Uma carta de Paris, extraviada em São Paulo

Ao Exmo. Sr. Secretário do Audiovisual Orlando Senna

Secretário,

Em minha recente estadia em Paris, o programa do Festival de Cannes que me selecionou para passar esta temporada por lá nos deu (a mim e a meus colegas) algumas oportunidades de conhecer diferentes instituições e/ou empresas ligadas ao cinema francês. Uma desta visitas que fizemos, devo confessar, me deixou muito marcado: foi quando estivemos no Centre National de Cinematographie, o CNC – mais ou menos o que seria a SAV na França (embora a comparação não seja direta, ela vale). Lá, assistimos a uma apresentação sobre o funcionamento básico das estruturas principais de financiamento e regulação do cinema francês.

Devo confessar que minha tristeza ao final desta apresentação era bastante grande. Sou contra, desde sempre, todo e qualquer sentimento de inferioridade terceiro-mundista no que se refira a qualquer coisa que tenha relação com estrutura (infra ou super), recursos, etc. No entanto, o que eu vi naquele dia (e veria repetidamente nas nossas visitas a empresas particulares também) que me causou tamanho mal-estar não foi uma questão de fundos nem de capacidade produtiva: foi, acima de tudo, ver um SISTEMA em funcionamento. Quando conversava com meu colega romeno lá do programa sobre este assunto, falávamos exatamente de que os franceses discutem e reclamam de aspectos pontuais do seu sistema (é claro), mas que o luxo desapercebido é este: uau, eles têm um sistema para discutir!

E nós, o que temos? O casuísmo de um ou outro edital, o humor desta ou daquela estatal, a adesão de velhas “amigas” do nosso cinema (as majors), reinvestindo via renúncia fiscal nos filmes das mesmas pessoas de sempre, cineastas “esfomeados” atropelando-se uns aos outros pela migalha que cair primeiro no quintal deles... E, acima de tudo, um medo ENORME de que tudo possa mudar da noite para o dia com a substituição de um secretário, de um ministro, de um presidente.

Mas talvez o mais patético não seja isso. O mais patético é sentir que a briga não é só interna do meio cinematográfico, nem só por míseras verbas de produção. Há uma briga anterior, uma briga quase absurda, onde é preciso que se discuta se o país precisa se preocupar governamentalmente, orçamentariamente, com essa tal de Cultura, com esse tal de Cinema.

No CNC, naquele dia, eu vi mais do que apenas meandros de um sistema montado. Mais do que ver como se permitia uma conexão direta entre bilheteria e produção (em moldes com os quais nem sonhamos por aqui ainda), como se ligava dinheiro de televisão com dinheiro de cinema, ao mesmo tempo que se separava bem uma coisa da outra (em moldes que nem nossa pobre natimorta Lei da Ancinav previa), ou como se pensava o financiamento de um projeto e do cinema como um todo a partir de um conjunto de medidas e de fontes onde nunca se depende somente de um mesmo lugar de origem sempre. Eu vi muito mais do que tudo isso, e foi aí que eu senti o golpe: eu vi que, para este sistema todo existir, havia um pacto anterior que nós não estamos nem perto de atingir e sem o qual todo o resto estará sempre à beira de ruir. Este pacto é o da simples existência do CNC, dos seus fundos, da sua autonomia de atuação: é o pacto de como é importante existir um cinema francês, de como é importante poder pensar constantemente o que deve ser este cinema francês. Sem este pacto social, nada mais existe. E é no vazio solitário da ausência dele que eu nos sinto boiando, à deriva sempre.

Claro que mal sabia eu como eram dias simples aqueles. Não havia ainda mensalão, não havia ainda possibilidade de se usar a palavra impeachment, não havia a greve dos funcionários da Cultura. Em suma, não havia ainda esta sensação de que um Governo acabou sem ter acabado, de que qualquer verba ou iniciativa que este propuser agora será tão frágil que não sustenta-se na luz do dia. É verdade, já havia a ressaca do “recuo estratégico” da Ancinav, mas eu juro que acreditava nele então. Acreditava que era importante traçar um outro caminho depois da guerra suja que foi travada sobre este assunto. Não sabia eu ainda do futuro Ministro das Telecomunicações Hélio Costa, do enterro total de qualquer reformulação da Lei Geral desta área que logo viria, nem muito menos do resto todo que recolocaria as coisas bem claras nos papéis que por uns meses achamos que elas podiam sair: uma mídia televisiva poderosa, um Governo fragilizado. Equilíbrio desigual, esperanças afundadas. Continuamos militando no pouquinho que sabemos fazer (filmes, críticas, festivais) simplesmente porque não sabemos fazer outra coisa. Mas eu hoje milito sem um norte, devo dizer. Milito quase por militar.

Faz três anos que você e sua equipe estão no Ministério da Cultura, e eu não consigo dizer se avançamos neste tempo. Eu acho que vocês fizeram tudo para que isso acontecesse, e eu admiro a insistência, a resistência, em bater com a cabeça nas paredes. Mas me desculpe por algo que eu preciso dizer: hoje eu não acredito mais que algum dia teremos um sistema. Não um sistema como eu vi naquele dia, um sistema que não precisa discutir o porquê, simplesmente viabiliza o como.

Talvez eu seja só jovem demais, ansioso demais – mas ao mesmo tempo me sinto é velho demais. E do alto desta velhice, eu digo: o piripaque que me levou a um hospital nas vésperas do trigésimo aniversário, não tenho dúvidas, começou naquele dia, no CNC. É difícil o coração resistir à perda de fé em alguma coisa. E eu tinha me prometido, bem cedo ao escolher este caminho, que eu não ia deixar o cinema brasileiro me matar, como matou tanta gente. Nem que eu tivesse que desistir dele. E aí, Secretário, eu divido com você esta dúvida, que é a minha no momento: desisto?

* * *

Ao jovem cineasta Guile Martins

Guile,

Te procurei naquele dia no MIS-SP, logo depois de ter visto teu curta, Sobre a maré, numa sessão do Festival de Curtas. Tentei te demonstrar um pouco da minha emoção, da minha alegria em ver o teu filme na tela do CCSP, um filme de enorme coragem de realização, de um desprendimento de compromissos que só pode ser atingido por quem cria com a poesia solta do audiovisual que você (com sua equipe, claro) criou neste filme. Mas acho que demonstrei pouco. Demonstrei, talvez, quase nada perto da alegria que aquela sessão foi para mim.
Porque a concretização do teu filme, com a beleza que ele tem, é para mim mais do que apenas a alegria de ver um jovem diretor que nasce, de ver um belo filme brasileiro pronto (o que já me alegra muito). Não, teu filme é muito mais especial que isto para mim. Para começar porque é um filme do Projeto Sal Grosso, do Festival de Cinema Universitário. E estes dois (projeto e festival) são duas das utopias mais bonitas que eu vivi no meu curto trajeto no cinema brasileiro. A utopia de um festival que nasceu da vontade de alguns estudantes de exibirem seus filmes e verem os dos colegas de outras universidades, de outros estados. Que se manteve existindo quase sem dinheiro, mas com enorme entusiasmo, paixão mesmo, dos seus idealizadores. Mas que, não satisfeito com essa paixão, foi arranjar sempre as formas de viabilizá-la, e que hoje recebe verbas de uma Petrobras e de um Centro Cultural Banco do Brasil simplesmente porque mereceu isso, construiu isso com trabalho, qualidade, cinema.

Depois, eu vi nascer dentro do Festival este projeto Sal Grosso, outra utopia sem tamanho. Num Festival já com enormes dificuldades de se realizar por si mesmo, nasce o desejo de produzir um filme, de juntar jovens de universidades diferentes num mesmo projeto, de realizar um filme fruto de paixão, nem mais nem menos, de inventar, de novo, um jeito de viabilizar este sonho. E este projeto acontece, e os filmes vão existindo, e eles são cada vez melhores. Se o Festival será sempre, para mim (mesmo que hoje afastado dele, e que nem tenha podido estar na sua sonhada décima edição, por estar fora do país), a encarnação de tudo que há de bom, de bonito, no sonho de fazer cinema. E o Projeto Sal Grosso é a maior manifestação disso.

Mas teu filme era ainda mais especial, porque eu estive lá no nascedouro. Estive num workshop de roteiros com estudantes universitários que foi, talvez, uma das melhores experiências que já tive. Lá, discutimos os projetos de vocês (eu e os outros dois work-choppeiros, Bruno Vianna e David França Mendes), vimos nos olhos de cada um seus desejos e sonhos de cinema. E ali mesmo escolhemos o teu projeto: projeto que foi escolhido não porque fosse o melhor roteiro, porque não se tratava de um concurso de roteiros (como seria um concurso de contos, de obras prontas e finalizadas, tendo atingido o seu ápice) e sim de escolher qual filme ser feito a partir daqueles roteiros.

Há uma diferença aí que parece sutil, mas que não é: roteiro é um pedaço de papel. Filmes são imagens e sons projetadas numa tela. Um concurso de roteiros para produzir um filme não pode escolher o “melhor roteiro”: tem que escolher o melhor projeto, e isso vem também do roteiro, mas vem de conhecer os realizadores que colocarão este na tela, de ouvir eles falarem sobre como farão isso, de ver e perceber a potencialidade de cada um em fazê-lo. E foi assim que eu e meus dois colegas escolhemos o teu projeto: ao ver em você o cara certo pra levar aquele roteiro para a tela. Ciência não exata esta, claro, mas se exercida com um mínimo de seriedade, também nem tão esotérica assim. Depois de participar de algumas absurdas comissões de seleção em concursos onde realizador e roteiro nunca pareciam estar conectados, onde mérito, trajetória e projeto artístico pareciam ter peso nenhum perto de palavras em papel, que prazer foi dividir aquele processo com aqueles doze projetos, seus realizadores, e dois colegas de banca. O prazer não só de fazer uma escolha consciente, mas de saber que todos saíram melhores dele: o ganhador, os que não tiveram esta sorte, e mesmo os membros da banca.

Pois foi com este peso que vi teu filme surgir na tela, mais de um ano depois: como a concretização de todos os meus sonhos do que deveria ser a construção de um cinema. De um Festival que só existe por amor, seriedade e mérito, deu-se origem a um projeto idem, que deu origem a uma escolha de premiados pelos melhores critérios. Para mim, que teu filme bata na tela com a força que bate não é, portanto, puro êxtase estético (embora o seja, muito). É a presentificação de uma utopia de arte, uma utopia de mundo: onde quem merece, quem deveria fazer, consegue traçar o caminho, vai e faz.

Parabéns, Guile, teu filme faz sonhar muitas e muitas vezes. E o presente que ele é para mim você nem imagina. Faz a gente pensar em não desistir, mesmo porque você me disse, naquela época, que era o que você estava quase fazendo antes de ganhar o prêmio. Que bom que você não desistiu, e que hoje existe Sobre a maré, para sempre. Tomara que tenhamos forças, rapaz, para o passo seguinte!

Eduardo Valente