| Depois
de um filme visto no primeiro dia do Festival, pode-se
dizer que o trabalho começou de verdade hoje,
com seis filmes vistos ao longo do dia - sempre uma
experiência entre o maravilhoso e o exaustivo.
Nada que prepare pro fim de semana - sete filmes programados
pra sábado e sete pra domingo. Se eu chegar vivo
na segunda, o ritmo "diminui"- ou seja, voltamos
a seis por dia até quinta, cinco na sexta, e
pronto. É cansativo, mas são só
oito dias, na prática. Vale o esforço.
Mas vamos logo aos filmes:
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Bashing, de Masahiro Kobayashi, Japão,
2005 (Competição)
Kilometre Zero, de Hiner Saleem, Iraque/França,
2005 (Competição)
Os dois primeiros filmes a serem exibidos na Competição
depois do filme de abertura curiosamente lidam com um
mesmo tema, de forma muito diferente: o Iraque. E ambos
não deixam de comprovar, de alguma forma, que
o Iraque é hoje um lugar real que vai ganhando
cada vez mais força como um espaço imaginário
onipresente, que permite os tipos mais distintos de
apropriação artística.
No primeiro filme, por exemplo, o japonês Bashing,
não há um só plano que se passe
no Iraque, ele é apenas o local que assombra
toda a trama. Trama esta que, para qualquer pessoa de
fora das tradições e características
muito peculiares da sociedade japonesa, soa quase tão
alienígena como se o filme viesse de Marte. A
ver: a personagem principal do filme é uma jovem
que foi para o Iraque como voluntária de ajuda
humanitária, lá foi sequestrada, e ao
voltar para o Japão, é completamente marginalizada
pela sociedade, como se, de fato, houvesse contraído
uma gravíssima doença contagiosa. Isso
tudo, aliás, é o ponto de partida do filme,
do qual nada vemos na tela (apenas um crédito
inicial que introduz a idéia de que os sequestrados
no Iraque são rejeitados na volta ao Japão
- mais uma informação do que uma explicação).
Quando o filme começa, logo ela é demitida,
assim como o seu pai, por conta de pressões populares
sobre as firmas que os empregam. A maior parte do filme
o espectador ocidental passa tentando compreender (e
quiçá aceitar) a idéia desta rejeição
"nacional" a alguém que vai a outro
país tentar ajudar (e, não, não
se trata de uma posição política
anti-Bush, isso fica bem claro).
Kohayashi filma isso tudo com uma simplicidade radical
(o que chega a significar eventuais ruídos de
câmera - algo um tanto raro no cinema de longa
de hoje), e com uma câmera sempre na mão
que se esforça, ao máximo, por criar ela
mesmo movimentos e reposicionamentos dentro das sequências
(raríssimo um plano-contraplano no filme). No
entanto, o filme não segura todas as pontas da
narrativa, que acaba se tornando eventualmente um tanto
monocórdia. Em algumas poucas cenas conseguimos
ver algo a mais do que um realismo que tente dar conta
do sofrimento desta família rejeitada - como,
em especial, o melhor plano do filme no qual a mulher
engole com sofreguidão toda uma refeição.
A angústia da personagem naquele ato fala mais
do que em todas as palavras do filme. Uma grande curiosidade
porém é ver o Iraque passar de fantasma
para "paraíso", quando a personagem
declara que só lá foi realmente feliz.
Aí está uma possível leitura do
país que não vemos com facilidade.
Certamente, inclusive, não vemos no outro filme
da Competição, este sim todo passado no
Iraque (exceção ao prólogo e epílogo),
o filme do diretor curdo Saleem. Trata-se de
um curioso "filme de exilado" (trataremos
mais do tema depois), que exorciza um demônio
um tanto "ultrapassado" na mídia de
hoje - o do governo de Saddam Hussein. Não deixa
de ser um outro filme que mostra um Iraque menos comum
nas telas de telejornais, ao se localizar no fim dos
anos 80 na maior parte de sua duração.
Mas, o fato é que bater em Saddam Hussein pode
ser terapia importante para um curdo exilado, mas para
o resto do mundo parece tão "original"
quanto um filme com vilões nazistas. Assim, "descobrimos"
no filme que o regime de Saddam era um inferno para
os curdos - algo que, afinal, já sabíamos.
Interessa ver então como Saleem tenta
montar este seu retrato do inferno, e aqui cabe lembrar
que seu filme anterior foi exibido na Mostra de SP,
chamado Vodka Lemon. Kilometre Zero tem
a mesma tentativa constante de um humor quase surreal
perante uma realidade dura, algo que o aproxima muito
às vezes de um certo sentimento comum nos filmes
do Leste Europeu, com a vontade de construir muitas
"imagens poéticas". Mas o fato é
que Saleem não é especialmente
talentoso nem no humor (não basta uma estátua
de Saddam aparecer uma vez "assombrando o personagem",
ela precisa voltar três ou quatro vezes), nem
na sutileza narrativa (os citados prólogo e epílogo
passados na França, por exemplo, didáticos
e dispensáveis, comprovam o fato). Quando seu
filme toma ares bem parecidos em termos de história
com a comédia de humor negro do cubano Tomás
Gutierrez Alea Guantanamera, percebemos quão
longe da graça do latino Saleem está
- sem dizer que Alea faz sua sátira em pleno
governo Fidel, enquanto Saleem cria seu filme
com Saddam preso pelos EUA (aliás, é difícil
achar que se pode ser mais irônico ou humilhante
com um ditador do que ter a sua imagem barbada e acabada,
sendo capturado num buraco).
Nos dois casos, filmes medianos, com esparsos momentos
de interesse para um todo desigual. Como havíamos
dito de Lemming, complicado sempre tentar entender
a presença destes filmes, que podiam até
fazer figura na "divisão mundial" da
Un Certain Regard, no meio da mais prestigiosa competição
de longas do mundo.
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Nordeste, de Juan Solanas, França/Argentina,
2005 - Un Certain Regard
Delwende, de S. Pierre Yameogo, Burkina Faso/França/Suiça,
2005 - Un Certain Regard
Falando na "divisão mundial" do Festival,
aí está ela fazendo sempre um dos seus
trabalhos principais, que é o de dar uma "universalidade"
ao Festival, quando a Competição não
conseguiu dar conta de determinadas áreas do
planeta. Como a América do Sul e a África
não tiveram vaga na vitrine principal, claro
que marcam presença aqui. No Un Certain Regard
existe sempre uma certa condescendência na reação
do público, além do famoso olhar do "colonizador",
que adora receber imagens das suas ex-colônias
para saber, afinal, "como andam as coisas por lá".
Dentre os dois filmes exibidos hoje, o trabalho do africano
Yameogo é, certamente, o mais interessante. Ele
parte exatamente do ponto onde parou no ano passado
Ousmane Sémbene, ganhador do prêmio desta
seção do Festival com o seu Moolade:
uma ficção de linguagem simplíssima,
com fortes tintas realistas, que se passa numa vila
do interior do país e cujo principal tema é
a opressão das mulheres pelas estruturas tribais
tradicionais. As grandes diferenças são
que Yameogo simplifica ainda mais o seu processo, filmando
num digital um tanto tosco, mas também consegue
dar novas cores ao seu retrato ao fazer com que suas
duas principais personagens femininas saiam num périplo
pelo país, onde vão acabar mesmo numa
"cidade grande" por algumas breves cenas.
A deambulação das duas personagens (uma
delas perseguida por ser considerada "bruxa",
a outra ao sair na busca à primeira) é
o grande momento do filme, que depois de um começo
um tanto esquemático, vai ganhando força
na medida em que esgarça sua narrativa. Como
não poderia deixar de ser, é claro que
o final busca um olhar esperançoso e sinalizante
de uma "revolta feminina", mas neste filme
de Yameogo tudo funciona muito bem na chegada até
ele. No final da sessão, claro, as palmas entusiásticas
pareciam mais condescendentes do que qualquer coisa
(algo no sentido "incrível que eles consigam
fazer filmes nestas condições"),
mas Yameogo consegue realmente criar belos momentos
de cinema.
Já Solanas, filho do cineasta Fernando e um argentino
radicado em Paris desde os 10 anos de idade, parece
só querer criar momentos de belo cinema, e nisso
acaba patinando principalmente na obviedade do "cinema
realista de autor". Que ele filme a Argentina com
um distanciamento é até natural (e isso
não deixa de estar tematizado no filme, que tem
como protagonista uma francesa que vai à Argentina),
mas a questão principal que já conhecíamos
sobre Solanas no seu curta O Homem sem Cabeça
é que ele parece fazer um cinema com muita cabeça
- e pouca alma. Seu filme é gélido o tempo
todo, mesmo estando sempre flertando com o melodrama.
As imagens de Felix Monti criam quadros de extrema beleza,
sempre, mas parece importar pouco que esta beleza mais
aprisione os personagens do que qualquer outra coisa.
Personagens, aliás, é bondade, porque
o que Solanas cria é uma narrativa dividida em
duas mulheres (a francesa bem sucedida que vai buscar
o filho que lhe falta na Argentina, e a nativa miserável),
cuja função principal na trama é,
o tempo todo, servirem uma de espelho pra outra - mas
nenhuma delas reflete muita coisa, visto que do outro
lado também tem um espelho. Assim, o drama soa
sempre esquemático, esperado (a viagem vai "mudar"
a francesa, a argentina vai viver seus dramas ao ápice
do insuportável), e nada que acontece na tela
cria uma reação de fato no espectador.
Tudo muito "correto", algumas belas imagens
pra dar fama de "realizador" a Solanas, um
realismo pretensamente naturalista para não soar
apenas como um "esteta", e voilá...
macumba pra turista. Pelo visto, colou.
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Le Filmeur, Alan Cavalier, França, 2005
- Un Certain Regard
Uma das outras funções da mostra paralela
oficial de Cannes é servir de espaço pra
diretores que já tiveram seus momentos na Competição,
mas hoje estão fazendo trabalhos ou difíceis
demais de se classificar ou inferior aos seus anteriores
(mas que interessa ao Festival cultivar como "crias
da casa"). Embora eu conheça pouco a carreira
anterior de Cavalier, Le Filmeur certamente é
um filme de muito interesse. Cavalier, não custa
lembrar, com o seu Vidas, de 2000, foi um dos primeiros
diretores a realmente radicalizar na linguagem do digital,
criando uma mescla de gêneros e registros e, acima
de tudo, trazendo para o formato do "longa-metragem"
uma série de imagens que não se consideravam
até então dignas do mesmo. Le Filmeur
é, em todos os sentidos, uma radicalização
deste processo. Filme-diário, constituído
de imagens de Cavalier e sua família (ou, muito
eventualmente de algumas coisas para além disso,
mas sempre relacionadas com isso), captadas pelo cineasta
com uma câmera simplíssima entre 1994 e
2005. Não se precisa ir muito longe na interpretação
do filme, porque o próprio diretor fala em cena
(muitas das cenas têm narração de
Cavalier, sempre captada junto com as imagens): ele
possui uma enorme angústia de ver os momentos
desaparecerem, e por isso desde novo toma muitas notas
sobre sua vida, e depois de ter uma câmera de
vídeo, passa a carregá-la consigo o tempo
todo. Le Filmeur é, exatamente, um filme
sobre a morte - não só a morte propriamente
dita, embora ela ronde o filme o tempo todo (nestes
dez anos vemos, por exemplo, desde o falecimento do
pai do cineasta até os atentados de 11 de setembro),
mas principalmente a morte de cada instante, quando
este passa do presente para o passado; e, claro, a tentativa
de mantê-lo vivo com esta câmera.
Cavalier consegue criar uma narrativa impressionantemente
coesa nesta sucessão de imagens soltas (porém,
em ordem cronológica - não explícita
com datas e afins, mas plenamente compreensível),
onde mescla momentos realmente "grandes",
como os citados, mas com uma maioria acachapante de
pequenos fragmentos, alguns durando pouquíssimos
segundos. O espectador vive sempre na dualidade entre
um certo voyeurismo de quem tem uma intimidade desnudada
(muitas vezes, literalmente) à sua frente, e
um processo de identificação com o micro-universo
afetivo-familiar que Cavalier monta. Paroxismo do auto-documentário,
Le Filmeur é um trabalho que nunca deixa
de fascinar - mas precisamos afirmar que não
chega a ser nem o melhor filme francês a seguir
este caminho neste ano, ficando este posto para Peau
de cochon, de Philippe Katherine. Se o filme de
Cavalier confirma a potência do procedimento e
do meio de expressão como criadores de grandes
momentos de "cinema", e consegue sim atingir
o sublime em vários momentos, é no filme
de Katherine que trajetos ainda insuspeitos conseguem
ser traçados com mais pungência.
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Election, de Johnnie To, Hong Kong, 2005 - Competição
Election pode até ser considerado como
mais um elemento-estranho na competição
de Cannes deste ano (e certamente parece ter sido visto
assim, a julgar pelo acachapante silêncio que
se seguiu à sua projeção para a
imprensa), mas aqui o caso é diferente dos outros
três antes assim descritos. Se lá falava-se
mesmo de uma certa "qualidade excepcional"
(menos no sentido de brilhantismo e mais de exceção
mesmo) que faltava aos filmes, aqui a questão
principal é mesmo o sempre presente preconceito
com o cinema de gênero. Isso embora Election
esteja longe de poder ser qualificado exatamente como
um exemplar deste cinema - afinal, se trata-se de um
filme de ação é bastante estranho
que apenas uma sequência possa ser realmente qualificada
como tal. Mas, o mal-estar continua existindo, e quão
mais inconsistente seja, ainda assim faz todo sentido
- até porque, para além do rótulo
do "cinema de gênero", Election
urde uma trama um tanto politicamente incorreta
onde pode ser facilmente visto como uma ode ao gangsterismo
em Hong Kong - legitimando toda uma mística por
trás dos códigos e rituais destes. Besteira,
na verdade o que To quer fazer é um grande desenho
que dê conta deste modelo bastante específico
de gangues (as chamadas Triads), desenho este que parte
da atualidade para ir muito além, tanto num confronto
geracional claro, quanto numa cena que remonta às
origens do fenômeno. Na verdade o filme com o
qual Election mais se apresenta, na sua narração
da chegada ao poder de uma nova geração
de mafiosos, é mesmo o Scarface de Howard
Hawks - embora, claro, estilisticamente To esteja mais
perto do modelo de um Brian De Palma. E, de fato, To
filma com uma inteligência ímpar, criando
um jogo quase abstrato entre claros e escuros, tableaus
e realidade, numa sinfonia muitas vezes ultra-violenta
(onde o cinema de Martin Scorsese vem muito à
lembrança também, especialmente Cassino),
mas onde a micro-narrativa dos personagens nunca está
distante de um retrato bastante complexo de toda uma
circunstância sócio-cultural mesmo. Election
também lembra um pouco o cinema mais recente
de Clint Eastwood (e aí a relação
com Cannes parece tão mais profícua) porque
percebe-se nele já um reflexo auto-consciente
de To (não por acaso, ele foi selecionado pra
Cannes pela primeira no ano passado, ainda fora de competição,
com Breaking News) de tentar ultrapassar as fronteiras
que haveriam no dito cinema de gênero, querendo
produzir filmes que "digam mais". Por
vezes o filme se ressente disso, por parecer querer
"dizer demais", "ser visto
em Cannes", passar do filme popular para o
filme "para os críticos". Mas,
como os críticos sempre chegam lá muito
devagar, parece que To ainda vai demorar pra convencê-los
de sua maestria no cinema - e esta, Election exibe o
tempo todo.
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Where the Truth Lies, de Atom Egoyan, Canadá,
2005 - Competição
Atom Egoyan cometeu até agora o brinquedo mais
caro da competição de Cannes: seu filme
é um esquisito produto independente dos grandes
estúdios americanos, mas com todos os valores
de produção (o filme se passa nos anos
50 e 70, com extensa reconstituição de
época e cenas externas e com multidões),
e nomes no elenco de um filme hollywoodiano (Kevin Bacon,
Alison Lohmann, Colin Firth - OK, talve Hollywood do
B, mas ainda Hollywood). Tudo isso para fazer um filme
que se pretende (mais) uma reflexão sobre a dificuldade
de se estabelecer uma só "Verdade"
sobre os fatos da vida, mas que acaba se propondo a
encontrar esta verdade (algo em si já um tanto
complicado). Claro está que para Egoyan o principal
mesmo é o jogo de registros entre a história
do cinema (e do audiovisual em geral, já que
o filme se estrutura em torno de uma gravação
pra TV nos anos 50) e o seu próprio filme - que,
ao mesmo tempo que tematiza o assunto das imagens públicas
e privadas, reproduz na sua forma um jogo com o cinema
de gêneros. Durante meia hora o filme ameaça
até funcionar, com uma linguagem e montagem um
tanto barrocas que, nos seus melhores momentos, fazem
pensar no Aviador de Scorsese. Só que
a trama de Egoyan vai se esgarçando quanto mais
tenta complicar-se, virando o tal brinquedo caro citado
lá em cima, que aliena bastante o interesse do
espectador pelas figuras na tela - não ajuda
em nada que Alison Lohmann seja uma menina adorável,
mas completamente incapaz de dar conta do seu personagem,
que devia ser o nosso link com o que se passa na tela.
Vemos passar pela tela, aliás, um autêntico
desfile de belas mulheres em cenas de sexo surpreendentemente
despudoradas, e não dá pra não
pensar que pelo menos duas ou três delas pareciam
mais adequadas e críveis do que Lohmann para
o papel principal. O filme vai se esvaziando até
o final, que realmente tem uma das cenas (supostamente
crucial para o filme) mais constrangedoras de "sexo
gay" da história do cinema. Ali já
tem mais muito jeito - Egoyan perdeu completamente o
prumo do filme, e não há mais como recuperá-lo.
Fica a lembrança de algumas poucas boas idéias
perdidas aqui e ali.
Eduardo Valente
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