| Você
não vai ouvir aqui primeiro sobre: além
do Woody Allen e do Star Wars, um perdido por
falta de oportunidade, o outro por opção
(breve num cinema perto de você), você também
não vai ouvir falar aqui de Caché,
de Michael Haneke. O caso é que ele era o filme
final na minha atualizada de agenda por perder o primeiro
dia, e aí caiu numa sessão complementar
numa sala menor, na qual pessoas se acotovelavam pra
entrar. Bom, tem algumas coisas que eu até faço
pra ver um filme (ficar sem comer mais que biscoitinhos,
entrar em fila de trinta minutos), tem outras que não.
Se o debate sobre Haneke ser sádico ou não
é algo interessante, não resta dúvida:
masoquista eu não sou. Sábado e domingo,
em anos anteriores, costumou-se repetir toda a Un Certain
Regard e toda a Competição - se der, eu
vejo então o Haneke, além dos outros três
ou quatro filmes perdidos nas duas sessões.
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Primeira pergunta da coletiva de George Lucas e gangue:
"Os meus jovens colegas de imprensa comentavam
após o filme sobre a relação com
George W. Bush...". É, foi mais ou
menos nesse momento que eu saí da frente da TV
que passava a entrevista ao vivo. Tiago Teixeira, lembrei
de você!
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Batalla en el ciello, de Carlos Reygadas, México/França,
2005 - Competição
Cannes se monta toda em torno dos autores - aqui os
cineastas são tratados como entidades acima do
Bem e do Mal - e para entrar neste clube a principal
coisa que um jovem cineasta precisa fazer é estabelecer,
desde cedo, um estilo marcante. Não é
por acaso que Carlos Reygadas hoje foi recebido com
aplausos entusiasmados até mesmo antes de ter
seu filme visto: tendo apenas um longa no currículo,
seu nome já é recebido por um público
como o de Cannes como o de um "autor" importante
- e, não custa lembrar, seu filme anterior, Japón
(também descoberto no Festival, na Quinzena dos
Realizadores), teve tanto público na França
como no resto do mundo, sendo que este novo filme foi
inicialmente todo financiado por acordos de produção
com a França - dinheiro mexicano só apareceu
no final do processo.
Isso tudo para dizer que Batalla en el ciello
certamente confirma o nome de Reygadas como o de um
autor segundo o entendimento deste meio - e, tanto melhor,
um autor polêmico: ao final da sessão oficial
do seu filme (que, como acontece com a parte menos "glamurosa"
da Competição - os "autores em ascensão"
- se deu às 16h sem necessidade de smoking, ao
contrário dos Cronenberg, Von Trier e Egoyan
da vida) mesclaram-se longas palmas entusiasmadas com
alguns poucos apupos firmes - isso porque, claro, boa
parte dos detratores saiu no meio do filme. É
um filme que já apresenta alguns "traços"
estilísticos, que representam o fetiche dos "caçadores
de autores" (planos com viradas de câmera
de 360 graus, o uso de música sinfônica
em momentos ou ambientes inesperados, mistura de realismo
com anti-naturalismo forte, planos longos e atuações
não-dramatizadas), mas acima de tudo que reforça
a originalidade de um diretor com um trabalho realmente
absolutamente diferenciado. Eu, não sendo um
fã inveterado de Japón como muitos,
reagi perante o novo filme de maneira muito parecida
com o primeiro: maravilhado em momentos com a força
do acúmulo das imagens (e sons - o trabalho com
o som e sua relação com a imagem é
um dos grandes trunfos do filme), e em outras um tanto
afastado do filme pela própria necessidade constante
de "impor um estilo" ao que se filma. De fato,
o que não se pode negar é que Reygadas
consegue causar reações fortes em qualquer
espectador, talvez menos pelas cenas onde mais se busca
isso, mas principalmente nos momentos mais inesperados
(aqui, em especial, a filmagem de um jogo de futebol
serve como exemplo). O mais impressionante no filme
é perceber que, por trás de um aparente
retrato da decadência de um homem, na verdade
Reygadas está contando uma muito inesperada história
de amor impossível, onde não faltarão
mortes, fluidos corporais em abundância, e uma
relação muito fina (e, felizmente, bem
pouco óbvia) entre o micro-universo dos personagens
e o México (Igreja, exército, futebol,
Cidade do México, violência urbana, embate
de classes, todos dizem "presente" no filme).
Na última meia hora, Reygadas junta todos esses
elementos e consegue um resultado impressionante. Pena
que isso venha depois de uma primeira hora, no mínimo,
irregular. É filme para se ver de novo, filme
não ajudado pela correria e julgamentos apressados
de festivais. Agora, a única certeza é:
Reygadas é nome certo em futuros festivais de
Cannes.
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Les artistes du theatre brûlé,
de Rithy Panh, França/Camboja, 2005 - Fora de
Competição
Panh é mais conhecido (não sei porque,
mas a expressão em si me soou errada - talvez
"menos desconhecido"?) no Brasil pela sua
produção documental, mas já em
1994 ele concorreu em Cannes mesmo com uma ficção
- eu confesso que sou um ignorante em Panh, tanto num
como noutro, mas por falta de sorte de poder ter visto
os filmes do que qualquer coisa. Les artistes...
é uma ficção com um registro e
entorno altamente documentais, na qual Panh quer refletir
sobre o papel do artista num país em reconstrução
como o Camboja. Assim, o filme se passa num teatro da
cidade, completamente destruído por um incêndio
em 1994 (o filme faz questão de não dar
nenhuma destas contextualizações históricas
o que, se lhe dá uma bem vinda independência
do formato mais "informativo", também
acaba privando o espectador de algumas compreensões
importantes do que se passa), onde um grupo de artistas,
mais marginais no Camboja do que são em vários
países, ao mesmo tempo em que encena algumas
passagens de peças (principalmente o Cyrano de
Bergerac), relembram o passado recente de muita dor
no Camboja, e simplesmente vivem naquele espaço.
O filme de Pahn tem uma estrutura ficcional (que inclui
passagens metalinguísticas onde justamente se
trata da encenação do real), mas o que
importa nele mesmo são temas caros ao diretor
(de novo, eu falo por leitura de textos alheios e não
por experiência própria): a importância
da transmissão de conhecimento, a relação
entre o Camboja de hoje com o seu passado, memória,
família. O filme tem algumas cenas extremamente
bonitas, como a mulher que relembra a sua história
de torturas e genocídio olhando uma maquete do
campo onde esteve, e a relata enquanto a câmera
passeia por esta maquete, e mesmo quando vai mais forte
ao documentário (como na cena nos lixões)
nunca deixa de lado o poder da fabulação,
assim como na ficção nunca perde de vista
o real. Não há em Panh sinais de auto-piedade,
ou compaixão mal resolvida, apenas a crença
no cinema como passagem e manutenção do
saber e da história. No entanto, como o filme,
para além da questão discutida acima da
falta de um contexto histórico mais simples de
compreender (tudo que eu mencionei sobre isso veio do
press release), se estrutura numa narrativa extremamente
solta e baseada em quase sketches, ele acaba resultando
um tanto desigual, episódico e, eventualmente,
sentimos falta de um ritmo que o sustente. Filme de
pedaços, filme-processo, filme importante.
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A History of Violence, de David Cronenberg,
EUA, 2005 - Competição
Em A History of Violence, adaptação
de uma graphic novel, encontramos um Cronenberg surpreendentemente
solto, fluido mesmo, especialmente se em comparação
com Spider. A primeira parte do filme transcorre
com grande domínio narrativo, estruturando sua
história (tão referencial do grande cinema
americano de gêneros, em especial do western)
do pai de família exemplar cujo passado de violência
vem bater na sua porta e forçá-lo a encará-lo.
Cronenberg é esplendidamente bem sucedido na
construção do tal lar americano exemplar,
conseguindo mesclar a necessária exploração
de clichês (a cidade pequena, a filhinha loira
que parece saída de um sonho, o filho que joga
baseball, o café da manhã em família,
o pai dono de um típico café americano)
com alguns tons muito bem vindos (a sexualidade do casal
- onde mesmo a fantasia sexual é all-american,
com a mãe vestida de cheerleader - aliás
as cenas de sexo são um forte do filme, com grande
"doação" do casal Viggo Mortensen
e Maria Bello). A irrupção da violência
também é precisa, numa cena filmada com
economia, mas muito punch, e que provoca a ruptura de
tom esperado (e, na verdade, antecipada pela sequência
de abertura). Ed Harris surge muito bem como o fantasma
do passado, ele sim um personagem absolutamente quadrinesco
(como todos os vilões, aliás), e o filme
vai muito bem até o momento em que o protagonista
volta a assumir sua identidade anterior. Aí,
o filme cai um pouco, com o tom do personagem de William
Hurt, e tudo à sua volta, bastante divertidos
em si mesmos, mas em contraste com o todo que Cronenberg
consegue montar (que até então nos arrancava
sorrisos e choque em medidas precisas). Daí para
a resolução (inevitavelmente aberta),
o filme acaba revelando sua maior fraqueza: o fato de
ter pouco a adicionar a este tema tão antigo
quanto o cinema americano, o da violência original
escondida nos closets da família americana, da
necessidade de se lidar com esta herança ao mesmo
tempo em que se passa ela adiante. Percebemos ao final
que Cronenberg retrata tudo isso com grande talento,
mas pouca entrega (talvez por ser ele mesmo, afinal,
canadense). Dois anos depois de Mystic River
sair de Cannes com as mãos abanando é
difícil imaginar este "filhote espiritual"
menos completo conseguir melhor sorte. Um belo filme,
filmado com enorme talento, mas que no fim não
nos assombra como tantos outros do cineasta já
fizeram.
Eduardo Valente
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dos Diários de Cannes
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