O ÚLTIMO METRÔ
de François Truffaut, Le Dernier Métro, França, 1980

Aquele em quem pensamos secretamente

Eu o adorava... François Truffaut foi muito importante para mim, e Os Incompreendidos tornou-se um marco na história do cinema: foi a primeira vez que o método do cinema-verdade era controlado pela arte, e não o contrário. A história era bem construída, com cenas e personagens de ficção...

O que era notável em François era que sentíamos o desenvolvimento de sua alma, de seu espírito, de seu coração, de sua pessoa mais do que a ascensão do mundo do cinema em torno dele. Ele cresceu com um indivíduo dotado de uma forte personalidade. Vemos em seu primeiro filme, [o curta-metragem] Os Pivetes, que ele estava muito mais interessado, mais excitado com a idéia de levar à tela momentos únicos do que contar uma história forte. Mas os últimos filmes são verdadeiramente histórias fortes... muito fortes. Se comparamos Os Incompreendidos e Adèle H., O Último Metrô e O Menino Selvagem ou A Noite Americana, percebemos que ele fez filmes muito diferentes mas todos têm em comum uma coisa: o calor.

Para mim, ele era uma nova imagem do cinema francês. Antes, o cinema francês era feito de comédias, às vezes muito engraçadas e muito inteligentes, os filmes românticos de Marcel Carné que eu adorava, comédias fantásticas com Louis de Funès, Fernandel... E de uma hora para outra, aparecem filmes que abandonam tudo o que se amava no cinema francês para dar lugar a uma inteligência de verdade nua. Era formidável, muito mais importante do que o neo-realismo; os filmes neo-realistas, filmados na rua, com atores não profissionais sobre temas sociais, traziam algo de muito novo, mas sentíamos sempre o olho do ideólogo na cabeça dos cineastas, era tudo preto no branco... político demais para o meu gosto. François estava acima de tudo isso. Ele não era empregado dos políticos, sejam eles quais fossem, como eram muitas vezes os italianos. Eu já contei no Le Monde, como, em 1968, eu votei pelo encerramento do Festival de Cannes quando eu intimamente era contra, unicamente por causa de François. Pensei comigo: "Se François é a favor, é preciso apoiar", mas no fundo, eu era contra, eu não entendia por que se precisava misturar política e cinema. Eu comentei depois isso com François, nós rimos e ele disse: "Sim, sim, as cabeças estavam um pouco quentes naquele momento, a emoção era muito grande..." Não creio que ele tenha se arrependido o que aconteceu nessa época, mas ele olhava tudo isso com muito mais sobriedade, calma.

Nós nos encontramos diversas vezes... Aqui, em Paris, cada vez que eu passava. Nós almoçávamos ou jantávamos juntos, ou nos encontrávamos para um café. Essa curiosidade que François sempre teve é também alguma coisa de muito raro, não realmente disseminado entre os cineastas europeus. Ele estava realmente curioso em saber o que se passava nos Estados Unidos, o que faziam, como se transformavam os outros cineastas, especialmente as pessoas que ele conhecia. Nós nos vimos várias vezes em Nova York. Nós na verdade não éramos amigos íntimos, nós nos chamávamos por "vous" [ou seja, em oposição ao mais íntimo "tu", ndt], percebíamos com clareza que era um encontro entre profissionais, mais nesse encontro havia muito mais amizade do que às vezes se experimenta até com amigos... Isso também é muito americano, isso não existe na Europa: mesmo não sendo amigos no Estados Unidos, as relações profissionais entre diretores podem ser muito mais amigáveis do que são as relações de amizade aqui na Europa.

O que sempre mexeu muito comigo, sempre me emocionou nele e que eu nunca entendi verdadeiramente, foi a timidez. Eu nunca fui vê-lo no set enquanto ele filmava, mas sua timidez não correspondia de forma alguma ao papel que o diretor deve interpretar diante dos atores, dos técnicos, dos figurantes. Ele devia ter que superar isso em seu trabalho, mas na vida, ele era terrivelmente intimidado por tudo que pudesse chamar atenção... Ele sempre preferia que nós nos encontrássemos em restaurantes onde não houvesse risco de encontrar pessoas que conhecíamos. Ele preferia até comer em casa. Isso era muito estranho... Eu o respeitava. Ele tinha uma outra qualidade que fazia com que ele só pudesse ser respeitado: sua honestidade. Ele era tão honesto com todos que ele podia sempre dizer o que ele pensava sem ser mau, sem ser ofensivo. Mesmo quando ele criticou filmes que ele não gostou, que o irritaram, ele sempre escolheu as palavras, talvez cruéis se não se gosta da verdade, mas nunca cínicas, maldosas ou mesquinhas. Era sempre muito límpido...

De meu lado, havia muita admiração. Mas, do dele, eu não sei... Eu acho que ele era fascinado pelo fato de um diretor europeu ir trabalhar nos Estados Unidos. Nós na verdade nunca falamos disso, eu posso estar enganado, mas na minha opinião isso o fascinava. Porque ele sempre perguntava as novidades dos diretores europeus morando nos EUA mais do que dos cineastas americanos. Nós conversávamos muito sobre isso, mas sem nunca julgar, como se ele quisesse apenas os fatos, as informações. Creio que o único a não ter ido da nouvelle vague foi Chabrol. Os alemães, os italianos também passaram por lá, e isso o fascinava... Talvez porque ele tivesse um obstáculo quase psicológico para aprender línguas estrangeiras. Como se pode trabalhar numa língua que não é sua língua, talvez seja essa a causa de sua fascinação...

Para mim, ele fez muita coisa... Ele praticamente salvou minha carreira de cineasta. Quando Carlo Ponti recusou O Baile dos Bombeiros (Horí, má panenko, 1967) e pediu ao governo tcheco para reembolsá-lo em 65 mil dólares, os estúdios de Barandov me enviaram uma carta oficial me acusando de sabotagem econômica (ainda tenho essa carta). Naquela época, num país do bloco socialista, era um crime muito grave. François Truffaut e Claude Berri, que tinham visto O Baile dos Bombeiros, compraram o filme para que Carlo Ponti fosse reembolsado. Eles pagaram uma soma de dinheiro que, para um filme tcheco, era enorme. Na época, Claude achava que eram 65 mil francos suíços. Mas quatro francos suíços davam um dólar. Eles tiveram que pegar quatro vezes o que achavam. Esse gesto de colega, que me salvou, é um gesto muito nobre...

Ele queria ver Amadeus... Ele estava bastante curioso por saber como foi a filmagem na Tchecoslováquia... Qual era a situação de seus colegas lá... Ele tinha muita vontade de ver... Me disseram depois, o que é muito triste, que mesmo depois de ter estado em coma, quando ele voltou a si, ele ainda comentou, pediu que organizassem uma projeção para ele... Mas já era tarde demais... Já era fora da realidade.

Nos Estados Unidos, Fellini representa a essência do cinema italiano, Bergman a essência do cinema escandinavo. Para o cinema francês, é Truffaut inconteste... François Truffaut era um cineasta com C maiúsculo, um C muito grande. Ainda vos digo uma coisa: quando se faz filmes, não se pode especular sobre a acolhida do público, porque o público não existe, é abstrato... Mas na maior parte dos casos, a gente se coloca no papel do público e faz o que se gostaria de ver na tela se fosse público, e ao mesmo tempo também escolhe paralelamente algumas pessoas, muito poucas pessoas que temos o desejo e a ambição de que elas gostem do filme... François Truffaut estava definitivamente entre essas raríssimas pessoas... Aquelas em quem a gente pensa secretamente enquanto trabalha, para que elas amem o nosso trabalho.

Milos Forman
(Artigo presente no livro Le Roman de François Truffaut, Cahiers du Cinéma, 1984. Traduzido por Ruy Gardnier)