Memórias de um homem de cinema
Sobre Jece Valadão (24/07/1930 - 27/11/2006)

“Nunca tive problemas com a morte. Sempre acreditei que você começa a morrer no primeiro minuto em que nasce. Quer dizer, quando você nasce, já tem um minuto a menos de vida. Já fiz tudo que um ser humano pode fazer. Estou um crédito enorme lá em cima. Se eu morrer hoje, não tem problema nenhum. A morte é a coisa mais natural do mundo.”
Jece Valadão em Memórias de um Cafajeste, autobiografia

Uma notícia de morte nunca chega suave. A notícia da morte de Jece Valadão me chegou súbita, violenta, agressiva: um telefonema de um canal de TV a cabo solicitando um contato para um depoimento, para integrar alguma reportagem. A mídia, este espaço que ele tanto habitou, em cenas de escândalos e afins, corria para noticiar sua partida, enquanto meu corpo parava em choque. Ele, que havia encarado a morte várias vezes na tela do cinema, que dizia não ter medo dela, havia sido enfim surpreendido por ela. Dessa vez, uma morte dura, pesada, doída, diferente daquelas que eram pura ação cinematográfica, grafismos evanescentes embalados pela alegria fugidia de momentos de entretenimento.

Me apaixonei por Jece, personagem de múltiplas facetas, numa tarde de agosto deste ano, sentada em frente a recortes de jornais e revistas de época. Provavelmente, lia alguma entrevista da década de 60 ou 70. Havia sido chamada para editar o catálogo da mostra “As Muitas Faces de Jece Valadão”, que se daria no CCBB-Rio em setembro. Fui tragada por uma rotina de pesquisa e, subitamente, o que havia se iniciado como um trabalho em cima de um objeto, ganhou uma dimensão emocional inesperada e insuspeita, tornando-se um projeto bastante pessoal e evocando diversas questões minhas com o cinema.

Sinto que descrevi um percurso atravessado em relação a Jece Valadão. Conhecia-o de alguns filmes assistidos ao longo dos anos, como Boca de Ouro e Rio Zona Norte, e, embora sua figura carismática sempre tivesse atraído minha simpatia, nunca havia estabelecido propriamente uma relação mais ampla com sua persona. No entanto, se a aproximação se deu de forma cuidadosa, até um pouco hesitante, o afeto veio repentino. Curiosamente, não pelas imagens cinematográficas que ele moldou com tanta ênfase, mas por suas palavras e pelo poder de evocação do seu discurso. Um pouco como se tivesse traçado uma fenda temporal – afinal Jece não foi um personagem do meu tempo –, me apaixonei através de uma perspectiva histórica. O contato com esta espécie de “passado bruto”, que são os documentos de época, me possibilitou a descoberta de todo um universo que parecia não ter sido desbravado, que se oferecia a mim com o frescor de algo não-vivido e não-relatado. Um mundo desconhecido no qual poderia me aventurar livremente.

Jece foi um autêntico homem de cinema, capaz de trabalhar prioritariamente a partir de imagens a e de fazer do discurso sua principal força. E foram suas palavras que me fisgaram antes de tudo. Sempre envolvente e cativante, não havia assunto sobre o qual ele não versasse bem. Militante incansável do cinema e do cinema brasileiro, ator eloqüente, realizador de grande visão, pastor evangélico; nas falas de Jece corriam mundos, muitos dos quais ele buscava atualizar na tela. Espantosamente determinado, ele perseguiu por muito tempo seu sonho de “fazer cinema”, que era para ele algo muito mais amplo do que realizar filmes ou atuar neles. Jece carregava em si o espírito de um verdadeiro artista, que é o de transformar o ofício num fecundo diálogo com a vida e com o mundo. Dono de uma aguçada percepção do meio cultural brasileiro, ele soube trabalhar o conceito de ícone junto à cultura popular como talvez nenhum outro artista do seu tempo.

Ancorado no cinema de gênero e no papel que este deveria cumprir dentro de um cenário cultural amplo, ele construiu um legado cujas dimensões são ainda difíceis de precisar. Numa época de intensa discussão política acerca da cultura brasileira, de sua identidade e de seus rumos, ele percorreu um caminho um tanto particular, intimamente ligado à história do cinema brasileiro como a conhecemos, mas um tanto à margem desta historiografia. Um percurso guiado pela forte imagem do “cafajeste”, que ele trabalhou e vestiu como ninguém, e por uma persistente luta pela subsistência do nosso cinema, sobretudo frente à esmagadora presença do cinema estrangeiro no mercado. Mantendo-se um artesão e desenvolvendo uma profunda relação com o público, Jece parece ter compreendido algumas das dimensões mais complexas que envolvem o cinema como produto cultural, histórico e de consumo, forjando esta compreensão principalmente através do seu trabalho com o imaginário popular.

Imaginário popular que ele passou a integrar ao longo dos anos, visto que partiu de imagens (as fortes figuras masculinas do cinema americano, uma certa idéia do homem brasileiro, gêneros cinematográficos), para se transformar ele mesmo em um ícone imediatamente reconhecível. Sua crença de que apenas o ator estigmatizado alcançaria o estrelato e ficaria gravado nas mentes comprovou-se pela sua trajetória. No entanto, por mais redutora que sua iconicidade pudesse ser, ela camuflava um homem de múltiplas facetas. Pai de família, empresário bem-sucedido, cineasta talentoso, ator de presença inigualável, galanteador incansável...

E, para além de todos esses Jeces, havia o Jece que conheci. Atencioso, doce e extremamente gentil. Que na abertura da mostra em sua homenagem, dizia, com os olhos levemente marejados: “estou muito feliz, é muito bom poder receber essa homenagem em vida, porque no Brasil, as pessoas só são lembradas depois que morrem. Só não choro porque já passei da idade”. O momento, emocionante, não poderia prefigurar a notícia que viria dois meses depois. E, se o choque da sua morte pode ter algum alento, certamente é o de saber que pudemos lhe conceder tamanha alegria, ao expressar todo nosso carinho, afeto e admiração por sua obra e que estes sentimentos tenham ganhado seu destinatário e tenham sido recebidos de peito aberto. Como consolo, ainda, talvez a crença de que, como alguém que soube levar a vida de forma admirável, Jece deve ter partido com serenidade.

Meu sentimento de perda, que, neste momento, poderia ser da ordem de um relacionamento entabulado por imagens (jornalísticas, no caso), guardando um pouco a relação que se estabelece com um artista a partir de filmes, me tomou, no entanto, de forma próxima, indo ao encontro de um afeto e de um carinho nascidos de forma singular. Entre as grandes experiências da minha vida, os momentos que carregarei comigo, certamente estará a de assistir a Boca de Ouro sentada ao lado dele. Na tela, imagens de quarenta anos antes, testemunhando uma vida, um tempo, uma arte, já distantes; ao meu lado, um homem que, mais do que um dos grandes nomes do cinema brasileiro, era alguém que recebia emocionado uma grande homenagem de todos ali presentes, e dos envolvidos na mostra em particular. Dez dias depois, quando do memorável encontro de Jece com o público, dentro da programação da mostra – no qual ele desfilou todo o seu carisma e empatia –, tive a oportunidade de jantar em sua companhia e na de José Oliosi, seu amigo e parceiro de anos na Magnus Filmes. “Tchau, minha linda”, foi como Jece se despediu de mim, com um beijo na testa.

Hoje, suas palavras ainda ecoam. E com a mesma intensidade que contemplei sua rápida passagem pela minha vida, lamento sua partida. Sempre ativo, ele foi-se em meio a diversos trabalhos, entre eles, sua já histórica parceria com José Mojica Marins em Encarnação do Demônio. E, se por dias e dias adiei o término deste obituário, talvez tenha sido pela relutância em aceitar tal notícia, que sobrevém como esta interrupção de tudo, esta súbita suspensão de uma vida inteira; em acreditar que ele não está mais entre nós. A Jece, agradeço pelo rico mundo de cinema que nos deixou e destino minhas mais sinceras palavras de afeto.

Tatiana Monassa