| O estilo de Gianni
Amelio é discreto, às raias da invisibilidade,
tendendo ao academicismo em momentos. Um diretor regular,
então, sem assinatura e sem maiores interesses?
Não com tanta pressa. O que a visão conjunta
de seus filmes comprova é um diretor sutil, cuja
preocupação principal passa um pouco longe
do que é celebrado hoje no universo do cinema
de autor, mas ainda assim algo de uma força surpreendente.
Espécies de marcos de laconismo, Golpe no
Coração (realizado em 1982, mas seu
trabalho anterior no longa-metragem) e As Portas
da Justiça são pequenos experimentos
sobre o impasse moral, tomando figuras de proa identificadas
com um certo cinema político – Jean-Louis
Trintignant no primeiro, Gian Maria Volontè no
segundo – e os coloca não como aquele típico
herói positivo da decisão e da ação,
mas ao contrário, como figuras em sursis, observando
o mundo se decidir todo na frente deles, desencadeando
processos que eles não podem controlar, e possivelmente
nem conceber a tempo. A discrição estilística
do cinema de Amelio transparece delicadamente nesses
momentos “brancos” em que a narrativa parece
tragada sobre si mesma e a própria compreensão
do filme parece se esvaziar num oceano de indefinição.
O branco ao final do filme não é uma metáfora,
mas a admissão de que não há imagens
para filmar o momento em que uma vida é salva
à sua própria revelia, pelas palavras
de um outro homem que viveu num outro tempo. Amelio,
cineasta da materialização e, paradoxalmente,
da materialização impossível?
As Portas da Justiça – título
um tanto inadequado para traduzir a ambigüidade
e o centramento na questão das “portas
abertas” assim como referidas no discurso de um
personagem fugidio no filme – a princípio
se estabelece de forma bastante seca, ainda que amparado
por uma luminosidade neoclássica e enquadramentos
bastante controlados, tendendo para o plano médio.
Um homem reaparece, mata seu ex-patrão, mata
a pessoa que ocupou seu antigo cargo, e posteriormente
mata sua esposa, depois de tentar violentá-la.
Quem é esse homem? O que o leva a cometer friamente
três assassinatos? O filme não enveredará
por essa seara, e de todo o ocorrido saberemos muito
pouco. O foco de Gianni Amelio está em outro
lugar: no ofício de juiz, na forma como uma simples
tomada de decisão pode ser responsável
pela vida e pela morte de outra pessoa. É aí
que As Portas da Justiça toma a arriscadíssima
e a apaixonante decisão de se perder junto com
o protagonista. A culpa do réu já está
estabelecida; ele mesmo já está preparado
para a pena capital, que considera justa; Volontè,
no entanto, precisa de tempo para pensar, para medir,
para... julgar. Julgar seria aplicar a fria letra da
lei geral aos casos particulares? Observar como a cada
comportamento corresponde um código, um artigo
que prescreve uma sentença? O juiz que Volontè
interpreta não tem tanta certeza, e procura ganhar
tempo – mais para si mesmo do que para uma “bandeira”
que não existe no filme – criando uma pequena
cortina de fumaça: pedindo teste de sanidade
do réu; perguntando às testemunhas coisas
que em princípio até poderiam revelar
alguma justificativa atenuante para os crimes, mas que
se revelam apenas como índices da própria
confusão moral do personagem. Amelio aí
é comovente: ele nos instala profundamente nesse
ambiente de confusão, de incerteza, faz o sentido
e o laconismo da câmera cambalear tanto quanto
o personagem, não dá a nós, espectadores,
nenhum conforto em relação ao dilema do
protagonista. Ao contrário: para nós,
o que pensa Volontè é inatingível;
seu rosto, uma pedra.
Há, do cinema italiano dos anos 80 até
hoje, uma pronunciada e um tanto traumática tentativa
de prestar contas do terrorismo. Depois do advento das
Brigadas Vermelhas, do seqüestro e do conseqüente
assassinato de Aldo Moro, muito se filmou na Itália
tentando dramatizar a situação de grupos
políticos extremistas, e no limite a questão
do assassinato e do direito à vida. O extraordinário
Golpe no Coração circula em torno
de um filho descobrindo as ligações de
seu pai como possível mentor de um grupo terrorista.
As Portas da Justiça, se não circula em
torno da questão do terror político, é
assombrado inteiramente pela questão da legitimidade
do assassinato – desta vez o assassinato institucional
na figura da pena de morte. No que se note, de forma
transversal mas não menos flagrante, das semelhanças
parciais com o cinema de Marco Bellocchio: personagens
em impasse submetidos à passividade, dilema moral
criando bolsões de “redundância”
narrativa pela imersão no universo do personagem,
etc. Tudo em tensão branda, invisível,
prestes a se perder da nossa atenção.
Sejamos atentos sob risco de perder a assinatura discreta
de Gianni Amelio (no mais, autor irregular): a aparente
oficialidade de seu estilo esconde uma perturbação
interna nada simples. “Portas abertas”:
o argumento paranóico de que se deve livrar dos
criminosos para que nós possamos novamente deixar
aberta a porta de casa justificaria a pena capital?
Ou Amelio no fundo só está se fazendo
a pergunta de forma mais simples (e é por isso
que entra o genial personagem do agricultor): qual direito
uma instituição tem de formalizar um processo
sujo de assassinato.
Ruy Gardnier
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