| Polemoniáceas
brasílis
Temos aqui o momento de gestação
de uma prática que se tornaria comum em nosso
ambiente intelectual. No site Digestivo
Cultural, Alexandre Soares Silva dá um exemplo
da longevidade das polêmicas, que atravessaram
os primeiros espasmos literários brasileiros
para chegar até as páginas da Internet
em abril de 2005. Nelas, segundo o crítico, “o
mais pomposo e barrigudo jornalista corre o risco de
ser xingado por um molequinho de Mogi das Cruzes. Ou
de ser contestado num detalhe qualquer por um sujeito
vagamente desequilibrado que mora entre pilhas de jornais
velhos no Baixo-Leblon”.
Realizando percurso tão extenso no tempo, fica-se
a pergunta: por que as polêmicas fizeram e ainda
fazem tanto sucesso entre nós? Elas são
produtos oriundos da libertação crítica,
mas não se pode dizer que sejam a regra dentro
de um exercício da livre expressão do
gosto. Nem toda crítica gera polêmica.
Para que isso se configure, será necessário
uma série de fatores que muitas vezes fogem ao
âmbito da vontade, mas que se originam basicamente
na capacidade do crítico em manipular a ironia.
Sua intenção primeira é atingir
a vaidade do oponente, de modo a que este corresponda.
A agressão – por vezes velada – torna-se
o cerne da atividade.
Longe de estabelecer uma especificidade brasileira,
as polêmicas nasceram com a tradição
moderna da ruptura. Schopenhauer, quando escreveu A
arte de insultar, incentivou aos que não
possuíam mais argumentos o recurso da ofensa
e da grosseria. No histerismo anti-cristão de
Niesztche subsiste o choque das palavras blasfemas.
Mas, em ambos, o motivo do escândalo provém
mais de um posicionamento absolutamente original às
convenções sociais, do que a ataques localizados...
Talvez essa gana por embates pessoais encontrada por
aqui seja mais uma das fantasmagorias de nosso “progresso”.
O Brasil sempre necessitou de uma ruptura que legitimasse
sua modernidade. Nossas mudanças sócio-políticas
primaram pelo conservadorismo, pela transição
gradual e pacífica. Neste sentido, as polêmicas
funcionavam – e ainda funcionam – como uma
encenação vazia de radicalidade, dentro
da qual se poderia exercitar a eloqüência
dos “filhotes”, que, ao invés de
romperem os elos com o passado, acabavam ocupando um
lugar na máquina burocrática do Império
ou, mais tarde, da República. Literatura e retórica
uniam-se na barganha. Nenhuma revolução
advinha após os insultos mútuos. Assim,
os laços entre crítica e ressentimento
evidenciavam-se tanto pela proximidade das partes envolvidas
na disputa – tendo como conseqüência
os deselegantes ataques pessoais – quanto pela
permanência incólume da nociva estrutura
paternalista e burocrática de equilíbrio
das forças. Aproveitando-se levianamente de uma
imagem utilizada por Cacaso,
Provocar uma polêmica
é, de certa forma, como tirar o outro para dançar.
É uma questão de acertar o passo e saber
o tom. O problema é que muitas vezes cada um
dança conforme sua própria música.
Neste samba amaxixado difícil
de acompanhar, nossa intelligentsia dançava
em estranho compasso. O desequilíbrio de um impulsionava
mais o rebolado do outro. Um tango obtuso reatava as
pernas por debaixo das mesas institucionais.
Isso fica mais claro na medida em que contemplamos outros
acontecimentos similares em nossa história. Na
década de 1980, o Brasil viu ressurgir com força
a prática das refregas intelectuais. O olhar
otimista e dançante com que Cacaso observou esta
emergência expressou bem o momento de abertura
política pela qual passava o país. Para
ele, as polêmicas reafirmavam a democracia. Mas
as ponderações de Flora Süssekind,
que as qualificou de “prática autoritária
revestida de capa democrática”, na
mesma época, não deixaram de ser um interessante
convite a uma abordagem sociológica do exercício
no Brasil. Em seu artigo Você sabe com quem
está falando (as polêmicas em polêmica),
Cacaso polemiza com a estudiosa que, por outro lado,
parte de um desses episódios ocorridos em 1985.
Polêmicas depositaram-se sobre polêmicas,
num ruidoso palimpsesto.
A tese levantada por Süssekind, em Literatura
e vida literária, é a de que as polêmicas
brasileiras traziam em sua linguagem uma tendência
autoritária. Como exemplo, ela utilizou o arranca-rabo
ocorrido entre Augusto de Campos e Roberto Schwarz,
que, em 1985, esgrimiam-se nas páginas da Folha
de S. Paulo. O integrante do concretismo brasileiro
reagiu mal às apreciações negativas
ao seu livro mais recente. Respondeu apontando a insignificância
da obra poética de Schwarz para desqualificar
suas pertinentes críticas à geração
concretista. Suas réplicas apelavam sempre para
sua autoridade, para suas credenciais, sua linhagem.
O irmão Campos reeditava as atitudes amargas
de Porto Alegre contra José de Alencar, há
pouco mais de cem anos.
Não desmerecendo o espanto contido em toda polêmica,
que muitas vezes une-se ao despertar filosófico,
deve-se apontar as perversões que a destilaram
até o ponto de reles combustível de gangorra
intelectual. Flora e Cacaso guardam sua razão.
A democracia permite e incentiva as divergências.
Mas a atitude crítica não exime a própria
crítica do olhar iconoclasta.
Desde as origens, o extremo conservadorismo de nossa
elite, por demais exclusivista e paternal, vem distribuindo
as pouquíssimas vagas disponíveis a quem
silencia ou grita mais alto. A atmosfera de animosidade
e exclusão daí decorrente, a curto prazo,
criou no imaginário brasileiro um tipo bem marcante
de inteligência. Se na Europa, já no final
do século XIX, o tédio marcou a face dos
decadentistas , aqui, foi o ressentimento a manifestação
mais profícua e paradigmática para a criação
de uma tipologia fin-de-siècle. O entediado
intelectual europeu contrasta com o ressentido brasileiro,
vítima das aventuras de um país à
beira do capital.
O intelectual ressentido
O primeiro ressentido sistematizado
de nossa inteligência foi Lima Barreto. Morreu
pobre, deprimido, vítima do alcoolismo, passando
os últimos anos de sua vida perambulando pelos
interiores do Hospício Nacional. “Ah,
a literatura ou me mata ou me dá o que eu peço
dela”, remoía o autor no casarão
da Praia Vermelha. A frustração de suas
ambições forneceria aos críticos
farto material para que sua obra fosse julgada pelo
viés do ressentimento.
Considerado o fundador de um gênero no Brasil,
a “ficção de denúncia”,
Lima Barreto carrega no corpo a inscrição
de sua obra, o que, para muitos, torna-a demasiadamente
lamuriosa e incômoda. Como bem lembra Sérgio
Buarque de Holanda, “a obra desse escritor
é, em grande parte, uma confissão mal
escondida, confissão de amarguras íntimas,
de ressentimentos, de malogros pessoais”.
O fato de externar sua condição de negro,
apontar os vícios e mazelas da sociedade brasileira,
teve como conseqüência involuntária,
no juízo do crítico e historiador, a produção
do mau acabamento. “(...) Em outras palavras”,
continua Sérgio Buarque de Holanda, “os
problemas íntimos que o autor viveu intensamente
e procurou muitas vezes resolver através da criação
literária não foram integralmente absorvidos
e nela ainda perduram em carne e osso como corpo estranho”.
Em seu prefácio para as Obras Completas de Lima
Barreto, o inventor do “homem cordial”
posicionou-se desfavoravelmente ao estilo esporrento
do escritor carioca. Por conta disto, retirou o criador
de Policarpo Quaresma do pedestal em que Caio
Prado Júnior o havia colocado alguns anos antes,
ao considerá-lo o maior romancista brasileiro.
Para Holanda, o grande gênio da literatura nacional
fora Machado de Assis, que conseguira esconder debaixo
da ironia suas origens étnicas e sociais. Nele,
triunfou a realização literária,
feita de vigilância, reserva, tato e dissimulação,
adjetivos pouco prováveis no autor de Clara
dos Anjos.
Esse julgamento tinha uma base intelectual sólida.
O requinte sempre foi ornato de grande valor para a
valorização das agressões. Schlegel,
já no século XIX, admitiria a comunicabilidade
da polêmica somente se esta não se voltasse
apenas para o exterior. “Ela só poderia
levar à correção lógica
se também fosse aplicada ao interior”,
diria o filósofo alemão, “ se
uma filosofia criticasse seu próprio espírito
e formasse sua letra no amolador e com a lima da polêmica”.
Descartes acreditava no poder da zombaria moderada,
que evitava as paixões exacerbadas para censurar
“os vícios com proveito”,
através da natural emergência do ridículo.
Dos desterros suburbanos, Lima ensaiava sua polêmica
esfuziante. Nada deu certo. Foi cruelmente ignorado
pela elite intelectual do seu tempo. Suas tentativas
por vezes soaram por demais patéticas, e o patético
só é tolerado quando provindo do topo.
A alta literatura até acolhe seus rebeldes, contanto
que sejam pródigos e não bastardos. Quinze
anos antes, o infeliz poeta B. Lopes também morria
em meio ao escárnio de seus contemporâneos.
Em versos encomendados, empolgou-se com a homenagem
ao marechal Hermes da Fonseca, chamando-o de “cheirosa
criatura”, o que bastou para que Rui Barbosa
dissesse que o fartum das senzalas, a adulação
e a servilidade estavam governando o Brasil na figura
do poeta mestiço. Não houve perdão
ao mulato ingênuo.
A falta de contenção e autocrítica
dos escritos de Lima Barreto junto a sua residência
periférica, definitivamente, não se adequavam
aos conceitos de urbanidade burguesa necessários
a isenção e sofisticação
críticas. O racismo, as injustiças, a
pequenez do corporativismo brasileiro denunciados pelo
escritor foram “desvirtuados” por
seu estilo dolorido e direto. Nossas misérias
mereciam um enquadramento mais favorável, um
filtro sépia, que as tornassem mais “artísticas”,
menos irritantemente tristes e recalcadas, como a representação
oferecida pelo autor maldito. Ele ficou como o primeiro
marginal de nossas letras, justamente por externar seu
sofrimento de maneira crua, não polida, auto-comiserativa,
no solo deixado por Caim.
O certo é que, a partir daí, nossa intelectualidade
tornar-se-ia um bolsão de possíveis ressentidos.
Carlos Heitor Cony inspirou-se nesse emblemático
tipo para criar, em O Ventre, seu amargurado protagonista,
fruto de um adultério abafado. “Só
creio naquilo que possa ser atingido por meu cuspe”,
disse a enjeitada personagem, “o resto é
cristianismo e pobreza de espírito”. Também
é conhecida a verve biliosa de João Antônio,
escritor paulista estudado por Hugo Bellucco. No conto
Abraçado ao meu rancor, vemos o retrato estourado
de um letrado sobrevivente. Em determinado momento,
irrompe no discurso uma voz impositiva, despótica,
que espreme o narrador contra a parede áspera
de sua consciência:
Se você quiser, ó,
vai chorar sozinho, no canto. Mas procure o canto mais
escuro para não encher a paciência dos
demais.
Sem estrilo, companheiro. Nada de cara de vômito,
que você não é de vomitar. No fundo
você é de comer, mamar e digerir no bem
bom.
Pois só resta isso aos
perdedores: regurgitar sua revolta. Na periferia das
belas artes, então, uma multidão de enjeitados
culturais vão se acumulando, estranhando-se na
luta cotidiana por pão com letras. Ou com imagens.
Câmera na
mão, amargura na boca
Um dos registros mais impactantes
surgido neste ano foi a de uma foto três-por-quatro.
No centro da ficha do Instituto de Neuropatologia, o
semblante abatido de Lima Barreto comove e faz refletir.
O documento da entrada do escritor no Hospício
da Praia Vermelha foi encontrado por um pesquisador
e disponibilizado pela grande imprensa, ampliado nas
capas dos suplementos culturais mais representativos
do eixo Rio-São Paulo. Sua expressão alheada
lembra muito a de um outro artista que morreria mais
ou menos com a mesma idade, só que no final do
século XX. Glauber Rocha, antes de falecer no
exílio, deixou-se fotografar como um sonâmbulo
em meio à desintegração do mundo:
olheiras profundas, cabelos desgrenhados e gestos dramáticos.
Em carta remetida de Paris a Celso Amorim, em 29 de
dezembro de 1980, desabafava:
A não ser você
e o Aluysio, não tenho a quem recorrer. Embora
não considere uma IMAGEM TRÁGICA –
aos 42 anos encontro-me pobre, doente, perseguido e
em grande fase criativa (...)
Alguns meses depois, na cidade
portuguesa de Sintra, em 9 de abril de 1981, continuaria
com seu périplo que o conduziria ao fim trágico
preconizado:
Para não ser consumido
com a malta, precisei me exilar e não aceito
soluções conciliadoras. Várias
forças políticas extra-cinematográficas
desejam meu exílio e mesmo morte.
O cineasta vinha de uma bateria
de decepções e amarguras. No Festival
de Veneza, no qual o seu filme A Idade da Terra
tinha sido alvo da sanha crítica, liderou
uma passeata que exigia melhor tratamento às
películas provenientes do Terceiro Mundo, provocando
mal-estar em seu ruidoso trajeto em torno dos cinemas
venezianos. A atriz Ana Maria Magalhães, que
acompanhou Glauber na manifestação, disse
que ele se sentia traído por tudo e todos, que
partira para uma guerra solitária, sabendo que
iria morrer, “como um animal ferido”.
Segundo Ivana Bentes, “em 1980, Glauber encarna
a tragédia do subdesenvolvimento (toda uma série
de filmes e projetos abortados), sem o glamour das utopias
e paixões revolucionárias, sem a crença
numa saída coletiva”.
Pode-se dizer que o cinema, por suas características
industriais, encontraria sérias dificuldades
na experimental Terra de Santa Cruz, levando seus desbravadores
a extremos mortais de angústia e desgosto. A
história do cinema brasileiro é pontuada
por inventores em perene embate com a onerosa engrenagem
de sonho, semeando dívidas, inimizades, para
ao final vê-la destruída pela metralhadora
leviana do juízo. A Idade da Terra não
foi exceção. Há uma série
de obras que compõem o nosso folclore noturno,
a partir das quais se explica a queda dos semideuses
brasileiros, de suas façanhas, no círculo
das abominações.
Uma outra suposta vítima da sétima arte
foi Roberto Santos, diretor do inesquecível A
hora e a vez de Augusto Matraga. Depois que o seu
filme Quincas Borba, realizado em meio a inúmeras
dificuldades litigiosas, obteve péssima recepção
no Festival de Gramado, uma profunda melancolia calou
seu entusiasmo natural. Antes de embarcar no vôo
que o levaria até São Paulo, sentiu as
dores do coração, morrendo no aeroporto
de um ataque cardíaco fulminante.
Rogério Sganzerla, há pouco mais de um
ano, confirmaria a tendência autofágica
de nossa cultura. Antes de morrer em conseqüência
de um câncer no cérebro, ouviu o estrondo
de uma pequenina e maldosa nota, que o acusava de forjar
a doença na barganha de financiamento para Signo
do Caos, seu projeto derradeiro. A lista que poderíamos
recorrer adquiriria números assustadores se somarmos
aos diretores, os atores, fotógrafos, roteiristas,
vítimas do mal do cinema. Quantos ainda sobrevivem
esquecidos, em total estado de penúria? No final
do milênio, Glauber já manifestara sua
preocupação com Lima Barreto (o cineasta),
Alberto Cavalcanti, Mário Peixoto – todos
já falecidos – , cobrando da Embrafilme
algum tipo de auxílio para que eles não
morressem “frustrados”.
A proximidade do limbo fez com que nossos homens do
cinema trabalhassem suas imagens sondados por criaturas
espectrais, prontas para puxá-los ao desterro
da ingratidão e da mágoa. Em sua biografia
Adeus Cinema, Anselmo Duarte nos deixa um legado
de extrema importância tanto para historiadores
quanto para sociólogos, psicólogos, e
tantos outros que se interessem pelo tema do ressentimento
na cultura brasileira. O laureado diretor de O pagador
de promessas levou o estudo da personagem a um grau
de exagero insuportável, jogando os leitores
nas teias da esquizofrenia brasílica. Sua narrativa
transita na ambigüidade do patético. Em
um trecho ilustrativo, Frederico Fellini compareceu
como o profeta do infortúnio, sussurrando em
seus ouvidos a maldição que sobreviria
após a almejada Palma de Ouro no Festival de
Cannes.
Pois foi isso mesmo que aconteceu, na visão de
Anselmo Duarte: o até então conhecido
ator de chanchadas ingressou no sofisticado mercado
das grandes artes mundiais, atraindo para si o pesado
soslaio da inveja. Efetivamente, para ele, o prêmio
foi o começo da decadência profissional.
A premonição de Fellini confirmou-se nos
mordidos das atitudes, nos boicotes, nas intrigas que
se sucederam:
Foi difícil me dar
conta, mas posteriormente percebi que desde a Palma
de Ouro nascera o ódio dos meninos do Cinema
Novo contra a minha condição de cineasta
brasileiro mais premiado do mundo.(...) Em outras palavras,
significa dizer que com o prêmio de Cannes nascia,
no meio intelectual cinematográfico brasileiro,
uma dor de cotovelo que me valeria o esquecimento e
a discriminação.
Sua relação com
a crítica não foi menos problemática
do que a com seus pares. As mil dificuldades que encontrou
para que a excelência de sua obra pós-Pagador
ficasse evidenciada têm vários pontos de
confluência com as agruras passadas por seu personagem
Zé do Burro, que de tudo sofreu para quitar a
dívida com a santa de devoção.
Os enormes entraves que Vereda da Salvação
encontrou para chegar até os festivais europeus
dispensa a explicação lógica, só
alcançando motivações se vistos
sob o prisma das paixões mais chãs, das
cruzes mais pesadas. Anselmo mordeu suas mãos
a cada barreira erigida entre ele e a consagração,
culpando a burocracia da ditadura, o cinema novo e a
crítica ligada ao movimento:
Desde sempre nunca entendi
a função da crítica. Sem dúvida
deve haver alguma. É possível que uma
delas seja destruir as obras.
Longe da dosagem perfeita, a
relação de crítica e ressentimento
continua exaltando os ânimos dos protagonistas
de nosso engenho cultural – entenda-se “engenho”
como corruptela de “indústria”,
não em sua forma substantiva. Muitos cineastas
ainda apontam a crítica como conspiratória
e atravancadora, ao invés de produtiva de um
dinamismo saudável entre autores e consumidores
de arte. Em matéria produzida pelo O Globo em
9 de maio de 1999, o cineasta Cacá Diegues destacou
a responsabilidade da crítica tanto na carreira
comercial de um filme quanto na saúde mental
de seus realizadores. Para ele, o futuro do cinema brasileiro
depende de um juízo sintonizado com o momento
da retomada, função que estaria se degenerando
em um juízo precário e impreciso sobre
fotografia, música, montagem e elenco. O cinemanovista
ironizou, comparando as apreciações culturais
dos vespertinos a uma conversa de donas de casa, “(...)
emitido como quem diz que a massa até que está
boa, mas falta um pouquinho de açúcar
no pão de ló”.
Na mesma página, Hugo Sukman liderou o panelaço,
partindo na defesa de seus companheiros de trabalho.
Evocando a memória de Francois Truffaut, o crítico
vinculou a falta de compostura, a rebeldia dos textos
do cineasta francês à revolução
da Nouvelle Vague, e questionou a máxima
cunhada por Paulo Emílio Salles Gomes, de que
o pior filme brasileiro era melhor do que o melhor filme
americano. Sukman lavou as mãos da crítica,
isentando-lhe de responsabilidade pelo fracasso das
películas nacionais.
Nesta conversa cheia de cotovelos, o que se sobressai,
no final das contas, é a convergência dos
dois discursos para a arena da Pólis, intermediados
por uma mídia performática e aparentemente
isenta. Os choques entre o crítico e o cineasta
tornam ambos mais nítidos para o leitor –
há uma relação de interdependência
entre as duas mágoas, algo tocantemente comum
entre elas. Não tem como abstrair o entorno de
um encontro tão prosaico e romântico. O
pano de fundo do espetáculo é o de uma
cultura tutelada, de um juízo tutelado, de um
país tutelado.
Patologias
O que acontece com o cinema
ainda hoje foi o que aconteceu com literatura no século
XIX. Ambos são responsáveis pela criação
de uma “imagem” totalizadora de
nosso espírito. Gênios que se elevam sobre
a Mantiqueira e de lá, numa espécie de
transe panamericano, expressam os mais altos anseios
e ideais do Brasil, encarnando-os. Não é
à toa que a alegoria faz tanto sucesso por aqui.
Muitas de nossas artes já não trabalham
com esta perspectiva, é certo, a própria
literatura já não trabalha. Também
a música adquiriu certa autonomia. O futebol,
então, sobrevive muito bem, apesar dos dardos
de comentaristas, e, como reza a lenda, são 150
milhões de técnicos para opinar sobre
a decisão de uma única pessoa. Nada influencia
na vontade de superação da equipe. Temos
aqui um produto cultural integrado ao sistema capitalista.
Independente dos rumores da crítica e dos cofres
públicos.
Isto ocorre pelo seguinte fato: para se fazer um jogador
de futebol, basta uma bola dente-de-leite, ou, como
testemunham muito de nossos craques, um bolorento ajuntamento
de meias. Para a música, basta uma marimba, um
candongueiro ou um reco-reco. Quantos de nossos gênios
musicais aprenderam a tocar e a cantar num violão
desafinado, com cordas faltando, com a boca banguela?
No cinema isto é impossível. Como arte
tecnológica, temos todo um aparato pré-existente,
inacessível, que atravanca a continuidade da
obra. Por falta de uma indústria, a tutela estatal
torna-se o meio mais efetivo para levá-la à
cabo. As dificuldades são imensas: terminar um
filme representa montar uma pequena fábrica,
às vezes, dedicação de toda uma
vida. A construção, entretanto, afunda
em terreno arenoso, pois foi assentada no discurso de
representação da fome, da precariedade,
do apadrinhamento.
Nossos artistas não são mais sensíveis;
nem nossa crítica mais destrutiva. O neoliberalismo,
como continuidade da cartilha capitalista, junto a uma
espiritualidade judaico-cristã produzem suas
patologias, e uma delas é o ressentimento. Niesztche
apontou isto muito bem em vários momentos de
sua obra. Nos países periféricos, entretanto,
esta patologia adquire novas sutilezas. Com o cinema,
as gradações ficam evidentes. A fragilidade
dos filmes brasileiros ao gosto encontra-se longe das
depreciações estéticas; encontra-se
em sua condição de produto cultural híbrido,
periférico: nem indústria, nem estatal
– engenho. A responsabilidade que o cinema brasileiro
ainda chama para si de “dizer o Nacional”
coloca nossos cineastas numa posição de
extrema responsabilidade. Personalizando a essência
de seu país, acabam correndo o risco de caírem
em insuportáveis contradições.
No Cinema Novo, por exemplo, enquanto a ruptura manifestava-se
em obras de arrojos formais reconhecidos no mundo, o
regime através do qual se irradiava os experimentos
foi de exceção, uma ditadura. O desejo
de revolução produziu a vanguarda artística,
mas não afetou estruturalmente a sociedade brasileira
como um todo.
O ressentimento encontra-se justamente aí, no
âmbito de uma cultura informal, atrelada economicamente
ao “Nacional”, dependente da tutela
do Estado e das matizes do verde, amarelo, azul e branco.
No desfraldar da bandeira sob esplêndido céu,
todos reivindicam um pedaço da sombra, ninguém
quer ser o bastardo. Para Maria Rita Kehl,
Se o ressentimento é
um dos sintomas do que falha no projeto igualitário
das democracias modernas, sua cura não se dá
através do apelo à benemerência
do Estado (pai), mas do fortalecimento dos laços
horizontais entre os cidadãos (irmãos),
para fazer do país não apenas uma democracia
mas, principalmente, uma república.
As frustrações
advindas de uma horizontalidade social latente refletem-se
na histeria de nossos artistas, de suas angústias
venenosas, de seus altos e baixos impactantes. Cada
uma das polêmicas que exibimos neste breve bosquejo
reparte entre si este fel produzido à margem
do capitalismo, são solidárias deste câncer.
Não foi produto unicamente da ditadura, mas da
escravidão, da miséria permanente de nossa
dependência econômica e de uma série
de outras conseqüências de posicionamento
subalterno, surgido a partir de nossa inserção
no mundo capitalista.
Correndo os olhos no melancólico panorama das
querelas brasileiras, o desespero de Glauber Rocha,
que sentindo próximo o fim, exigia do governo
brasileiro a compra de sua obra – que ele chamava
ironicamente de Pacote Glauber –, remete
aos apelos de outro artista importantíssimo para
nossa Nacionalidade. Em 1877, João Caetano tomava
um copo d’água quando recebeu a notícia
de que não seria mais subvencionado pelo Império
do Brasil. Atrás da decisão, existiu a
figura do deputado José de Alencar – nem
as polêmicas, nem o ressentimento do novecentos
se explicam sem ele – que teve a peça O
jesuíta desprezada pelo grande ator em detrimento
de adaptações de melodramas franceses.
Caetano, enfermo, escreveu à Câmara uma
emocionada carta. Logo depois de ter sido recusado seu
pedido de retorno ao privilégio imperial, morreu,
deixando mulher e filhos na mais extrema pobreza.
Urtigas secas
Assumir dentro de mim um lado
tão mesquinho custou-me algumas horas de estudo
pausado; justificá-lo diante de mim, um pequeno
aprendiz das letras, fez-me atravessar a história
atento às fraquezas de nossos maiores artistas,
de nossos deuses decaídos. Tenho em mim todas
as paixões, incluindo entre elas a paixão
crítica. O que será a Verdade senão
um espasmo incontido diante da morte, um grito, um esgar
sobrevivente?
Abolir a polêmica da possibilidade do juízo
seria amordaçar o corpo, penitenciá-lo
na impossibilidade da expansão catártica,
das expressões espontâneas. Mas o movimento
de encontro à provocação não
deve estar alheio ao dilaceramento. As palavras são
uma extensão de nosso corpo. Através delas,
nossos rins ficam mais expostos ao choque. Nossos rostos
mais recortados ao fundo. Portanto, antes de partir
para o exíguo espaço dentro do qual se
configuram as imposições do gosto, deve-se
ao máximo preparar-se para as conseqüências
da crítica, de modo a que o ressentimento não
destrua nossos argumentos e, o que é pior, nossas
vidas.
No Brasil, em função de uma cultura em
si mesma personalista, carregando todas as contradições
que a encarnação do nacional permite,
tem-se a potencialização deste sentimento
demasiado humano, forjado na impossibilidade de cisão
entre o pessoal e o coletivo, entre as pretensões
artísticas e as impossibilidades geradas a partir
de uma estrutura econômica comprometida com a
dependência. Tudo acaba personalizando-se neste
jogo de inclusão e exclusão patrocinado
por leis, concursos e bolsas despendidas por um poder
endividado. Não é de se estranhar, portanto,
se a mais bem intencionada das críticas seja
apontada como produto desta constante, como fruto do
ressentimento de um excluído. O problema é
quando toda uma sociedade fica imobilizada em função
destes mecanismos precários, diante do qual nenhum
juízo consegue seu intento transformador. As
paixões não podem ser colocadas a serviço
do imobilismo.
Sentado em minha cadeira, fumando um cigarro, olho para
o raminho de urtigas tenras que com custo segurei até
aqui. Agora, está desidratando dentro de um copo
vazio de requeijão. Quando secar, colocarei a
folhagem morta entra as páginas de algum livro.
A figura de linguagem que me levou até os confins
do ressentimento, empolando minha pele, conectando-me
diretamente com a tradição da polêmica,
da difamação, encontrará um dia
seu lugar apaziguado. Mas ainda é muito cedo.
Guilherme Sarmiento
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