MOSTRA DE TIRADENTES
Cobertura diária

Dia 1: Tiradentes, com o cinema ainda à espreita

Aberturas de mostras e festivais sempre são muito curiosas, especialmente por deixarem explícitas, muitas vezes pela única vez durante todo o processo, a plataforma política de onde partem esses eventos, e ainda assim, nada podia nos preparar para o que aconteceu ontem, na apresentação oficial da 10ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Lado a lado numa mesa longa, chamados de "personalidades" pelo locutor e mestre de cerimônias em tom de formatura de uma turma de contabilidade, estavam representantes e sub-representantes de todos os poderes interessados diretamente nesse palco de microfones abertos à propaganda, prefeitos, secretários de estados, patrocinadores, deputados, e ali no meio deles, sem absolutamente nada a ver com aquilo, os homenageados desta edição, Beto Brant (eleito diretor da década) e Lázaro Ramos (ator da década, ao lado de Matheus Nachtergaele, que não veio). No curso de duas horas absolutamente constrangedoras para os dois, e para aquilo que ali estavam representando, a última década do cinema brasileiro, vista em retrospectiva nesta edição, viu-se um afagar de egos políticos que em nada dizia respeito ao motivo da presença de tanta gente nesta cidade pequena-tornada-grande. Igualados em sua importância, Beto Brant e Lázaro Ramos receberam as mesmas homenagens que as outras personalidades sentadas à mesa, todos ali agraciados com um troféu ou placa comemorativa.

(E de repente, toda essa cinematografia surgida em Minas Gerais nos últimos anos, sobretudo no vídeo e no curta-metragem, que se mostra sempre tão disponível ao confronto, a se colocar em crise, espaço de transgressões que encontra eco em pouquíssimos trabalhos fora daqui, tudo isso fez muito sentido, porque há de fato algo muito grande contra o que se lutar.)

O impacto daquele espetáculo, descolado de qualquer idéia de cinema que se tenha por aqui, quase apaga toda a boa impressão que se colheu de Tiradentes nesses dez anos de existência. Foi quando o locutor terminou sua pregação monótona, e aquilo que era um banner de publicidade foi invertido e se transformou numa tela de projeção, foi ali que a mostra começou a fazer sentido. Numa tenda de 800 lugares lotados, exibiu-se O Invasor, enquanto os convidados da mostra (involuntariamente, como no meu caso e no de tantos outros colegas) seguiram para um buffet onde aquela mesma exibição de força política seria continuada. O "cinema" do título da mostra ainda era apenas uma promessa.

E então veio o dia seguinte, e aquilo que surgia nos papos pelas ruas da cidade como uma possibilidade, uma promessa, se efetiva nas mais de 200 pessoas presentes à um anfiteatro, às onze horas da manhã de um sábado, disponíveis e absolutamente encantadas com a idéia de debater cinema. Não por Paulo Miklos, nem por Beto Brant ou Marçal Aquino, todos ali para participar de uma revisão de O Invasor (eleito pelo festival como um dos filmes da década, ao lado de Cidade de Deus e Central do Brasil), mas sim pela própria possibilidade de prolongar as sensações do filme visto ontem, de repercutir pensamentos sobre o cinema brasileiro dos últimos dez anos, equilibrando debatedores e público, realizadores e espectadores, numa mesma vontade de cinema que serviu como resposta perfeita à encenação política da noite anterior.

Hoje começam as exibições dos 16 longas selecionados pela curadoria do amigo cinético e ex-contracampista Cléber Eduardo, além de todos os curtas e vídeos, e o episódio da abertura do evento já parece devidamente diminuído. Essas 200 pessoas, que já haviam sido 800 na tenda, e que explodem em mais de 4.000 nas exibições feitas na praça, garantem que o cinema, e só ele, mande por aqui. É por ele que a Contracampo se moverá nos próximos 10 dias, com a cobertura crítica diária de toda programação (disponível no site da mostra). De cá, sigo sendo perguntado se tenho um "cartão de visita" que me apresente – um costume tão deliciosamente mineiro – e assim, me deixando visitar por todos os filmes que passarem por aqui. Daqui para frente as críticas falam por si, e elas serão a crônica deste festival onde o cinema quase nos deu um susto, mas acabou aparecendo, e muito bem.

Rodrigo de Oliveira