diários de cannes VIII

Antes deste diário em si mesmo, uma breve série de notas de atualização quanto a coisas publicadas aqui:

- Sobre a Contracampete do mês: somando-se Manderlay e Broken Flowers, Chloe Sevigny não completa dez minutos de tela, tanto que ela nem veio a Cannes com a equipe de nenhum deles. Isso que dá apostar nos filmes antes de ver, mas como o que importa são os filmes dela estreando no Brasil (The Brown Bunny e Melinda e Melinda), nestes ela bate um bolão.

- Sobre a Hollywood Reporter, foco de um dos diários: faltou comentar que a revista tem uma página dedicada à crítica das festas da Croisette, com análise por categorias etc. Não, eu não estou brincando.

- Sobre Manderlay: como a cobertura de Cannes sempre acaba precisando ser parte analítica e parte jornalística, eu acho importante um adendo ao meu texto sobre o filme, para explicar que ele recebeu boas críticas de alguns veículos por aqui. Fora isso, eu sempre acho bom poder rever os filmes vistos aqui - inclusive seu antecessor (Dogville) sofreu uma queda grande no meu conceito na revisão (embora eu continue no time, pouco numeroso especialmente na Contracampo, dos que gostam do filme). Os filmes aqui são vistos às vezes num misto de excitação, cansaço e cobrança que muitas vezes leva a diagnósticos prematuros (pra bem ou pra mal). Por enquanto, sem revisão, eu fico com minha opinião já exposta. Mas achava importante dizer isso porque lá eu digo algo do tipo "ninguém pode se interessar pelo filme", e claro que tem gente interessada.

Isso dito, vamos ao diário de hoje - que, à la filmes de Lars Von Trier, poderia se chamar "Onde um longo prólogo e um curto epílogo permitem que Eduardo fale dos filmes brasileiros".

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É sempre um tema delicado pro crítico brasileiro fazer a cobertura dos filmes nacionais em Cannes. Porque o clima em Cannes é sempre de que "aqui se faz a carreira de um filme", então qualquer injustiça momentânea como as que mencionei acima, para a qual o Lars von Trier tá cagando pra minha opinião, no filme nacional fica triplicada. Então, o momento de ver os filmes brasileiros talvez seja o mais tenso pra quem está cobrindo por aqui. Para além disso, eu acho que esta é uma oportunidade boa, já que estes diários permitem esta forma, mais confessional e menos "séria", de refletir sobre o tema da crítica ao filme brasileiro como um todo.

Sempre que se fala das relações dos críticos com os cineastas brasileiros, as pessoas têm uma de duas opiniões: eles são protegidos pelos críticos, que puxam o saco e fazem amizades; ou eles são injustiçados, maltratados etc. Há bases suficientes para os dois pontos, na história antiga ou recente das atividades. Mas também existe a possibilidade de um caminho alternativo a estes. O cinema, como toda manifestação artística, mexe muito com os egos, as vaidades, mas também com sentimentos pessoais menos "estigmatizados" que estes acima. O fato é que fazer um filme é sim um processo longo e dolorido, e perceber o seu filme mal recebido nunca é coisa das mais fáceis - e mexe sim com relações pessoais, num meio onde as pessoas transitam muito umas com as outras, isso quando não exercem as duas facetas, como é até o meu caso. Então, trata-se de assunto muito delicado que, de repente, um apressado podia cagar uma regra simples para o funcionamento: "honestidade". Conceito bonito, mas que pode ter mil aplicações diferentes. Não estou em desacordo dele não - é de fato a principal precupação pra mim - mas existem honestidades e honestidades.

Eu, de minha parte, desconfio muito de pessoas que usam frases como "os interesses do público vêm antes das relações pessoais" ou "é preciso que se fale sempre a verdade". Da primeira frase desconfio porque "os interesses do público" são uma abstração pouco palpável - enquanto as relações pessoais, as amizades, são bastante palpáveis e de carne e osso. Eu não estou disposto a sacrificar uma segunda em nome do primeiro não, pelo menos não como política de atuação. Já na segunda frase, eu acho que o certo no que se refere à atividade crítica deveria ser "é preciso que não se minta". Tem muitas verdades da nossa vida (que, afinal, são quase sempre as verdades só para nós) que não precisam ser ditas não - seja isso pra mãe, pai, amigo, namorada ou na crítica de cinema. "Excesso de honestidade" para mim é pecado tão grave quanto "falta de honestidade", porque geralmente este excesso é meio assoberbado e sem motivo de ser praticado - quem fala tudo que pensa é criança de 5 anos, que ainda não descobriu que existem regras de convívio e bem-estar. É claro que pode-se definir que é um objetivo de revolução social se comportar como a tal criança - mas eu só aceito isso de quem também faz xixi nas calças e joga comida nas pessoas em refeições.

Então, pra mim a questão principal da relação com o leitor é: nunca escrever algo em que não se acredite. Nunca. Jamais. Agora, deixar de escrever algumas coisas, seja porque isso balança relações pessoais queridas ou porque é uma das "honestidades desnecessárias", isso eu faço sim. E, em segundo lugar, fale-se do filme e não das pessoas. No máximo analisa-se o trabalho da pessoa no filme - mas nunca ela. Dentro dessas regras, há que se equilibrar sempre da melhor maneira as posturas - e muitas vezes não se tem controle sobre isso. Eu mesmo já toquei em alguns vespeiros, quando achei que era importante pra revista, politicamente (afinal, pra uma revista existir é preciso que ela tenha posições), marcar certos pontos - e nessa posso ter quebrado algumas destes regras. Eu cito três exemplos pessoais:
- No início do ano eu publiquei uma crítica bastante negativa do Meu Tio Matou um Cara, do Jorge Furtado. Eu conheço o Jorge pessoalmente, assim como muitas pessoas da Casa de Cinema, e já mantive mais de uma vez contatos importantes com eles. Por isso mesmo, confesso que, ao ver o filme e não gostar quase nada dele, mesmo querendo muito expor alguns argumentos, briguei muito pra conseguir quem fizesse o texto na revista. Como não havia um outro candidato, ainda fiz questão de ir rever o filme (embora achasse que não precisava), para ter absoluta certeza do que eu ia dizer. Finalmente, não teve jeito, fiz o texto, tentando apenas deixar claro aquilo que é óbvio: o meu respeito por boa parte dos filmes dele (em especial o Houve uma Vez Dois Verões, filme que vi três ou quatro vezes no cinema), e por isso mesmo a minha decepção com este novo filme (e daí a sensação de que precisava escrever). Até hoje não cruzei com o Jorge pra saber se ele ficou chateado ou não com o texto - aguardo a oportunidade.
- No Festival do Rio do ano passado, o caso foi com Quase Dois Irmãos, filme que foi muito elogiado pela crítica de forma geral e ganhou vários prêmios - mas que simplesmente me incomodava em alguns dos pontos que mais mexem comigo no cinema. Nem acho o filme ruim, de jeito nenhum, mas os defeitos dele são os que mais me incomodam - enquanto alguns filmes que eu ache do mesmo nível podem ter as qualidades que eu mais goste. Eu não conheço a Lucia Murat pessoalmente (e gosto muito do Brava Gente Brasileira, filme anterior dela), mas sou amigo da filha dela - que além de filha, é colaboradora cinematográfica. Então, mais uma vez, pensei muito antes de escrever: será que uma amizade podia ser balançada por isso? Mas achava importante demais marcar algumas posições pessoais ali - especialmente já que o filme estava ganhando ares de unanimidade crítica (parabéns à Lucia por isso). Escrevi e, neste caso, por morarmos na mesma cidade, tive a chance de, dias depois, levar a minha amiga pra tomar um chope e colocarmos pra fora as diferenças e problemas. Resultado: acho que o processo todo até nos aproximou mais. Ainda bem.
- Finalmente, tem o caso de um texto que fiz opondo Amarelo Manga e Lisbela e o Prisioneiro, numa visão mais favorável ao segundo. Esta posição, de forma geral, seria muito pouco popular no campo da "política do cinema brasileiro", e meu texto lidava com esta questão também. Mas, para além disso, eu estava laudando um filme de alguém que nunca conheci (Guel Arraes) enquanto criticava um filme que é produzido e montado por um amigo querido (Paulo Sacramento) e dirigido pelo Claudão Assis, que se não chega a ser meu amigo, é um conhecido por quem eu tenho carinho. Fora isso, como a gente sabe do Claudão, era posição corajosa a se tomar em mais de um sentido (risos meus). Bom, já conversei rapidamente com o Paulo sobre o texto, sem maiores detalhes, e já encontrei o Claudão depois disso, e ele não me falou nada - no que não sei se não leu ou se só preferiu passar por cima mesmo. De uma forma ou de outra, dei sorte mais uma vez.

Mas, em suma, eram riscos que achei importante tomar porque achava que, nos três casos, havia questões nos filmes que são a base de alguns dos meus pensamentos sobre cinema (e cinema brasileiro em especial) e que eram importantes pra mim poder externar. Nisso, tentando manter o respeito sempre (que é a base da nossa conduta coletiva aqui na revista com os filmes nacionais - mesmo os que nos acham às vezes muito severos ou até "irresponsáveis" deveriam saber o quanto discutimos cada uma das coisas que publicamos sobre o assunto). Espero ter conseguido - mas continua e continuará sempre sendo tema dos mais delicados.

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O prólogo todo teve como função principal me permitir dizer o seguinte: no caso dos dois longas brasileiros passando em Cannes eu tenho relações pessoais muito fortes. Alguns exemplos: ambos são co-escritos por Karim Ainouz, cineasta com quem tenho trabalhado muito proximamente nos últimos tempos; Cidade Baixa é produzido pela Videofilmes, empresa onde tenho parceria para dois projetos meus em andamento; Cinema, Aspirinas e Urubus é fotografado pelo fotógrafo dos meus trabalhos mais recentes e vindouros. E ambos são dirigidos por caras que conheço há pouco tempo, mas por quem o respeito pessoal é enorme. Para escrever sobre os filmes em Cannes, eu podia usar duas opções fáceis: uma era fingir que nada disso aqui em cima era importante e escrever como se fossem quaisquer filmes com que eu não tenho relação. A imensa maioria (senão todos) dos leitores nunca pensaria nestes pontos, os textos estariam aí e pronto. Não escolhi esse caminho mais fácil até por, como eu disse, estes diários serem tão "pessoais". O outro caminho era não escrever mesmo sobre os filmes brasileiros, podendo alegar o que fosse para isso (desde o "não vi" até justamente o descrito acima como me impossibilitando de escrever). Também me parecia uma covardia. Fiz este terceiro caminho que certamente ocupou mais o meu tempo - e pode dar margens às leituras que for - mas me pareceu o único correto a fazer.

Ufa, colocadas as cartas na mesa, o que me importa é poder dizer com alegria o seguinte: os dois filmes brasileiros em Cannes fizeram figura muitíssimo boa, positiva mesmo. Em ambos os casos suscitaram respostas realmente positivas, tanto na mídia (onde se destaca, na cobertura que eu acompanho mais de perto, a matéria de hoje na Screen International sobre Cinema, Aspirinas e Urubus), quanto no público que os assistiu. Eu também fico muito feliz com o resultado dos filmes, que vêm de dois diretores altamente apaixonados pelo cinema (moeda sempre em baixa no meio cinematográfico), pessoas mais do que do bem, e que arriscaram muito na realização de dois filmes muito difíceis de acertar a mão, ainda mais sendo os primeiros longas de ficção de ambos.

A meu ver, entre os dois (embora a comparação seja até injusta, porque os filmes por acaso foram exibidos um dia depois do outro, mas não precisam dialogar como projetos), o filme de Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) acaba sendo o que mais impressiona, mas talvez justamente por ser o que mais podia dar errado o tempo todo. Afinal, na narrativa que ele costura, embrenham -se sempre pelo menos três dimensões de relações simultâneas: a dos dois personagens principais, a deles com o espaço do seu entorno (o do sertão nordestino na década de 40) e ainda a deles com o contexto mundial do momento (a Segunda Guerra Mundial), que é determinante no filme uma vez que um dos dois personagens é um alemão exilado no Brasil. Marcelo Gomes consegue ser bem sucedido em fazer estas três frentes andarem o tempo todo - sem nunca ter a menor cara daqueles roteiros que precisam montar cenas só para que estas coisas andem. A melhor expressão para o filme é mesmo "orgânico", onde tanto a mise-en-scène quanto a montagem e principalmente a atuação dos atores (em destaque os dois protagonistas, mas igualmente impressionante a - tão rara no cinema brasileiro - integração destes com os atores em papéis menores ou figuração) fazem um filme que é emocionante sem nunca ser piegas, e que é humano demais, o tempo todo. Um filme com uma maturidade de linguagem absolutamente precisa, e que muitas vezes parece mesmo um peixe fora d'água no mais recente cinema brasileiro pela sua competência abranger níveis técnicos e de "cinema" mesmo, sem que um se interponha ao outro.

O filme de Sérgio Machado (Cidade Baixa) na verdade partilha de muitas das dificuldades que Marcelo Gomes enfrentou: também é um filme onde os micro-universos dos personagens se cruzam o tempo todo com o ambiente que os cerca, tentando tirar destas interações a sua força. Há uma diferença porque o filme de Sérgio é muito mais "na pele", muito mais suado, tenso, enquanto o de Marcelo flui com delicadeza. Mas os desafios eram semelhantes. E, de novo, impressiona o domínio da linguagem e das atuações do elenco. A única coisa onde o filme de Sérgio não atinge toda a felicidade do de Marcelo é justamente na tal da organicidade - os altos do filme são muito altos (onde se destaquem todas as cenas de sexo ou no puteiro, a briga de galo e o assalto à farmácia) mas, talvez por isso mesmo, eles criam alguns hiatos onde a energia não se mantém, onde o filme cai um pouquinho. Isso também pode se dever ao fato de que o filme precisa viver em torno de uma história de amor (o que não acontece no filme de Marcelo Gomes), e as histórias de amor são todo um gênero à parte no cinema, com necessidades de convenções mais rígidas (a serem seguidas, ou quebradas) que complicam mais o andamento de roteiro-montagem mesmo. Fora isso, o filme também tem alguns probleminhas (ainda que sejam eventuais mesmo) na tal integração atores-ambiente, no que claro que não ajuda o já alcançado status global dos protagonistas masculinos, mas também uma tentativa em momentos excessiva (como nos créditos finais) de assentar o filme numa "realidade" (embora sem tons sociologizantes nos personagens - elogie-se), quando só a sua fabulação já fazia isso lindamente. Mas há dois outros pontos que se precisa destacar no filme de Sérgio: o trabalho dos ambientes de som é realmente de uma riqueza absurda, acachapante mesmo, inserindo os personagens num universo quase por si só; e, segundo, a sua falta de moralismo ao colocar os personagens em situações altamente complicadas (o que se comprova com a implicância da Hollywood Reporter, claro, bastião do moralismo americano), e fazer com que eles saiam delas por si mesmos. Filme corajoso e que, como eu disse, não precisava da comparação (pura retórica jornalística da cobertura, meio inevitável porém) para afirmar sua própria força.

Eu acho que este era o caso no fim das contas: eu fiquei muito feliz de poder elogiar os amigos (e, pra quem não lembrar, eu reafirmo: mentir eu nunca faço), e não queria depois que alguém dissesse, que não fosse eu mesmo, que eles eram amigos. Amigos sim, ainda bem; mas antes de tudo, cineastas brasileiros importantes, desde já.

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O epílogo anunciado tem a ver com esta última frase, porque afinal há três outros filmes brasileiros (curtas) passando em Cannes, e com todos eu também acabo tendo relações diretas: Vinil Verde, do velho amigo Kleber Mendonça, que eu vi na casa dele em versão ainda em trabalho de pós-produção; O Lençol Branco, dos amigos Juliana Rojas e Marco Dutra (sendo que este é amigo e colaborador de trabalho), cujo projeto eu acompanhei desde o roteiro; e Da Janela do Meu Quarto, de Cao Guimarães, que já defendi em texto específico aqui mesmo na revista. Para além da minha alegria pessoal de ter estes filmes (e a companhia de todos por aqui) em Cannes, eu acho que esta seleção é muito significativa por outros motivos: o de juntar uma galera jovem (Marcelo vai adorar essa, que eu sei!), absolutamente apaixonada e bicho de cinema, e que realizou cada um destes filmes com os meios que era possível ter à mão quando de sua realização. São todos filmes de um tesão pelo fazer cinema absurdo, e isso sim é que é motivo de alegria, por mais que alguém possa gostar mais deste ou daquele filme. Que a presença deles aqui seja - para cada um dos seus realizadores, mas acima de tudo pro cinema brasileiro - sinal de muitas e muitas futuras conquistas. Não custa ser otimista de vez em quando, já que a realidade oferece tão poucas oportunidades claras como esta para sê-lo.

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Depois do epílogo, só um PS: o problema de passar dois filmes brasileiros em dias seguidos é que meu ritual monástico de Cannes (filmes/escrita/sono) acabou precisando ser quebrado nos dois dias para festejar junto com as equipes e amigos os dias alegres aqui. Com isso, o diário atrasou um dia - vamos ver se eu consigo recuperar. Vale dizer que os já vistos e ainda não comentados são os filmes dos Dardenne, de Jarmusch, Shinji Aoyama e de um jovem cineasta húngaro no Un Certain Regard. Também por causa das festas e encontros, nesses dias cresceu um pouco a lista dos filmes que não serão vistos, pelo menos até as reprises do fim de semana (cuja programação só sai nesta quinta, e aí que dá pra ver o que se vai conseguir encaixar). Agora estamos em oito (de 23) filmes perdidos no Un Certain Regard, e com Sin City e Shanghai Dreams somando-se a Caché na Competição. Tomara que seja só isso. Amanhã mando notícias novas.

Eduardo Valente


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