Partícula no Todo

Quando passar por Garça Torta
pergunte de onde vim
de estrelas sem fim
a alma de minha de mãe
verde cana verde musgo destes olhares faço uso
e o leite que bebi
navios da Ítaca percorri
abismos de distâncias do tempo
e horas próximas
o gotejamento das horas
aflitivas outras morosas
e o mel das visões tranqüilas
e o mundo o que será?
a voz cantante do Panema
entre pedras resmungando
espumoso em procura do São Francisco
a água da Serra do Gují
foi filtrada na luz da madrugada
doce fria no abrigo das jarras
caseiras silenciosas
reserva azulina e doce
cuidados de minha mãe
preso ao urro dos novilhos
aos ventos arrastando folhas secas
dos serrotes de verões
quem tiver amor ao chão
que pisou
uma pétala do mar de rosas
lhe dou
mel do inverno da caatinga
musgo e sargaço
uma flor de coral
que a água do mar sustentou
verdes matas verdes águas
o limo da criação
luz que abre a retina
madrugadeira
luminosidade que o sol
infiltra nos olhos
de minha mãe
curimãs gordas
o cheiro da floração
de cajueiros
os verões e aguaceiros
quando ias aos cajus
vinha eu carregado de castanhas
o mundo é o abismo dos navios?
embarcava em navios gregos
no porto de Jaraguá
em busca de quê?
negros cabelos e mantilha
beijos sugados em mulheres
de ilhas
o Egeu esconde fúrias
de deuses
o baque de remos e navios
que imprimem a luz
nos olhos de Homero
inundados de musgo
aedo mastigador de trigo
o vinho da sabedoria
os sonhos
lavando a língua
a pedra da palavra segura
extraída dos cachos e sofrimento
de espadas molhadas de sangue
a dureza dos escudos
quando o vento dedilha
canções de sereias
é que me agarro ao refúgio
de aboios tropel de boiadas
a voz de minha mãe cantando
na leveza de luz da manhã
e na tarde de afazeres
em refúgio e luz de telheiros
sombra caseira
os panos secando
ao sol do sertão
longe e perto
o carro de bois cantando
novilhos no areal do Panema
bebendo a água das cacimbas
urrando raiva
ao novilho de outro curral
o pau d’arco flora
na altura dos serrotes
os marmeleiros perfumam
marmeleiros dão flor às abelhas
Panema das cheias vozeantes
a fúria dos novilhos
corre nas águas
estrupícios
de carreiras no coice
do gado arisco
meu sonho travo na língua
molhada de leite
sumos que me chegam
à alma do sabor
ao sabor cantante
rio de delícias
partícula no todo
coração de Deus
alfa e ômega
trovoadas bebendo secura
secura dureza da terra
rama verde
flor no espinho
a vida canta derramando o suor
de experiência dura
voejar de memórias
música de abelhas
mergulhada em flores
luz na água
vozes do mar
espumas e vozeios
mergulho em flores
o perfume das manhãs
nascidas de novo
em raízes verdes
brotos de luz
sopro respiração do tempo
abrindo a pálpebra
na plumagem esvoaçante
entranha dos verdes
dissolvidos no mar
navio de luz e coral
coberto de escamas e ferro
limos e sargaço que a vida
tritura e digere espedaça
cultivo terra arejada
o grão dos sonhos
o anel nascido no ouro
da alma
tive o segredo da beleza
porosa vibrátil semeadura
flutuando flor da vida
rastro aberto nas pedras
estios e água
nas raízes
verdores e ventos
ventos tangendo poeira
verdores na água do mar
o tempo escoando a luz do sol
escoando a noite trevosa
a luz múltipla que o universo
acende vazando a poeira do cosmo
terra brilho das águas
regando regando regando
a sede dos olhos
os lábios da alma
o tempo escoando finitude
viagem das águas lavrando a terra
tempo de sol nas árvores
musgos
florações de sementes
os ventos viajam carregando rumores
do mar rumores de espigas abertas
o grito expresso na vida humana
arrulhos de pássaros
o corte das colheitas
fome do espírito e corpo
outro sentido conquistado
longínqua luz percebida
noite outro dia e tarde
coágulo de luz
germinando a flor celeste
respingos ruidosos e chuva
o rio que tenho
esbatendo a memória
viagem da alma e do corpo
a celeste visão do mundo
os sonhos lavados na água do mar.

Emmanoel Cavalcanti