O DESESPERO DE VERONIKA VOSS
de Rainer Werner Fassbinder, Alemanha, 1982
O branco é mais frio que a morte

O que é O Desespero de Veronika Voss? Um drama existencial em que personagens são dominados por mecanismos muito mais fortes que eles, quase automáticos? Uma intriga meta-policial que desemboca numa ficção paranóica? Uma confrontação direta com a política alemã dos anos 50 até o começo dos anos 80 utilizando a corrupção e o vício generalizado para metaforizar um estado de denegação absoluta e hipocrisia que abraça a sociedade de consumo da mesma forma que anteriormente abraçara o nacional-socialismo? Ou simplesmente um filme em que o branco corta tanto como uma faca e nos causa uma agonia, um ambiente de ar sufocado, irrespirável, que seria a própria essência do filme? Veronika Voss é isso e é muito mais coisas que se pode adicionar: um show de interpretação de Rosel Zech, uma evocativa reconstrução dos anos 50, um coquetel de influências cinematográficas e ao mesmo tempo um filme que em alguns aspectos é a concretização de uma carreira de 43 filmes em 17 anos.

Penúltimo filme de Rainer Werner Fassbinder, O Desespero de Veronika Voss é um dos maiores trunfos do maneirismo no cinema. Desde o começo, vemos um mundo inteiramente estilizado, disforme, de uma frieza analítica escancarada pelo trabalho de cor em preto e branco, pelo enquadramento distanciado, pela movimentação antinatural dos atores e pelos movimentos de câmera não-motivados dramaticamente. Um mundo que parece fechar-se sobre si mesmo, tentando atingir uma espécie de purgação do mundo pelo excesso de artifício. O próprio Fassbinder é o primeiro a dizer: “Não existem acontecimentos reais. O verdadeiro é o que vem da arte”. Tal é o desafio louco do cinema de RWF, restituir um fiapo de vida na inexistência de um mundo no qual “aconteçam” coisas. Esses fiapos podem ser as cintilações luminosas que fazem com que cada lâmpada brilhe como uma estrela (algo já utilizado por ele anteriormente, em cores, em sua série Berlim Alexanderplatz), ou no gesto altruísta de Robert quando oferece um espaço em seu guarda-chuva a Veronika, ou até nos sonhos-delírios de Veronika Voss em seus últimos estágios, ainda um sopro de esperança diante de um futuro inviável.

Se há fiapos, é porque o padrão do mundo é a inevitabilidade da ruína, uma ruína em que a expressão de sentimentos é um gesto de fraqueza, em que todas as relações se baseiam nos pólos dominação/submissão. Como em O Direito do Mais Forte, cujo protagonista é interpretado pelo próprio Fassbinder, quem ama é um joguete, um peão descartável. Só que em O Desespero de Veronika Voss a coisa fica ainda mais complicada, porque às relações de amor está adicionada a relação com a droga. Ambos, no entanto, parecem ter efeitos semelhantes: fazem com que as pessoas percam inteiramente sua capacidade de deliberação devido a um encantamento quase hipnótico, e que pela mise-en-scène de Fassbinder fazem muito lembrar a “perda de si” dramatizada nos filmes alemães dos anos 10-20, de Caligari a Mabuse. É Robert que, tal como um autômato ou um cachorrinho, dá meia volta na escada de seu prédio e corre para sua nova dona, ou Veronika que monta uma encenação diante da polícia para proteger a doutora que a domina e, assim, esgotar as chances de uma verdadeira libertação daquele universo. O próprio final do filme parece não ser nada mais do que o reconhecimento de que é impossível revelar a manter um discurso verdadeiro num mundo em que os postos de “lugar da verdade” são ocupados por criminosos. A paranóia parece ser a única condição para a lucidez.

Mas se O Desespero de Veronika Voss não é “apenas” um filme sobre um mal-estar generalizado acerca do mundo, do amor, das relações humanas, etc., mas o grande monumento que é, é porque desde o começo o filme nos instala numa atmosfera nebulosa, em que todos os elementos sugerem que o mundo está fora de seus gonzos, num pesadelo ou num universo paralelo. É o que nos sugere o caráter bigger than life da personagem da atriz Veronika Voss, mas também o terrível complô orquestrado pelos médicos para viciar seus pacientes em morfina e tomar-lhes o dinheiro. Mas, acima de tudo, é o que nos apresenta a majestosa mise-en-scène do filme, volta e meia nos apresentando as imagens através de espelhos, de  vidros enfumaçados ou molhados que tornam a cena diáfana, ângulos de câmera inclinados que dão estranheza à imagem, além, claro, do já mencionado poder do branco que parece tudo sufocar (sobretudo nos interiores do casarão da Dra. Marianne, em que naturalmente a opressão é maior), criando um clima ao mesmo tempo muito charmoso (mesmo rarefeitas, as imagens do diretor de fotografia Xaver Schwarzenberger são de uma beleza extraordinária) e decadente (afinal, todo maneirismo é decadentista e coloca o “mundo” em parênteses). Melodrama? Cinema moderno? Fassbinder parece ter sido o único diretor de cinema no mundo a aproveitar todas as potências anti-realistas e extravagantes do melodrama e fazê-lo romper o limiar da representação clássica. O Desespero de Veronika Voss, filiado ao gênero e longe dele, se utilizando tanto de formas convencionais como de formas modernas, naturalista e anti-realista, leva o aparente paradoxo um grau adiante.

Ruy Gardnier



RAINER WERNER FASSBINDER - FILMOGRAFIA

 1966 Der Stadtstreicher (O Vagabundo da Cidade) [cm]

 1966Der Kleine Chaos (O Pequeno Caos) [cm]

 1969 Liebe ist kälter als der Tod (O Amor É Mais Frio Que a Morte)

 1969 Katzelmacher (O Machão)

 1970 Götter der Pest (Os Deuses da Peste)

 1970 Das Kaffeehaus (O Café) [tv]

 1970 Warum läuft Herr R. Amok? (Por Que Deu a Louca no Sr. R.?)

 1970 Der Amerikanische Soldat (O Soldado Americano)

 1970 Die Niklashauser Fart (A Viagem de Nicklashauser) [tv]

 1971 Rio das Mortes (Rio das Mortes) [tv]

 1971 Pioniere in Ingolstadt (Pioneiros em Ingolstadt) [tv]

 1971 Whity

 1971 Warnung vor einer heiligen Nutte (Precauções Diante de uma Prostituta Santa)

 1972 Händler der vier Jahreszeiten, Der (O Comerciante das Quatro Estações)

 1972 Die Bitteren Tränen der Petra von Kant (As Lágrimas Amargas de Petra von Kant)

 1972 Acht Stunden sind kein Tag (Oito Horas Não Fazem um Dia) [série de tv]

 1973 Wildwechsel (A Encruzilhada das Bestas Humanas) [tv]

 1973 Welt am Draht (O Mundo por um Fio) [tv]

 1974 Nora Helmer [tv]

 1974 Angst essen Seele auf (O Medo Devora a Alma)

 1974 Martha (Martha) [tv]

 1974 Fontane Effi Briest (Effi Briest)

 1975 Wie ein Vogel auf dem Draht [mm, tv]

 1975 Faustrecht der Freiheit (O Direito do Mais Forte)

 1975 Mutter Küsters Fahrt zum Himmel (Mamãe Küster Vai para o Céu)

 1975 Angst vor der Angst (Medo do Medo) [tv]

 1976 Ich will doch nur, daß ihr mich liebt (Eu Só Quero Que Vocês me Amem)  [tv]

 1976 Satansbraten (O Assado de Satã)

 1976 Chinesisches Roulette (Roleta Chinesa)

 1977 Frauen in New York [tv]

 1977 Bolwieser (A Mulher do Chefe da Estação) [tv]

 1978 Deutschland im Herbst (Alemanha no Outono) [filme de episódios]

 1978 Despair (Despair)

 1978 In einem Jahr mit 13 Monden (Num Ano de 13 Luas)

 1979 Die Ehe der Maria Braun (O Casamento de Maria Braun)

 1979 Die Dritte Generation (A Terceira Geração)

 1980 Berlin Alexanderplatz (Berlin Alexanderplatz) [série de tv]

 1981 Lili Marleen (Lili Marlene)

 1981 Theater in Trance [documentário]

 1981 Lola (Lola)

 1982 Die Sehnsucht der Veronika Voss (O Desespero de Veronika Voss)

 1982 Querelle (Querelle)



 Frases:

"A maioria das pessoas tem medo de morrer, não da morte. Eu não tenho medo dessa espécie de "doença" que precede a morte, desse padecimento, às vezes longo, às vezes curto, eu tenho medo é de não estar mais aqui. Quer pareça infantil, ou não, não posso mudar. Bem, procuro ter uma atitude como a de Veronika Voss, ou procuro mostrar a mim mesmo que é possível assumir uma atitude dessas - tentar perder o medo da morte"


 "Morte ou assassinato de Veronika Voss? Um acordo perfeito entre ambos, porque ela sabe que de qualquer maneira o jogo está perdido, não há mais nenhuma possibilidadede mudança, como eu interpreto, então pode parar tudo, pois não há nada que realmente a interesse"
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