UM CINEMA "EDUCATIVO" CONTRA A OPRESSÃO

O cinema mundial encontra-se em crise. Alguns dados estatísticos mostram a amplitude desta situação: na Grã Bretanha, contavam-se um bilhão e meio de espectadores por ano, agora existem menos de quinhentos milhões. No Japão, o bilhão e duzentos milhões de espectadores foi reduzido para cerca de 300 milhões. Outros mercados importantes como a França e a Alemanha também sofreram uma redução na ordem 50, 60 por cento. A mesma tendência se manifestou nos Estados Unidos, o país que possuí a mais forte indústria cinematográfica do mundo. O mercado italiano até agora, diga-se de passagem, se manteve melhor que os outros. Ocorreu uma contração, mas de ordem inferior àquelas que nos referimos acima. Mas neste ano, também em nosso país, os verdadeiros sintomas da crise também se manifestaram.

As causas desta recessão mundial no cinema são complexas e todas as razões levantadas, mesmo as mais banais, possuem algum fundamento. A história do cinema é caracterizada por crises recorrentes, mas esta última tem uma fisionomia particular e atingiu uma amplitude inusitada. Para aprofundarmos nas causas do fenômeno é necessário levar em conta certos dados que normalmente são negligenciados. Antes de tudo, é preciso sublinhar que se trata de uma crise estranha em nossa civilização, caracterizada pela difusão cada vez maior de imagens em nossa vida cotidiana. Isto nos faz pensar que ela ocorre devido à falta de novas idéias e a falta de adequação às novas exigências e aspirações de um público que, por causa da transformação contínua e rápida de sua sociedade, muda de fisionomia e interesses. Isto é demonstrável citando poucos dados estatísticos bem significativos (Refiro-me aos dados dos Estados Unidos, que são facilmente encontráveis e os fenômenos que eles indicam são verificáveis, em menor ou maior grau, mesmo que de maneira mais lenta, em todas as partes do mundo). Eis então o dado principal: as universidades, nos Estados Unidos, eram freqüentadas, em 1900, por 4 por cento de jovens. Isto significa que a população universitária nos Estados Unidos está superando aquela utilizada pela agricultura. Hoje, isto é, apenas 68 anos após, este percentual aumentou em 10 vezes, compreendendo 44 por cento de jovens. Este único dado é suficiente para confirmar que o comportamento e as exigências do público se transformaram. É certo que a população estudantil universitária européia é menos numerosa que a dos Estados Unidos, numa relação de menos de um quarto. (Em 180 milhões de europeus, no ano passado, 101.000 receberam diplomas nas escolas superiores, enquanto nos Estados Unidos, que contam com 190 milhões de habitantes, foram diplomados 450.000 jovens).

Estes dados nos indicam que a crise do cinema é proporcional ao grau de desenvolvimento de uma determinada comunidade. Em nossa história recente o surgimento de uma classe operária cada vez mais especializada mudou a fisionomia e os comportamentos sociais. Não há dúvidas que o perfil desta ou daquela sociedade difere de outra que vive, por exemplo, num estágio agrícola-artezanal, ou daquela que apenas atingiu a idade pré-industrial, ou de outra que se direciona à industria, ou que já é industrializada, ou que é em estado avançado de desenvolvimento e vive na sociedade de consumo, ou que se movimenta em direção de uma nova era chamada de post-industrial. As sociedades atuais, graças ao rápido progresso, são mutáveis e fatalmente possuem, nos diferentes estágios de seus desenvolvimentos, exigências diferentes. Isto se reflete também na área do espetáculo. Nós e os países que acabamos de nomear, onde se verificou uma ampla recessão no cinema, pertencemos aquele grupo de comunidade que são caracterizados pelo crescimento da população estudantil. Para decidir quais os filmes que devem ou não ser produzidos, é preciso se ater às transformações que ocorrem no tecido social e cultural.

Vejamos quais os tipos de filmes que são produzidos na Europa: esses são de entretenimento ou de "contestação", mas a diminuição da freqüência de público nas salas cinematográficas nos indica que os dois gêneros não satisfazem às exigências atuais. O cinema de contestação, por exemplo, importante sob vários aspectos, passa desapercebido pela grande massa do público, talvez porque é ou procura ser panfletário. Mas o fenômeno mais inesperado, e que qualifica a recessão, é representado pelos filmes de entretenimento – comumente chamados de comerciais – e que compõem o mais alto percentual de filmes produzidos (acima de 90 por cento), que também não conseguiram impedir a deserção de uma parte vastíssima do público das salas de cinema.

Para produzir filmes de sucesso é indispensável, talvez, que o público os reconheça como úteis e ligados a seus problemas. Para fazer isto é indispensável se referir à realidade cultural e social. Levar-se em conta, por exemplo, que os jovens universitários encontram-se em agitação nos países mais diferentes: dos Estados Unidos à União Soviética, na Espanha, França, Inglaterra, Holanda, Itália, Alemanha, Tchecoslováquia, etc. É claro que estes novos cidadãos do mundo querem eliminar o balbucio das gerações mais velhas. Eles, de maneira bem realista, clamam pelo direito à vida, de comprimir em poucos anos experiências que no passado eram permitidas somente durante uma vida inteira. Sabem que sua missão é aquela de caminhar para frente no sentido de construir rapidamente um mundo mais complexo e melhor. Estas novas gerações, especialmente aquelas que pertencem aos países mais ricos, possuem um aspecto surpreendente: mostram um total desinteresse por aquela "filosofia de sucesso" que tanta influência fez no comportamento psicológico de gerações precedentes que identificaram suas metas aos ganhos pecuniários. As novas gerações voltam a ter grandes ideais e são ávidas pelo saber. Sabem que desenvolvendo a consciência é possível, ao menos em parte, dimensionar livremente o sentido da vida e controlar algumas de suas conseqüências previsíveis. Sabem que o método para planificar o futuro são úteis para dar segurança. Aspiram a conquistar o saber e a sabedoria para eliminar a violência e a guerra que são características de sociedades primitivas. Querem que a universidade não sirva apenas como depositório do saber, mas sim como um centro de ação. Sabem que a inteligência e o saber são uma garantia contra as pressões políticas e sociais. Estão conscientes da necessidade de uma atualização constante para se orientarem claramente num mundo que se desenvolve e se transforma muito rapidamente. Para fabricar os produtos dos quais a sociedade tem necessidade, e aos quais, portanto, aspira, é preciso ter presente tudo isto. Além de tudo, é preciso levar-se em conta os estudos realizados para identificar os fatores gerais que provocam e alimentam esta expansão estudantil. Eles demonstram que no início de nosso século o incremento ocorreu devido principalmente ao aumento dos investimentos e da mão de obra. Nestes últimos trinta anos, porém, estes mesmos fatores influenciaram um aumento de renda de apenas um terço, enquanto eram revelados aqueles mais importantes tais como a educação universal e as inovações técnicas.

Tudo aquilo que até aqui expus mostra o porque, já há alguns anos, me dediquei a produzir, com as imagens, filmes e programas televisivos que possuem um caráter educativo e formativo. E tem mais. A história dos próximos trinta anos será caracterizada pelo advento de uma sociedade que já é chamada de post-industrial. (Consultar entre outros um livro que recentemente fez muito sucesso: O desafio americano de Servan Schreiber). Portanto a nova era trará consigo um certo número de mudanças fundamentais.

As características principais desta nova sociedade serão, segundo Bell e Kahn, as seguintes:

* A renda industrial será, em média, 50 vezes superior àquela do período industrial;

* A maior parte da atividade econômica, passará do setor primário (agricultura) e secundário (produção industrial) ao terciário e quaternário (setor de serviços). (O quaternário é definido como o setor mais avançado do terciário (serviços) que deixará progressivamente as leis de mercado e de lucro);

* As empresas privadas não serão mais a fonte principal do desenvolvimento técnico e científico;

* As leis de mercado (como já foi dito) terão um papel inferior àquelas do setor público e dos fundos sociais;

* A indústria será regida pela cibernética;

* O sistema educacional e a inovação tecnológica serão os principais fatores do progresso;

* Os fatores de tempo e espaço não terão mais importância nos problemas de comunicação;

* A proporção entre os rendimentos mais elevados e mais baixos será menor do que aquela que conhecemos na sociedade industrial;

* Os países que atingirão este grau de desenvolvimento terão uma renda per capita, de ao menos 7.500 dólares (4 milhões e 600 mil liras), uma semana de trabalho de 4 dias de 7 horas/cada. O ano será dividido em 39 semanas de trabalho e 13 de férias. Contando os feriados e os finais de semana, os dias de trabalho serão então reduzidos a 147, com 218 dias livres por ano.
(Eram 181 dias de férias durante o império romano!)

É evidente que tudo isto – o caminho a ser percorrido e a meta a ser atingida – nos remetem a pensar no homem e na sua maturidade. A escola, reformada e atualizada, executará esta tarefa; mas também o cinema e a televisão (que de agora em diante devem proceder conjuntamente e ser considerados como meios de difusão) terão que desenvolver um papel em primeiro lugar afirmativo e informativo e depois, passo a passo, estarão cada vez mais adaptados a fornecer os elementos necessários à educação permanente.

É exatamente isto que estou fazendo. Para concluir devo sinalizar um dado revelador: sete anos atrás, quando resolvi dar um direcionamento educativo a minha atividade (que me parecia tão óbvio e útil), muitas palavras de encorajamento me foram encaminhadas, mas poucos meios financeiros foram obtidos. Depois, há um ano e meio, encontrei, graças a grande inteligência de um homem, a compreensão de um grupo de grandes indústrias dos E.U.A, que constituíram, para promover a ação que propunha, uma fundação, isto é uma "non profit organisation". Recentemente (este é outro dado revelador), nos E.U.A., um grande número de indústrias começou a se aparelhar para criar e promover a "learning companies of section", e investem muito dinheiro neste setor. A "learning company" de uma grande indústria americana – que fabrica desde trens a televisores – gastou em dois meses (novembro e dezembro), somente em estruturação, 14 milhões de dólares. Está se transformando em opinião corrente, nos E.U.A., que os organismos que possuem grande responsabilidade sociais e econômicas devem realizar sérios esforços para incrementar a cultura. Esta me parece também uma boa estrada para fazer renascer o cinema.

Roberto Rossellini
(Originalmente publicado na "Revista do Cinematografo" em junho/julho de 1968; tradução de Francisco Magaldi)