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Aquele em quem pensamos secretamente
Eu o adorava... François Truffaut foi muito importante
para mim, e Os Incompreendidos tornou-se um marco
na história do cinema: foi a primeira vez que
o método do cinema-verdade era controlado pela
arte, e não o contrário. A história
era bem construída, com cenas e personagens de
ficção...
O que era notável em François era que
sentíamos o desenvolvimento de sua alma, de seu
espírito, de seu coração, de sua
pessoa mais do que a ascensão do mundo do cinema
em torno dele. Ele cresceu com um indivíduo dotado
de uma forte personalidade. Vemos em seu primeiro filme,
[o curta-metragem] Os Pivetes, que ele estava
muito mais interessado, mais excitado com a idéia
de levar à tela momentos únicos do que
contar uma história forte. Mas os últimos
filmes são verdadeiramente histórias fortes...
muito fortes. Se comparamos Os Incompreendidos
e Adèle H., O Último Metrô
e O Menino Selvagem ou A Noite Americana,
percebemos que ele fez filmes muito diferentes mas todos
têm em comum uma coisa: o calor.
Para mim, ele era uma nova imagem do cinema francês.
Antes, o cinema francês era feito de comédias,
às vezes muito engraçadas e muito inteligentes,
os filmes românticos de Marcel Carné que
eu adorava, comédias fantásticas com Louis
de Funès, Fernandel... E de uma hora para outra,
aparecem filmes que abandonam tudo o que se amava no
cinema francês para dar lugar a uma inteligência
de verdade nua. Era formidável, muito mais importante
do que o neo-realismo; os filmes neo-realistas, filmados
na rua, com atores não profissionais sobre temas
sociais, traziam algo de muito novo, mas sentíamos
sempre o olho do ideólogo na cabeça dos
cineastas, era tudo preto no branco... político
demais para o meu gosto. François estava acima
de tudo isso. Ele não era empregado dos políticos,
sejam eles quais fossem, como eram muitas vezes os italianos.
Eu já contei no Le Monde, como, em 1968, eu votei
pelo encerramento do Festival de Cannes quando eu intimamente
era contra, unicamente por causa de François.
Pensei comigo: "Se François é a favor,
é preciso apoiar", mas no fundo, eu era contra,
eu não entendia por que se precisava misturar
política e cinema. Eu comentei depois isso com
François, nós rimos e ele disse: "Sim,
sim, as cabeças estavam um pouco quentes naquele
momento, a emoção era muito grande..."
Não creio que ele tenha se arrependido o que
aconteceu nessa época, mas ele olhava tudo isso
com muito mais sobriedade, calma.
Nós nos encontramos diversas vezes... Aqui, em
Paris, cada vez que eu passava. Nós almoçávamos
ou jantávamos juntos, ou nos encontrávamos
para um café. Essa curiosidade que François
sempre teve é também alguma coisa de muito
raro, não realmente disseminado entre os cineastas
europeus. Ele estava realmente curioso em saber o que
se passava nos Estados Unidos, o que faziam, como se
transformavam os outros cineastas, especialmente as
pessoas que ele conhecia. Nós nos vimos várias
vezes em Nova York. Nós na verdade não
éramos amigos íntimos, nós nos
chamávamos por "vous" [ou seja, em oposição
ao mais íntimo "tu", ndt], percebíamos
com clareza que era um encontro entre profissionais,
mais nesse encontro havia muito mais amizade do que
às vezes se experimenta até com amigos...
Isso também é muito americano, isso não
existe na Europa: mesmo não sendo amigos no Estados
Unidos, as relações profissionais entre
diretores podem ser muito mais amigáveis do que
são as relações de amizade aqui
na Europa.
O que sempre mexeu muito comigo, sempre me emocionou
nele e que eu nunca entendi verdadeiramente, foi a timidez.
Eu nunca fui vê-lo no set enquanto ele filmava,
mas sua timidez não correspondia de forma alguma
ao papel que o diretor deve interpretar diante dos atores,
dos técnicos, dos figurantes. Ele devia ter que
superar isso em seu trabalho, mas na vida, ele era terrivelmente
intimidado por tudo que pudesse chamar atenção...
Ele sempre preferia que nós nos encontrássemos
em restaurantes onde não houvesse risco de encontrar
pessoas que conhecíamos. Ele preferia até
comer em casa. Isso era muito estranho... Eu o respeitava.
Ele tinha uma outra qualidade que fazia com que ele
só pudesse ser respeitado: sua honestidade. Ele
era tão honesto com todos que ele podia sempre
dizer o que ele pensava sem ser mau, sem ser ofensivo.
Mesmo quando ele criticou filmes que ele não
gostou, que o irritaram, ele sempre escolheu as palavras,
talvez cruéis se não se gosta da verdade,
mas nunca cínicas, maldosas ou mesquinhas. Era
sempre muito límpido...
De meu lado, havia muita admiração. Mas,
do dele, eu não sei... Eu acho que ele era fascinado
pelo fato de um diretor europeu ir trabalhar nos Estados
Unidos. Nós na verdade nunca falamos disso, eu
posso estar enganado, mas na minha opinião isso
o fascinava. Porque ele sempre perguntava as novidades
dos diretores europeus morando nos EUA mais do que dos
cineastas americanos. Nós conversávamos
muito sobre isso, mas sem nunca julgar, como se ele
quisesse apenas os fatos, as informações.
Creio que o único a não ter ido da nouvelle
vague foi Chabrol. Os alemães, os italianos
também passaram por lá, e isso o fascinava...
Talvez porque ele tivesse um obstáculo quase
psicológico para aprender línguas estrangeiras.
Como se pode trabalhar numa língua que não
é sua língua, talvez seja essa a causa
de sua fascinação...
Para mim, ele fez muita coisa... Ele praticamente salvou
minha carreira de cineasta. Quando Carlo Ponti recusou
O Baile dos Bombeiros (Horí, má
panenko, 1967) e pediu ao governo tcheco para reembolsá-lo
em 65 mil dólares, os estúdios de Barandov
me enviaram uma carta oficial me acusando de sabotagem
econômica (ainda tenho essa carta). Naquela época,
num país do bloco socialista, era um crime muito
grave. François Truffaut e Claude Berri, que
tinham visto O Baile dos Bombeiros, compraram
o filme para que Carlo Ponti fosse reembolsado. Eles
pagaram uma soma de dinheiro que, para um filme tcheco,
era enorme. Na época, Claude achava que eram
65 mil francos suíços. Mas quatro francos
suíços davam um dólar. Eles tiveram
que pegar quatro vezes o que achavam. Esse gesto de
colega, que me salvou, é um gesto muito nobre...
Ele queria ver Amadeus... Ele estava bastante
curioso por saber como foi a filmagem na Tchecoslováquia...
Qual era a situação de seus colegas lá...
Ele tinha muita vontade de ver... Me disseram depois,
o que é muito triste, que mesmo depois de ter
estado em coma, quando ele voltou a si, ele ainda comentou,
pediu que organizassem uma projeção para
ele... Mas já era tarde demais... Já era
fora da realidade.
Nos Estados Unidos, Fellini representa a essência
do cinema italiano, Bergman a essência do cinema
escandinavo. Para o cinema francês, é Truffaut
inconteste... François Truffaut era um cineasta
com C maiúsculo, um C muito grande. Ainda vos
digo uma coisa: quando se faz filmes, não se
pode especular sobre a acolhida do público, porque
o público não existe, é abstrato...
Mas na maior parte dos casos, a gente se coloca no papel
do público e faz o que se gostaria de ver na
tela se fosse público, e ao mesmo tempo também
escolhe paralelamente algumas pessoas, muito poucas
pessoas que temos o desejo e a ambição
de que elas gostem do filme... François Truffaut
estava definitivamente entre essas raríssimas
pessoas... Aquelas em quem a gente pensa secretamente
enquanto trabalha, para que elas amem o nosso trabalho.
Milos Forman
(Artigo presente no livro Le Roman de François
Truffaut, Cahiers du Cinéma, 1984. Traduzido
por Ruy Gardnier)
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