as portas da justiça
de Gianni Amelio, Porte Aperte, 1990, Itália

O estilo de Gianni Amelio é discreto, às raias da invisibilidade, tendendo ao academicismo em momentos. Um diretor regular, então, sem assinatura e sem maiores interesses? Não com tanta pressa. O que a visão conjunta de seus filmes comprova é um diretor sutil, cuja preocupação principal passa um pouco longe do que é celebrado hoje no universo do cinema de autor, mas ainda assim algo de uma força surpreendente. Espécies de marcos de laconismo, Golpe no Coração (realizado em 1982, mas seu trabalho anterior no longa-metragem) e As Portas da Justiça são pequenos experimentos sobre o impasse moral, tomando figuras de proa identificadas com um certo cinema político – Jean-Louis Trintignant no primeiro, Gian Maria Volontè no segundo – e os coloca não como aquele típico herói positivo da decisão e da ação, mas ao contrário, como figuras em sursis, observando o mundo se decidir todo na frente deles, desencadeando processos que eles não podem controlar, e possivelmente nem conceber a tempo. A discrição estilística do cinema de Amelio transparece delicadamente nesses momentos “brancos” em que a narrativa parece tragada sobre si mesma e a própria compreensão do filme parece se esvaziar num oceano de indefinição. O branco ao final do filme não é uma metáfora, mas a admissão de que não há imagens para filmar o momento em que uma vida é salva à sua própria revelia, pelas palavras de um outro homem que viveu num outro tempo. Amelio, cineasta da materialização e, paradoxalmente, da materialização impossível?

As Portas da Justiça – título um tanto inadequado para traduzir a ambigüidade e o centramento na questão das “portas abertas” assim como referidas no discurso de um personagem fugidio no filme – a princípio se estabelece de forma bastante seca, ainda que amparado por uma luminosidade neoclássica e enquadramentos bastante controlados, tendendo para o plano médio. Um homem reaparece, mata seu ex-patrão, mata a pessoa que ocupou seu antigo cargo, e posteriormente mata sua esposa, depois de tentar violentá-la. Quem é esse homem? O que o leva a cometer friamente três assassinatos? O filme não enveredará por essa seara, e de todo o ocorrido saberemos muito pouco. O foco de Gianni Amelio está em outro lugar: no ofício de juiz, na forma como uma simples tomada de decisão pode ser responsável pela vida e pela morte de outra pessoa. É aí que As Portas da Justiça toma a arriscadíssima e a apaixonante decisão de se perder junto com o protagonista. A culpa do réu já está estabelecida; ele mesmo já está preparado para a pena capital, que considera justa; Volontè, no entanto, precisa de tempo para pensar, para medir, para... julgar. Julgar seria aplicar a fria letra da lei geral aos casos particulares? Observar como a cada comportamento corresponde um código, um artigo que prescreve uma sentença? O juiz que Volontè interpreta não tem tanta certeza, e procura ganhar tempo – mais para si mesmo do que para uma “bandeira” que não existe no filme – criando uma pequena cortina de fumaça: pedindo teste de sanidade do réu; perguntando às testemunhas coisas que em princípio até poderiam revelar alguma justificativa atenuante para os crimes, mas que se revelam apenas como índices da própria confusão moral do personagem. Amelio aí é comovente: ele nos instala profundamente nesse ambiente de confusão, de incerteza, faz o sentido e o laconismo da câmera cambalear tanto quanto o personagem, não dá a nós, espectadores, nenhum conforto em relação ao dilema do protagonista. Ao contrário: para nós, o que pensa Volontè é inatingível; seu rosto, uma pedra.

Há, do cinema italiano dos anos 80 até hoje, uma pronunciada e um tanto traumática tentativa de prestar contas do terrorismo. Depois do advento das Brigadas Vermelhas, do seqüestro e do conseqüente assassinato de Aldo Moro, muito se filmou na Itália tentando dramatizar a situação de grupos políticos extremistas, e no limite a questão do assassinato e do direito à vida. O extraordinário Golpe no Coração circula em torno de um filho descobrindo as ligações de seu pai como possível mentor de um grupo terrorista. As Portas da Justiça, se não circula em torno da questão do terror político, é assombrado inteiramente pela questão da legitimidade do assassinato – desta vez o assassinato institucional na figura da pena de morte. No que se note, de forma transversal mas não menos flagrante, das semelhanças parciais com o cinema de Marco Bellocchio: personagens em impasse submetidos à passividade, dilema moral criando bolsões de “redundância” narrativa pela imersão no universo do personagem, etc. Tudo em tensão branda, invisível, prestes a se perder da nossa atenção. Sejamos atentos sob risco de perder a assinatura discreta de Gianni Amelio (no mais, autor irregular): a aparente oficialidade de seu estilo esconde uma perturbação interna nada simples. “Portas abertas”: o argumento paranóico de que se deve livrar dos criminosos para que nós possamos novamente deixar aberta a porta de casa justificaria a pena capital? Ou Amelio no fundo só está se fazendo a pergunta de forma mais simples (e é por isso que entra o genial personagem do agricultor): qual direito uma instituição tem de formalizar um processo sujo de assassinato.

Ruy Gardnier