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Caros amigos,
Em virtude de uma sucessão de reações ao texto assinado
por mim na edição 402 da revista Época, lançado
na última semana de janeiro com o título Hollywood
é Aqui, presto um necessário esclarecimento sobre o
fato de eu não assinar embaixo da matéria a mim creditada.
Em sua gênese, o artigo-reportagem tratava das mudanças
e continuidades que caracterizaram a "safra" de novos
diretores dos últimos 10 anos.
Em sua versão final, completamente reescrita, o texto
celebra os diretores de sucesso, ironiza os que não
fazem milhões de espectadores, faz a defesa de um certo
tipo de cinema em detrimento de outro, embora o tratamento
original fosse bem diferente.
O texto publicado mudou de enfoque, de tom, de relação
com a realidade, mas meu nome foi, contra o meu desejo
e o meu pedido, mantido no alto da matéria. Não respondo
por aquelas palavras, que pouco têm a ver com minha
apuração e com minhas considerações. A versão publicada
inventa contextos e reinventa a situação atual e histórica
do cinema brasileiro. Quem não acompanha a atividade
audiovisual no país terá a impressão, a partir do texto,
de que o cinema popular brasileiro começou nos últimos
anos, que nunca os filmes tiveram tanto público, nunca
foram tão premiados internacionalmente, que nossos diretores
se livraram do complexo de vira-lata.
É um tanto bizarro desmentir um texto assinado por mim,
mas me sinto no dever e no direito de fazê-lo, já que,
se sempre assumi os custos de minhas posições e de minhas
palavras escritas ou faladas, não o farei agora, com
meu nome acima do que não foi escrito ou pensado por
mim. Alugar o nome para terceiros o utilizarem na defesa
de suas idéias e interesses não faz parte de minha atribuição
como jornalista ou como funcionário da revista Época.
Adianto que estou de saída da referida publicação, decisão
tomada antes desse episódio. Também faço questão de
informar que, em minha saída, hoje com a demissão já
assinada, a editora Globo tem agido dentro das regras,
como se postou até hoje em sua condição de patrão, e
menos eu não esperava e não espero da empresa.
Minha divergência pública é com a manipulação do meu
texto e não com os números a receber. Não tenho intenções
de tirar vantagens financeiras desse episódio, como
colegas me estimularam a fazer, porque a questão não
é de ordem financeira, mas dos princípios jornalísticos
e do desrespeito a eles.
Meu objetivo é apenas reagir a essa cultura da manipulação
em nome de interesses extrajornalísticos, e marcar posição
para que jornalistas não fiquem passivos diante desse
tipo de procedimento tão comum em algumas publicações
(a do texto reescrito com teses alheias, mas assinado
por quem não escreveu).
Achei um dever chamar atenção para o fato, não apenas
para defender minha credibilidade (construída desde
1988 na cobertura de cinema), mas sobretudo para pôr
em questão a ameaça à credibilidade jornalística operada
por alguns veículos de comunicação em episódios como
esse.
Sem mais e grato pela atenção,
Cléber Eduardo
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