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MOUCHETTE
de Robert Bresson, França,
1967 |
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Mouchette
se inicia com o lamento da mãe. Se morrer, ela pergunta,
como ficarão os demais? A feminilidade doente e moribunda,
o mundo dos homens que se caçam uns aos outros, como os
animais com as armadilhas: mergulhada desde sempre na
corrupção que a cerca, Mouchette talvez seja a personagem
mais sem perspectivas criada por Robert Bresson, uma vez
que, ao contrário, por exemplo, de Marie, em Au Hazard
Balthazar, ou de Agnès, em As Damas do Bois de
Boulogne, jamais pôde sequer conhecer a pureza e a
inocência.
A realidade em que vive Mouchette é de extrema violência.
O campo, para Robert Bresson, nada tem de bucólico. Por
um lado, há a ausência de qualquer sentimento materno
em todas as mulheres que surgem ao longo da narrativa
(a começar pela própria mãe, cujo último conselho é de
que a filha não se torne uma vagabunda): a professora
que humilha Mouchette na aula, a dona da padaria que a
chama de prostituta, a velha bruxa que vê a maldade em
seus olhos – sem contar Louise, que mais parece um rapaz.
Por outro, a onipresença masculina, que se verifica no
rigor da aplicação da Lei, mas que se omite em proporcionar
carinho: o pai que espanca a adolescente após o interlúdio
romântico no parque de diversões, a maior preocupação
de Mathieu com os animais capturados e, claro, a tentativa
de Arsène de estuprá-la durante a noite. Indiferença,
crueldade, injustiça, o cinema(tógrafo) de Bresson os
retrata como ninguém.
A teoria mais difundida – não necessariamente correta
– para explicar a dualidade entre pureza e corrupção que
se manifesta na obra de Robert Bresson parte da suposta
filiação do diretor ao jansenismo, corrente filosófica
católica que acredita no destino, na predestinação e na
irrupção eventual da graça divina entre os homens. Se
aplicáveis em Pickpocket e em Um Condenado à
Morte Escapou, como enxergar traços jansenistas nos
derradeiros Une Femme Douce, Quatro Noites de
Um Sonhador, Lancelot Du Lac, O Diabo Provavelmente
e L`Argent, filmes profundamente pessimistas e
caóticos? Bresson, na verdade, liga-se mais a Dostoievski,
pois enquanto Une Femme Douce e Quatro Noites
de Um Sonhador são adaptações, respectivamente, de
A Dócil e de Noites Brancas, há influência
marcante de Crime e Castigo em Pickpocket,
Au Hazard Balthazar e L`Argent (apesar deste
último ser baseado em Tolstoi). Em todos, ressoa a frase
de Os Irmãos Karamazov: “se Deus não existe, então
tudo é permitido”.
Robert Bresson alcança a perfeição formal (como ele a
entende a partir de Notas sobre o Cinematógrafo,
lançado no Brasil em 2005) apenas nos sublimes Lancelot
Du Lac, O Diabo Provavelmente e L`Argent.
Cinema completamente livre do teatro, personagens desprovidos
de motivações psicológicas, modelos que vivem no lugar
de atores que interpretam, combinação de imagens de sons
puros, música somente se diegética (preferir trilha composta
de ruídos àquela convencional, que chama a atenção toda
para si), concisão absoluta na feitura do filme – construí-lo
“sobre o silêncio, o branco e a imobilidade”, ou seja,
evitar recursos técnicos, dramáticos ou narrativos que
não estejam de acordo com a história –, substituição do
diálogo tradicional pelo discurso indireto livre, enunciado
com voz branca e monocórdica, fragmentação do espaço (e
dos corpos no espaço), destituindo-o de significado autônomo
e inserindo-o no fluxo óptico-sonoro do cinematógrafo
através da montagem (e potencializando-o, já que deixa
de ser este ou aquele ambiente em particular e se transforma
em todo e qualquer lugar ao mesmo tempo). Em Mouchette
– segunda adaptação do cineasta para Georges Bernanos
(a primeira é Diário de Um Pároco de Aldeia) o
qual, como Dostoievski, era mestre do discurso indireto
livre – a música de Claudio Monteverdi nos créditos finais
e de abertura, há escurecimentos de tela (fades in e fades
out) e outra aparição de Jean-Claude Guilbert, modelo
pouco ou nada bressoniano, que já atuara em Au Hazard
Balthazar e encarna novamente, com Arsène, o mesmo
papel de bêbado e de desordeiro: “falhas” a que o cineasta
não se permitirá mais nos filmes seguintes.
No entanto, salvo esses pequenos “lapsos”, ainda há muito
de Bresson para se observar em Mouchette. A personagem-título
está na adolescência, com os hormônios em ebulição: o
filme também trata do despertar da sexualidade feminina.
Arsène tenta estuprá-la, mas o faz na realidade? Os braços
de Mouchette o envolvem ambiguamente, e mais tarde ela
afirma à esposa de Mathieu que o “agressor” é seu amante.
Antes, no parque de diversões, enquanto brincava igual
criança, interessou-se sexualmente pelo rapaz. É a falta
de motivação dos modelos bressonianos, de modo que a jovem
tanto é capaz de jogar lama nas colegas de escola, quanto
cantar com insuspeita ternura para acalmar Arsène de sua
convulsão. A seqüência em que Arsène suspeita ter matado
Mathieu é exemplar. Ele sai de noite, em meio ao ciclone,
para procurar o sapato de Mouchette. Ouvem-se tiros em
off, corte para a espingarda na parede (estava desarmado,
quem disparou?). O homem retorna para casa, confuso, bêbado.
Acredita que assassinou Mathieu. E sobre o tênue limite
entre a doença – epilepsia? –, a loucura, o álcool e a
sanidade, acontece o estupro, que pode não ter ocorrido.
O que houve naquela noite? Mathieu continua vivo, ela
descobre. E os tiros? Até mesmo sobre o ciclone o diretor
lança incertezas!
Se faltam respostas para os acontecimentos da noite anterior,
a morte da mãe, a frieza das mulheres da cidade e a incapacidade
dos coelhos de escaparem das balas dos caçadores não deixam
dúvidas de que o mudo de Mouchette é de total desolação.
Ela tenta conversar, comunicar-se, entrar em contato,
mas o desconhecido no trator, como todos os demais, também
está ao longe, não se importa. Brincando, pura e inocente,
Mouchette vive por instantes a infância que nunca teve,
pouco antes de tombar nas águas para morrer.
Paulo Ricardo de Almeida
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