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Vícios, ou "Mamãe, eu quero ir para
Miami - e quero voltar!"
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É um pouco
injusto questionar o deslumbre quando nos referimos a
filmes (ou a obras de arte em geral). Deslumbre é parte
do jogo. Mesmo nos casos em que não é esta a intenção
primeira da obra, faz parte do papel do espectador. É
seu direito: o direito de se impressionar, de perder as
estribeiras. Claro, isso é ótimo. Mas é individual, intransferível,
acrítico: é quando chegamos ao estágio de incomunicabilidade
das impressões pessoais. Não importa quantas palavras
sejam escritas para justificar, nenhuma delas transmite
de fato o deslumbre (e, para aqueles que não se deslumbraram
da mesma maneira, poderão parecer meras tentativas de
agarrar o vento).
Há deslumbres que se tornam verdadeiros vícios – e não
creio que haja problema grave nisso enquanto se restringem
às esferas individuais. Uso-me como exemplo: o fascínio
provocado por certa produção de desenhos animados (os
de um certo grupo da Hollywood dos anos 40 e 50 – Avery,
Jones, Freleng, Clampett) talvez tenha me provocado efeitos
colaterais ainda não diagnosticados, mas dificilmente
terá efeitos sociais mais graves. Quer dizer, é o que
eu espero, pelo menos.
Mas há deslumbres que denotam com clareza os contextos
sociais e históricos. Ok, ok, todas as pessoas detestam
ser lembradas de questões políticas ao falar dos filmes
deslumbrantes. Mas há que se falar em colonização e afirmação
cultural, não há como escapar disso. É preciso sempre
pensar o nosso lugar e o nosso momento, para que o deslumbre
não caia no vazio.
A não ser que se prefira escapar para Miami – aí é melhor
não discutir mesmo. Mas o que se leva para Miami? Apenas
a roupa do corpo e o resto a gente acaba achando por lá?
Ou será que há algo mais, que não sai nem depois de mil
banhos com muito sabonete de primeiro mundo? Há quem diga
que do mundo nada se leva, mas o que esse mundo traz para
nós, impregna-se em nós? Eu disse lá em cima que o deslumbre
é intransferível, mas isso não é de todo certo: o sentimento
pode não ser transferível, mas a escolha pode se dar por
contágio (os exemplos me parecem dispensáveis, por óbvios).
É essa maldita sociedade de que fazemos parte...
Certo, não vamos culpar a sociedade por escolhas e afinidades
pessoais que podem ser explicadas, eventualmente, por
contextos históricos. Se o deslumbre for intenso e prazeiroso,
tanto melhor. Mas a quem eventualmente não se deslumbra
sobra a questão: o que a importação indistinta dos vícios
de Miami acrescenta, para além do mistério gozoso? Utilizando-me
do velho vocabulário colonizado: como podemos canibalizar
os produtos miamescos? Como podemos engolir tudo isso,
digerir o que for nutritivo e expelir o que for... digamos,
o que for dispensável? Como se transforma vício em sinal
de vitalidade?
Os problemas são os mesmos: escolher o que se deve devorar
(porque há ossos indigeríveis e filmes sem sabor) e jogar
fora o que não renovar o nosso paladar. E daí tirar energia.
A opção contrária seria esvaziar-se por inteiro: entregar
o corpo e a alma aos vícios. Como se sabe, viciados perdem
a capacidade de distinguir sabores.
Como o leitor deve ter desconfiado, essas especulações
me vieram diante da recepção eufórica de Miami Vice,
de que não tomo parte. Nem tanto por ser um filme policial,
é claro, porque há ótimos filmes policiais. Nem tampouco
por preferir abandonar sua trama policial em detrimento
de sua trama amorosa. Há ótimos filmes ditos ‘policiais’
que, ao final, se revelam belos retratos de romances (talvez
porque realmente tenham interesse nos romances... mas,
bem, isso não vem ao caso aqui). O mesmo poderia dizer
por ser um filme que lida de forma livre com as relações
de espaço e tempo (algo que já rendeu grandes filmes nos
últimos quinze anos); ou por ser um filme protagonizado
por atores que parecem não ser os mais indicados (há inúmeros
casos de maus atores em ótimos filmes); ou por ser um
filme disposto a tratar de “símbolos de uma época”, os
policiais de Miami; ou por trazer de forma implícita “questões
contemporâneas”, como, no caso, a internacionalização
do crime. Tudo isso poderia ser defensável.
Talvez o problema, dito de forma bem simples, é que este
filme não me deslumbra. Pode ser porque Gong Li sofre
de grave miscasting, não sendo crível em momento
algum como uma femme fatale (é talvez a pior atuação
da sua carreira, não por acaso, em um papel que nada tem
a ver com os que já tinha feito – é do jogo: aposta feita,
aposta perdida). Ou pode ser porque Colin Farrell simplesmente
nunca se mostrou adequado para o trabalho de interpretação,
confundindo-o com certos movimentos faciais bastante vazios
e olhares “charmosos” francamente constrangedores (lembrou-me
a atuação de Ben Stiller em Zoolander – mas, no
caso de Stiller, vale ressaltar que se tratava de uma
paródia...). Ou talvez seja porque, como já disse, essa
relação amorosa entre os personagens não me convenceu
em momento algum desse filme policial que se revela história
de um romance irrealizado. Eis o ponto: não me convenceu.
O convencimento é fundamental para o deslumbre, mas para
se convencer é preciso acreditar (e para acreditar é preciso
estar disposto a isso). Ainda que haja cenas realmente
interessantes, como a do tiroteio em que perdemos completamente
a noção de espaço. Só que isso não é novidade alguma –
a cena me lembrou, inclusive, um duelo retratado de forma
semelhante num vídeo antigo da UFF, UFF, meu, dirigido
pelo Carlos Sanches e pelo Fernando ‘Donan’ Antunes em
1993/94, com a mesma perda de espacialidade que caracteriza
a cena (mas eu acho UFF, meu um filme bem mais
interessante, com certeza, e não apenas por ter sido feito
antes).
É natural fazer escolhas, por afinidade, entre produtos
artesanais e industrializados – mas com muito gosto, até
porque a indústria se dedica a procurar os sabores e saberes
artesanais. Dessa forma, não é raro que as produções industriais
pareçam ter o esmero do artesanato – mas só no caso de
predominar o talento, ao invés da disposição em “estar
na moda”.
De todo modo, cabe ao espectador, cada um, se localizar
entre Miami e Niterói. Há coisas – idéias, vontades, afetos,
afinidades - que guardamos num cantinho cá conosco, venham
elas do mundo externo ou venham elas de dentro de cada
um. De que forma a opção por Miami pode alimentar esse
cantinho? É essa a questão que pauta esse texto. Mas a
resposta é como os deslumbres: cada um vai conhecer e
afirmar a sua. Se algumas pulgas saltitarem nas orelhas
e consciências, se os sabores forem questionados, pelo
menos esse texto seguiu bom caminho e cumpriu o seu papel.
Daniel Caetano |
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