cartas de paris - III

Queridos amigos,

Eu bem sei que minha correspondência anda atrasada – mas, por incrível que pareça, esta vida de trabalhador, misturada com turista, misturada com abraço incondicional à cinefilia sem limites tem me deixado num constante misto de falta de tempo/excesso de reflexões, onde, quando se une a primeira à segunda, o que acaba acontecendo como resultado é a constante sensação de não se saber por onde começar, e por isso mesmo acabar sem se começar nunca. Desculpem se os deixei na mão de alguma forma, mas com este tempinho que sobrou aqui e agora, preferi mandar três rápidos cartões postais, ao invés das longas missivas anteriores, para ver se pelo menos dessa maneira dava conta de, seguindo a minha promessa inicial, dividir um pouco com vocês as minhas vivências daqui. Espero que, neste caso, três cartões se igualem a uma carta. Julguem vocês...

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Queridos Gilbertão e Sérgio,

Primeiro a explicação, o porquê de endereçar-me a vocês: ao longo dos anos de cinefilia hardcore que vivo, digamos, desde 1988, sem dúvida os festivais são o momento de maior entorpecimento (o qual, não por acaso, muitas vezes acaba seguido de uma overdose). É uma época entre o mágico e o obsessivo, a qual eu tenho vivido principalmente no Festival do Rio (que acompanho, com diferente freqüência nas suas diferentes encarnações e nomes, desde 1991) e na Mostra de SP (desde 1995). Dentro destes eventos, não existe nada mais peculiar do que as verdadeiras amizades que surgem com aqueles rostos que cismam em cruzar com o nosso, sala após sala – amizades estas que, em alguns casos, acabam se perpetuando pela vida, mas mesmo em muitos outros casos em que duram só o tempo das mostras, nem por isso são menos sinceras. Neste contexto, sem dúvida vocês dois são para mim os grandes exemplos dos caras que conheci nestes lugares (um no Rio, o outro em SP), e que hoje fazem parte do meu círculo mais próximo de amigos – e, para alegria ainda maior, acabaram sendo “arrastados” para militar também aqui na Contracampo, mesmo com suas formações e atividades profissionais um tanto distintas.

É por isso aí que eu acabo pensando muito em vocês no meio daquilo que eu descrevi na primeira carta de Paris que eu mandei – a sensação de viver, a cada semana, um festival de cinema diferente. Sempre sinto a falta de vocês na correria de uma sala para outra, afinal, se é verdade o que prega a famosa piada na qual não basta ao homem comer a Sharon Stone, sendo igualmente necessário ter os amigos para contar o feito, fazer sozinho o périplo das salas por aqui tem algo de um tanto melancólico também. Eu queria estar aqui dividindo com vocês a possibilidade do caótico mergulho na história do cinema (em especial o americano – como, aliás, prometo contar numa carta, logo logo), assim como as descobertas e decepções constantes que o circuitão aqui nos dá – os superestimados filmes “da moda” ou os pouco vistos “filmes essenciais”.

Não há dúvida de que a melhor coisa deste “festival semanal” é a sensação nítida de que você é o seu próprio curador. Uma sensação falsa, é claro, uma vez que o circuito de Paris também reflete uma série de recortes (eu, por exemplo, como posso acompanhar o cinema brasileiro de forma quase completa, posso enxergar vários dos equívocos-escolhas que o circuito daqui acaba fazendo – tanto no que se refere à História quanto à atualidade do nosso cinema). Mas, ainda assim, é o mais perto que se pode chegar dessa experiência-total ideal do cinéfilo, porque a variedade é tamanha, que os mais variados recortes pessoais são sempre possíveis – e a sensação mais constante aqui é a de que se um determinado filme existe, em algum momento ele passará no cinema em Paris; e, portanto, teremos a chance de vê-lo. Poder fazer esta curadoria autônoma é essencial para alguém como nós, principalmente para que possamos fugir da curadoria que fazem os nossos festivais. Curadoria esta que eu nem quero discutir no sentido de sua qualidade, porque sei que o que leva ou não um filme a um festival é muito mais complexo do que o gosto dos seus curadores (há os pacotes de distribuidores, as negociações com os mesmos, a indisponibilidade de cópias etc). Mas vale simplesmente constatar que esta curadoria representa um recorte tão específico que, muito mais significativo do que o que se mostra, é tudo aquilo que acaba não se mostrando. E, para quem como nós, geralmente precisa depender desta curadoria para “sobreviver” é impressionante constatar a prisão em que ela nos põe – prisão da qual Paris parece ser a chave da saída.

É dentro desta minha liberdade adquirida que eu queria dividir com vocês algumas das coisas que tenho visto por aqui e que nossos festivais não andam dando conta...

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Queridos editores Ruy e Junior,

Bem sei que vocês (claro que não só vocês, mas principalmente) também andaram achando algumas chaves valiosas pra essa cadeia, pela via da verdadeira revolução p2p que acompanho com entusiasmo (por repetir esta sensação que descrevi de que “todo filme poderá ser visto” e de que “você é seu próprio curador”), mas ao mesmo tempo ainda de longe – tanto por ser um pouco preguiçoso ao contrair novos hábitos (ainda mais quando tecnológicos), quanto por ter aquela conhecida obsessão por ver filmes pela primeira vez na tela grande. Mas, de qualquer jeito me deixa feliz saber que, de uma forma ou de outra, vocês podem dividir comigo estas descobertas, quiçá indo até além – e sei que mais cedo ou mais tarde vou me unir a vocês nesta mania... porque Paris, afinal, não dura para sempre.

Mas eu queria mesmo contar para vocês sobre um dos recortes que tenho feito aqui na programação parisiense. Como a gente bem sabe, já tem um tempo que o cinema oriental (entidade um tanto fluida, mas vamos lá...) está na moda no mundo dos festivais, e claro que Paris reflete isso diretamente. Na verdade, pelo que pude notar nestes dois meses e pouco por aqui, três cinemas estão principalmente “na crista da onda” (eita, que essa é velha!): o oriental, o israelense e o argentino. Segundo meu amigo israelense, aliás, é mais fácil ver um filme de Israel em Paris do que em Tel Aviv – totalmente ocupada, quem diria, pelo cinema hollywoodiano. Se o cinema iraniano ainda respira, mas já começa a ficar na lembrança do circuito da “moda”, alguns outros cinemas (entre eles o brasileiro) ainda são mais insipientes que realmente presentes.

Este gosto pelo cinema oriental, aliás (é claro, como em toda moda importada), nossos festivais já conseguiram espelhar de alguma forma. Mas o que me impressionou aqui foi ver como este nosso espelho ainda é parcial – e como se consegue deixar passar alguns dos filmes francamente mais importantes que se fazem no mundo atualmente. Se é fato que já em dezembro eu falei na Contracampo sobre 2046 (de Wong Kar-wai) e sobre Café Lumiére (de Hou Hsiao-hsien), também é fato que em breve alguém na revista vai dar conta de um dos importantes lançamentos recentes aqui, que por sorte chega ao Brasil, nem que seja em DVD (falo do Breaking News de Johnny To, cineasta de quem poderei falar depois, já que estará em Cannes este ano na competição – mostrando de vez o respeito que o cinema de ação de Hong Kong vem ganhando, e aliás é impressionante como se pode encontrá-lo aqui em DVD). Deixa então eu contar para vocês, rapidamente, sobre três outros filmes que o circuito aqui me mostrou nestes últimos tempos.

Já que falamos de Cannes deste ano, deixa eu começar pelo filme do Im Sang-Soo, que estará com o seu filme mais recente na Quinzena dos Realizadores em 2005. Seu filme anterior, A good lawyer`s wife (aqui, Une femme coreénne), passou em Veneza ano passado, e sei que Veneza sempre acaba sendo complicado para os festivais brasileiros, por ser muito em cima das suas datas (nessa, aliás, entrou também o Café Lumiére) – acabamos perdendo muitos filmes de Veneza, porque no mesmo ano não dá tempo de montar o esquema para levar o filme e, no ano seguinte, consideram-se os filmes meio “old news”.

Pois deixa eu dizer para vocês que este filme é muito impressionante. No começo, uma certa sensação de um aleatório ir e vir de personagens, onde as cenas não conseguem ter por si mesmas a força que têm no cinema de um Hou, por exemplo (penso em Millenium Mambo, como exemplo). Mas, de repente, uma cena ali no meio, onde a mulher-título começa uma estranha dança-strip tease sob o olhar do seu vizinho adolescente ganha de vez o olhar do espectador. O fato que aquela cena desvenda é que Im Sang-Soo faz um dos mais fortes filmes recentes sobre os corpos, sobre a carne e suas pulsões e falência (o desejo sexual, mas também a decomposição pela doença, pela morte). Abundam no filme cadáveres dos mais diferentes tipos (o filme começa com um cachorro atropelado, passa pela exumação de uma cova rasa etc), e relações sexuais filmadas com uma mistura de naturalidade e perversão como não se via desde... bom, desde o também coreano Mentiras. A partir da cena que descrevi, o fato é que o filme de Im Sang-Soo vai ganhando força a cada sequência, sempre com um impressionante trabalho de som criando ambientes, até que se revela ao final naquilo que sempre foi o trajeto que desejava traçar: o de uma mulher que readquire o direito ao gozo, ao domínio de seu próprio corpo. Impressionante o trajeto que ele traça para chegar lá, mas também é impressionante o ponto de chegada.

Pois bem, depois de um coreano, falemos agora de um japonês. The Taste of Tea é o terceiro longa de Katsuhito Ishii, sendo que, mesmo que o nome não nos diga muito, nós conhecemos o seu trabalho - porque ele foi quem criou a sequência-anime de Kill Bill Volume 1. Este seu filme só foi lançado agora na França, embora tenha passado em Cannes (Quinzena, de novo) ano passado. Parece que ele mexeu bastante no filme pós-Cannes, o que talvez explique ele ter estado ausente dos festivais brasileiros – esperemos que sim.

A verdade é que é difícil explicar bem o que é The Taste of Tea – para vocês terem uma idéia, talvez a melhor maneira seria dizer que ele marca o local onde Tati, Tarantino e Ozu se encontram. No começo, a influência de Tarantino às vezes parece um pouco perigosa, até, com um certo prazer excessivo pelo contar histórias peculiares ou quebrar narrativas, no que o filme parece por demais derivativo de um Pulp Fiction, por exemplo. No entanto, Ishii lentamente vai encontrando o seu próprio tempo, o seu próprio espaço, e quando o filme acha seu ritmo de fato, é difícil não ser tomado por uma autêntica euforia frente a ele.

Isso porque, tanto na construção de imagens (que vão de uma austeridade bem ozuniana ao onírico mais radical de um Tati), quanto nos sons (e nisso Tati vem ainda mais forte), ele demonstra uma impressionante capacidade de mesclar o mundo da matéria puramente física com o da imaginação, ambos sempre mediados pelo tal do cinema. É isso que importa a Ishii no filme que ele faz: mostrar, pelo retrato de uma família absolutamente “comum”, quão incomum é a “vida nossa de cada dia”. E, mais do que isso: o quanto mesmo uma vida “em comum” não impede nunca a criação constante dos universos mais absurdamente pessoais – universos estes sempre quase “secretos”, onde só habita mesmo aquele que os cria, e onde aquele que olha é sempre essencial na definição daquilo que se vê. De quebra, o filme pinta ao mesmo tempo um dos mais bonitos retratos das paixões adolescentes, do universo infantil e da liberdade da velhice – ou seja, não é pouca coisa.

Finalmente chegamos ao terceiro filme, e nele voltamos à Coréia (não por acaso, aliás): trata-se de Memories of murder (aliás, é interessante notar que os dois últimos filmes foram lançados nos cinemas franceses com seu título em inglês – uma tendência cada vez mais forte por aqui, mas que nem por isso deixa de ser peculiar), de Bong Jun-ho. Ao contrário dos outros dois filmes, típicos produtos do circuito dos festivais+cinemas de arte, o filme de Bong é um produto do cinema de gênero, no caso o policial. Mas um cinema de gênero cuja matriz de ousadia e inquietação não se encontra mais com tanta facilidade quanto nos momentos mais clássicos do cinema americano, por exemplo. Memories of murder é, como deve ser no caso de um autêntico “whodunit”, um filme que surpreende a cada desenvolvimento da narrativa. Surpreende, principalmente, por impor finalmente que saber “whodunit” é o menos importante de tudo – o filme fala mesmo é das implicações de tudo aquilo que é feito, assim como a maneira como se faz. É claro que Bong não está inventando nada nesse procedimento do esvaziamento da solução de um mistério – pensemos apenas em dois Langs americanos como Suplício de uma alma e No silêncio da cidade – mas, ainda assim, a forma como ele encena o seu filme é sempre tão contundente que nos pega mesmo pela garganta, e não larga fácil.

Por absoluta ignorância, eu não posso nem entrar nas discussões histórico-políticas que a localização temporal do filme (nos anos 80) possam permitir dentro do contexto sul-coreano, e que ficam claras na oposição do “tira à moda antiga” da comunidade rural onde acontecem os crimes com o “detetive moderno” que vem da cidade (sendo que, ao fim, nem um nem outro conseguem resolver o caso). Mas, independente deste aspecto (que menciono apenas por sabê-lo importante), Memories of murder é um filme de punch impressionante, onde o trabalho de som, mais uma vez, é determinante em colocar os personagens em determinados espaços. O filme consegue ainda uma sempre desconcertante mistura de humor desbragado (e desconcertante pelos motivos que nos fazem rir) e uma violência latente e a ponto de explodir – em ambos, Bong faz de assistir o seu filme, acima de tudo, uma experiência física marcante, desconfortável mesmo. Cujo objetivo final é, antes de tudo, marcar a impossibilidade de se chegar a qualquer Verdade absoluta que dê conta dos mistérios do comportamento humano.

Por fim, queridos editores, eu sei que estes filmes todos estão ou logo estarão disponíveis no emule – ainda bem! Mas peço que ainda aguardem mais um pouquinho, pelo menos os festivais deste ano, para ver se por acaso eles não acabam aparecendo nos cinemas do Brasil. Porque se tem uma coisa que os três filmes nos pedem é a imersão em imagens e sons que só o mesmo o ambiente da grande sala escura pode nos dar – claro, a não ser que eles acabem sendo exibidos em toscas cópias digitais (nova moda do nosso Brasilzão), e neste caso antes uma boa cópia via computador. Mas não custa esperar mais um pouco – sempre esperamos tanto, né? E afinal, não faltam filmes pra ver no meio tempo...

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Grande Paulo Sacramento,

Rapaz, sou forçado a me lembrar daquele nosso peculiar encontro parisiense ano passado, lembra? Eu, indo embora correndo no dia seguinte, e você ainda feliz por ficar mais um pouco e poder ver o Werckmeister Harmonies do Béla Tarr, aqui em cartaz. Não só te invejei naquele dia, como principalmente pude admirar a paixão pelo cinema que pulsa em você – e que, afinal de contas, é o que une todos nós, seja lá qual caminho formos trilhando aí por este bizarro cinema brasileiro. Depois, quando fui te entrevistar pra minha pesquisa, relembrei ainda mais esta tua paixão pelo cinema, esta tua curiosidade grande, e é sempre bom descobrir que ainda tem gente que faz cinema movido por isso, antes de tudo...

Pois então, cara, Paris resolveu me dar uma segunda chance de conhecer o cinema do tal húngaro que nunca tinha conseguido ver – no Rio ele era secreto, e quando passou na Mostra de SP eu ainda não aparecia por lá... Pois não é que o tal do Marin Karmitz resolveu lançar agora um filme ainda anterior dele (Damnation, de 1989). E, por conta do lançamento (fenômeno comum aqui este), colocou ainda em cartaz de novo o próprio Werckmeister, mas também o mítico Satantango, com suas 7 horas e meia de duração – embora, sobre este, é verdade que ele dividiu em três sessões em dias diferentes, o que acabou me impedindo de conseguir vê-lo, então continuo com alguma dívida húngara a cumprir... Ma, os outros dois eu fui lá ver sim, e tenho que admitir a porrada que é dar de cara com o cinema do tal húngaro (cinema este que, consta, andou muito mudado nesta trilogia em questão, em relação ao que ele fazia antes – mas para ter a chance de julgar isso ainda terei que esperar oportunidade futura).

De saída, uma questão que se impôs para mim era uma de um certo enfrentamento com a opção dele de encenar quase todos os planos destes filmes dentro de um mesmo método de mise-en-scène (o dos longos planos-sequência com travellings constantes e eventuais zooms). Bati um pouco de frente com a idéia de que um mesmo procedimento formal pode ser o melhor para os planos de não apenas um, mas três filmes (embora, reforço, não sejam todos os planos, a maioria é imensa). Num primeiro momento, o conceito me criou um certo distanciamento pelo viés do “virtuosismo” excessivo que, até por trazer ecos de todo o Jancsó, de um determinado Tarkovsky, e até de um mais recente (e mais visto no Brasil) Angelopoulos, muitas vezes acaba tendo um efeito menos retumbante do que se podia imaginar a princípio – assim como é peculiar ver, fora da ordem, apenas agora os planos de Werckmeister que tão claramente inspiraram o Gerry de Gus Van Sant. Mas, preciso dizer, no final o cara sempre ganha... Sempre ganha, antes de tudo, claro, porque os planos são mesmo impressionantes – e aqui falo menos de sua realização, que logo acabamos abstraindo, do que do sentido que ele vai retirando de cada um deles (o que é aquele plano geral da cidade no Werckmeister que, tão discretamente, acaba virando um close na passagem do caminhão). Mas ganha de fato é pelo que ele vai construindo com a sequência destes planos.

É este universo construído onde o sublime e a miséria estão sempre tão próximos (lembro do primeiro plano de Werckmeister com a encenação do movimento dos planetas por um bando de bêbados), onde o simbólico não vem de uma intervenção forçada no real, mas justamente do excesso de realidade das imagens (o teleférico que transporta minério em Damnation). Mas também um universo onde a abstração mais completa de que é possível o cinema, onde a beleza do que se mostra só se faz pela intervenção da câmera no espaço, se mistura a uma inesperada narratividade onde o desenho de personagens é sempre tudo menos óbvio, cuidadoso sem ser banal. A capacidade que Béla Tarr tem de costurar estes sentidos com suas imagens, e de ultrapassar o tempo todo o limite destes mesmos sentidos, é onde ele, para mim, mostra ser maior que Angelopoulos e o Jancsó que eu conheço (que, confesso, é pouco), encontrando paralelos apenas, dentro deste procedimento, no cinema de Tarkovsky. E não é pouca coisa conseguir fazer dois filmes que terminam, igualmente, com seus protagonistas enlouquecidos pela realidade, e ao mesmo tempo não ser nunca “apenas mais um fatalista desencantado” – muito pelo contrário. O cinema de Tarr, pelo que eu pude ver nos dois filmes, reafirma que no Homem está a potência completa para o belo e o horror – e que a escolha de vários recaia no segundo não apaga da memória as imagens do primeiro.

Como eu sei que você curte, como eu, o cinema do Leste Europeu, Paris neste ponto é uma casa muito amiga. Desde que estou aqui já aconteceram mostras do cinema húngaro, tcheco, romeno e dos Balcãs – chances tanto de se atualizar com o que eles fazem hoje como tomarmos contato com essa história do cinema que nos é negada constantemente. Poder ver, por exemplo, o Reconstitution, do Lucien Pintilie (ainda hoje considerado o principal nome do cinema romeno) - e ver de que forma ele adaptava nos anos 60 a explosão do cinema moderno ao seu contexto nacional específico - é muito emocionante por todas as portas que abre. E, para os que têm essa curiosidade insaciável pelo cinema do mundo, de hoje, de amanhã, de sempre, é sem preço poder espairecer as idéias tanto assim.

Em suma, Gilberto, Sérgio, Ruy, Junior, Paulo... sentindo a falta de vocês aqui, pra eu poder não ficar só mandando esses cartões incoerentes de quando em quando, mas poder beber com vocês o prazer do cinema que tanto já dividimos...

Abraços saudosos, mas melancolicamente contentes, do amigo em breve de volta,

Eduardo Valente