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Filmes
em ligação direta
Coletânea de 14 ensaios discute a produção cinematográfica
e o papel da crítica no Brasil de 1995 até hoje
JOSÉ CARLOS AVELLAR
ESPECIAL PARA A FOLHA
Imaginemos, por um instante, que estivéssemos pensando
nossos filmes não como pensamos, mas com os instrumentos
que a produção industrial norte-americana criou para
circunscrever a discussão crítica numa função de apoio
a seu modelo de cinema. Imaginemos também que estivéssemos
indo ao cinema não para ver os filmes assim como eles
são e discutir o que eles propõem, mas sim para comprovar
se eles atendem ou não ao que imaginamos como cinema.
Imaginemos ainda que estivéssemos pensando nossos filmes
não como pensamos, mas com os termos da pauta proposta
pela mídia para falar de filmes: retomada, Lei do Audiovisual,
captação, dependência do Estado ou dependência do mercado.
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A crítica aqui é um documentário sobre seu modo de produção
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O livro "Cinema Brasileiro 1995-2005 - Ensaios sobre
uma Década" não se limita a uma coisa nem à outra, mas
se alimenta delas para expressar uma insatisfação ("nestes
dez anos, como há muito não víamos, o cinema brasileiro
não construiu uma cinematografia sólida, embora tenha
produzido muitos filmes"), um mal-estar ("podemos perceber
claramente tendências, vícios, recorrências e distanciamentos
internos, numa produção tornada bastante prolífica,
embora carregada de problemas e contradições"), um descontentamento
("seguimos com algum atraso a tendência internacional"),
uma frustração com o cinema brasileiro ("atrelado que
está ao subdesenvolvimento técnico-econômico").
Não o que a produção norte-americana é, mas do que ela
diz que o cinema é ("uma diversidade cooptada, sintetizada
de acordo com propósitos econômicos e ideológicos")
propicia a criação de um espaço imaginário de onde é
possível romper a ligação direta com os filmes que fazemos
("como é difícil lidar com a produção brasileira quando
estamos inseridos nela") para observá-los à distância.
Seguir o caminho indicado pela mídia permite estabelecer
um confronto não com o que os filmes são, mas com o
que se lamenta ("a ausência de referência à classe média";
"a ausência da figura do intelectual") que eles não
sejam.
Filmes adjetivos
"Como já afirmava o crítico francês Serge Daney", lembra
um dos textos, "todo filme é, antes de qualquer outra
coisa, um documentário sobre seu modo de produção".
A afirmação pode ser transferida para os ensaios desta
coletânea: a crítica aqui é, antes de qualquer outra
coisa, um documentário sobre seu modo de produção.
Não é tema de nenhum trabalho, como de hábito nos balanços
que se fazem ao final de cada década, embora nos dez
anos examinados aqui a presença da crítica tenha sido
relevante -quer pela hostilidade aos filmes brasileiros
no começo, quer pela gradativa redução de seu espaço
de atuação, no final.
A revista "Contracampo", de certo modo, surgiu em 1998
na internet como uma resposta à redução do espaço crítico,
que, sim, nas entrelinhas, indiretamente, é o que se
discute no livro ("a disposição de participar do debate
em torno do cinema brasileiro atual e a vontade de ampliar
as visões fazem valer o risco das percepções históricas
feitas sem distanciamento histórico").
São 14 ensaios ("diversos olhares sobre temas específicos")
organizados em quatro blocos ("Temas e Gêneros", "Abordagens",
"Características Históricas" e "Crônicas"), precedidos
de uma apresentação ("Histórico de uma Década") e seguidos
de breves depoimentos de cinco técnicos e nove diretores.
Para melhor entrar no livro, vale talvez lembrar a observação
no começo de um dos ensaios: "Nas discussões e debates
envolvendo o termo "cinema brasileiro", o substantivo
"cinema" quase sempre é ofuscado pelo adjetivo "brasileiro",
ou seja, o significante sempre é jogado para escanteio
pela origem". Ter em conta que o adjetivo ofusca o substantivo
ajuda a perceber na leitura, simultaneamente, campo
(o cinema) e contracampo (a crítica).
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José Carlos Avellar é crítico de cinema, autor de "Glauber
Rocha" (Cátedra).
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Resenha
publicada originalmente na Folha de São Paulo,
Caderno Mais, no dia 18/12/2005. (link disponível
apenas para assinantes da Folha ou do provedor Uol)
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