um assunto de Mulheres
de Claude Chabrol, Une Affaire de Femmes, 1988, França

Cantando no Escuro

Ao lado de Eric Rohmer, Claude Chabrol foi o crítico da primeira geração dos Cahiers du Cinéma a mais destacar Hitchcock como um diretor que, além de impecável na parte técnica e criativa, inscrevia a cosmologia de seus filmes num complexo equilíbrio entre forças primitivas. A “metafísica de Hitchcock”, diriam tanto adeptos quanto detratores da política dos autores. Basta ler a clássica crítica de Janela Indiscreta (assinada por Chabrol) para entender de que tipo de devoção estamos falando aqui. Pois bem: Chabrol não tardaria a se tornar realizador (Le Beau Serge é já de 1958, quando pouco se falava em movimento de renovação do cinema francês, ou seja, em Nouvelle Vague propriamente dita) e, enquanto tal, a aludir aos mestres – além de Hitchcock, havia a profunda admiração pela obra de Fritz Lang.

Cineasta do mistério e do jogo de aparências que cria uma estranha tessitura a encobrir a turbulência, Chabrol não monta teoremas que se pautarão no binômio segredo/chantagem (como em muitos momentos de Hitchcock) ou no esquema, mais simples, da aranha e sua vítima presa à teia (como em muitos momentos de Lang). Em Assunto de Mulheres, de 1988 (a essa altura, já um filme da “maturidade” de Chabrol), não há intriga paranóica, nem política de informações sigilosas, ou disposição de peças de um xadrez macabro. É um modelo ficcional diferente o proposto pelo diretor de Os Primos: escamotear o ponto de vista, encomendar à câmera pouco mais que o essencial – mesmo que isso signifique abrir mão de uma virtuosidade que lá está ao alcance do diretor, ele que aprendeu com mestres do plano elaborado e sabe fazer cinema –, tornar o filme uma linha narrativa (elíptica, oclusiva) sem sobressaltos, ainda que inserida num mundo em convulsão.

A França está ocupada pelos nazistas, mas não vemos manobras concretas de um movimento de resistência (ao contrário, muitos dos personagens do filme já aprenderam a arranhar um alemão, e a convivência com o exército germânico é absolutamente pacífica). A família de Marie, personagem de Isabelle Huppert, está sempre à iminência de uma colisão, mas mal presenciamos uma discussão séria dela com o marido. Como o mais impressionante movimento de câmera realizado em Assunto de Mulheres delata, Chabrol ama passear pela superfície das coisas antes de tentar enxergá-las por uma fenda. O buraco da fechadura, a janela, a fresta em que cabe o olho: todas as conhecidas metáforas do “segredo além da porta” ganham neste filme um sentido exatamente oposto, ou seja, muito menos a ilustração de um arquétipo do que o adensamento de uma opacidade que já existia anteriormente. Quando vem à tona a profissão clandestina de Marie, o filme fica ainda mais seco, ainda mais lacônico no seu antimaniqueísmo. Dificilmente um filme assim agrada à maioria dos espectadores, acostumados que estão a receber prontas as conclusões dramáticas e os predicativos do enredo. Diante de um tema delicado, Chabrol não propõe nenhum atalho, nada de universais que possam dar conta do julgamento. De fora ficaram os efeitos de manipulação ultradramatizada (impossível não pensar, como contraponto radical, em Dançando no Escuro, de Lars Von Trier – e, dizem os que já viram o filme, no recente Vera Drake, de Mike Leigh). Curioso percurso do cinema: Lang conferiu forma a uma ambigüidade – e a um certo peso – que tanto Chabrol quanto Eastwood irão incorporar em algum momento de suas obras, por vias totalmente diferentes.

Marie, que sonha um dia ser cantora, ganha dinheiro fazendo abortos de mulheres que engravidam inesperadamente (em geral de soldados alemães, enquanto seus maridos estão combatendo no front). Amiga de uma prostituta (para quem aluga um quartinho), partidária de um certo hedonismo, amante de um homem mais jovem, ela é filmada com um tipo de mise en scène da opacidade como raramente se esperaria de um enredo que tinha tudo para se tornar um filme de psicologismo. Marie acha que faz um bem ou um mal? O filme sinceramente não se interessa em responder – e em se tratando de Isabelle Huppert, toda opacidade possível é sempre revertida em mais e mais estranheza, mais e mais força enigmática para sua personagem. É com ela que acompanhamos toda a primeira metade do filme, as cenas assumindo uma intensidade constante, uma indiferença pragmática em relação ao entorno. Ela vai ganhando dinheiro, a clientela vai aumentando, a situação em casa se apazigua. O marido, por sua vez, não insiste em fazê-la confessar a origem daquele dinheiro, faz vista grossa e se beneficia de um ou outro fruto da melhora financeira. Homens e mulheres, como o título antecipa, estão vivendo em mundos separados, não se comunicando senão de maneira negociada (no sexo, na economia familiar, no tribunal). Ou, talvez devêssemos dizer, homens e mulheres ocupam mundos potencialmente inimigos: pura obra do ressentimento, a denúncia a Marie é feita pelo marido rejeitado (e magoado pelo adultério dela). Em outra cena, perguntado sobre o que quer ser quando crescer – num diálogo em que fica claro como Marie dá menos atenção a ele do que à sua irmã mais nova –, “Pierrot” responde que quer ser um carrasco, para que ninguém enxergue seu rosto por trás do capuz. Muito tempo depois, na cena em que Marie troca de roupa na prisão, uma figura está parada ao seu lado, de costas para a câmera, ocupando a parte de sombra da imagem, com um uniforme preto que inclui uma espécie de capuz. O carrasco? Como a cena seguinte revela, trata-se de uma freira – mas não precisamos esperar pelo resultado do processo jurídico para saber que Marie será condenada à morte.

Na metade de Assunto de Mulheres ocorre uma inscrição de ponto de vista crucial para o filme. Se, como já foi dito, primeiramente acompanhávamos tudo (ou quase tudo) ao lado de Marie – nada mais comum, portanto, uma vez que ela é a protagonista do filme –, há um momento em que o filme se coloca na casa de uma família que até então não havia aparecido, e que, portanto, não tinha ainda nenhuma conexão com Marie. A mulher do casal, que já possui uma meia-dúzia de filhos, ingere uma substância e é repreendida pelo marido. É então que o diálogo explica tudo: ela diz que não agüenta mais ter filhos, e que vai procurar a tal mulher que realiza abortos. Ali o filme põe em causa uma narrativa sobre aquele universo (e suas ações anexas), e não apenas sobre uma personagem envolvida nele; o ponto de vista, portanto, é de alguém que observa tudo de fora. Não à toa, será essa a mulher que sofrerá de uma infecção e virá a falecer, numa cena em que a câmera, como que antevendo a morte, abandona seu rosto com uma placidez suprema, fazendo um sutil movimento da ordem complexa da “conotação que tenta escapar daquilo que conota”. Além dessa importante inscrição do ponto de vista, a cena é também o que repercute, em última instância, na própria prisão de Marie. A cena em que ela vai para a guilhotina, com a voz em off afirmando seu sonho de se tornar cantora, não poupa o espectador de se sentir um tanto anuviado, sem saber o real motivo de ter acompanhado aquele lento corredor da morte. A exemplo de outros filmes de Chabrol (A Teia de Chocolate esteve aqui em cartaz há três anos para comprovar), a experiência de cinema que Assunto de Mulheres constrói, contudo, justifica todo tom de hesitação e suspense – e está longe de ser uma experiência encontrável em qualquer esquina.

Luiz Carlos Oliveira Jr.