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Despedindo-me de Robert Altman
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Ao saber
da morte de Robert Altman, através de um email recebido
justamente através da lista da Contracampo, não pode deixar
de me vir à lembrança a seqüência final de seu derradeiro
trabalho, A Última
Noite, revisto a menos de uma semana. A figura do
anjo Asphodeus (Virginia Madsen) se aproxima de um grupo
de personagens perplexos. No entanto, tudo indica que
Altman, em seus últimos instantes, parecia não partilhar
desta perplexidade. O filme em si e suas últimas entrevistas
ou aparições públicas – como na última cerimônia do Oscar,
quando fora homenageado – transmitem uma incomparável
lucidez de um homem de idade avançada, receptor de um
transplante cardíaco, que vê o destino se aproximar. Altman
parece ter encarado essa chegada com sóbria naturalidade,
parte do ciclo da vida.
Mas já que dizem que a chegada da morte traz a passagem
de reminiscências de toda uma vida pela memória daquele
que parte, por que não essas lembranças não viriam a atingir
também aqueles que ficam? Foi assim que me pus a recordar
de minha relação pessoal com os filmes de Robert Altman.
Volto assim ao meu primeiro Altman visto em cinema: Cerimônia
de Casamento (1978) em seu lançamento no Rio, no ano
seguinte (não me recordo se então já havia passado por
MASH em TV).
Já ficou claro neste contato prematuro a insurgência de
um universo e um estilo muito particulares. O que mais
me chamou atenção foi a sensação de caos. Um caos que
domina a ação narrativa, mas sobre o qual o cineasta demonstra
exercer um controle total. Gostei bastante do filme, apesar
de muitas de suas sutilezas permanecerem distantes e terem
sido pouco notadas por um moleque de 13, 14 anos. E ainda
hoje Cerimônia de
Casamento permanece um vigoroso exemplar daquilo que
se consagrou como o estilo característico do cineasta
e que não me apetece aqui discutir mais uma vez.
Com isso, a assinatura de Robert Altman, passa a ser para
mim um chamariz, um diretor a ser acompanhado com carinho.
Mas é curioso lembrar que essa minha descoberta, tanto
de seu cinema em particular, mas também do cinema de um
modo geral, no ínício da década de 80, vai coincidir exatamente
com uma marcante queda do prestígio de Altman. Se nada
grandioso surge desde então em coisas como Popeye
(1980) –
confesso que em garoto curti bastante esse filme maldito,
uma bizarrice que necessita ser urgentemente revista –
e a maioria dos filmes da época permaneciam inéditos em
cinema, foi a televisão que me proporcionou o ingresso
de Altman em meu rol de “heróis cinematográficos”.
Hoje não consigo mais assistir a filme dublado, fora do
formato de tela original e interrompido por comerciais.
Mas na época não tinha outro jeito. E foi assim, às vezes
caindo de sono, que tomei duas porradas fortes e impressionantes:
McCabe & Mrs.
Miller (1971) e Nashville
(1975). Esse não tem como discutir, filme dos meus
favoritos de sempre, obra-prima fodaralhaça, que continuo
amando sempre que revejo. MASH (1970) também não fica muito atrás. Mas foi também nessa época
que a TV me trouxe muitas belezas que nunca mais consegui
rever Voar é Com os Pássaros, Um Perigoso Adeus, Renegados Até a Ùltima Rajada, Califórnia
Split, todos da primeira metade da década de 70.
A bola do cara só voltou a encher em 1992 com O Jogador. Para mim outra experiência forte, num momento em que estava
passando a repensar muita coisa quanto à minha visão pessoal
de cinema, e o filme teve um importante papel nesse processo.
Altman volta a ser, e para isso também muito contribuiu
o seguinte Shortcuts, não uma admiração de filmes passados, mas uma forte referência do
presente. Certo que o que se seguiu é um reflexo de toda
a carreira do cara: ciclotímica, irregular. Filmes que
mais parecem a manutenção de uma grife (Pret-a- Porter), bons filmes subestimados
(Kansas City,
Dr. T e as Mulheres) uma bomba (The Gingerbread Man), e o para mim belíssimo
Assassinato em Gosford
Park –opinião não partilhada pela maioria de meus
colegas de revista.
Mas é apesar ou mesmo por causa dessa irregularidade que
Altman sempre permaneceu para mim uma figura que exerce
fascínio e instigação. Muito como o John Huston que tanto
insisto em admirar. Bom de assistir até quando manda bola
fora. Foi assim que mesmo tendo achado o seu penúltimo
De Corpo e Alma (2003) pouco mais que uma chatice bem dirigida, não
resisti e foi conferir A
Ùltima Noite em sua primeira exibição no Festival
do Rio. E assim caiu a ficha de que o fim poderia estar
próximo, ficando a certeza que, sem este filme, a notícia
da morte de Altman teria sido por mim muito pior digerida.
Mas se o cara foi, os filmes ficam. Muita coisa a rever,
e com isso muita coisa que admirava pode não ser mais
curtida com a mesma intensidade. E muitos não apreciados
podem vir a ser valorizados. E mesmo assim, ainda restam
coisas dele que para mim permanecem inéditas: Memórias,
Honra Secreta, Além da Terapia ou seus trabalhos para TV, como as séries Tanner 88 e Gun.
Resta-me então aproveitar esse espaço para manifestar
meu apreço por sua obra e minha frustração por sua partida.
E prá exorcizar tudo isso, nada melhor que agora escolher
um de seus filmes para assistir.
Gilberto Silva Jr. |
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