| Manderlay,
de Lars Von Trier, Dinamarca/Holanda/Inglaterra/Suécia/França/Alemanha,
2005 - Competição
Começa a coletiva de imprensa de Manderlay,
logo depois da sessão para os jornalistas. O
número consideravelmente menor destes entre os
interessados este ano, em relação ao ano
de Dogville já serviria de indicação
de alguma coisa - mas a maior prova do que o filme de
fato é veio de ninguém menos que Von Trier.
Que ele parecesse cansado, exausto, poderia ser normal
(Cannes faz isso com todos) - que ele parecesse francamente
deprimido e sem muitas forças pra defender o
seu filme (todos os momentos de real "defesa"
vieram de Danny Glover), não. Na verdade, logo
numa das primeiras perguntas, o cineasta explicitou
o principal problema do filme, seja pelo olhar dos detratores
ou defensores de Dogville: Von Trier diz que
sempre admirou diretores que usavam o mesmo estilo filme
após filme e faziam filmes cada vez melhores
- e que, para ele, fazer a trilogia U.S.A. foi uma missão
que se impôs - para se provar "maduro"
para fazer algo assim, filmando da mesma maneira. Pois,
disse ele: "eu acho que eu não sou maduro
assim, e eu realmente preciso de um descanso deste trabalho,
ir fazer outra coisa". E aí: se Von
Trier não está empolgado com Manderlay,
quem pode estar?
Na verdade, Manderlay todo tem uma impressão
de Dogville-B, ao invés de continuação.
Já que Nicole Kidman não fez o filme,
vamos de Bryce Dallas Howard (e descobrimos que, pelo
menos para esta personagem, elas certamente não
resultam na mesma coisa); já que James Caan não
fez o filme, vamos de Willem Dafoe (idem); repitamos
exatamente todos os procedimentos do outro filme (cenográficos,
de câmera, de narração), só
que sem uma história minimamente interessante
(sob qualquer aspecto) para justificar nada disso. Em
suma, o que Manderlay parece dizer é
mesmo: "vamos fazer este filme só porque
eu prometi que ia fazer". Com isso, os que
viam algum interesse no filme anterior (eu incluído)
não têm munição nenhuma pra
defender o novo: a narração de John Hurt,
de uma curiosa sensação entre o conto
de fadas e o programa de teatro na TV, passa a soar
como uma monótona aula de História-explicação
do filme pra quem não entender o simbolismo;
a câmera, que no filme anterior conseguia jogar
com o não-cenário de algumas formas bem
interessantes, entra completamente na lógica
do "qualquer imagem vale, qualquer enquadramento
vale, qualquer movimento vale", numa incrível
indigência visual; e, principalmente, o conto
moral(ista) de Von Trier e sua articulação
com um imaginário americano específico
e com o momento de seu lançamento em 2003 vão
por água abaixo na atualidade, restando no máximo
uma reflexão puramente teórica sobre os
escravizados e oprimidos e o vício adquirido
por este estado (algo já muito melhor desenvolvido
em livros e mais livros). Do filme anterior, só
uma coisa melhora: o clipe final de fotos sob o som
de Young Americans de Bowie (sim, eu disse
que os filmes terminavam iguais), mas isso provavelmente
só acontece porque, se antes ele podia ser o
excesso de um ponto que o filme já passara, agora
ele é a única coisa levemente articulada
numa narrativa perdida. Manderlay é
um filme que não faz sentido pra ninguém
- aparentemente só para Danny Glover, mas pra
dizer o porquê ele quase precisou abstrair o filme
pra, de novo, falar de "temas". Pra "temas",
façamos seminários - o cinema precisa
de filmes. E Lars Von Trier, com sua cara desanimada,
parece saber disso.
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Claro que tudo dito acima pode se provar completamente
insano se der a louca em Emir Kusturica - e, afinal,
"dar a louca em Emir Kusturica" é quase
um pleonasmo. Mas, se tem uma coisa interessante num
Festival como Cannes, na Competição, é
a sensação constante que vai se tendo
de que "a Palma de Ouro ainda está sobrando"
ou, de vez em quando, de "opa, alerta de Palma
de Ouro". Isso dura a semana inteira, em contagem
regressiva, onde cada sessão (principalmente
as dos cineastas mais aguardados, claro) é uma
tensão neste sentido. Exercício sempre
inútil de adivinhação, claro (em
2003, por exemplo, Elefante certamente não
levantou a reação descrita), mas ainda
assim divertido. Até agora, em Cannes 2005 a
Palma parece estar sem dono. Eu não vi o filme
de Haneke, é verdade, e ele está em primeiro
na enquete de dez críticos "importantes"
que a Film Français publica todos os dias. Mas
o fato é que, especialmente porque Palmas de
Ouro repetidas são raras (ou seja, Van Sant,
Von Trier, Wenders - embora o Presidente do júri
seja um destes ganhadores), até agora parece
tudo bem aberto, e o Festival vai entrando nos dias
finais... Bom sinal pros orientais (Hou, Hong), pra
Jarmusch e pros irmãos franceses e belgas. Os
outros que faltam são azarões completos.
Mas... eu mencionei que "dar a louca em Kusturica"
é um pleonasmo?
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A bittersweet life (Dal kom han in-saeng),
de Kim Jee-Woon, Coréia do Sul, 2005 - Fora de
Competição (Midnight Movies)
Se filmes recebessem classificação indicativa
de censura (pra usar o termo em voga no Brasil no momento)
de forma matematicamente proporcional - por conta do
número de balas disparadas, quantidade de sangue
expelido ou violência física empregada
-, o filme de Kim seria proibido para menores de 2076
anos, mais ou menos. Não há como não
se impressionar com o sanguinolento espetáculo
composto por Kim, que tem tanto algumas raízes
Tarantinescas (se bem que se falar em lado de referência
entre Tarantino e o cinema oriental é complicado
- mas o fato é que o pressuposto da história
é uma precisa reencenação da relação
entre Vincent Vega e Mia Wallace) quanto referências
claras ao cinema anterior (Leone, muito forte - de novo)
ou aos contemporâneos locais de Kim (a segunda
parte do filme lembra muito o pressuposto narrativo
de Old Boy). Então o que Kim traz de
novo pro panorama? Não muito, é verdade,
mas ele faz o que se propõe com um punch impressionante
(as balas e outros objetos que rasgam os corpos, rasgam
mesmo - seu espetáculo nunca é agradável
de ser admirado), com uma economia de psicologia refrescante
(seu personagem é quase o Estranho sem Nome
- embora tenha nome) e, ao final, traz à
tona uma poesia e romantismo completamente inesperados
- ou pelo menos para os que sempre acham que a hiper-violência
não comporta estes elementos. Trata-se, afinal,
de uma história de amor platônico que se
transforma na metade numa clássica história
de vingança sangrenta. Tudo filmado com a mistura
de hiperrealismo e poesia do sangrento que os melhores
exemplares do gênero conseguem implantar. Kim
filma isso tudo com clareza, onde seu estilo virtuoso
nunca se impõe ao que acontece na tela, e criando
uma micro-mitologia forte de tipos, de personas cinematográficas
marcantes. Um filme muito interessante, ainda que pouco
excepcional (no sentido de exceção mesmo).
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Le temps qui reste, de François Ozon,
França, 2005 - Un Certain Regard
O grande mistério, num ano em que a seleção
francesa do festival foi diminuta (criando muitos protestos
na indústria do cinema local), é por que
o filme de Ozon foi parar no Un Certain Regard e não
na Competição. Não que seja um
grande filme - não é. Mas é melhor
do que algumas coisas que passaram na competição
este ano, assim como que vários filmes franceses
selecionados em anos anteriores - inclusive do próprio
Ozon. E, de quebra, ainda tem Jeanne Moreau num papel,
o que sempre é critério em Cannes.
Bom, mas indo ao filme especificamente: trata-se de
um surpreendente filme comportado e naturalista de Ozon
(tá, com uma cena de sexo homossexual masculino
bastante direta, mas ainda assim "romântica"),
que trata de um jovem homem que descobre que tem poucos
meses de vida, por conta de um câncer já
metastizado, e o que ele faz com o seu "tempo que
resta" - um dos temas mais complicados de se tratar
em relação a audiovisual (tanto pela sua
superexploração quanto pela sua complicada
transposição em imagens e sons, sempre
brigando entre o piegas e o francamente exploratório).
Ozon se mostra extremamente comportado ao tratar do
tema, e por isso mesmo no geral parece um tanto banal
- especialmente nas cenas mais realistas, como as que
envolvem a personagem de Moreau - o resto da família
(pai, mãe, irmã) também aparece
em luzes um tanto banais (apenas o pai tem uma cena
melhor, no carro). Além disso, há a inclusão
de uma linha narrativa um tanto questionável,
que envolve a chance do homem (gay assumido) "prolongar
sua existência" engravidando uma mulher -
toda a história parece um Deus ex-machina inexplicável,
além de uma forma de colocar o espectador atento
em algo mais narrativo do que o sofrimento da morte
iminente. O fato é que Ozon não é
um cineasta "do corpo", um cineasta cuja câmera
e som criem um organismo vivo de matéria puramente
cinematográfica, que pode pulsar, como seria
desejável num filme como este (pensamos aqui
em Assayas, em Denis), nem é um cineasta particularmente
conhecido pela capacidade de fazer um drama realista
com interesse humano profundo por si mesmo - e o filme
se ressente de não conseguir fazer nenhuma das
duas coisas. O que vale a pena são justamente
cenas mais "vivas" e menos narrativas (como
as de sexo), ou as cenas mais "não-reais"
(geralmente envolvendo o personagem se revendo como
criança), especialmente a parte final do filme,
onde ele se livra dos outros personagens e entra numa
abstração formal e de ator - onde Ozon
e Melvin Poupaud se sentem mais à vontade. Ali
o filme demonstra uma certa pungência que falta
nas suas outras cenas, que no geral soam como generalidades
de tramas para ilustrar este pressuposto narrativo.
Ainda assim, Ozon faz um filme que foge do perigo do
piegas na sua maior parte, e também do exploratório
- só que faz um filme que também não
consegue trazer muito mais ao tema.
Eduardo Valente
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