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A dependência leva ao
medo, segundo Hannah (Hannah Schygulla), atriz do filme
dentro do filme em Precauções Diante
de Uma Prostituta Santa. Ao ser perguntada por Jeff
(Lou Castel), o diretor, sobre o por quê, ela
responde que todos são dependentes posto que
não sabem o que irá acontecer. A personagem
Hannah se refere, claro, ao conturbado processo de filmagem
de que participa, o qual envolve uma equipe à
beira de um ataque de nervos perdida e isolada em hotel
na Espanha, pastiche do suntuoso castelo de O Ano
Passado em Marienbad, de Alain Resnais. O mais importante,
porém: todo o diálogo descrito acima existe
somente nos filmes de Rainer Werner Fassbinder, os quais
se caracterizam pela exploração extrema
dos limites a que podem (ou não) suportar personagens
estilhaçados que aceitam se submeter mesmo a
terríveis humilhações, quando tomam
parte de relacionamentos afetivos, devido ao pavor absoluto
que sentem da solidão.
Sascha, assistente de direção
ironicamente interpretado (como já o fizera Jean-Luc
Godard em O Desprezo) pelo próprio Fassbinder,
diz que compreende apenas o desespero. Enquanto, de
início, esperam a chegada do temperamental cineasta
e, depois, as resoluções dos infinitos
problemas técnicos e financeiros que afligem
a produção e os impedem de filmar, os
membros da equipe lançam-se ao ócio. Sob
a descontrolada dieta de cubas libres, vagando sem direção
ou propósito sobretudo pelo hall do hotel, os
atores Hannah, Ricky e Eddie Constantine (que faz a
si mesmo), o diretor de arte Fred, o assistente de produção
Korbinian, além do cameraman, das maquiadoras,
das secretárias, dos produtores, dos maquinistas,
das tradutoras, todos forçados, pela ausência
de ações e de acontecimentos, a se relacionarem
uns com os outros, criando assim ambiente propício
para que mágoas, frustrações, instintos,
paixões e tristezas (o desespero, enfim) possam
explodir.
Em meio às emoções
e aos sentimentos confusos e exacerbados que afetam
a equipe, tenta-se rodar um filme sobre a brutalidade,
sobre a violência sancionada pelo Estado. Enquanto
obra calcada na metalinguagem, Precauções
Diante de Uma Prostituta Santa não se propõe
apenas a revelar o processo de produção
que se dá por trás das câmeras,
como também - e principalmente - incorpora ao
próprio discurso dramático o tema do filme
que está em gestação dentro da
narrativa. Na comuna, como desde o princípio
a equipe é chamada - alusão sarcástica
à coletividade socialista, em que todos são
iguais e vivem em harmonia entre si -, prevalece a brutalidade
das relações humanas, da mesma forma que
o contato entre pessoas se fundamente e é indissociável
da violência. Para Fassbinder, relações
humanas significam relações de força,
relações de poder, uma vez que se conectar
ao outro representa, antes de nele se transformar (como
apregoa, por exemplo, o filósofo Gilles Deleuze),
impor-se sobre ele, ao sufocar o que existe de original
e espontâneo na diferença através
do controle e da tirania.
Em Memórias do Subsolo,
Dostoiévski cunha frase lapidar que se encaixa
à perfeição em Precauções
Diante de Uma Prostituta Santa (como também
em As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant,
O Medo Devora a Alma, O Casamento de Maria
Braun, Effi Briest, O Direito do Mais
Forte, O Desespero de Verônica Voss...):
"chego a pensar por vezes que o amor consiste justamente
no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede
de exercer tirania sobre ele". É o sado-masoquismo
que torna a experiência de se assistir a Fassbinder
quase insuportável e, ao mesmo tempo, transcendente,
pois enquanto cineastas de em atividade, como Lars Von
Trier, Alexander Payne e Michael Winterbottom, culpam
seus personagens, enxergam-nos como figuras abjetas
e se colocam acima deles, o maior expoente do Novo Cinema
Alemão (que, durante o filme, troça de
Schlondorff e Lemke, companheiros de geração),
solidariza-se com eles, tratando-os de igual para igual:
há, em Fassbinder, enorme compaixão pelo
sofrimento de suas criações, seres frágeis
e solitários os quais, tragicamente, encontram-se
impossibilitados de agir de maneira diferente, já
que o poder e a violência que exercem sobre o
próximo são a única garantia que
possuem de que não serão abandonados,
de que não estarão de novo a sós
no mundo. Contudo, a assimetria dos relacionamentos,
na qual um domina e o outro se submete, leva, ao contrário,
à dissolução, pois a entrega doentia
dos personagens acarreta, como estratégias para
defender os resquícios da própria individualidade
e da sanidade, tanto a dependência completa que
nutrem pelos companheiros, quanto o medo atroz que têm
de perdê-los.
Para filmar o desespero, o cineasta,
em Precauções Diante de Uma Prostituta
Santa, opta, a fim de enfatiza-lo através
do contraste, pela frieza e pelo distanciamento na narrativa.
Enquanto as expressões glaciais de Schygulla
e de Constantine se chocam com a energia intempestiva
de Castel e de Fassbinder, que em geral berram alucinadamente,
a câmera de Michael Ballhaus, no começa,
circula elegante pelo hotel, em longos planos-seqüências
que, por meio das entradas e saídas constantes
do quadro, reenquadramentos permanentes dos personagens,
alternância dos pontos de vista, utilização
da profundidade de campo e do zoom in, estabelece jogos
de olhares e de tensões entre os corpos para
refletir as relações de força que
contaminam o ambiente. Com o passar do tempo, Ballhaus
abandona o movimento, de modo que a câmera se
torna estática e os planos, cada vez mais curtos,
visto que a situação limite em que se
encontram, simbolizada na pasmaceira da filmagem que
não acontece, impede os personagens de escaparem
do inexorável mergulho rumo ao medo e, em conseqüência,
à devassidão e à crueldade para
com os demais.
Precauções
Diante de Uma Prostituta Santa abre com anedota
sobre Wee Willy, gângster de pequena estatura
que, ao vestir roupas infantis, é confundido
por Goofy com uma criança. Quando Willy é
preso, Goofy fica chocado: como será para aquela
criança descobrir que, na verdade, é um
crápula? A mesma perplexidade acompanha os membros
da equipe de filmagem (que vem a ser o Antiteater, companhia
fundada pelo próprio Fassbinder e que o acompanha
ao longo dos mais de 40 filmes - em apenas 13 anos -
de sua carreira cinematográfica): como é
possível aos personagens amar e, apesar (ou por
causa) do amor, desejar a completa destruição
do objeto amado?
Paulo Ricardo de Almeida
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