Crítica de Trailers
2046, de Wong Kar-Wai, China/França/Alemanhã/ Hong Kong, 2004, Trailer
Não há nem palavras para descrever o que tem que ser puramente apreciado visualmente e isso é exatamente o que ocorre no trailer do novo filme de Wong Kar Wai. Sendo um trailer americano de uma produção estrangeira há a diferença, nem sempre constante, de deixar o trailer como um teaser caso fosse um filme comercial de estúdio. O que diferencia o teaser do trailer no modelo regular é que no primeiro a história não precisa ser contada, geralmente tenta-se passar o clima do filme, com poucos ou nenhum diálogo. Não sei por que existe essa necessidade do trailer posterior que vai descrever a história, às vezes arruinando a boa impressão que apenas as imagens traziam ao espectador. O teaser seria a forma ideal para divulgação de um filme, pois através das imagens despertaria o interesse por mais imagens, não importando, numa primeira instância (ou em momento algum) a história. Enfim, aqui em 2046 duas coisas curiosas acontecem: apenas as imagens e sons importam como num teaser, mas os letreiros já tentam dar um sentido na coisa, descrevendo uma breve sinopse. O fato é que dificilmente imagens tão poderosas assim serão exibidas em teasers nos cinemas esse ano. E ainda nem vimos o filme! Que 2046 venha já!
Renato Doho

O Castelo Animado
(Howl's Moving Castle / Hauru No Ugoku Shiro), de Hayao Miyazaki, Japão, 2005, Trailer
Trailer americano do novo filme de Hayao Miyazaki que pelo pouco que apresenta nos maravilha com a imaginação do mestre japonês (o uso de cores é o que mais impressiona nesse breve contato). Mais uma vez a protagonista da história é uma garota que é amaldiçoada e envelhece rapidamente; ela receberá ajuda de, entre outros, um jovem mágico. O tal castelo do título é um mistério não resolvido pelo trailer (e nos faz pensar em Oz, afinal o que é aquele espantalho numa cena?). O que podemos deduzir pelo que vemos é que o filme poderá tocar no assunto da velhice e também tendo de pano de fundo um momento de guerra neste universo imaginado. Fora toda questão do descobrimento e do amor recorrentes na obra de Miyazaki. Os dubladores da versão ocidental têm nomes como Lauren Bacall, Christian Bale, Billy Crystal e Blythe Danner. Para se aguardar ansiosamente.
Renato Doho

Crash
, de Paul Haggis, EUA/Alemanha, 2004, Trailer
Com a aclamação de Menina De Ouro, é interessante dar atenção à direção este filme realizada por Paul Haggis, o roteirista do filme de Clint Eastwood. O trailer já num primeiro momento, mostrando diversas histórias e personagens, faz lembrar Short Cuts ou Magnólia, mas conforme se desenvolve percebemos que a cidade de Los Angeles é muito importante no contexto - e isso traz à mente Grand Canyon de Lawrence Kasdan. Temos a classe média, a alta, a baixa, os policiais, as gangues, os tribunais, homens, mulheres e crianças. Se o filme consegue ser bem sucedido é algo para se conferir nas telas, mas o trailer consegue montar um bom painel, mostrando o elenco reconhecido, apontando pelas legendas e falas escolhidas o tom emocional da narrativa e tendo o auxílio de duas belas músicas - a primeira a tocar é Adagio For Strings, de Samuel Barber, logo no início, e a cantada é In The Deep, de Bird York (que consta na trilha sonora do filme).
Renato Doho

A Scanner Darkly
, de Richard Linklater, EUA/2005, Teaser
O novo filme de Richard Linklater utiliza a mesma técnica empregada em Waking Life só que agora numa trama bem estruturada (baseada em Philip K. Dick). As vantagens são visíveis neste teaser: as mudanças de físico vistas pelo escaneamento (e pelos disfarces) soam naturais nesse formato, ao invés de efeitos nada plausíveis caso fosse uma filmagem regular. O filme vem se juntar a outras produções de bom porte (como O Expresso Polar) que questionam o futuro do trabalho dos atores (as vozes são mais importantes já que as expressões podem ser modificadas ou corrigidas quando transpostas para o desenho) sem querer eliminá-los (como nas animações onde somente servem como dubladores). É, antecipadamente, um dos mais interessantes filmes do ano.
Renato Doho

The Wedding Date, de Clare Kilner, EUA/2005, Trailer
Uma Linda Mulher ao contrário? Eis o que parece ser essa comédia romântica que tem Debra Messing “alugando” Dermot Mulroney como seu namorado para o casamento da irmã e depois descobrindo um sentimento a mais pelo contratado. A vantagem é que Debra é uma ótica humorista física (em oposição ao insonsso personagem de Richard Gere no “original”) e Dermot seduz mais do que Julia Roberts (a prostituta mais fake do cinema até hoje) já que é esse seu trabalho. Uma sessão da tarde? Aparentemente sim, mas com potencial de ser ao menos engraçado.
Renato Doho

The Assassination of Richard Nixon, de Niels Mueller, EUA/2004, Trailer
Eis um filme difícil de se “vender” através do trailer. O clima e a fotografia captam bem os anos 70, com suas cores apagadas e um sentido de desespero e paranóia no ar. Sean Penn trabalha mais uma vez com Naomi Watts e parece ter a missão de carregar o filme em suas costas, fazendo um tipo muito parecido com o Travis Bickle de Taxi Driver (seria coincidência o personagem de Penn se chamar Sam Bicke já que o filme é baseado num personagem real?).
Renato Doho

Sin City, de Robert Rodriguez e Frank Miller, EUA/2005, Trailer
O maior de todos os problemas que devem ser superados na transcrição de uma história em quadrinhos para o cinema é a tradução estética entre as duas mídias. A saída mais comum é criar uma identidade visual nova e que funcione em movimento, já que uma "tradução visual literal" geralmente tem um resultado risível (Dick Tracy, Hulk) ou, em casos raros, que habita a fronteira entre o ridículo e o estilizado (Hellboy).
Um material bruto tão forte quanto Sin City, a obra-prima indiscutível de Frank Miller, em que a forma é tão inseparável do conteúdo, pedia uma solução única, mista - onde o traço dos personagens e o pesadelo claro-escuro que Basin City representa é condensado em um mundo que é realista e fantástico ao mesmo tempo. Brutamontes destroçam portas com os próprios punhos, prostitutas shaolin passeiam languidamente sobre terraços solitários (atirando um shuriken ocasional), uma aberração amarelo-ovo espreita ameaçadoramente no canto de um bar. E nada salta à vista. Tudo se encaixa na cidade cinematográfica de Miller e Rodriguez, que brilha em belíssimo alto-contraste na tela. Criar um mundo com esse tipo de coerência por si só ja é um trabalho admirável, mas o trailer deixa a promessa de ainda mais.
Três sequências apresentam as tramas que envolvem os personagens principais: Marv, Hartigan e Dwight. Mesmo quem não conhece o trabalho de Frank Miller é apresentado à versão ilustrada de cada um deles no primeiro frame de suas sequências introdutórias. Cada uma delas apresenta um pouco da cidade, da lógica de funcionamento desse mundo, das regras sociais que regem a cidade. E quando ele termina não fica o gosto de uma adaptação de uma história em quadrinhos. Fica, na verdade, o da criação de um mundo original. Um olhar desatento no futuro pode até mesmo dar a entender que os álbums de Miller são uma quadrinização do filme, e que o habitat original dos moradores de Sin City é a tela grande.
Tiago Teixeira