| Antes
de tudo, uma recomendação: enquanto não
sai a Cahiers du Cinema de junho, vale muito ver a cobertura
do Festival que fez a Inrockuptibles (de resto, uma
revista que é uma alegria poder ler toda semana
- com todas as suas idiossincrasias e bobagens eventuais,
é algo que não ter semelhante no Brasil
é um pecado), ao longo de duas edições
semanais. Não sei exatamente como se encontra
a Inrock no Brasil (sei que na Maison de France no Rio
tem), nem se no site deles tem material da revista semanal,
mas vale muito a pena tentar olhar. Fico feliz de ver,
aliás, como eles também acabam optando
por uma cobertura no formato de diário: é
impossível pensar em olhar pra estes filmes de
alguma forma diferente desta, na correria destas semanas.
E olha que eles são três ou quatro, hein!
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Be with me, de Eric Khoo, Cingapura, 2005 -
Quinzena dos Realizadores
The death of Mr. Lazarescu (Moartea domnului
Lazarescu), de Cristi Puiu, Romênia, 2005
- Un Certain Regard
Vocês vejam como é maldosa a cobertura
de um Festival: sem a benção desta continuação
parisiense das duas mostras acima citadas, eu simplesmente
teria perdido os dois autênticos choques estéticos
do Festival de Cannes 2005. Não que sejam os
melhores filmes (não são), mas se Last
days, L'enfant, Three times ou
A history of violence são filmes mais
completos, também representam apenas novos e
consistentes passos nas carreiras de cineastas com cujas
obras estamos mais que familizarizados (e, embora tragam
elementos novos e reciclem tantos outros, não
causam um choque verdadeiro da perda do chão,
apenas um êxtase do cinema em estado puro). Da
mesma forma, havia outros filmes no Festival (Johanna,
Batalla en el cielo, Eli eli...) que
já se pretendiam (e até certo ponto conseguem)
choques estéticos antes de qualquer outra coisa
- no entanto nesta clara pretensão descrita em
cada plano dos filmes, talvez também percam um
pouco da força da surpresa do choque, afinal
por ele já esperamos. Pois foi nos filmes de
Cingapura e da Romênia que podemos dizer, autenticamente,
que em algum momento perdemos o chão, enfrentamos
diretamente o nunca visto, ou pelo menos o nunca visto
desta forma. E que sensação deliciosa
é conseguir ainda hoje sentir isso no cinema.
Khoo e Puiu têm carreiras diferentes, embora ambos
sejam igualmente desconhecidos para nós no Brasil.
Khoo, afinal, já é um cineasta que se
pode chamar de dono de uma "certa importância",
pelo menos em Cingapura, tendo sido responsável
pelo primeiro filme do país a ser exibido pela
seleção oficial de Cannes (Un Certain
Regard), isso ainda em 1997 (com o filme 12 Storeys).
Já Puiu é uma jovem revelação
do cinema romeno, que vem de um longa recente exibido
na Quinzena em 2001 (Stuff and dough), mas
que ainda não se conhecia como um nome realmente
importante, o que só se confirma agora com este
segundo filme, que levou (não custa lembrar)
o principal prêmio da Un Certain Regard (maior
acerto cinematográfico em anos de Alexander Payne
- presidente do Júri).
Mas, claro, temos que falar dos choques, então
vamos a eles. A princípio o filme de Khoo realmente
impressiona por um rigor de filmagem impressionante,
num trabalho com imagem e ausência de palavra
falada (os primeiros quarenta minutos do filme não
têm um só diálogo), e na superposição
de três narrativas um tanto distintas, onde o
"fator-Iñarritu" (mas como
elas vão se juntar?) nunca chega a ser colocado
em questão, porque nosso interesse tanto formal
quanto emocional pelo que se dá na tela não
é jamais da ordem do "ixperto", de
querer saber onde isso vai dar - e sim do aproveitar
que esteja se dando. Na verdade, o que Khoo faz com
maestria nesta primeira parte do filme é simplesmente
criar a menos óbvia e mais bela transposição
até o momento de algumas das muito usadas questões
de comunicação contemporânea (abundam
na tela mensagens SMS, emails, MSNs, câmeras de
segurança) excluindo delas completamente o seu
sentido mais banal, assim como o seu tratamento limitador
como "índices de modernidade". São
apenas ferramentas de comunicação, tão
importantes para seus personagens quanto o silêncio
e o cozinhar é para o casal mais velho que vemos
no filme.
Até este momento da narrativa, o filme nos cativa
(especialmente pela sua falta de vergonha de usar e
abusar dos elementos melodramáticos ou pelo seu
uso da música), mas se há um mistério
que permanece conosco é que o filme tem um crédito
inicial onde se lê "Inspirado na vida
e na autobiografia de Teresa Chan". Como pode
ser um filme com três narrativas tão distintas
baseado na mesma história de vida de alguém
existente? O erro estava em ler, justamente, o "inspirado"
como "baseado" - e, de repente, eis
que irrompe como personagem do filme a tal Teresa Chan.
Não uma atriz que a interprete, veja bem, mas
ela mesma. É uma primeira mistura desconcertante
entre ficção e realidade, já que
Khoo pega esta mulher e a coloca na sua narrativa ficcional,
onde começamos a não entender muito os
limites de cada "registro" do filme. Mas,
não é este ainda o choque (e quem quiser
ficar realmente chocado num dia, se este filme vier
a ser exibido no Brasil - nada indica isso por enquanto
- ou baixado num emile da vida, deve parar de ler aqui
e pular para o próximo parágrafo): o fato
é que Teresa Chan é cega E surda - e por
favor, parem por um momento para pensar sobre que tipo
de mediação com o mundo pode ter alguém
com essas características. E é assim que,
na metade de Be with me, Khoo introduz um (que
eu saiba) inédito procedimento, cuja entrada
em cena é tão emocionante quanto inesperada:
uma "narração em off"
sem som, apenas por legendas. Nesta, Chan começa
a comentar a sua própria vida, enquanto nós
continuamos seguindo a sua história, que começa
a se misturar com as outras três que víamos
até então. O filme vira então,
uma vertiginosa aventura emocional para o espectador,
que já não sabe mais muito bem como lidar
ou conceituar tudo aquilo que aparece na tela. As narrativas
evoluem para um ponto de contato direto sim, que até
pode lembrar neste momento o "fator-Iñarritu",
não fosse por uma questão simples: este
ponto não tem uma leitura desejada pelo diretor
como imposição do que seja "experimentar
o mundo". Ele é trágico, mas
ao mesmo tempo o ponto de surgimento do sublime, do
encontro. Ele separa ao mesmo tempo que junta. Ele é,
em suma, como tudo na vida: impreciso, impossível
de definir. E é assim que é Be with me:
um filme que desafia, sempre. Que, inclusive, erra um
tanto, mas que nunca deixa de fascinar. Isso anda em
falta, e não tem preço quando se encontra
- a se ver, sem dúvida nenhuma. Voltemos a ela
no futuro, caso os festivais brasileiros tenham a inteligência
(diria eu até a decência) de selecioná-lo.
Já em Death of mr. Lazerescu não
teremos em nenhum momento o choque pela surpresa completa,
como acontece em Be with me (procedimento,
que aliás, lembra muito a emoção
sentida com a entrada do título do filme na metade
da projeção de Eternamente sua,
de Apichatpong Weerasethakul). No filme romeno, o choque
estético vem pelo caminho contrário: pela
impressionante capacidade de surpreender pela manutenção
rigorosa de um procedimento, e da capacidade de extrair
dele efeitos completamente renovados depois de duas
horas e meia de filme. Para ser bem direto, a história
do filme é a da última noite na vida de
um velho homem (cujo destino já está entregue
no título do filme, o que ao invés de
criar algum anti-clímax é, pelo contrário,
uma sacada muito bem usada pela narrativa), que passará
de um mal estar que sente na sua casa a uma perambulação
por vários hospitais públicos da capital
romena. O material, quando assim descrito, parece nos
dar (e eu afirmo isso, porque foi um pouco por esta
sensação que eu deixei de programá-lo
em Cannes) um feeling do famoso déjà
vu, onde esperamos ou uma sátira quase surrealista
do ambiente burocrático-hospitalar, ou uma exibição
de realismo-naturalista beirando o sadismo "denuncialista".
E, sim, as duas coisas até estão no filme
em momentos. Mas, o que está lá também
é a capacidade de suplantar em muito isso através
de dois procedimentos essenciais - o da duração
(de planos e de sequências) e o da "presentificação",
onde a câmera se torna mais um personagem. Através
destes dois procedimentos principais, o que Puiu consegue
é tornar cada plano em si uma surpresa, cada
personagem um desafio aos clichês e às
soluções fáceis que o seu tema
podia oferecer. E, em última instância,
o que ele consegue filmar (como eu nunca havia visto
antes) é o lento transformar de um indivíduo
em um pedaço de carne inerte - sem qualquer sensacionalismo
neste processo, e com a paciência e a atenção
absolutamente radicais aos detalhes de cada peça
do quebra-cabeça que é este trajeto. Um
filme-porrada como há muito não se via,
onde o trabalho com a identificação do
espectador é feito com um respeito e inteligência
(e respeito à inteligência) incrivelmente
raros, e que não cessa de nos surpreender por
insistir com exatidão nos seus procedimentos,
e conseguir deles extrair novidades a cada momento.
Um trabalho de "realismo" que, ao mesmo tempo
que o exacerba no limite do compreensível, também
o ultrapassa exatamente por isso, o tempo todo (nisso
muito parecido com o efeito do "procedimento-Dardenne").
Tremendo choque, completamente oposto ao de Khoo, mas
que acabam se complementando com exatidão por
nos lembrar que. talvez, exista só um tema que
importe no cinema (no mundo?): a morte e como lidar
com ela - e, portanto, a vida.
Odete, de João Pedro Rodrigues, Portugal,
2005 - Quinzena dos Realizadores
Alice, de Marco Martins, Portugal, 2004 - Quinzena
dos Realizadores
Keane, de Lodge Kerrigan, EUA, 2004 - Quinzena
dos Realizadores
Os mais óbvios, e quase banais, motivos para
tratar conjuntamente estes filmes saltam aos olhos:
os dois primeiros filmes, por exemplo, são de
jovens realizadores portugueses e têm, por grande
coincidência, dois nomes próprios de mulheres
como os seus títulos. Mais impressionante é
a coincidência entre Alice e Keane,
porém: os dois dividem exatamente o mesmo ponto
de partida para suas narrativas - acompanhando a vida
de dois pais que têm suas filhas crianças
desaparecidas, e tentam lidar com a realidade desta
perda. Pode ser que tentar traçar um panorama
de um jovem cinema português a partir de sua representação
em Cannes ou enxergar como dois realizadores tratam
a mesma história de maneira diferente fossem,
realmente, trajetos interessantes a percorrer. No entanto,
há que se mergulhar um pouco mais fundo pra entender
como os filmes se tocam de forma mais interessante.
De fato, para além da história parecida
dos dois filmes citados, o que os três filmes
propõem é uma reflexão acerca de
um mesmo tema: como lidar com a perda. Mas, devemos
ir mais longe. O que os três realmente expõem
é uma interessantíssima questão
de linguagem cinematográfica: como filmar o infilmável?
Ou seja: como lidar cinematograficamente com temas onde
importam menos os fatos do que os seus efeitos, e onde
o sentimento e o estado de espírito dos personagens
é que devem nos mover. Na verdade, uma pergunta
que fica é realmente: afinal, o cinema consegue
filmar o quê? Uma descrição de fatos
é possível pela câmera, ou de fato
tratam-se apenas de retratos de momentos capturados
onde se imprime (nos rostos, nos espaços, nos
corpos) exatamente tudo que não se consegue ater
como simples fatos e acontecimentos? Qual é o
verdadeiro poder da câmera de cinema? Embora eu
tenda sempre a achar que a segunda opção
é a verdadeira essência do cinema, da captura
de imagens em movimento num determinado tempo, eu também
reconheço que há uma dificuldade intrínseca
em se comunicar exatamente os estados que se almejava
- o que equivale a dizer que a câmera está
sempre captando o "indizível", mas
fazer com que ela captura um determinado "indizível"
que se deseja, como nestes filmes, são outros
quinhentos. Neste sentido, é muito interessante
olhar os trajetos estético-formal-narrativos
que os três realizadores tentam traçar
para alcançar este grau de "transcendência"
do real, para chegar a retratar diretamente os estados
de alma, como aqui se deseja.
João Pedro Rodrigues é um diretor cuja
capacidade de usar o cinema como objeto de transgressão
de uma forma eminentemente física nós
já conhecíamos desde o brilhante O
Fantasma. Neste Odete, talvez sua tentativa
seja ainda mais ousada, ao propor que nosso complexo
jogo de identificação-distanciamento com
seus protagonistas se dê por uma via muito mais
cerebral do que o cinema "à flor da pele"
da sua estréia. Se é fato que, como ele
afirmava em Cannes, trata-se da tentativa de filmar
uma possessão (o filme poderia se chamar, sem
problemas, O Fantasma), o principal desafio
que o filme propõe ao espectador é entrar
de fato na mente desta mulher que vai sendo possuída
por um homem morto. João Pedro Rodrigues, como
já esperamos a estas alturas, vai nos apresentar
então um passeio às raias da insanidade,
misturando vômito, sangue, lama - só que
isso tudo misturado com um casal gay que se ama ao som
de Moon River, enquanto assiste Bonequinha
de Luxo. Tudo isso numa história sem nenhuma
vergonha de buscar matrizes no melodrama - ainda que
o distanciamento que o filme estabelece com os desvios
dos seus personagens (muito encarnado nas atuações
altamente não-naturalistas dos atores) é
prova de uma chave melodramática que passa bem
mais pela releitura fassbinderiana do gênero.
Com tudo isso, Odete é tudo menos um
filme de digestão rápida, imediata. É
um filme que segue com a gente dias depois, e para o
qual eu não tenho até agora todas as certezas
sobre seu sucesso ou não. Numa primeira visão,
ele alterna momentos realmente sublimes (o plano que
introduz a personagem de Odete, ou o plano
final seriam exemplos fortes) com alguns momentos onde
a narrativa parece não funcionar de todo em suas
propostas (ao contrário de O Fantasma,
perturbador e acachapante do início ao fim).
Mas é filme para revisão, sem dúvida.
Seu conterrâneo Alice é um filme
igualmente frio (aqui, inclusive, com o uso radical
da imagem esfriada em tons quase monocromáticos
entre o azul e o cinza), mas de outra ordem completamente.
Mergulho numa personagem, o do pai que tem sua filha
desaparecida, o filme tenta nos fazer entender uma mente
que reage ao trauma basicamente pelo estabelecimento
de um método que o permita lidar com a perda
da ordem da realidade como a entendemos (trajeto em
tudo oposto ao da mãe que, figura do emocional
na trama, é interessantemente "apagada"
pelo filme). Na verdade, o filme tem uma estrutura narrativa
curiosa onde não há exatamente uma evolução
e sim um trabalho por acumulação. O filme
trabalha, então, com uma outra noção
para os limites do tolerável para o espectador,
o esgarçamento do sofrimento ao máximo.
Neste modelo, ele também consegue alguns momentos
incrivelmente perturbadores (em especial as cenas captadas
pelas câmeras de vídeo que o pai espalha
pela cidade), mas também tem algumas opções
questionáveis (o flashback que volta
ao momento imediato pós-perda, e como este se
insere na trama, algumas das conversas do pai que tentam
"explicá-lo"). De fato, a grande questão
que assombra o filme a partir do estabelecimento de
sua história parece ser "como terminá-la",
uma vez que o looping desta parece ser infindável.
Não se pode dizer que a solução
de Martins seja exatamente a melhor, mas pelo menos
é coerente com a sua filmagem.
Já do norte-americano Lodge Kerrigan sabemos
desde o magnífico Claire Dolan que não
devemos esperar menos que o mergulho sem colete salva-vidas
nos abismos humanos. E é neste clima que mergulhamos
já nos primeiros minutos de Keane. Como
dissemos, o filme se parece muito com a história
de Alice, sendo que aqui a figura da mãe
não apenas está apagada como ausente.
Só que a chave do seu personagem é radicalmente
distinta, uma vez que é ele mesmo (o pai) quem
encarna a insanidade no começo do filme, que
de resto poderia ser realmente descrito como a volta
ao mundo dos vivos de um personagem que, no começo,
encontra-se internamente morto pela perda da filha.
É fascinante a maneira discreta como Kerrigan
vai montando este trajeto - junto com o trabalho de
Damien Lewis, ator muito mais próximo de uma
"atuação de método" do
que os portugueses em seus filmes. Esteticamente, o
filme de Kerrigan lembra muito o cinema dos Dardenne
radicalizado - especialmente no começo acompanhamos
o personagem com a famosa "câmera na nuca",
grudados, assim como com os cortes repentinos que encerram
e começam ações pela metade. Se
é claro que o olhar de Kerrigan para esta estética
é um muito mais motivado pelo psicológico-existencial
do que o enfoque sócio-político dos Dardenne,
o que eles têm em comum é uma afirmação
de um presente, onde sentimos estar vivendo junto com
os personagens aqueles exatos minutos (não há
espaço para flashbacks nem para contextualizações
ou projeções). Na medida em que vão
sendo colocados outros personagens em jogo, aí
sim o filme de Kerrigan parece se aproximar de vez dos
Dardenne, com uma dinâmica dos corpos e dos toques
muito cuidadosa (que a câmera capta com exatidão),
e a narrativa evolui para uma sequência final
absolutamente estupenda, onde o que está em jogo
é justamente a possibilidade (seja do cinema,
seja no mundo) de reencenar o "imponderável".
Trata-se, por assim dizer, de um flashback
presentificado - momento máximo do jogo de projeções
e fantasmagorias que ultrapassam os três filmes
e que, talvez, sejam de fato o seu grande ponto em comum.
Na verdade, é curioso perceber algumas nuancezinhas
entre os filmes, por exemplo a escolha dos títulos
em nomes. E, se no filme de Rodrigues, o nome é
da personagem que acompanhamos, e no de Martins é
do personagem que nunca vemos e que assombra a narrativa
(a "perdida"), em Kerrigen o sentido é
dúbio, pelo uso do sobrenome (no que podemos
supor estarmos falando do protagonista, mas este também
é o "nome" da filha sumida). Da mesma
forma é curioso perceber que, se em Alice
vemos um personagem que lida com a perda pela racionalização
e o método, e em Keane o oposto (a insanidade
e a perda de controle), em Odete temos dois
personagens principais que podem ser visto como encarnações
das duas maneiras de lidar com a perda (a louca e o
racional). O fato é que os três juntos
são filmes que apresentam olhares um tanto particulares
sobre como filmar a ausência presentificada nos
corpos, ou como filmar as fronteiras tênues entre
realidade e perda de referências desta. Belos
filmes, todos eles.
Sangre, de Amat Escalante, México, 2005
- Um Certain Regard
Depois da rejeição a Caché
e da indiferença a Crying Fist, só
me faltava mesmo ver este Sangre para possivelmente
confirmar a minha total incompatibilidade com o que
parece ser um "gosto médio da crítica"
- sendo estes três os vencedores do prêmio
da Fipresci (organização internacional
da crítica). É verdade que por aproxidamente
quarenta minutos me pareceu que o encanto seria quebrado,
porque sem dúvida Sangre consegue intrigar
bastante na sua apresentação de uma curiosa
mistura de realismo e empostação, que
muitas vezes (pelo menos no que se refere ao uso dos
não-atores) lembra o trabalho de Starub-Huillet.
Enquanto apresenta o cotidiano de um casal absolutamente
comum do proletariado mexicano, o filme consegue bastante
adesão com seu inesperado uso do scope e inegável
carisma do protagonista e seus olhos vesgos. No entanto,
não se pode negar que algo ali começa
a não cheirar bem quando este olhar para o cotidiano
cisma em resvalar na patologização do
mesmo (ver a cena de sexo que termina em pastelão
com a quebra da mesa), e acima de tudo com um tom que
parece inevitalizar os personagens em direção
a uma tragédia sem qualquer razão de existir
(e que, claro, se materializa). É então
que o olhar de Escalante para seus personagens se torna
o mais desinteressante possível (todo filme que
evolui para um final num depósito de lixo tem
algo de levemente calhorda), e que suas intenções
vão se esclarecendo para aquém de qualquer
questão. Se fica claro no filme o lado "pupilo
de Carlos Reygadas" (que produz o filme, e
de quem Escalante é assistente de direção
- comprovando mais uma vez que Cannes não só
gosta de seus "autores-fetiche", como de enxergar
neles criações de linhagens), também
fica claro que apesar das lições estéticas
apreendidas Escalante não traz de Reygadas a
complexidade do olhar, a capacidade de mesclar patético
e sublime com complexidade de sentidos e de sensações.
Seu estilo Reygadas-light (ou talvez heavy)
consegue muito menos beleza, e muito mais desinteresse
como resultado. E comprova, mais uma vez, que a crítica
internacional tem o hábito constante de comprar
gato por lebre - seja por se esquecer de conteúdo
ao se maravilhar por forma ou tema, seja por simplesmente
parar na leitura mais rasa de "cinema" possível,
sendo sempre conservadora mesmo quando quer ser "de
vanguarda". Numa competição que exibia
Lazarescu, Down in the valley, Le
filmeur ou mesmo o nosso Cinema, aspirinas
e urubus, a premiação de Sangre
é indicação de miopia das
mais crônicas.
The iron island (Jazireh ahani), de
Mohammad Rasoulof, Irã, 2005 - Quinzena dos Realizadores
Não resta a menor dúvida das intenções
de Rasoulof de construir com seu filme uma parábola
que dê conta de uma série de situações
político-econômicas do mundo de hoje -
onde se a relação mais óbvia é
com a própria sociedade iraniana, nem de longe
esta parece ser a mais relevante do filme. Ele faz isso
partindo de um ponto de partida impressionante sob todos
os aspectos (inclusive da exploração visual
do espaço): o do estabelecimento de uma comunidade
de habitação popular miserável
num gigantesco petroleito encalhado no meio do oceano.
A partir daí sobram imagens-símbolo (do
professor fazendo giz usando como molde cápsulas
vazias de balas ao desmonte gradual e constante do próprio
navio, passando pela cena dos jovens assistindo a
Titanic numa TV com antena parabólica improvisada),
mas o que realmente parece interessar ao diretor é
o estabelecimento das relações entre dominador
e dominado a partir da figura do "capitão"
(o dono do navio) e dos habitantes do navio. Neste sentido
é que o filme até que se sai bem porque,
simbologia fácil ou não, sua forma de
lidar com o tema resulta muito mais sutil e interessante
do que no Manderlay de Von Trier - que, no
fim das contas, quer tratar do mesmo tema. E, claro,
quando se trata de olhar de mundo, mesmo a inocência
da imagem final do iraniano nos interessa mais, na sua
aposta na rebeldia e na quebra dos círculos viciosos
pela ação individual (independente da
continuação inevitável do coletivo),
do que o cinismo auto-congratulatório do dinamarquês.
The iron island é um filme assim: de
limitados objetivos, por vezes, mas de encantadores
efeitos em muitos momentos.
Factotum, de Bent Hamer, EUA/Noruega/Alemanha,
2005 - Quinzena dos Realizadores
Taí, depois de Histórias de cozinha,
não podemos dizer que esperávamos de Bent
Hamer uma adaptação de Charles Bukowski
filmada em plenos EUA com figuras como Matt Dillon e
Lili Taylor liderando o elenco. Mas é exatamente
isso que ele nos apresenta, num filme que nos deixa
constantemente divididos entre a sua competente recriação
de um determinado ambiente bukowskiano e a sua simultânea
"domesticação" enquanto mesmo
se faz. Ao final, temos a certeza de estarmos ao lado
de um produto um tanto híbrido - bastante esquisito
e incômodo para os padrões médios
do cinema americano independente atual (onde se louve
principalmente a falta de "moralização"
que realmente assassinaria qualquer traço do
autor, ou ainda a louvação a uma certa
revolta social anti-trabalho), mas ao mesmo tempo com
um inconfundível cheiro de "parque temático
bukowskiano", onde incomoda em especial uma
certa vontade de "grife" (a participação
de Marisa Tomei, em especial, tem este sentimento de
"atuação-nobre-de-artista-hollywoodiano")
ou uma sketchização folclórica
do mal estar do autor (onde se, como ao final vemos,
a maior proposta é a de "se ir até
o fim", não se pode afirmar que o filme
faça exatamente isto). Um filme a se gostar com
distância ou a se rejeitar com algum carinho,
conforme o gosto do freguês.
Who's Camus, Anyway?, de Mitsuo Yanagimashi,
Japão, 2005 - Quinzena dos Realizadores
Tbilisi, tbilisi, de Levan Zakareishvili, Geórgia,
2005 - Quinzena dos Realizadores
Às vezes eu tenho a impressão que alguns
filmes deviam vir com um aviso de "Cuidado:
Metalinguagem - handle with care", tamanho
é o perigo que representa para as pretensões
dos cineastas começar a brincar ao falar da sua
própria criação. O fato é
que o "fazer cinema" é uma aventura
de tão grande proporção e drama
que, muitas vezes, os diretores realmente acreditam
que a simples referência ao seu habitat tem um
interesse maior do que realmente é o caso. Podemos
dizer que é o caso com estes dois filmes aqui
citados. No exemplo japonês, temos um grupo de
estudantes de cinema preparando o seu primeiro filme
enquanto nadam em referências cinematográficas
(começando do indefectível plano de abertura
que cita O Jogador, citando Welles), ou até
mesmo em referências para além deste (notadamente
Morte em Veneza e O Estrangeiro),
tudo isso para criar uma trama que mistura comédia
e algum suspense em busca de um final que "quebre"
as fronteiras entre encenação-ator-personagem-público.
Mas tudo isso vem num clima auto-indulgente que só
nos lembra do pior do A Noite Americana de
Truffaut (não por acaso, aliás, dos seus
filmes mais fracos), enquanto não chega aos pés
das possibilidades sejam perturbadoras ou de entretenimento
de um Pânico, de Wes Craven. Se o filme
japonês é fraco, mas pode se escorar em
ainda alguns momentos de graça eventual (citamos
em especial as cenas de coreografias), o georgiano é
apenas um tanto tedioso na sua relação
entre criação cinematográfica e
realidade georgiana (na verdade tão tedioso que
confesso que foi o terceiro filme da Quinzena onde eu
me entreguei aos braços de Morfeu por boa parte
de sua duração, sem medo). Na verdade,
o grande problema de filmes como Tbilisi-Tbilisi
é sua completa falta de necessidade de ser
o que é: uma ficção cinematográfica.
Com um cartum ou um folheto ele daria conta do que quer
dizer: por exemplo, a imagem do professor de cinema
tornado vendedor de feira-livre, que usa as páginas
de sua monografia "O papel do cinema georgiano
no cinema mundial" para embrulhar as nozes
que sua vizinha de banca de feira vende - pronto, taí
tudo que o filme quer dizer sobre a Geórgia e
sobre fazer cinema na Geórgia, para quê
nos perturbar com seus personagens esquemáticos
que querem apenas passar hora e meia ilustrando esta
imagem? Seja pelo viés do "lúdico
intelectual" japonês, seja pelo "maníaco-depressivo"
georgiano, o que os cineastas não conseguem fugir
ao falar de si mesmos, muitas vezes, é de um
extremo tédio auto-suficiente. Dispensável
que se pense tanto no cinema que se faz, e mais importante
que se faça mais cinema.
Ao final deste passeio parcial (faltaram sete longas
da seleção da Quinzena, inclusive todos
os quatro franceses, que devo ver em estréia
no circuito ao longo do mês), o que ficou claro
ao se ver a Quinzena (e parte que faltava da Un Certain
Regard) é que sempre fica uma sensação
de arbitrariedade eventual com a Competição.
Quero dizer: é difícil saber, exatamente,
porque filmes como o de Im Sang-soo, Cristi Puiu ou
Lodge Kerrigan não estão numa Competição
que abre espaço para filmes como os de Hiner
Saleem, Masahiro Kobayashi ou Wang Xiaoshuai. Isso usando
os critérios do próprio Festival, onde
se entende que filmes menores de "autores"
(Wenders, Gitai) sejam importantes na Competição
mesmo sendo piores que outros tantos das outras seleções,
mas cuja extrema particularidade (pensemos em Eric Khoo
ou em Alain Cavalier) realmente talvez os colocassem
em maus lençóis perante o escrutínio
voraz da imprensa mundial na Competição
(pensemos em Brown Bunny, por exemplo). Mas
os filmes aqui citados não representam nada de
mais ousado do que muito do que passa na Competição,
e lá poderiam causar impacto sim. Mas, aí
é que entra sempre o lado meio "todo mundo
é técnico de futebol e programador de
Festival" de analisar a seleção de
Cannes. O que acaba sempre sendo uniforme é que,
retirados os autênticos abortos (Marco Tulio Giordana,
Juan Solanas etc) e destacadas as obras-primas absolutas,
as três seleções de Cannes dão
um olhar ao que de mais interessante se produz mesmo
em cinema no mundo hoje, cada uma delas com suas particularidades.
É uma viagem absolutamente deliciosa de se empreender
- ainda que seguida de inegável e inevitável
fatiga. Vamos descansar um pouco, agora...
Eduardo Valente
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