| Existe
uma entidade chamada Marché du Film (Mercado
do Cinema), que na verdade é hoje a verdadeira
razão de ser de Cannes. Esta entidade é
a que movimenta o maior número de pessoas que
vêm a Cannes, tem mais ou menos trinta salas de
cinema à sua disposição (enquanto
a Seleção Oficial do Festival utiliza
quatro), e é um dos motivos pelos quais um cineasta
como Ingmar Bergman, de uma outra geração,
ao lançar seu último (e possivelmente
final) filme disse que não lançaria jamais
o filme num Festival como Cannes nos dias de hoje. De
fato, as pessoas que realmente "amam o cinema",
naquele sentido tão antiquado, são uma
minoria grotescamente subdimensionada nos dez dias de
Cannes. Muitos mais são os fotógrafos,
os abutres de tapetes vermelhos, a galera que vem curtir
umas festinhas animadas. Mas, acima de tudo, o pessoal
que faz do cinema o seu "business". Filmes
são vendidos prontos, em co-produção
ou ainda em projeto - o que dá uma sensação
muito estranha de um mercado auto-alimentado, onde se
produz uma mercadoria cujo produto final está
sendo exibido sem muita atenção. Não
é nada muito diferente do fluxo de capital invisível
onde nada se produz e muito dinheiro se ganha. Tudo
muito, muito esquisito, e quase sempre incômodo.
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De todo o domínio do mercado sobre a arte, duas
faces do fenômeno realmente incomodam muito, mesmo
a quem tenta se manter o mais longe possível
disso tudo - porque são as faces com as quais
acabamos precisando lidar.
A primeira é uma certa resposta imediata que
os filmes têm não só na imprensa
mundial, mas numa imprensa muito específica que
circula dentro do próprio Festival: as revistas
Variety, Screen International, Film Français
e Hollywood Reporter circulam com edições
diárias - onde se lê, principalmente, notícias
sobre os negócios sendo feitos, mas também
críticas dos filmes nos dias seguintes em que
eles passam. Distribuídas de graça em
hotéis e no Palais, são leitura obrigatória
de quase todos no Festival. O que impressiona na crítica
destes veículos é justamente sua visão
absolutamente pragmática do cinema, circulando
como sangue justamente dentro das veias de um suposto
local de defesa do lado "artístico"
dele. Todas as críticas começam sempre
com uma análise do possível mercado que
o filme vai cobrir (exemplo: "O filme deve encontrar
boa circulação no mercado de festivais
e em algumas televisões fechadas, mas não
deve encontrar seu público no circuito do cinema"),
antes de qualquer discussão do filme (que, surpreendentemente,
em revistas como a Variety ou a Screen conseguem alguns
resultados bem interessantes para críticas escritas
de um dia para o outro). É um pouco tristonho
ler sempre esta avaliação que parte da
consequência pra analisar o motivo (o que vira
tudo ao contrário, pelo menos como nós
entendemos). A Hollywood Reporter é a encarnação
mais cruel deste mercado onipresente - e se prestaria
quase à piada, se não fosse absolutamente
séria. Ela nos informa, por exemplo, que ao filme
de Gus Van Sant "faltam coisas levemente importantes
como trama, desenho de personagens, motivações
compreensíveis e desenvolvimento narrativo".
Como eu disse, parece engraçado, mas talvez não
seja. Afinal, assim como o Festival chegou ao que é
hoje a partir de uma realidade bem diferente, não
é difícil imaginar ele se transmutando
para algo ainda mais assustador no futuro, a partir
de uma leitura ainda nem tão radical como a da
HR - lembremos que, em 2003, após ser fuzilado
de todos os lados por críticas parecidas com
esta, Vincent Gallo não só pediu desculpas
pelo seu filme como acabou indo cortar meia hora da
versão inicial depois de Cannes. Se o filme melhorou
com isso ou não é uma outra questão,
e se ele cortaria mesmo ou não é ainda
outra, mas o que se enxerga aqui é uma pressão
absolutamente irreal entre a expectativa e as motivações.
Digo: que a HR queira dar sua impressão sobre
a marketabilidade de Star Wars ou de Sin
City, isso é uma coisa. Outra coisa, completamente
surreal, é ela publicar um texto sobre Batalla
en el cielo, analisando-o do pressuposto do mercado
- que certamente não foi o pressuposto pelo qual
ele foi feito. Não estou aqui pregando uma "inocência"
do produto de arte (afinal, ele foi feito por um produtor,
que certamente pensou num mercado, ou que seja, numa
forma de financiamento pro filme), mas apenas vendo
a inadequação dos discursos. O texto sobre
o filme de Carlos Reygadas é bom pra fazer isso
porque tem passagens geniais, onde o resenhista (na
HR, aliás, os textos não são assinados)
simplesmente comprova o que o filme quis fazer, mas
pensando que isso é um argumento contra o filme.
Peguemos um parágrafo por exemplo: "Os
atores nem tentam comunicar algum significado. As cenas
são esvaziadas de emoção. A paisagem
da Cidade do México é observado com um
olhar documental, sem expôr um ponto de vista
específico. Vai ser difícil achar uma
audiência para o filme, mesmo com a inclusão
de cenas de sexo gráficas, mas não eróticas".
Uma descrição precisa do filme; só
que não é uma descrição,
é um protesto (pra ficar mais claro, peguemos
uma frase um pouco mais adiante: "religião
não aparenta ter nenhum impacto nos tolos amorais
que povoam o filme" - ou seja, há uma
agenda). Claro, o amigo leitor pode dizer, é
o olhar do Hollywood Reporter, ele tem que dizer isso
mesmo do filme. OK, é o olhar dele - mas que
um filme de Carlos Reygadas ia ter essas características,
você podia saber mesmo antes de vê-lo. Então,
a pergunta é: por que Batalla en el ciello
interessa ao HR? Porque não ignorá-lo,
assumir que são coisas distintas e separadas?
Porque talve não sejam, diriam alguns. Talvez
- mas é isso mesmo que é preocupante.
O outro lado muito incômodo do Mercado são
justamente as sessões de cinema no próprio
Mercado. Não que seja sempre um prazer ver os
filmes em algumas outras das sessões. As oficiais,
de smokings, por exemplo, geralmente têm alta
debandada do público independente do filme -
talvez não Star Wars - por serem só
palco para os socialites locais e mundiais mostrarem
poder (sim, porque ter ingressos para estes filmes é
ter "contatos"), passearem no tapete vermelho,
e logo saírem pra um jantar ou festa boca-livre-de-champanhe.
O 'filme' é só uma parte meio incômoda
que tem no meio - e se der pra fugir dela, tanto melhor.
Mas, eu dizia, mesmo no aspecto incômodo que esta
sessão tem (ou as de imprensa para jornalistas
na maioria absurdamente conservadores - no que se refere
ao cinema ou ao que for), nada se compara ao Mercado,
onde acaba sendo necessário ir de vez em quando
para ver algum filme perdido nas poucas sessões
oficiais que cada um tem. Lá as pessoas entram
e saem da sala no meio do filme, o tempo todo, celular
ser atendido não é falta de educação
(pedir silêncio sim seria inadequado), conversas
em voz alta idem. É isso, um mercado, uma feira
- e os filmes são os tomates do dia. É
uma coisa meio enojante ver aquele pessoal engomado,
com seus cartões de negócios sendo entregues
pra assessora de vendas do filme na porta, entrando
e saindo, vendo, sei lá, 15 minutos no meio de
um filme.
É um mundo estranho esse lá fora. Gostar
de cinema em Cannes é uma atividade bem difícil.
Eduardo Valente
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