diários de cannes V

Você não vai ouvir aqui primeiro sobre: além do Woody Allen e do Star Wars, um perdido por falta de oportunidade, o outro por opção (breve num cinema perto de você), você também não vai ouvir falar aqui de Caché, de Michael Haneke. O caso é que ele era o filme final na minha atualizada de agenda por perder o primeiro dia, e aí caiu numa sessão complementar numa sala menor, na qual pessoas se acotovelavam pra entrar. Bom, tem algumas coisas que eu até faço pra ver um filme (ficar sem comer mais que biscoitinhos, entrar em fila de trinta minutos), tem outras que não. Se o debate sobre Haneke ser sádico ou não é algo interessante, não resta dúvida: masoquista eu não sou. Sábado e domingo, em anos anteriores, costumou-se repetir toda a Un Certain Regard e toda a Competição - se der, eu vejo então o Haneke, além dos outros três ou quatro filmes perdidos nas duas sessões.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

Primeira pergunta da coletiva de George Lucas e gangue: "Os meus jovens colegas de imprensa comentavam após o filme sobre a relação com George W. Bush...". É, foi mais ou menos nesse momento que eu saí da frente da TV que passava a entrevista ao vivo. Tiago Teixeira, lembrei de você!

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

Batalla en el ciello, de Carlos Reygadas, México/França, 2005 - Competição

Cannes se monta toda em torno dos autores - aqui os cineastas são tratados como entidades acima do Bem e do Mal - e para entrar neste clube a principal coisa que um jovem cineasta precisa fazer é estabelecer, desde cedo, um estilo marcante. Não é por acaso que Carlos Reygadas hoje foi recebido com aplausos entusiasmados até mesmo antes de ter seu filme visto: tendo apenas um longa no currículo, seu nome já é recebido por um público como o de Cannes como o de um "autor" importante - e, não custa lembrar, seu filme anterior, Japón (também descoberto no Festival, na Quinzena dos Realizadores), teve tanto público na França como no resto do mundo, sendo que este novo filme foi inicialmente todo financiado por acordos de produção com a França - dinheiro mexicano só apareceu no final do processo.

Isso tudo para dizer que Batalla en el ciello certamente confirma o nome de Reygadas como o de um autor segundo o entendimento deste meio - e, tanto melhor, um autor polêmico: ao final da sessão oficial do seu filme (que, como acontece com a parte menos "glamurosa" da Competição - os "autores em ascensão" - se deu às 16h sem necessidade de smoking, ao contrário dos Cronenberg, Von Trier e Egoyan da vida) mesclaram-se longas palmas entusiasmadas com alguns poucos apupos firmes - isso porque, claro, boa parte dos detratores saiu no meio do filme. É um filme que já apresenta alguns "traços" estilísticos, que representam o fetiche dos "caçadores de autores" (planos com viradas de câmera de 360 graus, o uso de música sinfônica em momentos ou ambientes inesperados, mistura de realismo com anti-naturalismo forte, planos longos e atuações não-dramatizadas), mas acima de tudo que reforça a originalidade de um diretor com um trabalho realmente absolutamente diferenciado. Eu, não sendo um fã inveterado de Japón como muitos, reagi perante o novo filme de maneira muito parecida com o primeiro: maravilhado em momentos com a força do acúmulo das imagens (e sons - o trabalho com o som e sua relação com a imagem é um dos grandes trunfos do filme), e em outras um tanto afastado do filme pela própria necessidade constante de "impor um estilo" ao que se filma. De fato, o que não se pode negar é que Reygadas consegue causar reações fortes em qualquer espectador, talvez menos pelas cenas onde mais se busca isso, mas principalmente nos momentos mais inesperados (aqui, em especial, a filmagem de um jogo de futebol serve como exemplo). O mais impressionante no filme é perceber que, por trás de um aparente retrato da decadência de um homem, na verdade Reygadas está contando uma muito inesperada história de amor impossível, onde não faltarão mortes, fluidos corporais em abundância, e uma relação muito fina (e, felizmente, bem pouco óbvia) entre o micro-universo dos personagens e o México (Igreja, exército, futebol, Cidade do México, violência urbana, embate de classes, todos dizem "presente" no filme). Na última meia hora, Reygadas junta todos esses elementos e consegue um resultado impressionante. Pena que isso venha depois de uma primeira hora, no mínimo, irregular. É filme para se ver de novo, filme não ajudado pela correria e julgamentos apressados de festivais. Agora, a única certeza é: Reygadas é nome certo em futuros festivais de Cannes.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

Les artistes du theatre brûlé, de Rithy Panh, França/Camboja, 2005 - Fora de Competição

Panh é mais conhecido (não sei porque, mas a expressão em si me soou errada - talvez "menos desconhecido"?) no Brasil pela sua produção documental, mas já em 1994 ele concorreu em Cannes mesmo com uma ficção - eu confesso que sou um ignorante em Panh, tanto num como noutro, mas por falta de sorte de poder ter visto os filmes do que qualquer coisa. Les artistes... é uma ficção com um registro e entorno altamente documentais, na qual Panh quer refletir sobre o papel do artista num país em reconstrução como o Camboja. Assim, o filme se passa num teatro da cidade, completamente destruído por um incêndio em 1994 (o filme faz questão de não dar nenhuma destas contextualizações históricas o que, se lhe dá uma bem vinda independência do formato mais "informativo", também acaba privando o espectador de algumas compreensões importantes do que se passa), onde um grupo de artistas, mais marginais no Camboja do que são em vários países, ao mesmo tempo em que encena algumas passagens de peças (principalmente o Cyrano de Bergerac), relembram o passado recente de muita dor no Camboja, e simplesmente vivem naquele espaço. O filme de Pahn tem uma estrutura ficcional (que inclui passagens metalinguísticas onde justamente se trata da encenação do real), mas o que importa nele mesmo são temas caros ao diretor (de novo, eu falo por leitura de textos alheios e não por experiência própria): a importância da transmissão de conhecimento, a relação entre o Camboja de hoje com o seu passado, memória, família. O filme tem algumas cenas extremamente bonitas, como a mulher que relembra a sua história de torturas e genocídio olhando uma maquete do campo onde esteve, e a relata enquanto a câmera passeia por esta maquete, e mesmo quando vai mais forte ao documentário (como na cena nos lixões) nunca deixa de lado o poder da fabulação, assim como na ficção nunca perde de vista o real. Não há em Panh sinais de auto-piedade, ou compaixão mal resolvida, apenas a crença no cinema como passagem e manutenção do saber e da história. No entanto, como o filme, para além da questão discutida acima da falta de um contexto histórico mais simples de compreender (tudo que eu mencionei sobre isso veio do press release), se estrutura numa narrativa extremamente solta e baseada em quase sketches, ele acaba resultando um tanto desigual, episódico e, eventualmente, sentimos falta de um ritmo que o sustente. Filme de pedaços, filme-processo, filme importante.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

A History of Violence, de David Cronenberg, EUA, 2005 - Competição

Em A History of Violence, adaptação de uma graphic novel, encontramos um Cronenberg surpreendentemente solto, fluido mesmo, especialmente se em comparação com Spider. A primeira parte do filme transcorre com grande domínio narrativo, estruturando sua história (tão referencial do grande cinema americano de gêneros, em especial do western) do pai de família exemplar cujo passado de violência vem bater na sua porta e forçá-lo a encará-lo. Cronenberg é esplendidamente bem sucedido na construção do tal lar americano exemplar, conseguindo mesclar a necessária exploração de clichês (a cidade pequena, a filhinha loira que parece saída de um sonho, o filho que joga baseball, o café da manhã em família, o pai dono de um típico café americano) com alguns tons muito bem vindos (a sexualidade do casal - onde mesmo a fantasia sexual é all-american, com a mãe vestida de cheerleader - aliás as cenas de sexo são um forte do filme, com grande "doação" do casal Viggo Mortensen e Maria Bello). A irrupção da violência também é precisa, numa cena filmada com economia, mas muito punch, e que provoca a ruptura de tom esperado (e, na verdade, antecipada pela sequência de abertura). Ed Harris surge muito bem como o fantasma do passado, ele sim um personagem absolutamente quadrinesco (como todos os vilões, aliás), e o filme vai muito bem até o momento em que o protagonista volta a assumir sua identidade anterior. Aí, o filme cai um pouco, com o tom do personagem de William Hurt, e tudo à sua volta, bastante divertidos em si mesmos, mas em contraste com o todo que Cronenberg consegue montar (que até então nos arrancava sorrisos e choque em medidas precisas). Daí para a resolução (inevitavelmente aberta), o filme acaba revelando sua maior fraqueza: o fato de ter pouco a adicionar a este tema tão antigo quanto o cinema americano, o da violência original escondida nos closets da família americana, da necessidade de se lidar com esta herança ao mesmo tempo em que se passa ela adiante. Percebemos ao final que Cronenberg retrata tudo isso com grande talento, mas pouca entrega (talvez por ser ele mesmo, afinal, canadense). Dois anos depois de Mystic River sair de Cannes com as mãos abanando é difícil imaginar este "filhote espiritual" menos completo conseguir melhor sorte. Um belo filme, filmado com enorme talento, mas que no fim não nos assombra como tantos outros do cineasta já fizeram.

Eduardo Valente


Clique aqui para ler a próxima crônica dos Diários de Cannes