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Peço licença
aos leitores da Contracampo para registrar a surpresa
e o prazer que um texto de José Carlos Avellar, publicado
no caderno Mais, da Folha de São Paulo (clique
aqui para ler), sobre o livro “Cinema
Brasileiro 1995-2005 – Ensaios sobre uma década”
(Contracampo/ Azougue), trouxe para mim e para meus
colegas da revista, apesar de suas críticas severas
- ou inclusive por causa delas. Não é por acaso que
retomo aqui essa discussão – a discussão crítica é necessária
no atual panorama, como Avellar bem apontou, sobretudo
quando dela participa alguém que esteve diretamente
ligado aos principais processos de decisão dos caminhos
do cinema produzido no Brasil na última década, como
é justamente o caso de José Carlos Avellar. Na verdade,
é preciso, portanto, fazer um complemento à maneira
que a Folha apresentou o resenhista: além de ser crítico,ensaísta
bem conhecido há décadas no cenário e autor de um livro
sobre Glauber Rocha, como nos informava o Mais, Avellar
também desempenhou papéis decisivos nos últimos
dez anos, estes que foram analisados em nossa coletânea
de artigos e entrevistas: foi presidente da Riofilme
até 2000 (justamente nos anos em que a empresa teve
mais importância no cenário da produção nacional) e,
após breve passagem por um cargo do governo do
estado do Rio de Janeiro, nos últimos cinco anos passou
a organizar os concursos de apoio ao cinema da Petrobras.
Isto não
compromete a sua opinião - ao contrário, é admirável
que José Carlos Avellar se disponha a debater o cinema
deste período, com o qual ele esteve tão envolvido,
e igualmente admirável que mostre por ele as preocupações
que seu texto deixa transparecer. O elogio é sincero:
sua postura difere muito da maioria dos atores centrais
da estrutura majoritária do cinema brasileiro nos últimos
anos, não somente por fugir do silêncio a que nos habituamos
mas também pelos interesses que manifesta - Avellar
se mostra preocupado, sobretudo, com as discussões em
torno dos filmes e também da postura da crítica especializada.
E, de certa forma, posso dizer que o incômodo que ele
mostra sentir é sinal de que nosso livro saiu-se a contento,
ao menos para nós, o grupo que faz a Contracampo. Não
pela polêmica pequena, mas pela possibilidade de uma
discussão interessante sobre o cenário da produção nacional
– afinal, boas discussões precisam de discordâncias.
Mas confesso
que achei injusta a crítica de que nosso livro não discute
os filmes produzidos. De fato, entre catorze ensaios,
dois se dedicam a falar de questões silenciadas pelos
filmes e um terceiro tratou de, entre outras coisas,
filmes não finalizados ou não-exibidos. Mas, quanto
aos outros ensaios, quase todos falam dos próprios filmes
feitos e de questões por eles apresentadas. Não há dúvida
de que os filmes são a substância do cinema e de que
não podem ser pensados como meros adjetivos nas orações
críticas. Mas imagino que, se os filmes são os
substantivos, o cinema é toda a oração – assim, a discussão
em torno dos usos de adjetivos e verbos também me parece
produtiva. Diante disso, devo dizer também que
me pareceu cruel apontar que os textos criticam os filmes
por simplesmente não se encaixarem em modelos de cinema
pré-concebidos pelos redatores. Peço aos leitores que
permitam a defesa: se pegarmos apenas um exemplo simples
logo no início do livro, vemos que o ensaio “O Cinema
da Distopia”, de Cléber Eduardo, em nenhum momento procura
defender a existência de um cinema contrário, o “da
utopia”. Citei apenas um, mas o mesmo vai se repetir
em outros textos, cuja reunião, de todo modo, certamente
evidencia alguns filmes preferidos e algumas discordâncias
entre os próprios ensaístas, o que nos parece natural.
Mas é
preciso reconhecer o mérito de uma crítica atenta: Avellar,
ao citar os dois textos que falam de ausências (“A angústia
de narciso: imagens da classe média no documentarismo
brasileiro”, de Arthur Autran, e “Homens sem sombra
– uma tendência intelectual em tempos recentes”, de
Guilherme Sarmiento), percebeu uma questão que nos preocupou
enquanto fazíamos nosso livro: havia sentido em apresentar
textos que apontassem silêncios gerais (ou seja, que
falassem daquilo que os filmes não mostram) neste olhar
retrospectivo? Esta
questão, de fato, nos tomou nos meses de preparação
de “Ensaios sobre uma década”. Mas acho evidente a necessidade
de perceber os silêncios, de tentar compreender o que
dizem – afinal, a lógica mais tradicional nos diz que
a primeira maneira de definir o que uma coisa é será
apontando de imediato aquilo que ela não é. Sobretudo
porque esses silêncios evidenciam alguns caminhos seguidos,
algumas escolhas comuns a várias filmes – partindo aqui
do pressuposto de que uma das tarefas da crítica (não
a única) é justamente a de apontar transformações na
produção artística decorrentes de escolhas históricas.
Este era um dos nossos objetivos, certamente.
Compreendo
e me solidarizo com a falta que Avellar sentiu de mais
textos em nosso livro sobre mais filmes, entre as centenas
de longas e milhares de curtas produzidos no período.
Com certeza, há filmes que poderiam ter maior espaço
de discussão – na verdade, há muitos filmes sobre os
quais se pode escrever livros inteiros. Um livro que
tratou da produção de cinema de uma década certamente
cometeu omissões – creio que mesmo se tentasse discutir
a produção de apenas um ano as cometeria (mas essa escolha
também é uma das tarefas a se cumprir, ou não?). Neste
aspecto, no entanto, ainda que eu pudesse contrapor
à crítica do Mais uma listagem de todos os filmes que
estão presentes nos textos que compõem “Ensaios Sobre
uma Década”, desde o início sabíamos que este livro
faz parte de um trabalho contínuo de anos no site -
de certa forma, é a cristalização desse trabalho. Se
dessa forma reconheço a insuficiência do livro, devo
notar que nosso projeto em nenhum momento se pretendeu
totalizante, e Avellar e os todos nossos outros leitores
podem encontrar no arquivo das edições da Contracampo
(disponíveis aqui no nosso site, num link no rodapé
da página) críticas específicas para outros filmes
produzidos no período, além de outros artigos e entrevistas
ligados ao tema do livro. O acúmulo de visões, anunciado
no artigo de introdução, é um método crítico que se
prolonga pelo site e que apresenta preferências comuns
e questões internas, como não poderia deixar de ser,
já que a Contracampo é feita por um determinado grupo.
Com relação
a isso, para finalizar, gostaria de fazer uma nova observação
sobre o texto de Avellar, uma vez que ele aponta com
inteira razão que a leitura destes nossos textos críticos
permite perceber, ao mesmo tempo, o cinema analisado
e o grupo que o analisa. À parte o fato de que nosso
grupo é menos homogêneo e nutre mais discordâncias entre
si do que esta frase pode sugerir, no resto acho que
ela acerta na mosca – afinal, como há muito já nos dizem
os teóricos da literatura, o texto crítico, por natureza,
sempre revela de seu autor muito mais do que ele pretende.
Isso vale para o livro da Contracampo, certamente, e
vale também para a resenha de José Carlos Avellar,
sem dúvida.
Mas peço
licença ao leitor e a Avellar para que me permitam fazer
uma retomada do tema de um ensaio que assino em “Ensaios
sobre uma década”. O título do texto é “Nós”, em que
pretendi fazer um jogo de palavras, bastante simples,
entre o pronome da primeira pessoa do plural e o sinônimo
de amarras, laços. Nesse artigo eu pretendia justamente
discutir a perspectiva que cada um de nós brasileiros
pode ter da produção brasileira de cinema, pondo em
questão inclusive os usos destes agrupamentos forçados
necessários às teorias nacionalistas, a partir de uma
leitura dos textos luminosos do crítico Paulo Emilio
Salles Gomes. Em meu texto, comentei que o leitor, qualquer
leitor, deve desconfiar dos usos do pronome “nós” e
de quando pretendem inseri-lo num grupo.
Estou
contando isso tudo para admitir minha surpresa com a
fina ironia da resenha, que, quando li, achei que poderia
passar despercebida aos demais leitores: pois bem, o
texto se inicia com o termo “imaginemos” e, ao longo
dos dois parágrafos seguintes, suas frases seguem utilizando
o pronome relativo à primeira pessoa do plural – para
depois deixar claro que o livro “Cinema Brasileiro 1995-2005
– Ensaios sobre uma década” é feito por pessoas que
não se incluem nessa primeira pessoa do plural, nesse
“nós”, uma vez que ele, o livro, usa métodos críticos
que este “nós” não usa. Cito-o : “Imaginemos, por
um instante, que estivéssemos pensando nos filmes não
como pensamos, mas com os instrumentos que a produção
industrial norte-americana criou (...)”, “Imaginemos
ainda que estivéssemos pensando nossos filmes não como
pensamos, mas com os termos da pauta proposta pela mídia(...)”,
concluindo que “O livro Cinema Brasileiro 1995-2005
– Ensaios sobre uma década não se limita a uma coisa
nem à outra, mas se alimenta delas(...)” .
Com este
uso majestático do plural, Avellar aponta que seu “nós”
não pensa tal como quem escreveu o livro, mas de outra
forma. Tão logo notei que não estou entre os “nós” de
Avellar, percebi a ironia: quem compõe estes “nós”,
no caso, podem ser Avellar e o leitor do Mais, assim
como podem ser Avellar e os colegas críticos e ensaístas
de cinema, assim como podem ser Avellar e outras figuras
de grande destaque do cinema brasileiro. Assim como
pode ser nada além do uso irônico do plural majestático.
Quero
então contar uma novidade e fazer um convite a Avellar
e todos mais, uma vez que, assim como ele, a turma da
Contracampo também continua interessada em discutir
o cinema brasileiro. Pois bem: a partir do lançamento
de “Ensaios sobre uma década”, pretendemos ainda promover
uma mostra de filmes destes últimos dez anos, com sessões
seguidas de debates – e certamente será um prazer se
Avellar nos brindar com sua presença e suas idéias sobre
o cinema brasileiro.
Sobretudo
porque acho estimulante pensar que o leitor que se interessar
por este tema poderá acompanhar esse diálogo e conferir
a relação das críticas com o que se produziu (entre
os filmes e o que escrevemos e também entre nossos textos
e a resenha). Assim, cada um pode escolher sua própria
perspectiva, que pode vir a ser diferente tanto da nossa
(de nós, da turma que faz a Contracampo) como desta
de Avellar.
Com relação a isso, novamente peço
licença aos leitores, mas eu seria injusto se
não agradecesse aqui pela atenção
que o livro da Contracampo ganhou, não apenas
no Mais da Folha, mas também em sites, jornais
e revistas como o Nominimo,
o Cine
Imperfeito, a Tribuna
da Imprensa, o Germina,
o Digestivo
Cultural, a Revista
Paradoxo e a Revista
Set. Afinal, a intenção da nossa empreitada
é conseguir estabelecer diálogos, trocas
de idéias. O pior que pode acontecer para quem
quer debater seria se ver cercado por surdez e mudez
- e me sinto no dever de agradecer em nome do grupo
se não foi este o caso aqui.
Desse modo, ao ver,
ler e dialogar, cada um pode escolher onde é o seu lugar
em meio a todos esses “nós”.
Daniel Caetano
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