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Há pouco
mais de sete anos, eu tomei uma decisão que mudaria
para sempre a minha vida: começar a colaborar com a
Contracampo. Como todas as decisões que realmente mudam
a nossa vida, eu não tinha a menor idéia naquele momento
de que ela era tão grande assim – ainda bem, senão talvez
faltasse coragem para tomá-la. Curiosamente, hoje, sete
anos depois, me sinto tomando uma decisão que altera
bastante a minha vida – mas talvez, de maneira espelhada
dentro da mesma lógica, ela não seja tão decisiva assim.
De uma forma ou de outra, o fato é que neste começo
de 2006 estou me despedindo da Contracampo. Como uma
das principais relações que estabelecemos neste trabalho
do site é com os leitores, tanto eu quanto os editores
da revista (Ruy e Junior) achamos que seria legal rabiscar
umas mal traçadas linhas aqui sobre esta saída, uma
vez que estive à frente desta empreitada por uma boa
parte destes últimos sete anos.
Comecemos
então pelo mais óbvio: não, eu não estou brigando com
a Contracampo, longe disso. O divórcio, se aqui podemos
usar esta palavra, se dá da maneira mais amigável possível.
Vários dos meus melhores amigos continuam aqui nesta
revista, e espero que nós estejamos juntos ainda por
alguns bons anos onde realmente importa: nos bares,
restaurantes e, acima de tudo, nas salas de cinema,
dividindo as primeiras fileiras perto da tela com a
paixão comum que temos. No entanto, se começamos com
uma metáfora que aproxima o trabalho aqui com uma relação
amorosa (o que sempre é, de muitas maneiras), o fato
é que era hora de repensar a relação, justamente para
que ela se mantivesse a melhor possível onde importa
mais. Tenho certeza, por isso mesmo, de que se tenho
a boa sorte de ser amigo de minhas ex-namoradas, não
seria na Contracampo que isso não aconteceria. Mas é
hora de conhecer gente nova, por assim dizer.
De fato,
há que se desconfiar muito de quem nunca mude. E ao
longo de sete anos não só eu mudei como a Contracampo
mudou. Dá um enorme prazer saber que, pelo menos no
que se refere ao nosso trabalho aqui, mudamos para melhor:
tenho certeza que deixo a revista melhor do que ela
era antes de minha entrada; mas, muito mais importante
para mim, tenho certeza de que saio dela um profissional
muito melhor do que era quando entrei aqui. Aprendi
muito sobre cinema, sobre escrita cinematográfica e
sobre pessoas trabalhando nesta revista. Fiz grandes
amigos, dividi jornadas absolutamente memoráveis com
todos eles, e penso que juntos produzimos algumas coisas
importantes para nós, mas principalmente para muitas
pessoas para além do nosso grupo – o que sempre foi
o que mais prazer deu neste trabalho.
Entretanto,
a forma como cada um de nós se entrega a este trabalho
não permite meio-termo, não permite que estejamos apenas
parcialmente dentro dele. E é exatamente por isso, porque
levamos muito a sério o que significa fazer parte de
uma revista de cinema, que precisamos seguir caminhos
distintos agora. Depois destes sete anos de mudanças
acima mencionados, nem os meus propósitos no trabalho
de crítica batem com os do site, nem o site estava se
beneficiando de me ter como editor, tendo em vista estas
diferenças. É a hora de reconhecer que os caminhos devem
seguir adiante da melhor forma, cada um no seu lado.
É importante
deixar claro, para terminar, o que eu quis dizer no
primeiro parágrafo dizendo que esta não é uma grande
mudança. O mesmo caminho, afinal, já foi seguido por
alguns nomes essenciais na história do site (como Bernardo
Oliveira, Juliano Tosi e, mais recentemente, Fernando
Veríssimo), e a Contracampo nunca deixou de ser o que
ela era – nem eles. O que acontece hoje, portanto, é
algo bem simples: quanto à Contracampo, deixo de ser
editor, passo a ser leitor. Hoje é a melhor maneira
para que continuemos sempre aprendendo uns com os outros.
Vida longa à Contracampo e seus leitores, e nos vemos
em breve numa esquina dessas aí.
Eduardo Valente
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