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O
Berlinale Talent Campus, evento organizado pelo Festival
de Berlim, convida e financia a viagem e estada de mais
de 500 jovens do ramo cinematográfico de mais
de 100 países diferentes, para Berlim, onde participam
durante 5 dias de workshops e palestras. O evento, realizado
de 11 a 14 de fevereiro, chegou à sua 4ª edição
tendo como tema principal a edição de
filmes, mas outras profissões ligadas a cinema
não ficaram de fora. Eu participei dos eventos
relacionados à edição, e é
sobre eles que vou escrever, apresentando os principais
pontos discutidos.
Uma mesa com 4 editores é algo bastante incomum
de se encontrar. Editores não costumam ficar
cara a cara com o público. Assim foi a mesa Meeting
the Crew (encontrando a equipe) no primeiro dia de atividades
do Talent Campus. Angie Lam, de Honk Kong, é
especializada em edição de filmes de kung
fu; Jim Clark, editor veterano, montou em torno
de 40 filmes, entre eles 007 - O Mundo Não
É o Bastante e Vera Drake; Sabine
Krayenbühl, suíça, edita documentários;
e Dirk Grau, alemão, é diretor e editor
de documentário e ficção.
A mesa interessou não somente a editores, mas
principalmente ao público em geral e a profissionais
de outras áreas do cinema, uma vez que foram
esclarecidas as dúvidas mais freqüentes
de quem não trabalha com edição,
como, por exemplo, "qual é a primeira coisa
que o editor faz ao se deparar com um novo material?",
"você prefere editar com ou sem música?",
"é melhor editar em computador ou à
moda antiga, em moviola?", etc.
Como jovem editora que sou, foi interessante ouvir um
profissional experiente como Jim Clark responder a questões
que ouço freqüentemente. Ele respondeu com
elegância à pergunta recorde "hoje
em dia todos os computadores vêm com um software
de edição, qual é o diferencial
de um editor já que qualquer um pode editar?".
Clark acredita que a experiência é algo
que um editor pode oferecer. Ele complementa: "No
filme pronto apenas 40% do nosso trabalho é visível,
os outros 60% não aparecem, são diálogos
e mais diálogos diplomáticos".
Jim Clark quer dizer com isso que a maior parte do trabalho
não é feita apertando botões, mas
conversando com diretores e produtores, defendendo um
ponto de vista, tentando entender o que o diretor quer,
convencendo-o às vezes de desistir de determinada
idéia ou de ver com outros olhos aquele material.
Ou seja: pensando. Basta fazer uma simples analogia
para esta pergunta ser respondida de vez: não
é suficiente saber escrever para ser um escritor,
assim como não basta saber usar um software de
edição para ser editor.
Para Sabine Krayenbühl, além da experiência,
o editor deve trazer um ponto de vista bastante objetivo,
uma vez que ele lida com o material filmado, que é
limitado. Nesse ponto, o editor se diferencia radicalmente
do escritor, que tem como material bruto o seu imaginário,
portanto infinito. O que pode ser feito para driblar
esta limitação foi ressaltado por Dirk
Grau: é reinventar e reinterpretar o material
bruto. Antes de vê-lo, ele lê apenas uma
vez o roteiro do filme, e depois disso não o
lê mais, pois tenta captar do material bruto suas
potencialidades e expressividades, contando a história
a partir do que o material filmado lhe revela e não
necessariamente o roteiro.
Angie Lam, com uma certa ironia, diz que depois de ler
o roteiro e ver o material bruto pela primeira vez,
o seu esforço é de não se apaixonar
por nada, pois ela sabe que o diretor também
terá as suas paixões e certamente vai
querer alterar tudo. Na primeira vez que assiste ao
material bruto, Sabine faz anotações sobre
suas impressões, assim como Kubrick ia para o
set de filmagens com o roteiro cheio de anotações
da sua 1ª impressão. Pois neste momento eles
são como os espectadores que verão o filme
sem saberem nada, tendo dúvidas, curiosidades
e emoções que muitas vezes durante o trabalho
rotineiro vão se perdendo ou se transformando.
O trabalho diplomático citado por Jim Clark é
realmente algo que não aparece para o público,
mas que consome um tempo e um esforço argumentativo
colossal. Apesar de ser fã do Avid (software
de edição em vídeo profissional),
ele atribui à rapidez dos novos softwares de
edição em computador um desgaste na relação
com os produtores. Segundo ele, hoje em dia são
cada vez mais vozes a serem ouvidas na ilha de edição,
pelo simples fato de as pessoas não precisarem
esperar tanto para ver o resultado de suas propostas,
o que nos velhos tempos, às vezes, levaria um
dia para ficar pronto. Naquela época, os palpites
eram muito mais raros e fundamentados. Angie Lam concorda
com Jim Clark e acrescenta que prefere o método
de corte fisico ao digital, pois se faz necessário
e indispensável o pensar antes de cortar, e pensar
muito bem, pois no caso dos filmes de kung fu
que ela edita os takes têm em média
8 segundos, e um segundo a mais ou a menos pode fazer
uma grande diferença para o andamento do filme.
Por causa dessas inúmeras vozes e palpites que
normalmente vêm acompanhados de frases como "não
custa nada", "é rapidinho", "só
pra testar algo diferente", é que Jim Clark
afirma que a edição de um filme em computador,
por incrível que pareça, leva mais tempo
do que levava nas mesas de corte.
Esta relação entre editores e produtores
– e também entre editores e diretores – rendeu
muita conversa entre os componentes da mesa. Eles acreditam
que, na maioria das vezes, a relação com
produtores é mais complicada. Dirk lembrou de
um produtor que entrava na ilha de edição
somente para perguntar: "e aí, quantos cortes
o filme já têm?" E dizia que ainda
era pouco, que deveria ter no mínimo um número
X de cortes. É claro que este é um caso
extremo, mas foi um consenso entre os 4 editores que
muitas vezes o produtor tem pouco contato com o material
e com o processo de montagem, e apesar disso dá
palpites, interrompendo a linha de raciocínio
que estava sendo seguida pelo editor e pelo diretor,
inclusive fazendo o filme retroceder no que diz respeito
a questões já discutidas e superadas.
Quase sempre ele acabaria desistindo por falta de paciência,
pedindo para voltar à montagem anterior e indo
embora. É uma pena que não havia produtores
na mesa para enriquecer este debate. Já a relação
entre editores e diretores foi descrita como uma parceria
sem hierarquia. Jim Clark, bem humorado, comparou essa
relação com um matrimônio – porém
sem sexo – pois é uma relação de
parceria e confiança muito forte por um determinado
tempo.
Outra mesa, "Tinkering with the truth" (remendando
a verdade), enfocou a edição de documentários,
onde as escolhas de corte de um editor não somente
determinam o entendimento do filme, o seu ritmo e sua
emoção, mas também, por vezes,
a vida de pessoas. Os editores convidados eram novamente
Sabine Krayenbühl e Dirk Grau. As perguntas do
mediador e da platéia fizeram deste o mais interessante
dos debates.
O processo de trabalho e o desenvolvimento da estrutura
narrativa são diferentes entre Sabine Krayenbühl
e Dirk Grau. A montadora não encarrega os assistentes
da digitalização do material bruto; ela
mesma o faz para ter a oportunidade de assisti-lo em
sua íntegra. Em seguida, escreve resumidamente
o conteúdo das cenas em pequenos cartões
pendurando-os num quadro como um quebra cabeça
que vai sendo alterado ao longo da edição.
Krayenbühl vai encontrando a narrativa ao longo
da montagem. Diferentemente, Grau sempre entrou no processo
de edição quando o material já
tinha sido todo digitalizado. Ele prefere discutir a
história com o diretor e depois então,
a partir deste ponto de vista, assistir ao material.
O moderador Larry Sider sugeriu a Krayenbühl e
Grau que exibissem trechos de filmes editados por eles
e analisassem sua estrutura narrativa. Rhythm Is
It!, editado por Grau, tem uma história típica
de herói, presente na maioria dos filmes. São
três estágios: no início as crianças
não sabem dançar, depois elas começam
a aprender e erram bastante, no fim aprendem e fazem
bonito. Krayenbühl mostrou um trecho do documentário
The Bridge, sobre a Golden Gate, em São
Francisco, EUA, onde acontece o maior número
de suicídios no mundo. No trecho exibido vimos
um quase suicídio: uma moça na beira da
ponte é salva por um fotógrafo amador
que a puxa pela gola de seu casaco. A seqüência
dura em torno de 7 minutos, e a expectativa é
mantida durante quase todo esse tempo: o suspense em
torno da dúvida se ela vai pular ou não,
e se ele vai salvá-la ou não, estão
sempre presentes. Esse suspense é o mesmo utilizado
nos filmes de ficção. Nos dois casos,
em The Bridge e em Rhythm Is It!, a utilização
de elementos narrativos como expectativa e suspense,
próprios de filmes de ficção, têm
como finalidade prender a atenção do espectador.
Os dois editores concordaram que esta aproximação
das narrativas, de documentário e ficção,
é natural e nada problemática, não
faz do documentário uma mentira.
Grau repetiu que o importante é se manter fiel
ao seu personagem: "tanto o documentário
quanto o filme de ficção lidam com histórias,
a diferença é que na ficção
alguém inventa aquela história, e o documentário
retrata o que aconteceu de verdade". Não
houve qualquer rejeição da platéia
quanto ao documentário utilizar estruturas narrativas
típicas dos filmes de ficção. Já
a última afirmação de que o documentário
retrata a verdade gerou algumas críticas. Grau
exemplificou esta teoria com uma seqüência
de Rhythm Is It, na qual há um ensaio
de dança com as crianças. Ela é
filmada simultaneamente por 4 câmeras e editada
exatamente com o tempo em que o ensaio aconteceu. Para
ele, este é um exemplo de como o documentário
pode mostrar a verdade. Um dos argumentos contrários
ao exemplo de Grau baseou-se na hipótese de que,
mesmo se houvesse 60 câmeras filmando o ensaio,
na montagem uma delas terá que ser escolhida
para ser o primeiro take da seqüência,
outra para ser o segundo, e assim sucessivamente. Mas
será que a alteração no tempo da
cena, ou qualquer outra edição que se
faça implica necessariamente numa distorção
da verdade, ou numa traição de seu personagem?
E a verdade, é uma só? O debate seguiu
caloroso em busca das respostas para estas perguntas.
Grau ponderou o fato de o tempo da cena ser menor do
que o tempo real de seu acontecimento não caracteriza
necessariamente uma distorção, mas uma
seleção de momentos representativos do
evento que se quer mostrar. Assim fez Krayenbühl
no trecho do filme My Architect, no qual ela
usa imagens de uma aula do personagem principal, o arquiteto
Lous Kahn, na década de 70, mas o áudio
era de outra aula do mesmo arquiteto na mesma década.
A montagem está muito bem feita e não
percebemos este truque, que apesar de ter sido manipulado
conscientemente por ela, não traiu a realidade
dos fatos, nem seu personagem. A montagem feita é
representativa da situação que ela queria
retratar: uma aula do arquiteto Louis Kahn na década
de 70. Mas ainda com todos os cuidados e debates a cerca
da ética no fazer documentários, é
bom lembrar que o recorte da realidade e sua inevitável
distorção começa ao ligar a câmera
e enquadrar a cena. O enquadramento, assim como a edição
das cenas, são sempre manipulações
sem as quais não há filme. Quem quer fazer
documentários tem que se conformar com isso e
saber encontrar os seus limites.
Finalmente, depois de ter participado desses debates,
assisti à palestra de Ian Christie, "Visual
Rhythm, the Rhythm and Editing of the Classics"
(ritmo visual, o ritmo e a edição de clássicos).
Logo no início tive um choque ao me deparar com
um gráfico da "velocidade" do filme
Intolerância, de D. W. Griffith. A curva
do gráfico varia de acordo com o tempo dos takes,
visualizando o ritmo do filme. Através deste
e de outros gráficos, elaborados pelo site www.cinemetrics.lv,
Christie pretendia mostrar que os filmes, ao contrário
do que se pensa, não estão ficando mais
rápidos. A pergunta, que a princípio pode
parecer absurda mas acho pertinente, é se alguns
editores vão começar a cortar o filme
de acordo com o a curva do filme X ou Y, sucessos de
bilheteria.
Acredito que debates sobre edição como
os que ocorreram durante o Talent Campus sejam indispensáveis
para profissionais da área do cinema. A edição
é algo muito específico e subjetivo, por
isso muito difícil de ser regulamentada. A sensibilidade
e a responsabilidade, valores que não são
aprendidos em livros ou em teorias, são as linhas
mestras para quem quer fazer um bom cinema. Pode parecer
óbvio, mas cada filme é um filme, portanto,
a troca de experiência, exemplos de situações
vividas e dificuldades superadas apresentadas por editores
de diversos gêneros de filmes se relevam conhecimentos
bastante valiosos.
Nina Galanternick
(editora de imagens, montadora dos documentários
Vaidade e Oscar Niemeyer, a Vida É
um Sopro; foi também assistente de montagem
de Casa de Areia)
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