Um grande festival pocket
Sobre o IX Festival de Tiradentes

Algo aconteceu em Tiradentes nesse mês de janeiro. Algo não. Muitas atividades. Tiradentes tem hoje um festival que, pela quantidade de acontecimentos simultâneos e pela resposta dos presentes a esses acontecimentos, pode ser considerado um grande evento. Ao contrário dos eventos grandes, não é asfixiante ou mastodôntico. É o contrário disso. Talvez pelo pequeno tamanho da cidade, talvez pela convivência próxima entre participantes, talvez por um crescente sentimento de intimidade estabelecido entre a organização, os realizadores e a platéia, todos colocados no mesmo barco do cinema, sem hierarquizações entre seus lugares e papéis, predomina em Tiradentes a atmosfera pocket, de evento pequeno, simples, sem ambições de dar passos maiores que suas pernas conseguem obter. Mas os passos, reconheçamos, são largos. Se a estrutura de exibição está longe do ideal, com sessões em uma tenda e em uma praça da cidade, essa suposta precariedade também é uma identidade. Não se trata do elogio do amadorismo, mas de uma aposta que, mesmo sem condições satisfatórias, a fome de cinema, e de discussão sobre cinema, supera qualquer pedra no caminho. Havia cinema no meio do caminho. De todos os caminhos.

Exibição de filmes o dia todo, debates pela manhã e à tarde, salas e auditório cheios, workshops diversos e concorridos. Nos bares e restaurantes, discute-se filmes, política cinematográfica, o conjunto do cinema, a crítica. Críticos colocam as diferenças que os distinguem, realizadores aproximam-se dos críticos para saber suas opiniões sobre seus filmes e sobre os filmes alheios, o cinema deixa de ser atividade em primeira pessoa do singular para se tornar ação em primeira pessoa do plural. O público se manifesta, emite seus pontos de vistas, suas interpretações. Também é chamada a fazer parte do cinema em vez de apenas vê-lo diante da tela.

Uma participação, de qualquer forma, generosa. No cine-tenda, quase sempre cheio, o desfile das imagens, desafiando o desconforto das cadeiras pouco apropriadas para o ritual cinematográfico, foram recebidos com "generosidade". Gostando-se mais ou gostando-se menos dos filmes exibidos, há nas sessões um respeito da platéia pelo que os filmes são e por como eles são, um respeito pela opção do artista, pela dedicação ao trabalho, pelo seu olhar, concorde-se com ele ou não. Não se trata de um evento com espírito de competição (com apenas três prêmios de público), mas de congraçamento entre espectadores, realizadores, críticos e obras. Mesmo os filmes de suposto menor apelo de comunicação mantiveram o cine-tenda cheio, sempre em atitude respeitosa, que demonstram a demanda pelo contato com o cinema, independentemente de que filmes estivessem na tela. Crime Delicado, de Beto Brant, que teve sessão com pessoas sentadas no chão e de pé no fundo da tenda, acabou à 01h30 da madrugada, com a platéia em estado de graça, em parte pelo filme, em parte pela oportunidade a ela dada de estar participando daquele ritual. Algo acontece em Tiradentes. Algo de mágico, algo de concreto.

Tendo participado de três mesas de debate, uma delas com o colega contracampista Daniel Caetano, que lá estava para também lançar o livro Ensaios sobre uma Década, por ele organizado, puxo a sardinha para a participação dos críticos. Nunca um festival estimulou e reivindicou a manifestação dos críticos, transformando-os em protagonistas do pensamento e das discussões cinematográficas, trazendo-os para a arena do debate público, cobrando deles (de nós) tomadas de posição em relação ao conjunto da produção brasileira recente, sem tratá-los como inimigos do cinema ou como seres detentores da luz das verdades, mas como seres que tentam racionalizar uma paixão, sem abrir mão de uma identidade pessoal na formulação de critérios para essa racionalização.

Estar em três mesas de debates e ver na platéia diretores como Andrea Tonacci e Edgard Navarro, uma montadora como Cristina Amaral e um produtor como Pedro Rovai, que prosseguem a conversa cinematográfica tarde afora e noite adentro, é uma experiência rara para quem milita nessa atividade crítica desde os 19 anos, desde 1987 (façam as contas), sempre procurando a discussão e a explicitação das diferenças, mas sempre, ou quase sempre, encontrando pouco espaço para o diálogo franco, sem medo dos conflitos, mas com respeito pelas diferenças. Em poucas oportunidades, os críticos (os presentes no festival), quando reunidos, falaram do cinema brasileiro de forma mais ampla, mais associativa, colocando a própria atividade da crítica como objeto de seus questionamentos. Não há dúvida de que, após três dias de intensa convivência na qual diferentes gerações de críticos se encontraram sem choques, mas com franqueza, todos saem dali melhores, mais arejados, mais convictos do que fazem e do que há a fazer.

Só posso agradecer pela oportunidade por ter estado em contato mais próximo com o ouvido sábio de Inácio Araújo (Folha de São Paulo), com a serenidade de José Geraldo Couto (também da Folha), com os raciocínios equilibrados de Ricardo Calil (Nomínimo) e com a poesia algo inconoclasta de Andre Setaro (da Universidade Federal da Bahia). Agradeço ainda a chance de ver em primeira mão a belíssima e ainda enigmática prosa poética de Andrea Tonacci em Serra de Desordem, um dos mais... dos mais... deixemos as classificações para depois, mas um dos mais........ filmes brasileiros recentes. Um buraco foi preenchido. Outro está a se preencher quando a ficha cair. Ainda circula de lá para cá. Obrigado, Tonacci!

Enfim, um festival tem a tarefa de renovar, reciclar e potencializar o amor pelo cinema e pela reflexão sobre o cinema, em vez apenas de fazer festas após as sessões ou esticar tapetes na porta das salas de exibição. Festivais têm de ter paixão e razão, não apenas glamour e espírito de balada. Tiradentes tem conseguido, agora em sua nova edição, cumprir essa tarefa, conciliando a seriedade que se espera de um evento assim com o prazer obtido nessa intimidade com todas as esferas do cinema. Alguém falou que é o melhor encontro de cinema do Brasil? Eu estou prestes a falar... Mas deixemos as hierarquias para júris de festivais. Importa que Tiradentes, no mês de janeiro, faz o verão respirar cinema. Vida longa aos inconfidentes.

Cléber Eduardo