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HANA-BI - FOGOS DE ARTIFÍCIO
de Takeshi Kitano, Japão,
1997 |
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Tiros.
Flores. Fogos de artifício.
Assistir a uma queima de fogos de artifício quase sempre
é ficar estático, extasiado, diante de uma imensidão de
pontos coloridos espalhados na vastidão de um espaço que
paralisa. Porque, permeada de tantos detalhes, a amplidão
do céu acaba exercendo um fascínio meio esmagador, que
remete, simultaneamente, às partes e ao todo de uma vida,
a vida de quem olha. No corte do campo-contracampo entre
o observador e os as cintilações dos fogos, correm, então,
sentimentos e imagens: acontecimentos e experiências já
fora de alcance.
Marcado por uma plasticidade, um enquadramento e uma montagem
surpreendentes e que se interpenetram em efeitos, para
a constituição do estado de alma do filme, Hana-bi
se estrutura em imagens que são desdobramentos fragmentários
de três acontecimentos traumáticos. O primeiro, o acidente
que matou a filha de Nishi e fez se abater sobre sua esposa
um desgosto pela vida (que, somado à sua doença, tornou-se
potencialmente fatal), é da ordem de um extra-campo total.
As informações que temos vêm apenas pela boca dos personagens;
trata-se de um passado. O segundo, a ação policial terminada
em tragédia, com a morte de Tanaka e a paralisia de Horibe,
reverbera durante todo o filme, como um presente contínuo
e interminável, e é muito propriamente seu mote e seu
motor propulsor. Pura imagem, em câmera lenta e sem som,
situado num tempo impalpável, ele só pode ser apreendido
pela junção dos pedaços de informação visual espalhados
e que vêm cada um a seu tempo, cada um de um ângulo e
de uma distância diferentes. E o terceiro é os dois tiros
que apenas ouvimos, as mortes que só podem acontecer fora
do quadro – o assassinato de dois amigos ou o suicídio
"duplo" (pois ele estaria levando consigo a
mulher, já desenganada) – e que o olhar da menina aponta
ser o suicídio. A confirmação fica em eterno suspense,
sobre o corte deste último plano, repousando no futuro,
no contracampo que não existe.
Tudo se passa como se a combinação do acaso com a violência
e seus movimentos bruscos e tiros intermináveis, tivesse
esfacelado o mundo em cacos, em faíscas de fogos de artifício,
como numa azarada brincadeira de mal-me-quer-bem-me-quer
que transforma a flor em pétalas no chão e termina em
resposta negativa. A percepção e a memória tornam-se,
logo, incapazes de estabelecer qualquer totalidade, subsistindo
pela incompletude. Hana-bi se assemelha a um haikai,
em sua estrutura de montar recortes fechados para intuir
uma sensação: o recorte enfático da câmera e a montagem
que se recusa a estabelecer uma continuidade perfeita
de tempo e espaço, dá ao filme cenas destituídas de drama,
planas, para serem tratadas como "motivos" picturais,
no qual deve-se escolher um detalhe. A percepção dos acontecimentos
vem sempre em fragmentos e um pouco atrasada (ou um pouco
adiantada), como se nunca conseguíssemos chegar na hora
certa, ou não dispuséssemos de uma ampla visão e da rapidez
de um obturador para apreendê-los, tornando as imagens
do filme, algo como pinturas sempre parciais, que tentam
capturar um quê das sensações dos personagens, assim como
as pinturas de Horibe traduzem sua tentativa de esgotar
a dor transformando-a em matéria visual e temporal (pintar
para ocupar o tempo ocioso).
O empenho de Kitano em achatar as imagens, fazendo-as
sempre planas e eminentemente estáticas, como se rechaçassem
grandes movimentos, quase sempre delegados ao espaço fora
da tela (e quando inscritos na tela, limitados por um
quadro estático), permite-o desenvolver um forte grafismo,
que acaba por lançar as imagens num grande plano em que
uma evoca a outra e elas tornam-se intercambiáveis. É
a própria estrutura do tempo que está em jogo: tempo desmontado
pelo trauma e contaminado por flashbacks, flashforwards
e falsos raccords que se confundem entre si. Não
é mais possível precisar o que é memória, o que é visão,
o que é imaginação e o artifício parece tomar conta. Artifício
lúdico (o pontilhismo e as colagens ilusionistas das pinturas
de Horibe, as brincadeiras de Nishi com a esposa, montando
o quebra-cabeça ou adivinhando as cartas do baralho),
artifício criminoso (o assalto ao banco tornado possível
pela fantasia de policial e a baixa qualidade do vídeo
de vigilância), artifício enganoso (o disparo de armas
descarregadas como intimidação, as pegadinhas de Nishi,
que isola a bola de baseball dos meninos e rasga a pipa
da garota). E, por fim, artifício cinematográfico, que
joga com o som (os acontecimentos fora do quadro que apenas
ouvimos, o ruído do isqueiro sendo acionado que transforma-se
num tiro ou das balas jogadas na fogueira, que evocam
os fogos de artifício), com a imagem (câmera lenta, exploração
de linhas verticais e horizontais, cores, formas e volumes)
e com a montagem (quebra constante de expectativa por
falsos raccords e associações causais frustradas
pela progressão do filme).
O modo como as imagens são manipuladas faz o filme se
assemelhar a uma sucessão de imagens mentais, em que sonhos
(ou vezes desejos ou escapismos) e lembranças (ou a insistente
decomposição de um acontecimento em detalhes não exatamente
presenciados) se mesclam inadvertidamente e fazem do real
também um campo de fantasia. Imagens puxam imagens: por
pregnância afetiva (pinturas variadas que decoram os cômodos
e planos de flores evocam as pinturas ainda não-realizadas
de Horibe; acontecimentos quaisquer chamam flashbacks
relâmpagos), por composição (a cena do estacionamento
no inicio do filme é interrompida para dar lugar ao carro
na estrada pelas linhas verticais em comum), por associação
sonora (o fogo do isqueiro que traz um flash do tiro no
bandido). O todo do filme se assemelha de fato às pinturas
de Horibe (realizadas pelo próprio Takeshi Kitano), que
a câmera desvela com tanto cuidado e em cuja superfície
passeia, se impregnando e criando diferentes significações
até englobar pelo enquadramento sua totalidade: montando
elementos plásticos é possível criar a expressão de estados
muitas vezes indescritíveis.
Entre estes elementos, está, por certo, uma certa insistência
na objetividade do registro, uma frieza no enquadramento
e na narrativa, que traz uma placidez plana que contempla
a morte. A morte "fácil", que caracteriza as
narrativas de yakuza (aqui transposta para uma
narrativa "policial") ganha um peso indesejado.
Ela é motivo de perda e de não-vida (a paralisia de Horibe,
a iminente prisão de Nishi ao final). Num sentido contrário
à leveza e velocidade que pede a imagem de um filme de
gângster, Hana-bi é um filme imerso no "peso"
das imagens. Elas se prolongam, são retomadas, interrompidas,
admiradas, rechaçadas... E acabam subsistindo como suporte
privilegiado de estados emotivos.
Tatiana Monassa |
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