| Em 1984 a nouvelle
vague do cinema de Taiwan já se podia dar por viva:
era lançado um filme de estrutura narrativa complexa,
uma imbricação de passado e presente que, durante 166
minutos (exatamente a duração de As Coisas Simples
da Vida), fazia desfilar uma variedade de visões
refletidas pela arquitetura envidraçada de uma Taipei
modernizada às pressas. O nome do filme é That Day,
On the Beach e seu diretor é Edward Yang, que escreveu
o roteiro em parceria com Wu Nien-jen, ator que faz
Nj, personagem central de As Coisas Simples da Vida.
Mas não há coincidência nessa história: há um cineasta
e sua relação com uma cidade em constante transformação
– um cineasta e sua obra se aperfeiçoando. Assim como
Tsai Ming-liang, Lin Cheng-sheng e Hou Hsiao-hsien,
Yang busca formas muito particulares de traduzir um
sentimento despertado pela grande cidade resplandecente
e confusa que Taipei se tornou. A maneira com que Yang
filma a “contaminação” cultural de Taipei, terra eternamente
assombrada por investimentos americanos e japoneses,
é somente comparável à Tóquio ocidentalizada de Ozu
(e vale dizer que o segundo longa-metragem do diretor
taiwanês se chama Taipei Story). As interações
sutis dos habitantes entre si e com a cidade entram
em cena através de construções que já contêm superfícies
reflexivas próprias, paredes semitransparentes que delimitam
o espaço à mesma medida que o transformam em imagem
sobreposta. O que o dispositivo especular apresentado
por Yang em As Coisas Simples da Vida evidencia,
num primeiro momento, é sua profunda consciência criadora,
mesmo porque a exuberância fotográfica experimentada
a cada plano contribui para uma composição cuja pictorialidade
não esconde o desejo de organizar e discursar sobre
o espaço.
É interessante que um dos planos
que melhor sintetizem o filme mostre exatamente um monitor
conectado a várias câmeras de segurança, com o menino
Yang-Yang correndo e transitando de um quadrante a outro
da imagem, saindo de uma porção de espaço para entrar
em outra, mas sem se deixar perder pelo registro. Filmado
quase sempre à meia-distância por uma câmera que se
espalha pelos lugares freqüentados pelos diversos personagens
do filme – e que não se confunde ao olhar destes, sendo
como um ponto de vista do próprio espaço –, As Coisas
Simples da Vida é tanto uma vigilância afetiva do
ambiente urbano quanto uma caprichosa arquitetura de
locações contíguas. O filme utiliza o espaço coletivo
para confrontar relações íntimas, e a privacidade para
agravar falhas de aproximação. O casal adolescente dá
o primeiro beijo sob um viaduto, numa movimentada avenida,
e tanto as brigas quanto o sexo reconciliatório de um
casal em um típico prédio de classe média vazam para
a vizinhança. Mas os únicos momentos de “intimidade
pura” que o filme reserva a alguns de seus personagens,
em quartos de hotéis feitos para que o mundo exterior
se anule, terminam por revelar uma entrega impossível,
uma relação de cumplicidade refreada no justo momento
em que se concretizaria. O jovem por quem Ting-Ting
se interessava desde o início do filme, e que depois
se tornará protagonista de um fait divers sangrento,
abandona-a sozinha num quarto de hotel. E o encontro
entre Nj e Sherry, seu primeiro e único amor confesso,
não ultrapassa um abraço na noite em que ela tem um
acesso de choro por conta do passado mal resolvido que
ali era trazido à tona novamente.
Mas que não se engane com o título
que o filme recebeu dos distribuidores brasileiros:
Yi Yi não é uma somasseqüência de blocos brutos
contendo cenas da vida cotidiana. Apesar de não haver
dramatização da decupagem – pois há muito mais opacidade
do que transparência narrativa em Yi Yi – e de
seu estilo passar a milhas de distância do academicismo,
para articular este filme Yang lança mão de alguns dos
procedimentos que permitiram justamente ao cinema clássico
definir sua linha mestra: inteligência editorial, composição
pictórica da imagem, agenciamento dos planos em um esquema
narrativo “fechado”, engrenagem do individual no coletivo,
paralelismos. Raras vezes na história do cinema um filme a que se pode atribuir – se não
um minimalismo – uma contenção no ato de encadear e
distribuir significados foi tão enfático no aspecto
retórico de sua mise en scène e de sua montagem.
Quando a câmera se movimenta em As Coisas
Simples da Vida, sabemos que algo novo se produz
nessa poética espacial a que Yang nos conduz com tanta
calma e sensibilidade. Do mesmo modo, praticamente todos
os cortes do filme guardam alguma ressonância plástica
ou alguma produção de sentido na passagem de um plano a outro
– o raccord é um operador ativo na significação.
Aqui o cinema assiste a uma técnica de espelhamento
que nenhum outro exemplar de filme-painel (e olha que
a lista não cansou de crescer na última década) conseguiu
desenvolver tão extraordinariamente: os planos todos
se implicam mutuamente, se completam e se refletem.
Já vimos
muitos filmes naufragarem na tentativa de ser filosóficos
e encomendar aos seus personagens uma série de reflexões
sobre o tempo e o mundo em que vivemos. Em Yi Yi
o processo felizmente não se repete: tudo que é dito
– e muitas vezes são verbalizações das idéias centrais
do filme – desfruta uma incontestável organicidade em
relação ao mostrado. Edward Yang filmou a nuca de Taipei,
filmou a parte da vida que não é possível ver senão
através da objetiva de uma câmera que alguém posicionou
de maneira amigável. Não há nada mais simpático e solidário
no filme do que o gesto de Yang-Yang de fotografar a
nuca das pessoas, para que elas possam ver uma parte
do próprio corpo que a visão não alcança. Retrato do
cineasta enquanto criança, Yang-Yang é quem dá as cartas
no fim das contas, respondendo positiva e indiretamente
a uma pergunta de Ting-Ting (“se o cinema nos atrai
justamente porque é tão parecido com a vida, não seria
melhor não ir ao cinema e continuar vivendo?”). O que
encerra o filme é a fala dessa criança diante da avó
recém-falecida, com a profunda sabedoria que resulta
de seu olhar quase literal sobre as coisas (do tipo:
“só olhamos para frente, só podemos saber as coisas
pela metade”). Yi Yi não é uma lição de vida,
mas uma lição sobre a vida, uma obra que se soma
à vida para compor um novo substrato. Por isso soa falso
pensar que o verdadeiro contracampo do filme é a vida
encenada, imaginada, ou mesmo sonhada. O pressuposto
de Yang é seqüestrar a vida para depois enviá-la de
volta com alterações sutis. Ele quer filmar o que ainda
não vimos por uma simples condição natural – nada de
condenável nem de reprovável nessa cegueira parcial,
apenas um dado da espécie. Quando Ting-Ting fecha os
olhos, com o rosto deitado no colo da avó, vê um mundo
que lhe parece ainda melhor que antes: o otimismo de
um sonho de quem está acordado. Talvez seja um efeito
semelhante o que se busca ao mostrar, lá para o meio
do filme, aquele discreto plano de céu azul entre uma
seqüência e outra. Quantas vezes lembramos de olhar
para o céu assim tão detidamente? Para quem assistiu
ao filme, é hora de lembrar.
Luiz Carlos Oliveira Jr.
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