diários de cannes IX

Algumas respostas ao diário anterior indicaram que minha escrita deu leituras distintas ao meu artigo sobre os filmes brasileiros - o que é sempre uma possibilidade e um risco da escrita, e assumo como tal. Então, cabem dois esclarecimentos: 1) a matéria não era sobre estes dois filmes, de fato. Eles eram só uma desculpa pra refletir sobre as dificuldades da escrita crítica em algumas situações, um tema que me interessa muito e que acho interessante dividir com o leitor, pra que não pareçamos estar assim tão distantes, atrás de um muro branco de pureza. Como o formato aqui é de um diário, cheio de crônicas, e eu estava pensando muito neste tema estes dias, antes, durante e depois de ver os filmes brasileiros, quis dividir isso com os leitores. 2) Para que não sobrem dúvidas: o filme de Marcelo Gomes é do grande cacete. No linguajar de estrelas que às vezes usamos, um forte ***. O filme de Sérgio Machado leva um forte e convicto **, o que o coloca bem acima da média da produção mundial em geral, e muito mais ainda da produção brasileira recente. E tenho dito - curto e grosso desta vez.

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Eli, Eli, lema sabachtani?, de Shinji Aoyama, Japão, 2005 - Un Certain Regard
Johanna, de Kornél Mundruczó, Hungria, 2005 - Un Certain Regard

Estes foram os últimos filmes que vi na Un Certain Regard, da qual acabei perdendo nove filmes (tentarei ver um ou dois amanhã em reprise, e talvez alguns dos sete outros na passagem da mostra por Paris semana que vem, quando teremos Diários de Cannes edição Paris, acompanhando também a totalidade da Quinzena dos Realizadores que passa por lá). Pois se um dos objetivos declarados da seção (os quais discutimos um pouco aqui estes dias) é exibir filmes que apresentem propostas novas e mais arriscadas, protegendo-as um pouco do excesso de atenção da Competição, estes podem ser qualificados como os dois mais radicais experimentos de linguagem audiovisual exibidos por aqui este ano.
Não é surpresa nenhuma saber disso vindo de Aoyama, cujos filmes exibidos no Brasil (Eureka, Desert moon, Floresta sem nome) nunca podem ser chamados de menos que "ousados" (segundo alguns, podem ser chamados de brilhantes também - eu só vi A Floresta sem Nome, por isso prefiro não me arriscar). Pois este Eli Eli... (que é o japonês para "Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?") é realmente um trabalho radical. Na apresentação do filme, Aoyama, seu elenco e produtor pediam paciência aos espectadores, no melhor estilo que caracteriza as mais recentes apresentações de Julio Bressane quando seus filmes passam nos festivais. Pediam que eles ficassem até o final, no que eu devo dizer que uma boa parte da platéia não atendeu aos apelos, sendo que do meu lado teve um cara que levantou com dez minutos de filme, o que deve ser um novo recorde. Mas, como quase sempre também é o caso nestes filmes, os que ficaram até o final aplaudiram entusiasticamente o filme durante todos os créditos finais, aos gritos de "Bravo!".

E eu? Bom, Eli Eli... é um filme essencialmente sensorial e, como tal, ele precisa "bater" ou não funciona. Em mim não chegou a bater de todo, eu assisti com uma certa distância, mas muita admiração, acima de tudo pela coragem mesmo. Porque o que Ayoama faz (neste sentido ainda muito em contato com o filme dele que eu conheci, pelo menos) é apresentar uma corajosa mistura de gêneros, neste caso algo entre a ficção científica pós-apocalíptica, o musical, o policial e uma "leve" comédia de erros, onde o espectador nunca consegue saber exatamente qual destes registros ele leva a sério, com quais ele brinca, e com que fins ele usa cada um deles. Mas, se isso era comum ao trabalho dele, a verdadeira pedra de toque do radicalismo aqui é o uso da música, eminentemente reminiscente da noise music, com muitas guitarras distorcidas, ruídos (eletrônicos ou não), e gritos, tudo isso com uma constância só menos impressionante do que o volume em que é "tocado" (a exibição da sala Debussy é uma das mais impressionantes que eu conheço, em termos de som e imagem - e Aoyama usou-a ao máximo). Ou seja, para além de uma possível dificuldade da platéia com a narrativa, o filme de Aoyama era também fisicamente desafiador, com os limites dos tímpanos sendo constantemente testados. Algo de francamente impressionante.

O filme mostra o mundo em 2015, quando uma estranha doença de origem desconhecida se espalha, uma doença neurológica que faz com que as pessoas se suicidem aos borbotões (oito milhões nos EUA, informa o filme). No meio disso, sabe-se lá por que (mesmo), um detetive particular cria a teoria de que a música atonal e ruidosa que uma dupla de jovens japoneses produz (sendo um deles um dos melhores atores do mundo da sua geração, Asano Tadanobu, que aqui se revela também músico) cura as pessoas desta doença, e ele leva a infectada filha adolescente de um milionário para encontrá-los no lugar isolado no campo onde eles produzem seus sons. Entenderam? Pois é, é isso mesmo. Dentro dessa narrativa em si pouquíssimo convencional, o filme passa longos períodos (ou "clipes") filmando a produção desta música radical e barulhenta (no melhor sentido), o que certamente não é um momento para todos os espectadores - por exemplo, há um longuíssimo plano estático em quadro fechado de um dos músicos "buscando sons" com um arco de violino e dois pedais de ruidagem. Aoyama, apesar do clima lúgubre do filme, afirma ter feito um filme otimista, com uma mensagem de esperança para o amanhã - e embora não seja difícil entender onde no filme ele tenta inserir isso, também é complicado afirmar que esta é a sensação com que se sai do filme. No entanto, como observação rigorosa dos corpos e da música que pode emergir deles, numa experiência quase lisérgica de transformação de matéria em energia, não se pode negar o poder do filme (para além disso, filmado num scope belo demais). Como eu disse no começo, a questão é saber se bateu ou não.

Já a sinopse do filme de Mundruczó é bem mais convencional: uma viciada em drogas tem uma overdose após roubar morfina de um hospital público húngaro, e uma vez "ressuscitada", é recolhida no hospital como enfermeira, porque o médico responsável (que se apaixona por ela) não a quer nas ruas de novo. Se sabemos que o cineasta realizou antes Dias Agradáveis, exibido na Mostra de SP dois anos atrás, um pretenso filme-choque pelo realismo do retrato de uma juventude sem perspectivas, realmente não parece muito provável alguma novidade grande na história acima. Mas isso apenas se não sabemos que a história é contada como uma ópera (todas as falas são cantadas, liricamente), com música e libreto especialmente compostos para o filme; e com um visual em muito devedor do cinema expressionista, com radical uso da cenografia (entre o realismo radical e o pesadelo) e fotografia sempre privilegiando os jogos entre claro e escuro, além do uso de uma constante câmera em movimento (steady-cams ou carrinhos), reminiscentes do cinema de Béla Tarr - não por acaso um dos produtores do filme. Como se não bastasse esta descrição de estilo, faltou dizer na sinopse que "ressuscitada" é uma palavra usada literalmente, porque a sobrevivência da protagonista é supostamente um milagre, e que ao voltar da morte ela passa a curar todos os pacientes do hospital ao fazer sexo com eles.

Como tanto o tratamento estético descrito acima quanto a sinopse indicam, claro que Mundruczó está querendo chocar, de novo, conseguir atenção. Mas, se isso é fato inegável no filme (uma constante auto-consciência de sua forma "arriscada" - do que fala bastante o fato de que o diretor também seja o diretor de arte) o que não se pode negar é o óbvio talento do diretor na encenação, no tratamento dos atores, e simplesmente em conseguir dar conta deste formato tão raro quanto trabalhoso que é o da coreografia misturada com canto e encenação dramática. O filme acaba tendo passagens realmente pungentes, que conseguem superar os limites mesmo do excesso de pretensão de sua realização. E, afinal, qual foi de fato a última cena cantada que vimos encenada num quarto de hotel enquanto um homem espera pelo fígado que vai salvar sua vida? Se o valor simples de encenar algo que não vemos comumente no cinema serve para algo, então o filme do húngaro (como o de Aoyama) é um destes raros momentos de constante surpresa no olhar do espectador - e que consegue manter o efeito por sua hora e vinte de duração (algo que também requer talento).

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Amanhã, segue o balanço final dos sete últimos filmes vistos na Competição, antes das Palmas.

Eduardo Valente


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