| Filme muito bom dá taquicardia. Podemos vê-lo com o distanciamento de
quem irá depois escrever sobre ele, com aquele misto
de análise de proposta estético-dramatúrgica e de juízo
de valor sobre o cumprimento das ambições, mas, ao final,
tendemos a sair da sessão com uma paixão pouco distanciada,
tentando evitando racionalizar algo que, embora racionalizado
quando diante da tela, converte-se em emoção bruta quando
saímos do escuro para a claridade. Qualquer tentativa
de dar palavras ao conjunto de sons e imagens recém-visto
cai no superlativismo, mesmo sendo essa paixão final
originária de uma postura analítica e valorativa. Parece
paradoxal. Parece não. É. A relação com o cinema pede
incoerências, dúvidas e confusões, ao menos nos casos
extremos, ou se transforma em radiografia.
Filmes muito bons podem nos tornar mais próximos deles após o seu final.
Horas depois. Dias após. Por muito tempo. São momentos
raros da cinefilia crítica. Aconteceram recentemente,
de hoje até três anos atrás,
após Plataforma, de Jia Zhang-ke, O
Pântano, de Lucrécia Martel, Elogio ao Amor
e Nossa Música, de Jean-Luc Godard, Clean,
de Olivier Assayas, Dez, de Abbas Kiarostami,
Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira, Shara,
de Naomi Kawase, e mais outros poucos. Todos eles filmes
revistos pelo menos uma vez, às vezes em um espaço de
menos de uma semana, experiência essa talvez mais distanciada
ainda, mas não menos emocionante ao final. Nova taquicardia.
Novos superlativos. Novos paradoxos. São aqueles nossos
eleitos, não importa o que outros escrevam, mesmo sendo
esses outros, ou alguns deles, pessoas por quem temos
muito respeito.
Quando essa reação se dá com filmes brasileiros recentes, por razões
variadas, a taquicardia talvez seja maior, talvez mais
íntima, talvez mais apaixonada, não por nacionalismos
quaisquer, mas por uma questão de distância geográfico-cultural.
São filmes feitos por seres próximos, que aprenderam
a falar no mesmo idioma, que torcem pela mesma seleção de futebol, que lidam com problemas
políticos dos quais somos em alguma medida conhecedores
e nos quais estamos envolvidos, quase gente e obras
de um parentesco em primeiro grau, diante dos quais
temos o desejo de amá-los ou surrá-los. Em alguns casos,
a taquicardia, para não inviabilizar o resto do dia,
pede um comprimido: as palavras. Palavras não a curam,
mas a harmonizam. O texto sai com aquele feição de processo
imediato, automático, escrito para se organizar a intensidade
acumulada de sentimentos.
No entanto, diante da reação superlativa, uma revisão, imediata ou após
algum tempo, é um teste de fogo. Alguns filmes não resistem
a ela. Outros amplificam nossa relação com eles. Nos
últimos dez anos, essa experiência foi proporcionada
por cinco títulos: O Invasor, de Beto Brant,
Madame Satã, de Karim Aïnouz, O Homem
que Copiava, de Jorge Furtado, Bicho de7 Cabeças,
de Lais Bodanski, e Edifício Master, de Eduardo
Coutinho. Um novo filme vem se somar a esse seleto grupo.
Foi visto pela primeira vez há menos de três horas.
Pede revisões imediatas e posteriores. Causou impacto
grande o bastante, mais depois que durante, para dar
a certeza temporária, pré-revisão, de ser “o filme da
retomada” – julgamento limitado pela possibilidade ainda
escassa de organizá-lo em si mesmo e de colocá-lo em
perspectiva mais ampla – a do cinema brasileiro dos
últimos dez anos. Mas o crítico não pode virar cientista
e não reagir com emoção aos filmes, em nome do dever
de radiografar as operações geradoras da emoção, porque
isso implicaria, às vezes, em um trabalho também de
auto-análise. E isso não interessa aqui.
Cidade Baixa não tem a favor de sua intensidade a trama de intrigas
de O Invasor, o material dramático e comovente
de Bicho de 7 Cabeças, a esperteza narrativa
exibicionista de O Homem que Copiava , o contato com
poucos filtros com os seres reais de Edifício Master
ou um protagonista rico em si mesmo como o de Madame
Satã. Também não seguirá uma dramaturgia de construção
progressiva, na qual os seres e as situações vividas
ganham sentido pela associação dos fragmentos, pelo
acúmulo das informações, por nossa imersão crescente
nos ambientes. Somos apresentados a uma moça e a dois
rapazes, assim como aos ambientes por onde transitam
nos primeiros dez minutos, sem aquela aproximação com
jeito de cartão de visitas. Um único conflito é colocado
e ele será único o tempo todo. Dois amigos. Uma puta.
Os dois a querem. Ela quer os dois. Sai faísca.
Transas, suor, sangue, respiração ofegante, carícias, pancadaria, relações
corpo a corpo, sem diplomacia, com a paixâo à flor da
carne, mais que da pele. Um fime orgânico, mais que
de superfícies, no qual as emoções, sem serem tematizadas,
estão expressas fisicamente, mas uma expressão que vem
de dentro para fora. Há um assassinato, um suicídio,
um roubo, mas nada disso importa. Importa apenas os
dois rapazes e a moça, as experiências deles uns com
os outros e deles com os ambientes, deles com eles mesmos,
sem a visão dessas experiências como sintomas de um
sistema social, de um ambiente do baixo calão, do baixo
meretrício, da baixa renda, embora essas experiências
não pudessem, daquela maneira, acontecer em outros ambientes.
Os atores parecem não interpretar, os diálogos parecem
não ter sido escritos, a puta parace brotar do puteiro,
como se ali tivesse sempre vivido, sem ter uma atriz
a representá-la. Vemos a vida à frente.
Mas vemos forma, artícios, recursos empregados para, como colocado acima,
vermos a vida à frente. A câmera se instala nos ambientes,
aproxima-se dos corpos, movimenta-se em travellings
variados, seja para mudar o enquadramento em uma conversa
sem precisar cortar, seja para quase desenquadrar os
acontecimentos, procurando apenas o movimento nervoso
dentro do quadro, mas nos dando a ver somente o movimento
da câmera, uma câmera que não alcança, que não consegue
enxergar, que se irrita por não obter o foco. E o foco
ora está no primeiro plano nos mostrando uma cadeira,
deixando a profundidade de campo desfocada, um fim de
corredor onde está uma personagem. A luz muda de acordo
com o ambiente, às vezes se neutraliza, às vezes se
faz notar, mas a estilização, que lá está, não busca
uma auto-referência.
Tampouco o realismo da aproximação com os
lugares e com os figurantes berra para ser assim entendido,
tampouco as interpretações pedem para ser vistas em
seu naturalismo. A direção se faz notar o tempo todo,
mas parece não existir, parece nos dar a ver algo acontecendo
ao vivo, como se a vida fosse feita de enquadramentos
e cortes, elipses de tempo e de espaço. Lázaro Ramos
e Alice Braga discutem no vestiário de um ginásio de
pugilismo. Ele a expulsa dali. Ela sai pelo fundo do
quadro. Vira à esquerda. Corte. Reaparece, entrando
no quadro pela esquerda, descendo uma escada, como se
aquele movimento e aquele espaço fosse uma continuação
do movimento e do espaço anterior. Não é. Outro ambiente,
a escada do bordel, outro tempo, sabe-se lá se horas
depois ou o dia seguinte. Ainda há muito a ser notado
em Cidade Baixa, inclusive cortes não tão harmoniosos
e enquadramentos enfiados, mas, por ora, é mais honesto
reter o que mais impressionou de imediato. Que venham
as revisões.
Cléber Eduardo
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