“Nunca
tive problemas com a morte. Sempre acreditei que
você começa a morrer no primeiro minuto em que nasce.
Quer dizer, quando você nasce, já tem um minuto
a menos de vida. Já fiz tudo que um ser humano pode
fazer. Estou um crédito enorme lá em cima. Se eu
morrer hoje, não tem problema nenhum. A morte é
a coisa mais natural do mundo.”
Jece Valadão em Memórias
de um Cafajeste, autobiografia
Uma
notícia de morte nunca chega suave. A notícia da
morte de Jece Valadão me chegou súbita, violenta,
agressiva: um telefonema de um canal de TV a cabo
solicitando um contato para um depoimento, para
integrar alguma reportagem. A mídia, este espaço
que ele tanto habitou, em cenas de escândalos e
afins, corria para noticiar sua partida, enquanto
meu corpo parava em choque. Ele, que havia encarado
a morte várias vezes na tela do cinema, que dizia
não ter medo dela, havia sido enfim surpreendido
por ela. Dessa vez, uma morte dura, pesada, doída,
diferente daquelas que eram pura ação cinematográfica,
grafismos evanescentes embalados pela alegria fugidia
de momentos de entretenimento.
Me apaixonei por Jece, personagem de múltiplas facetas,
numa tarde de agosto deste ano, sentada em frente
a recortes de jornais e revistas de época. Provavelmente,
lia alguma entrevista da década de 60 ou 70. Havia
sido chamada para editar o catálogo da mostra “As
Muitas Faces de Jece Valadão”, que se daria no CCBB-Rio
em setembro. Fui tragada por uma rotina de pesquisa
e, subitamente, o que havia se iniciado como um
trabalho em cima de um objeto, ganhou uma dimensão
emocional inesperada e insuspeita, tornando-se um
projeto bastante pessoal e evocando diversas questões
minhas com o cinema.
Sinto que descrevi um
percurso atravessado em relação a Jece Valadão. Conhecia-o
de alguns filmes assistidos ao longo dos anos, como
Boca de Ouro e Rio Zona Norte, e, embora
sua figura carismática sempre tivesse atraído minha
simpatia, nunca havia estabelecido propriamente uma
relação mais ampla com sua persona. No entanto, se
a aproximação se deu de forma cuidadosa, até um pouco
hesitante, o afeto veio repentino. Curiosamente, não
pelas imagens cinematográficas que ele moldou com
tanta ênfase, mas por suas palavras e pelo poder de
evocação do seu discurso. Um pouco como se tivesse
traçado uma fenda temporal – afinal Jece não foi um
personagem do meu tempo –, me apaixonei através de
uma perspectiva histórica. O contato com esta espécie
de “passado bruto”, que são os documentos de época,
me possibilitou a descoberta de todo um universo que
parecia não ter sido desbravado, que se oferecia a
mim com o frescor de algo não-vivido e não-relatado.
Um mundo desconhecido no qual poderia me aventurar
livremente.
Jece
foi um autêntico homem de cinema, capaz de trabalhar
prioritariamente a partir de imagens a e de fazer
do discurso sua principal força. E foram suas palavras
que me fisgaram antes de tudo. Sempre envolvente
e cativante, não havia assunto sobre o qual ele
não versasse bem. Militante incansável do cinema
e do cinema brasileiro, ator eloqüente, realizador
de grande visão, pastor evangélico; nas falas de
Jece corriam mundos, muitos dos quais ele buscava
atualizar na tela. Espantosamente determinado, ele
perseguiu por muito tempo seu sonho de “fazer cinema”,
que era para ele algo muito mais amplo do que realizar
filmes ou atuar neles. Jece carregava em si o espírito
de um verdadeiro artista, que é o de transformar
o ofício num fecundo diálogo com a vida e com o
mundo. Dono de uma aguçada percepção do meio cultural
brasileiro, ele soube trabalhar o conceito de ícone
junto à cultura popular como talvez nenhum outro
artista do seu tempo.
Ancorado
no cinema de gênero e no papel que este deveria
cumprir dentro de um cenário cultural amplo, ele
construiu um legado cujas dimensões são ainda difíceis
de precisar. Numa época de intensa discussão política
acerca da cultura brasileira, de sua identidade
e de seus rumos, ele percorreu um caminho um tanto
particular, intimamente ligado à história do cinema
brasileiro como a conhecemos, mas um tanto à margem
desta historiografia. Um percurso guiado pela forte
imagem do “cafajeste”, que ele trabalhou e vestiu
como ninguém, e por uma persistente luta pela subsistência
do nosso cinema, sobretudo frente à esmagadora presença
do cinema estrangeiro no mercado. Mantendo-se um
artesão e desenvolvendo uma profunda relação com
o público, Jece parece ter compreendido algumas
das dimensões mais complexas que envolvem o cinema
como produto cultural, histórico e de consumo, forjando
esta compreensão principalmente através do seu trabalho
com o imaginário popular.
Imaginário
popular que ele passou a integrar ao longo dos anos,
visto que partiu de imagens (as fortes figuras masculinas
do cinema americano, uma certa idéia do homem brasileiro,
gêneros cinematográficos), para se transformar ele
mesmo em um ícone imediatamente reconhecível. Sua
crença de que apenas o ator estigmatizado alcançaria
o estrelato e ficaria gravado nas mentes comprovou-se
pela sua trajetória. No entanto, por mais redutora
que sua iconicidade pudesse ser, ela camuflava um
homem de múltiplas facetas. Pai de família, empresário
bem-sucedido, cineasta talentoso, ator de presença
inigualável, galanteador incansável...
E,
para além de todos esses Jeces, havia o Jece que
conheci. Atencioso, doce e extremamente gentil.
Que na abertura da mostra em sua homenagem, dizia,
com os olhos levemente marejados: “estou muito
feliz, é muito bom poder receber essa homenagem
em vida, porque no Brasil, as pessoas só são lembradas
depois que morrem. Só não choro porque já passei
da idade”. O momento, emocionante, não poderia
prefigurar a notícia que viria dois meses depois.
E, se o choque da sua morte pode ter algum alento,
certamente é o de saber que pudemos lhe conceder
tamanha alegria, ao expressar todo nosso carinho,
afeto e admiração por sua obra e que estes sentimentos
tenham ganhado seu destinatário e tenham sido recebidos
de peito aberto. Como consolo, ainda, talvez a crença
de que, como alguém que soube levar a vida de forma
admirável, Jece deve ter partido com serenidade.
Meu
sentimento de perda, que, neste momento, poderia
ser da ordem de um relacionamento entabulado por
imagens (jornalísticas, no caso), guardando um pouco
a relação que se estabelece com um artista a partir
de filmes, me tomou, no entanto, de forma próxima,
indo ao encontro de um afeto e de um carinho nascidos
de forma singular. Entre as grandes experiências
da minha vida, os momentos que carregarei comigo,
certamente estará a de assistir a Boca de Ouro
sentada ao lado dele. Na tela, imagens de quarenta
anos antes, testemunhando uma vida, um tempo, uma
arte, já distantes; ao meu lado, um homem que, mais
do que um dos grandes nomes do cinema brasileiro,
era alguém que recebia emocionado uma grande homenagem
de todos ali presentes, e dos envolvidos na mostra
em particular. Dez dias depois, quando do memorável
encontro de Jece com o público, dentro da programação
da mostra – no qual ele desfilou todo o seu carisma
e empatia –, tive a oportunidade de jantar em sua
companhia e na de José Oliosi, seu amigo e parceiro
de anos na Magnus Filmes. “Tchau, minha linda”,
foi como Jece se despediu de mim, com um beijo na
testa.
Hoje,
suas palavras ainda ecoam. E com a mesma intensidade
que contemplei sua rápida passagem pela minha vida,
lamento sua partida. Sempre ativo, ele foi-se em
meio a diversos trabalhos, entre eles, sua já histórica
parceria com José Mojica Marins em Encarnação
do Demônio. E, se por dias e dias adiei o término
deste obituário, talvez tenha sido pela relutância
em aceitar tal notícia, que sobrevém como esta interrupção
de tudo, esta súbita suspensão de uma vida inteira;
em acreditar que ele não está mais entre nós. A
Jece, agradeço pelo rico mundo de cinema que nos
deixou e destino minhas mais sinceras palavras de
afeto.
Tatiana Monassa