em 1969. Num primeiro movimento, o filme recuperará
imagens de arquivo do momento do embarque dos prisioneiros
para o exílio, e por cima delas colocará
o nome e a idade de cada um à época da
libertação. São essas mesmas imagens
em preto e branco que irão se fundir a outras,
coloridas, dos mesmos personagens desse episódio
dando seu depoimento sobre o acontecido, hoje, mais
de trinta anos depois. Com essa operação
simples, Hércules 56 equilibra as expressões
da juventude revolucionária com aquelas outras
acumuladas ao longo dos tempos, e faz dos rostos destas
pessoas, antes de qualquer discurso ou rememoração,
o próprio registro de uma história brasileira
esquecida.
E por uma via paralela a esta primeira, se aquela imagem
da foto precisa ser desfeita, reavivada pela presença
atualizada de seus integrantes, é porque seu
conteúdo político foi todo esvaziado,
e de recipiente dos sentimentos de uma geração
ela passou a ser simples adorno de época, símbolo
que foi deixado a falar por si só, mas que já
não é capaz de responder verdadeiramente
à vontade de sabê-lo testemunha do episódio.
Assim, é preciso desmontar essa imagem, e colá-la
a várias outras, surgidas em cadeia, mas que
estavam mudas por esta redução política
operada.
Ao falar sobre o filme, Da-Rin diz com ele propor uma
"viagem" parecida àquela vivida pelos
15 presos, mas não deixa de impressionar que
Hércules 56 se furte de qualquer facilidade
ou superficialidade generalista que possa tornar esse
caminho mais livre. Há sim uma vontade irresistível
de dramatização dos eventos por si já
dramáticos (a carta escrita pelos revolucionários
e divulgada em rede nacional como uma das condições
da soltura do embaixador é lida em tom de melodrama
solene por um narrador), e também uma tentativa
de avanço narrativo cronológico, situando
com datas escritas sobre a imagem todos os acontecimentos
que cercaram a libertação dos presos políticos.
Mas, ao mesmo tempo, Da-Rin monta os depoimentos, divididos
entre nove remanescentes do grupo de presos, todos registrados
individualmente, e o reencontro em volta de uma mesa
de cinco dos responsáveis pelo seqüestro,
sem que as incongruências ideológicas e
críticas sejam necessariamente resolvidas, sem
mesmo se esforçar para uma contextualização
maior (as siglas de todas as organizações
políticas revolucionárias são ditas
e repetidas à exaustão pelos personagens
sem que o filme sinta necessidade de explicar o que
significam ou a linha política que seguiam),
eventualmente até brecando a linearidade temporal
dos relatos, misturando momentos distintos da operação.
A viagem, que prometia apenas um revisionismo exaltador,
tipo de documentário que se investe de importância
e nobreza por finalmente jogar luz sobre um grande assunto
oculto (há resquícios disso na mania do
filme em entremear depoimentos com pontas pretas e fades),
acaba se transformando numa descida frontal, e bastante
íntegra, às memórias e às
realidades presentes dessas pessoas, e estes descaminhos
positivos da narrativa são maior prova disso.
Desse modo, a força dos depoimentos acaba de
fato reconstruindo a foto de 1969, adicionando a ela
uma série de novos significados e sentimentos
insuspeitos até então (Flávio Tavares
condena um companheiro por ter escondido as algemas
quando todos haviam decidido mostrá-las, dizendo
que "quem faz isso é bandido, preso político
tem que mostrar a cara"; Franklin Martins re-situa
o embaixador Charles Elbrick no contexto da relação
do governo americano com a ditadura, afirmando que ele
era um liberal e que, naquele momento, realmente não
fazia parte das negociações com o regime
brasileiro; Vladimir Palmeira critica duramente o treinamento
de guerrilha que fizeram em Cuba; e assim fazem todos,
especialmente ao avaliarem negativamente toda lógica
da operação). É provável
que Hércules 56 nunca alcance a divulgação
e a permanência que sua foto ponto-de-partida
teve até hoje. Mas uma vez em contato com o filme,
ela certamente passa a ter muitas das outras dimensões
que lhe haviam sido negadas, e acima de tudo, se recusa
definitivamente à posição de símbolo
estático de uma geração. Eis a
verdadeira viagem proporcionada pelo filme: movimento
puro e desimpedido pela memória do país.
Rodrigo de Oliveira
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