brasileiro demais
Parte I

O diretor do Festival de Veneza, Marco Muller, justificou mais ou menos assim o veto, na seleção do evento, de três filmes brasileiros recentes: são brasileiros demais. Essa peculiaridade de cada um deles, segundo Muller, deixou desorientados os selecionadores, que, ainda segundo Muller, em entrevista à rádio e ao site da BBC Brasil, não entenderam nada de nada. Algumas considerações: em primeiro lugar, Casa de Areia, de Andrucha Waddington, Um Crime Delicado, de Beto Brant, e Quanto Vale ou é Por Quilo?, de Sergio Bianchi, os três candidatos de difícil compreensão, são apenas filmes brasileiros, como todos os filmes do Brasil, mas não brasileiros demais.

Para entender o que é "brasileiro demais", convenhamos, é preciso entender o que é a "marca brasileira". Nas útimas décadas, essa discussão, por razões mais históricas do que propriamente estéticas, jamais foi abandonada. Cobra-se dos filmes brasileiros uma brasilidade artística, sem, porém, ninguém ter na ponta da língua ou dos dedos nas teclas a lista definidora dessa brasilidade. Seria o cenário (sertão, favela)? A abordagem dos personagens por suas condições sociais? A câmera na mão? Imagens do povo? O cinema que foge disso, por essa lógica de agendamento e programa de definição de brasilidade, seria menos brasileiro?

Partamos de uma inversão de estratégia analítica. Vamos presumir que é brasileiro todo filme, digamos assim, rodado no Brasil e por brasileiros. Digamos que isso vale, sem nenhuma provocação, para todos os filmes. Tanto para Narradores de Javé, de Eliana Caffé, como para Jenipapo, de Monique Gardenberg. Vamos supor que Julio Bressane, mesmo em Dias de Nietzsche em Turim, é tão brasileiro quanto Rosane Svartman. Partindo dessa premissa bem simples, quase simplória, teríamos de descobrir sempre o brasileiro, ou melhor, as características do cinema no Brasil. Cada filme avançaria nesse acúmulo de características e a soma delas inviabilizaria uma síntese classificatória. Em vez de aplicarmos um projeto ideal do que desejamos para o cinema brasileiro, de modo a medir a brasilidade desse ou daquele filme, teríamos de realmente descobrir como ele é por meio dos filmes, sem hierarquizar os filmes por sua fidelidade ou traição do ideal brasileiro de cinema. Todos os filmes seriam, em igual medida, brasileiros demais.

Mas é claro que, ao pronunciar a frase, Marco Muller, salvo engano, não refletiu sobre isso. Sua colocação só teria sentido se as situações narradas nos filmes dependessem de um conhecimento razoável da realidade e do processo histórico-social brasileiro para se assimilar a proposta e o sentido das obras. Só os brasileiros, se esse fosse o caso, entenderiam. Pode-se até levar essa hipótese em conta para a incompreensão de Quanto Vale ou é Por Quilo?, único dos três filmes a tratar de forma mais concreta uma questão da realidade brasileira, mas talvez seja preciso estar com noites de sono sem dormir para não entender nada da obra. Em relação aos outros dois filmes, que não convocam do espectador nenhum conhecimento para assimilar os acontecimentos em quadro, a incompreensão é caso clínico.

Talvez essa incompreensão, mais que de assunto, deriva da recusa da forma. Nenhum dos três filmes opta por narrativa redondinha e linear. São obras quebradas, no tempo e no ritmo, que exigem imersão, não apenas uma atenção distraída. Comissões de seleção de festivais, não se pode ignorar isso, trabalham em condições hostis: muitos filmes em poucos dias, o cansaço natural e a progressiva impaciência, inevitável diante de um volume imenso de filmes (nem todos bons – e filme ruim cansa mais), certamente pesa em uma avaliação dessas. Não haveria nenhum problema, portanto, se os filmes fossem apenas recusados, bem ou mal entendidos. O problema está em creditar essa recusa a uma explicação com implicações políticas, estéticas e mercadológicas.

Muller sugere aos diretores brasileiros que pensem no público estrangeiro ao criar. Em outras palavras: que os filmes brasileiros sejam mais claros, mais compreensíveis, mais didáticos sobre suas propostas. Como na tortuosa lógica dele os filmes brasileiros são brasileiros demais, por isso incompreensíveis, sua recomendação é um pedido para que os diretores sejam menos brasileiros e mais internacionais. Em outras palavras: que saibam se fazer entender ao optar por uma linguagem mais codificada. Que deixem fazer os filmes como pretendem fazer, melhores ou piores, para tentar fazer filmes alinhados com uma estética "world cinema". Que sejam o que esperam deles, não o que desejam expressar. Portanto, apressada e equivocada, a frase de Marco Muller, em um momento no qual a lógica de produção internacional tende a criar nichos estéticos mais ou menos previsíveis (independentemente da origem), é de uma falta de cabimento sem tamanho. Melhor seria se dissesse: vocês precisam fazer filmes que se preocupem em ter relevância para o cinema – e não apenas para a condição de brasileiros e para o cinema do Brasil. Seria outra conversa. Essa sim, pertinente.

Cléber Eduardo