| Chegar
em Cannes - pegar a programação dos filmes,
a credencial - é sempre uma atividade tão
excitante quanto tediosa e um pouco enervante. O primeiro
dia traz sempre uma certa sensação de
pegar o bonde andando, quando não se chega um
dia antes da abertura (sempre o recomendável
pra jornalistas, mas moleza que eu nunca pude ter).
De fato, o bonde está andando e é difícil
não deixar ele passar por você, porque
recuperar filme perdido é quase impossível
- Cannes não é como o Festival do Rio
ou a Mostra de SP, onde os filmes passam espalhados
na programação: você tem dois, no
máximo três dias pra ver um filme, senão
depois disso vai só ouvir falar mesmo. Claro
que é impossível ver tudo, mesmo que só
contando as quatro sessões principais (se for
pensar no que se exibe nas quase trinta salas do mercado...
impossível é pouco), mas como, no meu
caso, poderei acompanhar a Quinzena no pós-Cannes,
em Paris, vai ser mais tranquilo fazer as opções.
Imagino, na média, perder mais ou menos um filme
por dia, entre a oferta disponível.
Hoje, como cheguei no meio de tarde, o dia foi mais
complicado - e ainda criou um passivo que, ao se tentar
descontar nos dias seguintes, poderia acabar só
levando a uma acumulação constante. O
filme que perdi mesmo, não tem jeito, foi Match
Point, de Woody Allen - é pena, por mais
que seja da escola dos que gostam pouco da maioria dos
últimos dele, seria legal ver este filme que,
ao contrário de tantos outros (Star Wars,
Sin City etc), só tem previsão
de lançamento pro fim do ano (nos EUA, claro).
E, afinal, ele tem Scarlett Johansson - aliás,
como único e patético consolo, estava
saindo do palácio dos festivais quando terminava
a sessão, então vi lá dos meus
300m de distância Allen pintar no alto das escadarias
ladeado por miss Johansson. Acho que isso é o
mais perto que esperava chegar dela mesmo...
Hora de começar a circular, começar a
encontrar os amigos (com a alegria de que um dos mais
assíduos colegas de festivais, Kleber Mendonça
Filho, este ano também é realizador exibido
em Cannes com o seu Vinil Verde), e começar
a tentar ver filmes, o que, pra quem tem a credencial
de imprensa que eu tenho (do Grupo de Acesso, onde ainda
se desfila na Sapucaí, mas sem interesse das
TVs... hehehe), sempre implica em pegar algumas belas
filas e sentar em lugares não tão desejados...
mas c'est la vie.
Cansado da viagem de trem (e da noite mal dormida...
escrevendo pra Contracampo a mais recente carta de Paris),
com fome, fui pro Palais querendo ver se via dois filmes
e só, pra descansar e já não entrar
no Festival em estado deplorável (o que seria
um erro crasso, porque o Festival vai me deixar neste
estado, dia a dia). Alegria, a sessão de imprensa
de 19h30 era uma das mais esperadas: Last Days,
de Gus Van Sant. Entrei, não me sentei tão
mal (nem tão bem, é verdade) e... Bom,
geralmente, se estou cansado (e às vezes mesmo
sem estar muito), o cinema em dose cavalar tende a me
dar um certo cansaço e uma sonolência que,
em Cannes, já me fez perder filmes ou precisar
revê-los no dia seguinte por ter dado um cochilo.
"Meu Deus, ele dormiu no Gus Van Sant!!"
- pensam alguns. Exatamente o contrário... Last
Days não só venceu com sobra o meu
sono e minha fome como... um tanto perturbado na saída
da sessão, vaguei meio sem rumo, fui ao McDonald's
fazer a primeira refeição do dia, sem
precisar pensar muito e poder decidir entre ver o filme
do Kim Ki-Duk, na abertura da Un Certain Regard, ou
vir pro hotel mais cedo hoje, tirar o dia pra descansar,
escrever, e quiçá refletir mais sobre
o filme... Terceira opção: havia uma outra
sessão de imprensa de Last Days às
22h (geralmente tem duas seguidas, porque essas da noite
são em salas em que não cabem todos os
membros da imprensa). Pobre Kim Ki-Duk, nunca teve a
menor chance... Vaguei para a outra sala, desta vez
arrumei um lugar muito melhor no cinema (na sessão
da segunda divisão, minha credencial era rainha)
e, sim, vi pela segunda vez na sequência o mesmo
filme, no meu primeiro dia de Festival. Sabem quantas
vezes eu já vi um mesmo filme duas vezes seguidas
em qualquer Festival? (ou pensando melhor... em qualquer
cinema?) Pois é, nenhuma - e o olho não
piscou nem um segundo... Sobre o filme?? Tá bem,
tá bom, lá vai...
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Last Days, de Gus Van Sant, EUA/França,
2005 - Competição
A tarefa de Van Sant, não se enganem, era monstruosa:
não contente por estar fazendo seu primeiro filme
depois da consagração internacional maior
que foi Elefante (inclusive com a Palma de Ouro),
ele opta por pegar como tema os últimos dias
de vida de Kurt Cobain, principal ícone de toda
uma geração de jovens - que, além
de tudo, traz necessariamente consigo o tão difícil
tema do suicídio. Na verdade, se olhamos o filme
como um duplo de Elefante, eles fazem todo sentido (e
ainda mais se pensamos que eles completam, de fato,
um tríptico com o menos conhecido Gerry
- todos os três baseados num fato real onde a
encenação de Van Sant vai procurar tudo,
menos uma forma de explicar o inexplicável).
Só que, acredite-se ou não, Last Days
é dos três o mais radical - embora
talvez nem seja o melhor (mas não me perguntem
isso ainda, ele mal teve horas pra assentar). Radical
como opção, porque lida com um assunto
ainda mais próximo dos espectadores - afinal
Columbine era sim algo enorme, mas seus protagonistas
eram jovens "sem rosto" perante o público,
ao contrário de Cobain. Mas radical principalmente
na exploração de um esgarçamento
da narrativa que leva quase à negação
mesmo desta, e radical por levar a enésima potência
vários dos procedimentos dos filmes anteriores
e incorporando ainda uma série de novos.
Senão, vejamos: temos aqui, de novo, os travellings
que acompanham os personagens de trás (embora
aqui todos sempre sigam Cobain - aliás, chamado
de Blake no filme, que faz uma operação
peculiar de assumir sua inspiração na
vida de Cobain, ao mesmo tempo se reinvindicando a ficção,
inclusive na identificação dos personagens);
temos aqui de novo a narrativa que, após um aparente
começo em linha reta, começa a traçar
inesperados círculos temporais que mostram diferentes
momentos em diferentes ângulos; temos aqui, de
novo, com exceção a Michael Pitt/Blake/Cobain,
os personagens cujo nome é o nome dos seus atores;
temos aqui, de novo, finalmente, a utilização
absolutamente cirúrgica de toda uma série
de "clichês" relacionados ao seu tema,
só que constantemente deslocados e com significação
difícil (pensemos no jogos de videogame ou vídeos
nazistas em Elefante, pensemos aqui nos figurinos de
Cobain nos seus clipes, na espingarda, na presença-ausência
de Courtney Love, nos personagens ficcionais mas tão
parecidos com os colegas de banda etc).
Na verdade, é difícil tratar de Last
Days numa crônica e, principalmente, é
bobo desvendar muito aqui de um filme que os leitores
ainda não têm acesso. Não vale a
pena, por isso, ir muito longe, mas o que cabe dizer
é que o filme de fato consegue realizar a operação
mais próxima da tão reconhecida influência
de Van Sant neste seu tríptico (o cineasta húngaro
Béla Tarr), de quem reconhecemos vários
procedimentos sonoros e visuais no filme, mas acima
de tudo de quem Van Sant consegue tirar o sentimento
do sublime e do horror na vida de seus personagens trágicos.
Há em Last Days alguns planos que só
não fazem debulhar em lágrimas aqueles
que não tiverem ou um coração ou
uma relação com o objeto do filme - em
especial os dois momentos em que Pitt "faz música"
e a participação especial de Kim Gordon.
Nestes momentos, Van Sant consegue arrancar do seu filme
momentos daqueles que tornam o cinema algo de grandioso
- mas não são os únicos. A relação
que ele cria com a música, a relação
que ele estabelece entre os espaços (floresta-casa)
e os personagens, finalmente a interpretação
que arranca de Pitt, que nada tem a ver com as tais
"incorporações" tão comuns
em biopics... Last Days é um filme fantasmagórico,
mais até do que Elefante - seu Kurt Cobain
vaga pelo filme como alguém que já não
está mais aqui. Cabe à câmera de
Van Sant (mais uma vez em um majestoso 1:1,33 de Harry
Savides) conseguir mostrar o imostrável - e ela
assim o faz.
Ah, não custa dizer: preparem-se para ver alguns
dizerem que Van Sant "apenas se repetiu",
que "não se sabe nada sobre Kurt Cobain
vendo o filme", ou que "há uma
série de clichês grotescos no retrato de
um rock star suicida e do mundo à sua volta".
Assim como no filme anterior, Van Sant deixou o peito
aberto para receber estes tiros de quem quiser ver um
filme diferente do que o que de fato está na
tela. Este é sublime quase sempre, e de efeito
retardado e estupefante. Difícil saber o que
fazer depois de vê-lo - talvez vê-lo de
novo.
Eduardo Valente
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