| Perdidas nas selvas
de concreto, as pessoas vagam solitárias em busca de
afeto, quase sem saberem. O fluxo do capital circula
muito mais rápido que o dos sentimentos, rarefeitos
e sem espaço de manifestação. Confinadas, elas vivem
em espaços desconectados, em planos estanques de longa
duração. Porque o tempo passa devagar quando se está
sozinho.
Poeta da sentimentalidade
no mundo global contemporâneo, Tsai Ming-liang constrói
crônicas fabulares sobre homens comuns, com ecos de
um quase existencialismo. Com forte caráter ilustrativo,
seus filmes estruturam metáforas vagas e indefinidas
sobre um determinado estado de coisas emotivo, um certo
“mal do século” que teria se abatido sobre os homens
que vivem nas grandes cidades hoje. Muito mais do que
assertivo – embora muitos assim o considerem e por conta
disso o taxem de pessimista –, seu cinema possui tons
alegóricos, com o objetivo de, como um espelho, provocar
identificação e reflexão; emanar uma profunda
crença no afeto como única forma de sobrevivência e
um sutil otimismo advindo de uma aposta na transformação.
Uma aposta em que o espectador, pela relação com a intensa
figurativização que retrata uma realidade um tanto calamitosa,
aliada a um realismo detalhista, possa pensar em si
e mudar a forma como se comporta no mundo.
O Buraco,
nesse sentido, talvez seja seu filme mais otimista.
Produzido como parte do projeto francês “2000 visto
por...” (que entre tantos inclui O Primeiro Dia,
de Walter Salles e Daniela Thomas e O Livro da Vida,
de Hal Hartley), ele vai além na descrição de um cenário
sentimental, compondo momentos de concreta expressão
do íntimo – os números musicais em homenagem ao diretor
chinês Grace Chang – e corporificando o “mal” em uma
epidemia – a “Febre de Taiwan”, cujos infectados passam
a se comportar como baratas, rastejando para longe da
luz – para terminar de forma muito mais alentadora.
Lee Kang-sheng,
seu ator fetiche, é um homem que vive num apartamento
em um complexo de habitações populares em Taipei. Certo
dia, um bombeiro bate à sua porta para verificar as
origens de um vazamento no apartamento abaixo. O homem
aparentemente conserta o problema, mas deixa um pequeno
buraco no chão. Lee, ao percebê-lo, começa a espiar
a moradora de baixo, Yang Kuei-Mei. Imersos numa situação
de caos social – o governo determinou áreas de quarentena
e constantes emissões encorajam os moradores não-infectados
a evacuar para uma habitação temporária até que a disseminação
do vírus possa ser contida, ameaçando com corte de água
e não-remoção de lixo aqueles que se recusarem a abandonar
seus lares –, embalado por uma tempestade que não cessa,
os dois personagens têm, naquele buraco, um meio possível
de contato humano, um espaço através do qual se torna
possível invadir o ambiente isolado do outro, o plano
cinematográfico daquele vizinho invisível (pois o apartamento
que não é o seu reside no espaço fora da tela). Ao se
darem conta da existência um do outro, os dois se apaixonam
progressivamente. Talvez sejam os únicos restantes ali
e o clima de iminência do Fim os atira numa súbita necessidade
de reverter a situação em que se encontram, de total
individualismo solitário. Lee, em sua habitual “inoperância”,
passa muito tempo quase inerte, como se pouco ou nada
pensasse e sentisse, enquanto Yang, neuroticamente,
concentra todos os esforços para conter as inúmeras
infiltrações que assolam seu apartamento. Com sua construção
um tanto arquetípica, representando “um homem” e “uma
mulher” indefinidos, eles terminam por desenhar alegoricamente
a atitude a se tomar na virada do século – olharmos
uns para os outros e nos entregarmos aos sentimentos
–, materializando a vontade de Tsai de provocar qualquer
movimento, qualquer impulso de mudança. O buraco vai
aumentando, até que Lee consegue passar uma perna por
ele, e depois outra... E finalmente chega o dia em que
ele estende seu braço e resgata Yang de sua solidão,
puxando-a pelo buraco para seu apartamento. Diferente
de Vive L’Amour, em que todos os personagens
terminam separados, cada qual com suas dores irremediáveis,
e May (também Yang Kuei-Mei) chora compulsivamente por
minutos no banco de uma praça no plano final, ou mesmo
de O Rio, no qual aparentemente o mal sem nome
que ataca cronicamente o pescoço de Xiao-kang (Lee Kang-sheng)
cessa ao final (talvez pelo afeto que recebe indiretamente
do pai, quando este, no escuro da sauna, acidentalmente
o masturba) e ele abre a janela para um novo dia.
Preocupado com
uma verossimilhança de pequenas ações que beira o hiper-realismo
(mesmo em O Buraco, a despeito do quê surrealista
que o envolve), Tsai faz de seus personagens seres que,
mergulhados no ambiente que habitam, enfrentam dificuldades
processuais com o mundo, complicações muito cotidianas,
que crescem a ponto de os assolarem. São as goteiras
e infiltrações constantes (em O Rio, O Buraco
e Adeus, Dragon Inn), as estratégias para utilizar
o apartamento vazio sem que os outros que fazem o mesmo
descubram (em Vive L’Amour), a atenção constante
para exterminar as baratas que invadem a sala e os quartos
(em O Buraco), a engenhosidade do saco plástico
para urinar sem ter que sair do quarto no escuro da
noite (em Que horas são aí?)... Como que desoperacionalizados
pelo seu entorno não-amigável, frio e impessoal, poluído
e corrompido pelo desenvolvimento tecnológico e urbanização
vertiginosos, estes personagens não conseguem se adequar
nem funcionar apropriadamente, gerando freqüentemente
cenas de tom cômico que lembram Jacques Tati. Há algo
que falta, há uma fragmentação que insiste em isolá-los
no espaço e na narrativa. Quando dividem o mesmo espaço,
não é ao mesmo tempo (O Rio e Vive L’Amour)
e quando vivem ao mesmo tempo, não dividem o mesmo espaço
(Que horas são aí?,
O Buraco e Adeus, Dragon Inn).
Tal qual os “modelos”
bressonianos, com suas ações desdramatizadas, estes
personagens simplesmente “existem” (sobretudo Lee Kang-sheng),
seguindo uma certa “verdade” dos fatos e ações que experimentam,
dentro de um quadro que respeita sua unidade espaço-temporal.
São entidades vivas, à semelhança do resto do planeta,
e sofrem, mais do que tudo, por não poderem assim subsistir
de forma satisfatória, tendo sido todo o seu meio modificado
à exaustão. Como plantas, eles correm o risco de secar.
A água abundante (chuvas torrenciais, goteiras, infiltrações,
garrafas d’água, urina, lágrimas), no entanto, de nada
adianta. Precisam do afeto de outro ser humano. Nem
que este venha através de uma câmera...
Tatiana Monassa
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