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A competição terminou com a mídia toda concordando que não há favoritos para a Palma de Ouro. Nenhum dos filmes dos "grandes cineastas" foi considerado como "sua grande obra", que é o que muitas vezes se espera para a Palma. Assim, muito se fala de uma equivalência entre alguns nomes, em especial os de Haneke (o mais citado), Hou Hsiao-hsien, Dardenne, Jarmusch, Cronenberg. Num segundo grupo, estariam os filmes de "idiossincracia", ou seja, aqueles que dependendo do gosto do júri podem ser amados ou ignorados, porque costumam dividir opiniões (Von Trier, Wenders, Reygadas, Van Sant, Gitai). Fora destes, o único outro citado para possível Palma de Ouro foi aquele considerado como autêntica "revelação", Tommy Lee Jones. Como se vê, quando ainda se fala em onze filmes como possibilidade, é que a coisa está confusa mesmo. Os outros dez só devem aparecer em categorias secundárias, se tanto - ou pelo menos é o que se acha por aqui. Não vale nem muito a pena perder tempo com todas essas elocubrações, porque júri é uma coisa absolutamente imprevisível, o barato aqui era só apresentar este balanço geral, e esperar os prêmios da noite.

Eu mando agora um apanhado geral deste final de Festival, quando vi sete filmes da Competição. Não vou ainda mandar minha lista de cotações, nem a premiação que eu daria, porque verei apenas amanhã (pós-Palmas) os filmes de Haneke, Gitai e Wang Xiaoshuai (e não verei durante o Festival Sin City). Mas as listinhas estão prontas aqui, não vou mexer nelas por conta da premiação, no máximo por conta destes filmes...

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O problema principal da segunda parte do Festival é que o corpo começa a dar defeito, e ou você vai ficando sem vontade de entrar no cinema por puro cansaço (e adiando sessões, cancelando etc), ou simplesmente entra e vê os filmes em condições longe das ideais. A recepção dos filmes costuma sofrer bastante com isso e, por conta desta sensação, a vontade é de rever logo que possível vários dos filmes, em condições melhores. O problema aqui nem é a quantidade de filmes (no Festival do Rio ou Mostra SP se vê bem mais), mas o horário (a primeira sessão é sempre às 8h30, o que pede uma acordada às 7h30 - e aí como tem filme até 0h, seguido de comer qualquer coisa+escrever etc, o sono vai atrasando sempre). Além disso, tem a correria, a chegada mais cedo pras filas (em Cannes não se entra nas salas com ingressos, e sim com a credencial - o que cria toda uma hierarquia de quais entram em que ordem e também uma certa tensão constante), as faltas de alimentação... Isso tudo pra dizer que eu mesmo não confio 100% nos meus diagnósticos sobre vários dos filmes vistos neste final, onde eu consegui heroicamente não dormir em nenhum que eu não queria (em 2003 não foi o caso), mas em que vi com enormes dificuldades alguns dos filmes muito esperados. Mas, em suma, valem como primeiras impressões...

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L'Enfant, de Jean-Pierre e Luc Dardenne, Bélgica/França, 2005 - Competição

Nem todo o cansaço do mundo, nem a sessão às 8h30 da manhã fizeram com que eu não me esbugalhasse em lágrimas ao final de mais esta obra-prima dos irmãos belgas (quatro seguidas, na minha conta). Antes que alguém pergunte, a resposta já vem: sim, o filme é realizado segundo cartilha estilística muito semelhante à que eles vêm praticando nos filmes recentes - e uma defesa desta cartilha e do porquê a questão da "repetição" não faz sentido, eu já escrevi aqui na Contra, então não farei isso de novo. Mas vale a pena anotar, sobre este novo filme, as pequenas diferenças que eles sutilmente colocam em jogo: o fato do filme trocar de protagonista depois do começo (num primeiro momento achamos que ele será sobre a jovem mãe que aparece como objeto da câmera na mão dos Dardenne, mas lentamente - depois de uma boa passagem em que há duplo protagonismo - o filme passa a acompanhar o pai da tal criança do título); ou o uso da câmera na mão aqui cair muito mais em eventuais planos gerais do que no anterior (O Filho), que era um autêntico estudo em "câmera no pescoço".

Mas o trabalho mais belo que o filme realiza (e isso precisa e será muito melhor explorado numa futura exibição do filme no Brasil - não faço aqui grandes análises pontuais tanto por falta de tempo quanto por não ver sentido neste exercício com filmes ainda não "assistíveis" para os leitores) é o de tornar matéria fílmica a questão da objetificação do ser humano na organização social do mundo capitalista moderno. Não por acaso o título do filme é "A Criança", mas também não é por acaso que esta criança nunca chega a ganhar um rosto no filme: a grande questão moral que o filme apresenta é se um ser humano pode ser tratado como um objeto ou não. Para além da narrativa lidar com isso (onde o jovem pai vende seu filho como mais um dos objetos roubados com os quais ele lida), as imagens também o fazem com maestria, numa lógica muito próximo do Bresson de L'Argent (e, aliás, a semelhança dos títulos parece ter pouco de coincidência). Quando a criança é trocada por dinheiro (duas vezes), esta troca acontece de uma maneira a igualar visualmente a troca de "material" por "dinheiro", tornando inexistente o elemento humano. Inexistente na tela, como o tema pede, mas não nos efeitos, e não na própria consciência do pai - onde o filme entra na questão moral mais fortemente.

No entanto, a grande força dos Dardenne sempre foi a de inserir a capacidade extrema de atos inumanos num contexto absolutamente humano - assim sendo, se os cineastas estabelecem sim uma moral (o humano não é um objeto), eles não estabelecem um moralismo (nem se objetifica também o pai, ou seja, tornando-o apenas um "homem capaz de vender o filho"; nem tampouco se busca ao final uma determinada redenção por este ato, e sim somente uma tomada de consciência). Outros dos temas dos irmãos batem ponto aqui também (a importância de definir personagens pelo trabalho que exercem e pela descrição minuciosa deste - no caso, o roubo; as ações físicas falando mais sobre as pessoas do que as palavras; a atenção nunca piedosa com os excluídos do jogo social "oficial"), numa obra de uma maturidade artística absolutamente marcante, onde os irmãos parecem zombar das armadilhas do seu estilo a cada sequência, colocando o filme sempre nos limites da linguagem que eles propõem, e fazendo sempre as opções exatas na coerência do seu cinema. Um filme impressionante - e que reforça (de novo, nos filmes deles) um ator excepcional, Jérémie Renier.

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Three Times, de Hou Hsiao-hsien, Taiwan, 2005 - Competição

Num determinado momento falou-se de Three times como sendo uma revisita de Hou a momentos anteriores de sua obra. Sem conhecer mais do que seus últimos três filmes antes deste e apenas um outro anterior a estes, pra mim é difícil analisar o novo filme de Hou a partir desta premissa de uma maneira mais completa - embora seja bem possível traçar paralelos entre dois dos episódios do filme com, por exemplo, Flores de Xangai e Millenium Mambo. No entanto, o que Three times realmente realiza é uma prova de maturidade e domínio de linguagem por um cineasta como pouco se vê. Tem chances de levar a Palma de Ouro se Kusturica entrar numa de, uma vez que nenhum filme arrebatou completamente os gostos, dar o prêmio praquele cineasta que mais merece tal reconhecimento sem ainda tê-lo recebido (Jarmusch e Cronenberg podiam ser encaixados na categoria também, mas seus filmes não parecem tão fechados como o de Hou - e sobre Haneke não posso falar).

Para os bons filmes, os filmes regulares e até os médios, é sempre preciso assisti-lo com atenção do início ao fim para saber onde localizá-lo entre estas categorias. Para as obras-primas ou as abjeções, geralmente poucos planos bastam - e se assim é, o plano de abertura do filme de Hou, tão insuportavelmente belo quanto absolutamente simples, é exemplo perfeito. A primeira história do filme talvez seja a mais forte delas, uma ode (chamada "A time for love") radical à força de certos "momentos" na vida (de onde vinha a idéia por trás do título que o filme tinha antes - "Best of times"). Impressiona a potência emocional que Hou vai construindo a partir da observação do mínimo - e, claro, da sua fotografia cujo trabalho de luz e foco nunca tem igual no cinema atual. Além disso, a beleza absurda de Shu Qi, que neste filme faz campanha bem forte para o título de "Mulher Mais Linda do Cinema" hoje. O segundo e terceiro episódios ("A time for freedom" e "A time for youth") introduzem outra das dimensões do cinema de Hou (a inserção dos personagens no seu tempo histórico - 1911 num, 2005 no outro), e ainda permitem a ele um trabalho de linguagem elaboradíssimo (especialmente no segundo, com sua reedição do cinema mudo, como poucas vezes se viu). Se não atingem o ápice do primeiro episódio, é porque suas histórias também são mais contidas, mas nunca menos pungentes. Three times é, em todos os sentidos, compêndio do cinema de Hou ao mesmo tempo em que "apenas mais um filme de Hou". Não é pouca coisa.

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Broken Flowers, Jim Jarmusch, EUA/França, 2005 - Competição
Don't Come Knocking, Wim Wenders, EUA/Alemanha/França, 2005 - Competição

Foi curioso descobrir quão semelhante o argumento dos filmes destes dois "queridos" de Cannes no fundo eram. Ambos começam com personagens masculinos de meia-idade em crise com o mundo que os cerca e suas identidades nele (Bill Murray em Jarmusch, Sam Shepard em Wenders) que partem em jornadas físico-emocionais em busca de recém-descobertos filhos que tiveram há vinte anos ou mais, e que nunca foram informados pelas mulheres. A partir destes pressupostos semelhantes é muito rico olhar como os diretores encaram esta "jornada" de forma completamente oposta.

Em Jarmusch, como já estamos mais do que acostumados, a moeda de troca é sempre a jornada por ela mesma, e os pequenos momentos de encontros entre as pessoas (as conversas, os silêncios). Murray, neste sentido, é escolha brilhante porque encarna o ideal máximo de Jarmusch da não-psicologização do personagem: seu Don Johnston ("Don Johnson??" perguntam sempre no caminho) é um homem sem passado, e sem muitas expectativas para o futuro. É um fantasma que vaga pelo filme em busca de alguma coisa que, temos certeza, nem ele sabe muito bem o que é. E o que vale são os encontros que ele terá neste caminho que, obviamente, não chegará a uma conclusão, assim entendida. No final, pode-se dizer que Don é outro homem - difícil será dizer de que forma ele mudou, em que ele mudou, por que ele mudou. Jarmusch filma os encontros dele (eminentemente com mulheres) como esquetes independentes, e neste sentido Broken Flowers talvez tenha a sensação de um Coffee and Cigarettes com um personagem que o conecta. Na verdade, mais do que isso, Broken Flowers tem a sensação de um filme-compêndio das várias preocupaçoes e obsessões do autor, tudo isso no tom sempre entre a leveza cômica e a angústia existencial que tanto marcam os personagens de Jarmusch. É um filme, antes de tudo, adorável, onde Murray dá muita vida a um personagem sem nenhuma, principalmente com pequenos olhares e o simples uso do seu admirável timing cômico - algumas das "trocas" de diálogo (talvez em especial o com Jessica Lange) são antológicas. Mas, de fato, não parece chegar a ser nem o melhor filme com Bill Murray em contato com um filho desconhecido que vimos este ano (este seria A Vida Marinha com Steve Zissou), quanto mais o melhor filme de Jarmusch. Mas é filme que pede, desesperadamente, revisão - tendo sido visto depois de uma tensa espera de simplesmente duas horas na fila.

Tudo que em Jarmusch é o não-dito, o não-enunciado, encontra enunciação excessiva no filme de Wenders-Shepard (autor do roteiro e autêntico "criador" da obra). Wenders volta aqui à paisagem do deserto americano, do Oeste, onde não vai conseguir puxar mais nenhum significado novo no retrato deste homem também "fantasmagórico" e sem passado (onde a referência ao western é ela também mais do que enunciada, com Shepard interpretando um ator hollywoodiano decadente que foge do set do filme O Fantasma do Oeste). Se o filme no começo até tem alguma força, em especial no encontro de Shepard com a personagem de Eva Marie-Saint (a grande presença do filme), Wenders vai cada vez mais forçando a mão nos simbolismos fáceis, nos diálogos "metafóricos" (ou francamente explicativos), ou acima de tudo, numa obsessiva tentativa de tornar o filme quirky (o famoso "esquisitinho") com uma galeria de personagens secundários absolutamente patética, encabeçadas por uma tristonha Sarah Polley, Fairuza Balk e especialmente Tim Roth, num personagem alívio-cômico incrivelmente dispensável. Shepard e seu rosto envelhecido até tem presença de tela interessante, mas sempre que fala seu personagem nos faz ter saudades do de Murray.
Curiosamente, o melhor momento do filme também envolve Jessica Lange - o que cria mais um paralelo inesperado entre os dois filmes. Quanto mais evolui para o seu final, mais Don't Come Knocking se torna desinteressante e reiterativo - e basta dizer aqui que, no final, os personagens seguem por uma estrada onde vemos na placa da beira da rua os seguintes dizeres: "Divide - 1km; Wisdom - 52km".

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The Three Burials of Melquiades Estrada, de Tommy Lee Jones, EUA/França, 2005 - Competição

Como se não bastasse para Wenders não fazer o melhor filme com o tema da busca do filho desconhecido, ele também passou longe de fazer a melhor evocação do western na competição deste ano. Se no quesito da utilização das temáticas e mitologia do gênero o melhor foi mesmo A History of Violence, este filme de estréia (no cinema, ele dirigiu antes um telefilme) de Jones é de longe a melhor utilização do espaço mítico do deserto, com uma fotografia realmente impressionante de Chris Menges (e impressionante não só no uso da paisagem como formadora de sentidos, mas também nas micro-composições de quadro). O filme de Jones é uma história de considerável violência em si mesma, com algumas cenas um tanto impressionantes, especialmente na trajetória pelo deserto dos personagens de Jones e Barry Pepper em companhia de um cadáver. Só que, se o mito do western surge o tempo todo na paisagem e na figura do vaqueiro que Jones interpreta, o tema mais forte aqui é sem dúvida as questões relacionadas com a imigração mexicana no Texas.

Jones (e Menges) filmam sua história com um punch considerável, não diferenciando no tratamento cuidadoso das cenas os grandes planos dos pequenos momentos de desenvolvimento narrativo. No entanto, se a filmagem é realmente prodigiosa e eventualmente eleva o filme a grandes momentos, ela está a serviço de um roteiro no mínimo problemático do Guillermo Arriaga - também conhecido como o parceiro de Alejandro González Iñarritu. Claro que não poderia faltar, sendo este o caso, o desenvolvimento todo da narrativa se passando em idas e vindas temporais e de personagens (tão desnecessárias aqui quanto em um 21 Gramas - ainda que encenadas com muito mais elegância por Jones). Mas o mais grave continua não sendo isso, e sim uma construção de personagens completamente baseada numa culpabilização estereotipada dos comportamentos humanos, onde especialmente a personagem de January Jones (a esposa de Pepper) e de Dwight Yoakam se revelam acessórios completamente "significadores" para a trama da dupla principal - numa desnecessária, e eventualmente patética construção (olhar com especial atenção para o sexo entre Pepper e Jones - a January, bem entendido). Sobressai em meio a isso tudo o personagem que o próprio diretor interpreta, pela sua capacidade de alternar a obsessão quase insana com uma ternura extrema, tudo isso (no melhor modelo do western) conseguindo ser expresso apenas pela "máscara" que é o seu rosto. The three burials... é bom cinema a serviço de um mau roteiro - e onde conseguimos ver sempre claramente como a mesma história com o mesmo andamento cinematográfica podia desaguar em frutos muito mais positivos se deixasse de lado tanto preocupação com "símbolos de redenção" para apenas colocar estes dois homens (e um cadáver) em contato com o universo à sua volta.

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Conte de Cinéma, de Hong Sang-soo, Coréia do Sul/França, 2005 - Competição
É importante dizer que, ao contrário da imensa maioria dos cineastas com obras numerosas em exibição na competição deste ano, eu nunca vi um outro filme de Hong Sang-soo. E isso importa porque sem dúvida trata-se de um cineasta com um olhar no mínimo peculiar para o mundo e para o cinema, um olhar que parece tão enigmático (o que é sempre uma qualidade) assim, à primeira vista. Também é fato que precisa ser notado que eu vi o filme no meu dia de maior cansaço físico, e isso certamente não ajuda a fruição de uma obra tão sutil e tranquila na sua construção quanto o filme de Sang-soo. Por isso, talvez nenhum filme da competição me faça sentir a necessidade de uma revisão para realmente conseguir dar conta dele tanto quanto este. Como isso não será possível, porém (pelo menos por enquanto), divido com vocês estas que são, mais do que em qualquer caso citado até agora, não mais do que primeiras impressões.
Hong faz um cinema em Conte de cinéma que preza acima de tudo a simplicidade da encenação, da poesia do banal ,que lembra muito (mas apenas no artifício de encenação) o cinema de Éric Rohmer. Em Hong porém, esta simplicidade extrema logo toma outras instâncias de trabalho quando ele começa a criar um jogo (na segunda parte do filme) que explora pelo viés da metalinguagem a temática do duplo, do clichê, da mistura de fantasia e realidade. Um jogo de espelhos contante, seu filme vai se tornando tão mais complexo quanto mais simples, ou vice-versa, e pede acima de tudo uma fruição quase contemplativa do seu andamento um tanto hipnótico (hipnose, porém, de ordem completamente diferente da de um Hou Hsiao-hsien). Infelizmente, tudo isso eu vi e percebi muito de longe, brigando com o meu próprio corpo e exaustão. Eu percebi o quanto eu não me conectei de verdade com o filme ao ver pequenos trechos dele sendo exibidos na TV da sala de imprensa no dia seguinte, e me emocionando muito mais ao ver aqueles poucos minutos na telinha do que consegui no dia anterior dentro do cinema. Um filme que pede a revisão e que deixa muitos enigmas para se entrar no cinema do coreano, no futuro.

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Peindre ou faire l'amour, de Arnaud e Jean-Marie Larrieu, França, 2005 - Competição

Muitos críticos em Cannes desprezaram o filme dos irmãos Larrieu como a "bobagem do ano", algo que seria uma característica da organização do Festival. O único problema destes críticos é que eles julgam os filmes como bobagens ou não nunca pelo cinema como meio de expressão específico, e sim pela "relevância do tema". Porque bobagens são Kilometre zero ou Quando sei nato..., ambos filmes de temas sociais muito "relevantes", mas objetos de cinema completamente nulos (e aqui não se está falando nunca só de formalismos). O filme dos irmãos Larrieu vai justamente no caminho oposto, e por isso é tão difícil de aceitar para estes críticos "socialmente conscientes": o conto da tardia sexualização da relação de um casal (os excepcionais Daniel Auteil e Sabine Azema), a partir do contato com um casal que mora na vizinhança da nova casa "no campo" que eles compram ao decidirem se mudar para aproveitar a aposentadoria do marido. Um conto "burguês" por excelência, sim, e daí provavelmente despertando a má consciência dos jornalistas presentes.
No entanto, o que se precisa fazer para considerar este filme dos Larrieu uma "bobagem" é desconsiderar tudo que o constrói como cinema: o uso incrível do jogo entre escuridão e luz (onde o fato de um dos personagens ser cego é determinante na narrativa), a construçã do jogo sofisticado entre as paisagens naturais e os personagens no espaço, ou principalmente a utilização da trilha sonora e das canções como elementos sensuais como o filme. Isso tudo para montar uma narrativa sexuada e desavergonhada como poucas, uma ode ao sexo livre e ao que é tabu dentro do "ideal romântico" da constituição familiar e do amor a dois. Um filme desafiador, tesudo pacas, e finalmente, extremamente bem-humorado. Que tem sim seus eventuais vacilos (chamar o casal que os "desperta" de Adam e Eva é um pouco demais) e suas facilidades excessivas (a oposição natureza/vida urbana parece esquemática como mote), mas que é um senhor exercício de cinema como linguagem precisa para retratar as contradições, falhas e momentos sublimes do que é o humano.

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Amanhã mando então os comentários sobre os três filmes da competição que verei antes de ir embora (Caché, Shanghai dreams e Free zone) e sobre a premiação de Kusturica e cia - além da coletiva do júri em que fala da premiação, novidade introduzida no ano passado e interessantíssima. E semana que vem volto de Paris com a Quinzena dos Realizadores inteira, e o que faltou da Un Certain Regard (inclusive os premiados Sangre e Death of Mister Lazarescu).

Eduardo Valente


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