crônica
Hasta la ziriguidum siempre

Comecemos com a figura do Cowboy. Aquele sujeito solitário, que resolve tudo pelos próprios meios e seguindo as próprias regras, disposto a matar algumas centenas de índios para assegurar sua permanência em um território que não é seu, eficiente, implacável, independente. É tão óbvio que chega a ser infantil comparar esse estereótipo com o que ele representa para seu país. Melhor, o que ele representa do seu país. O espírito americano é claramente representado em um dos conceitos mais utilizados e remixados do cinema mundial, o Cowboy sempre foi e será os Estados Unidos.

Estão sendo exibidos essa semana ainda nas salas do Rio de Janeiro os filmes Cabra-cega (de Toni Venturi) e Quase dois irmãos (de Lúcia Murat). Os dois tiveram uma certa visibilidade e falam, cada um de sua maneira, sobre a época da ditadura e daqueles que lutaram contra o regime opressor, feio e bobo. Se juntarmos esse filme com alguns outros, como O que é isso companheiro?, etc, dá pra ter uma noção dessa figura mítica que está aparecendo em nosso cinema: o guerrilheiro.

Dada nossa clara falta de figuras arquetípicas na filmografia brasileira dos últimos anos, o Guerrilheiro poderia muito bem ocupar esse lugar no imaginário do país. Parece uma figura vista com carinho pelo público, talvez pela sua luta apaixonada pela liberdade do país. Ninguém nega isso, ninguém nega que a luta armada teve seu lugar nesse processo e deve ser vista com respeito. O engraçado é que esses três filmes trazem um dado importante sobre essa figura. Além de um apaixonado e corajoso o guerrilheiro também era um chato sem senso de humor em muitos casos, altamente boçalizado.

Só um guerrilheiro pra fazer fracassar um sequestro elaborado por causa de uma vizinha fofoqueira. Pra ficar deprê no seu claustro e enfiar a cara na janela, ou pior: ir almoçar no terraço com direito a dancinha. Pra ser tapado a ponto de se saber de cor todas as frases de efeito do Mao mas justificar o assassínio de um gato inocente pra fazer um pandeiro com o sofrimento dos guerrilheiros do Chile. Pra ter crises existenciais ao se descobrir atraído por uma mulher, ai Creuza.

Venho então, por meio dessas digitadas linhas de uma coluna atrasada um mês (mil coisas, bicho) fazer um apelo: Não deixem o Guerrilheiro se tornar uma representação do Brasil. Voltem pros Malandros por favor. Eles eram muito mais divertidos, tinham a malemolência, a ginga, o jeitinho cretino do brasileiro, se vestiam melhor e curtiam um chapéu alinhado. Importante: também tomavam banho e corriam atrás de mulher. Façam mais alguns Madame Satã e cimentem essa imagem na cabeça do brasileiro enquanto ainda há tempo.

Pretty pretty, please.

Tiago Teixeira