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Querida
Ava,
Foi
um prazer (re)encontrá-la aqui em Paris, por
conta da mostra em homenagem a este tal Glauber - que
aliás cisma em continuar muito vivo mesmo quando
os que lembram dele ajudam mais a enterrá-lo,
na maioria das vezes, do que os que dele já esqueceram
(ou pelo menos fingiram esquecer...). Vendo você,
e se me permite cair no clichê enorme sobre a
sua semelhança física com esse pai que
eu bem sei que você nem chegou a conhecer, eu
fiquei com uma sensação muito mais feliz
de continuidade da obra do Glauber do que eu jamais
tive com todas aquelas suas outras "viúvas"
- aquelas de estilo ou de pensamentos, ambos distorcidos.
Viúvas que, aliás, jamais terão
a graça de Dona Lucia sentadinha na sala do cinema
vendo O Dragão da Maldade e respondendo
de forma tão jocosa quando eu e o amigo Leo Sette
troçamos com ela se ela "já tinha
visto este filme"; ou jamais terão o humor
de tua mãe, Paula, afirmando que hoje curte coisas
ainda mais radicais que Glauber (Brakhage, Anger etc).
Vendo você, aliás,
não somente por sua semelhança física,
mas também na semelhança de paixão
e eloquência, arranhando o francês, com
a graça que ele arranhava qualquer língua,
pra expressar seu olhar sobre cinema, lá em nossa
alegre maratona etílico-cinematográfica.
Mas eu dizia que, vendo você, eu pensava também
em quão difícil deve ser para vocês
todos (e aí incluo Eryk, incluo Paloma) ter esta
herança a carregar, uma obra da qual, por tudo
aquilo que conversamos por aqui, não se pode
descuidar em nenhum momento - porque não falta
quem queira dela se apropriar. Mas, ao mesmo tempo,
uma obra que podia facilmente ser um fantasma que perseguisse
vocês todos por muito tempo, eternamente zelando
por esta memória de uma maneira que não
criasse outra coisa além de bolor. Mas não:
seja Dona Lucia com o Tempo Glauber (muito mais do que
um museu de cera da obra dele); seja Eryk com seus filmes
muitíssimo bem sucedidos em si mesmos; seja agora
Paloma (que não conheço) com seus trabalhos
em dupla com Joel e seu trabalho de ressurreição
de Terra em Transe; seja Paula, com seu caminho
desde sempre independente; e principalmente seja você,
a quem conheço já há algum tempo,
mas de quem espero muito mais ainda, agora que filmamos
nossos curtas novos quase ao mesmo tempo e com o mesmo
prêmio - todos vocês descobriram como não
precisam renegar tolamente herança tão
bonita quanto tudo isso que seu pai deixou pra gente
(e não falo só do cineasta aqui, nunca),
sem precisar no entanto tornarem-se, jamais, vampiros
desta mesma herança. Não sei se eu teria
a grandeza de vocês nesta missão tão
complicada.
Resultou interessante esta recente
Mostra Glauber aqui em Paris, não? Primeiro por
esta localização um tanto peculiar no
Magic Cinema de Bobigny, periferia de Paris que parece
ainda mais adequada se pensamos nosso cinema como, bem,
periférico. Um cineminha agradável que
de outra forma eu não conheceria, e que eu acho
que tem uma coisa de oásis em meio a um grande
centro comercial cercado de prédios enormes e
quase modernistas (como não pensar em Niemeyer
naquela terra estranha?). Mas, não só
por isso foi uma mostra interessante: também
por acabar agregando acerca do Glauber (e do verdadeiro
"nome" da mostra, Théâtres au
Cinema) coisas tão já aproximadas quanto
Os Fuzis ou O Desafio, mas também
coisas tão díspares quanto a homenagem
a Nelson Rodrigues e os filmes mais recentes do cinema
brasileiro - tudo isso, diga-se, registrado num belo
catálogo que tem muito da mão do abnegado
Mateus Araújo. Mas eu realmente não vejo
essa variedade como problema não - Glauber era
em si tão plural, e retrato de tantas facetas
brasileiras, que acho apenas adequado uma mostra dele
acabar criando paralelos muito mais inesperados do que
óbvios.
E, finalmente, também
foi muito interessante porque aquele enclave modernista-comunista
de cinema virou um refúgio de uma comunidade
brasileira amante do cinema de uma forma quase pitoresca.
O que dizer de voltar de metrô tarde da noite
papeando no banco do trem com Ismail Xavier e Helena
Ignez, ou com os amigos Leo, Carim Azeddine (o "homem
da Contracampo em Paris" original) ou Cristian
Borges (todos encarnações distintas -
como eu ou você - do que seja fazer cinema no
Brasil hoje)? Ou ver uma palestra (ou duas, até)
do sempre lúcido, e galante em seu francês,
Mário Carneiro? Só mesmo pensar que o
caráter aglutinador e movimentador de Glauber
(sempre sua característica mais felicitada pelos
que puderam conhecê-lo pessoalmente) continua
impregnando tudo que o acompanha, não tem nem
jeito.
Deve dizer muito sobre alguma
coisa, que eu não sei bem o que é, mas
certamente pra mim vai bem além do papo-clichê
do "país sem memória", que seja
mais fácil assistir uma mostra de Glauber Rocha
com cópias de bem melhor qualidade em Paris,
do que em qualquer lugar do Brasil. Neste sentido é
que eu penso de novo na importância deste movimento
de vocês de retrabalharem as matrizes do cinema
dele, de estarem nos dando de novo um Terra em Transe
como há muito não tínhamos (e que
pena que eu mesmo não pude ver esta cópia,
"mágica" segundo todos os relatos),
e logo em breve um Dragão, um Idade
da Terra, um Barravento novinhos em folha.
Precisamos deles novinhos em folha, porque as idéias
de Glauber (e, por conseguinte, seus filmes) precisam
ser rearejadas, mais do que apenas repetidas. Espero
que, em breve, a Contracampo consiga contribuir para
isso. Ele merece.
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"Opa", você
deve estar pensando, "ele não pode passar
assim incólume sem falar dos filmes, né?".
É muito verdade: afinal, se quando vim parar
aqui nestas bandas para esta temporada eu esperava muitas
descobertas cinematográficas proporcionadas pelo
circuito quase sobrenatural dos cinemas daqui, eu realmente
não esperava que uma delas fosse parte do cinema
brasileiro (que, aliás, terá outra mostra
em maio/junho no Forum des Images). É verdade
que, em meio a tantas coisas que só consigo ver
aqui, eu acabei deixando passar a chance de ver ou rever
outras tantas que queria ter visto dentro da Mostra,
mas que mal ou bem passam no Brasil com alguma frequência
(Boca de Ouro do Nelson, Toda Nudez, O
Desafio, O Profeta da Fome etc), e até
alguns Glauber mesmo (Claro, Der Leone,
História do Brasil). No entanto, ter revisto
Terra em Transe (mesmo naquela cópia 16mm
em estado tão, er, "brasileirinho"),
Di (este sim, em cópia fulgurante - e
pela primeira vez no cinema!), Maranhão 66
e Câncer; e ter visto pela primeira vez
Cabezas Cortadas e O Dragão da Maldade
(em cópias fenomenais), tudo isso foi para mim
experiência inspiradora - e mais do que necessária
neste momento.
Mas, Ava, eu tudo isso trocaria,
com toda importância que teve (re)ver estes filmes,
pela minha descoberta fundamental de um tal A Idade
da Terra. A projeção daquela cópia
francesa (menina, faça com que tenhamos uma cópia
assim no Brasil!), da qual cores pareciam pingar ali
na minha primeira fila de sempre, foi uma experiência
cinematográfica única, inesquecível,
essencial para mim. Eu sou daqueles que acreditam que
determinadas projeções de determinados
filmes em determinados lugares se tornam momentos daqueles
determinantes sobre nosso olhar - e não só
do cinema, nem de sua História. Pois bem, se
assim for, aquela ali foi certamente uma delas, pra
mim. Eu jamais esquecerei o meu estado chapado naquela
cadeira de Bobigny, ao longo de quase três horas
de projeção, ou logo depois dela, nem
da estupefação posterior que tomou conta
de mim - e ainda bem que o amigo Leo Sette estava por
lá pra me colocar de volta no mundo na conversa
de volta pra casa, porque seria um deserto de solidão
pegar o metrô depois (e melhor ainda que ele nem
curta o filme, porque a conversa pôde ser mais
do que apenas seguidos "oooohs", e "cacete!").
Pena, aliás, que você ainda não
tinha chegado, então - queria ter te mostrado
esta emoção ao vivo.
"Mas, como você
ainda não conhecia o filme, Eduardo??",
você poderia perguntar (e, a essas alturas, eu
também me perguntaria)... Bom, são peculiaridades
desta vida: primeiro (e vou mandar umas cartas depois
para uns outros amigos sobre este assunto, adoraria
que você as lesse) porque eu tenho enorme reticência
em ver filmes pela primeira vez em vídeo ou DVD
(em suma, em casa), então isso não seria
uma opção (e, conhecendo agora o uso majestoso
do scope no filme, só posso agradecer por isso).
"Mas, o filme andou passando no Rio nos cinemas,
ultimamente!" - é verdade, mas em algumas
destas ocasiões eu não pude mesmo ir e,
em outras, eu acabei sucumbindo a uma coisa que eu costumo
ter, e confesso aqui só para você (que
ninguém mais leia isso!): certas obras me amedrontam,
antes mesmo de vê-las. Seja pela grandeza que
sempre ouvi evocada em relação a elas
(um tal Welles me vem à mente, ou talvez em outra
chave, um tal Hawks), seja pela carga de pressão
que elas carregam (obras malditas, impossíveis,
complicadas, chatas - as palavras variam). E A Idade
da Terra era assim: um mito, pra mim, um fantasma
pessoal meio que parecido com o que Limite foi
por quase quarenta anos no cinema brasileiro - onde
o que se ouve dizer cria por si só uma existência
para além das imagens. Na verdade, citar Limite
é especialmente feliz porque, quando este filme
"volta a existir" para o cinema brasileiro
nos anos 70, um dos caras que vai ter que rever tudo
que tinha pensado dele sem sequer assisti-lo é
justamente um tal Glauber Rocha. Pois talvez eu tenha
feito o mesmo com o Idade - e só não
me penitencio mais pelo erro porque acho que as coisas
aconteceram quando tinham que acontecer.
Sobre o filme em si, não
sei se tenho muitas coisas inteligentes pra te dizer,
pelo menos não numa primeira visão como
esta, levando um susto a partir de cada imagem e som
que brotava na tela - tenho mais a dizer da minha experiência
de tê-lo visto. O que mais me impressionou no
filme foi a sensação de nunca ter antes
experimentado o cinema, como arte coletiva que é,
conseguindo falar tanto em primeira pessoa. O que eu
vejo na tela é o Glauber, o tempo todo. Mas isso
nunca se dá por uma perspectiva egocêntrica
nem auto-conglatulatória, pelo contrário,
e sim pela exposição da forma única
de ver e sentir o mundo que ele tinha, de conseguir
ser o mais político e o mais humano dos cineastas
o tempo todo - por ser ele mesmo um humano essencialmente
político, ou vice-versa, sei lá eu.
Glauber disse certa vez que
"fazia filmes para não morrer de dor",
e para mim Idade da Terra é isso, mas,
mais ainda, é a impossibilidade de nem com o
cinema evitar a morte de dor (e espero aqui não
soar somente como um biógrafo-exegeta a posteriori).
Idade é um grito descontrolado, é
um filme que conta a história de um homem antes
de tudo (ele mesmo, Glauber - e não Jesus), mas
ao fazê-lo me conta também a história
de um País, o nosso - país este que está
condensado de forma exemplar, para quem quiser ver,
na crônica inviabilidade (sempre disse que o filme
do Bianchi tinha que se chamar Inviavelmente Crônico
pra ser realmente bom) da obra de Glauber, no trajeto
que ele faz, seja como artista seja como olhar de mundo
ou história pessoal, entre '59 (Pátio)
e este Idade, terminado afinal em '80. Glauber viveu
estes vinte e um anos tão essenciais de forma
única e, diria eu, completa, mas acima de tudo
sua obra espelha estes anos, passo a passo, com uma
coerência que é tão mais fascinante
porque só existe na completa incoerência
(histórica ou discursiva), e com um cruzamento
tal entre evolução (não no sentido
de qualidade, e sim de passagem de tempo) pessoal, de
obra e de História do país, que chega
a ser assustador.
Diga-se aqui que nada disso,
porém, teria o menor valor na minha experiência
ao ver o filme, se não fosse aquela que pra mim
é sempre a mais assombrosa característica
de Glauber (e como ver O Dragão e rever
Câncer trouxeram isso com mais força
ainda pra mim!): a de conseguir tornar tudo isso que
eu disse aí neste parágrafo acima em matéria
cinematográfica pura. Afinal ficar relacionando
Glauber com seu tempo, Glauber com o Brasil, biografia
e obra, isso tudo já foi feito (mas eu estaria
mentindo pra mim mesmo se não passasse pela força
que isso teve pra mim ao ver o filme - e sentir no que
a falência física de Glauber depois daquela
explosão fílmica nos mostra de uma assustadora
impossibilidade do ser político e artístico
brasileiro), e estaria completamente fora do interesse
do que é um Filme, para mim. Afinal, o assombroso
nos filmes dele é ver como isso tudo se transmuta,
o tempo todo, em linguagem cinematográfica: como
os enquadramentos são brilhantes (seja com Dib,
seja com Pedro Moraes, seja com Beato, seja com Carneiro,
seja com quem for), como os movimentos de câmera
revelam sentidos a cada momento, como a dialética
da montagem e do jogo do som com a imagem levam a conflitos
e conclusões que nem o mais eloqüente orador
poderia fazer só com as palavras. Ver como, em
suma, cada alegoria não é barata (como
acabariam sendo nas mãos de tantos diluidores),
porque é cindida e re-soldada em sentidos absolutamente
únicos a cada momento, e como o uso da imagem
mais óbvia ou do mítico adquirem significações
nada banais, nada simples de entender, nada estáticas.
Glauber me emociona pelo que ele era, mas acima de tudo
pelo que seu cinema ainda é: de uma vida completamente
infindável dentro de cada plano, na relação
entre cada plano, e entre cada imagem e som (e, para
que não se pense aqui que eu estou numa elegia
cega a um "gênio realizador", isso se
refere mesmo a seus filmes dos quais nem gosto tanto,
como Cabezas Cortadas ou Pátio).
Enquanto assistia ao filme,
pensava como, para além do que era anedótico
(feição tão destacada daquele documentário(?)
que Silvio Tendler fez), impressiona o que a energia
de Glauber retira das pessoas e transforma em filme.
Se penso em alguém dizendo que "o Cinema
Novo era Glauber no Rio de Janeiro", não
dá para não levar a sério quando
ouvimos a voz dele gritando "De novo, Maurício",
ou "fecha o diafragma!" em meio às
cenas do Idade, mostrando ali não só
sua liderança ou método peculiares, mas
acima de tudo seu domínio do que sairia depois
daquela câmera. Como ser tão instintivo
e visceral, e ao mesmo tempo com tão completo
domínio de seu meio expressão? - eu sempre
me pergunto ao ver essas imagens que me arrebatam completamente.
E sempre me impressiono como, mesmo que não entendessem
de todo (ou de forma alguma), Glauber conseguia convencer
um Tarcisio Meira, um Geraldo D'el Rey, a fazer tudo
que fazem neste filme!
Falar sobre o filme, você
diz? Posso falar sim. Mas, posso dizer o quê daquele
primeiro e exasperante plano da natureza com a música
africana, que é seguido pela encenação
dos índios em meio à falsidade dos estúdios?
Dizer o quê exatamente de Tarcisio Meira e Ana
Maria Magalhães nas pedras ("é
a cloaca do universo!"), com o lixo que bate
na Baía; ou dele com Danusa Leão na Cinelândia,
repetindo de novo suas falas até que se tornem
um mantra desesperado, enquanto ao fundo os "passantes"
assistem o teatro e se tornam parte dele ao mesmo tempo?
Dizer o quê de Tarcisio, Mauricio, Ana, que perambulam
pela escola de samba, hipnotizados? Dizer o quê
do Antonio Pitanga, sempre, mas em especial caminhando
com a cruz sob os gritos de Glauber, com Brasília
ao fundo? Como explicar que em Glauber o teatral é
o que há de mais vivo, ou que sua falta de limites
entre "encenação" e "experiência"
leva o cinema de Jean Rouch a novas fronteiras altamente
insuspeitas? Finalmente, como explicar que, quando entra
a voz de Glauber (constante tão presente, aliás,
seja num "documentário" como Di,
num filme alegórico como Cabezas ou num
filme "marginal" como Câncer),
o que certamente resultaria num tolo "explicar
o filme" segundo qualquer outro cineasta, apenas
se torna mais semente de confusão, de excessos
de sentido, de completo entorpecimento por imagens e
sons?
Exaspera-me muito, aliás,
aquele momento em que ele começa a falar em Idade
da Terra, e onde ele já não consegue
mais sequer terminar as frases. Exaspera-me por ver
que, talvez, o cinema de Glauber sempre tenha sido uma
tentativa de dar sentido a tudo aquilo que não
se consegue dar sentido (o mundo, o Brasil, o cinema,
um ser humano - Di), e ser o processo vivo desta
tentativa, tão negada quanto justificada pela
sua própria impossibilidade. Relacionar Glauber
e o Brasil pode soar óbvio sim, talvez - mas
cabe aqui fazer como Glauber: pegar o óbvio (ululante
até, diria Rodrigues) e retrabalhá-lo
à enésima potência. Pegar o que
já é (no caso dele mesmo) mito, e resignificá-lo,
confundi-lo, mesclá-lo.
De Idade da Terra, duas
frases me ressoarão por quanto tempo for: "se
pode vencer a Morte...", e "acorda,
Humanidade!". Tudo isso, claro, sem créditos
finais - porque estes seriam uma impossibilidade, um
completo contrasenso. O desespero e a dor de Glauber
diante de um mundo que já não se pode
mesmo mais entender ou significar, quando tornados cinema,
me comovem como poucas vezes estive comovido.
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Finalmente, preciso te dizer
uma coisa que também não parava de me
passar na cabeça vendo o filme: a sua mítica
exibição em Veneza, seguida da premiação
do Atlantic City de Malle, seguida da ainda mais
mítica caminhada-discurso de Glauber. Ficava
ali pensando, de verdade, como poderia mesmo Glauber
pensar que alguém estava preparado para receber
aquele filme, que mal era um filme como o cinema mesquinhamente
sempre concebeu, e sim um objeto vivo, um produto-processo,
muito mais identificado com o que, afinal, sempre se
convencionou pensar que seja uma "manifestação
pela arte" em sentido abrangente do que um "filme",
nos que usam o termo com sentido redutor. Mas não
digo isso apenas como um elogio a Glauber como alguém
"acima do cinema", mas realmente tentando
pensar como se pode comparar coisas tão distintas.
Para Glauber, Idade da Terra não era só
um filme - como ele podia imaginar que mais alguém
o visse assim?
Penso também (e isso
se dá especialmente quando eu mesmo vi o filme
no "estrangeiro") em tudo que existe naquele
filme que é tão intrinsicamente brasileiro,
em tantos e tantos sentidos (desde sua produção
até seus atores, passando por suas paisagens
- humanas e geográficas - e chegando na sua explosão
de culturas), e penso como será que alguém
de fora do Brasil pode, não entender - palavra
completamente inadequada ao filme -, mas ao menos senti-lo.
Mas, claro, sei que a reflexão é tola.
Afinal eu consigo, através do cinema, sentir
tantas coisas que não entendo, completamente
fora de seus contextos - e da mesma forma, Idade
da Terra continua tão pouco sentido ou entendido
por tantos brasileiros.
É, a reflexão
é tola sim. Mas, o fluxo destes pensamentos e
sentimentos, e a tentativa de dar algum sentido a elas,
foi o que tentei fazer nesta cartinha pra você
- talvez imaginando que fazer isso seja um ato mais
glauberiano do que tantas alegorias totalizantes que
se arvoram deste nome por aí. Espero que, figura
tão completamente distinta dele (e de você,
aliás) como sou, eu tenha conseguido te passar
um pouquinho da minha vivência dentro deste edifício
infindável (e não labiríntico,
diga-se) que é o cinema e o Brasil por Glauber.
E, desculpe se eu não consegui: as imagens são
maiores que eu.
Um carinhoso beijo,
Eduardo Valente
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