Primeira Carta de Paris
Perdendo-se num mar de filmes, gotas no oceano do cinema

Queridos amigos,

Escrevo para vocês daqui de Paris, onde os desígnios do cinema acabaram me exilando pelos próximos quatro meses. É uma mudança e tanto de ares, mas não poderia perder esta oportunidade de estar na cidade que é, sem qualquer dúvida, o coração do cinema mundial (pelo menos como nós gostamos de pensar o cinema). E, em estando aqui, não poderia perder a oportunidade de tentar dividir com os colegas da Contracampo (e se mais alguém calhar de ler... que bom) pequenas impressões desta experiência maluca que é vivenciar o cinema 24 horas por dia nesta cidade. Estarei mandando, por isso mesmo, correspondências semanais para vocês – que espero e torço que interessem tanto quem as vai ler por aí quanto me interessa escrevê-las.


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O cinéfilo acostumado a viver - em setembro no Rio de Janeiro e outubro em São Paulo, nos maiores festivais de cinema do Brasil - a deliciosa angústia de se ver frente a frente a uma programação que oferece um manancial sempre maior de opções do que o tempo que temos para acompanhá-las, esse cinéfilo sabe como é difícil o trabalho de garimpar e definir certezas sobre o que se ver ou não naquelas duas semanas. As marquinhas de caneta naquelas grades de programação, a dificuldade de algumas escolhas (várias delas até pela insuficiência de informações sobre determinados filmes, o que cria um outro movimento de tentar-se buscar tais informações ao máximo com todas as possíveis fontes), e finalmente o prazer dos acertos, a decepção com os erros, mas acima de tudo a sensação de mergulho completamente absorto num oceano de imagens e sons – que, aliás, mais cedo ou mais tarde cede espaço a uma inegável sensação de quase afogamento.

Pois bem, é esta mesma emoção que o habitante de Paris sente toda semana ao abrir o Pariscope (mais tradicional guia de programação cultural da cidade). Paris, mais do que a capital do cinema, é a capital da cinefilia. Seu circuito possui uma tal variedade de opções a cada semana que, sem medo, pode-se afirmar que suplanta a mais interessante semana de qualquer festival que temos no Brasil. Há o circuito de lançamentos comerciais mais abrangente no mundo, tanto no que se refira ao cinema mais industrial quanto aos menores circuitos de exibição alternativa. Há pelo menos cinco importantes salas-cinematecas (embora duas estejam atualmente fechadas) funcionando com mostras temáticas ao longo do ano todo. E, finalmente, há o mais completo cardápio de filmes em circuito de reprises (que vão desde filmes recentes a constantes e numerosas reestréias de filmes de diferentes épocas do cinema), completo por pequenas salas de repertório que realizam curtas mas sortidas mostras retrospectivas de cineastas variados (principalmente do cinema americano de tempos antigos – que são os filmes com mais dificuldade de acesso nos cinemas, num país como o Brasil).

Claro que é impossível dar conta de se ver tudo que Paris exibe em cada semana – e aceitar esta realidade é o primeiro passo para manter a sanidade na cidade. Na maioria das vezes, afinal, temos uma agenda de compromissos a cumprir ao longo da semana, o que nos impede de estar em alguns lugares em determinados horários. No entanto, mesmo que a pessoa tenha uma hipotética abertura completa na sua agenda (o que não deixou de ser minha realidade nestes primeiros dias desta vinda a Paris), ainda assim é impossível cumprir com tamanha maratona – e os motivos podem ser vários outros, como os nobres limites das finanças pessoais, a dificuldade de combinar horários entre os próprios cinemas, mas principalmente, a possibilidade aqui já citada do tal afogamento em imagens e sons. Afogamento este que, levado ao paroxismo (nada difícil por estas bandas) equivale a nada ver ao tudo tentar ver: sim, é preciso ver o mundo em torno dos cinemas sempre que possível.

O habitante constante de Paris, inclusive, pode se munir de importante arma de consolo: sempre haverá uma próxima semana, uma próxima exibição possível de determinado filme nos cinemas parisienses. Esta sensação de que nenhum filme está completamente fora do alcance de ser visto nas salas não somente ajuda a se lidar melhor com as perdas, como para alguém como eu, sempre reticente em ver filmes pela primeira vez em DVD ou VHS, acaba se tornando motivo de júbilo pessoal sempre que se tem acesso àquele título longamente desejado, numa tela grande (ou mesmo nem tão grande assim – mas no esplendor de, no geral, cópias extremamente bem cuidadas em 35mm).

Se é fato que "não vai dar pra ver tudo", isso não nos torna mais tranquilos quanto ao problema seguinte: "mas, então, o que ver?" Aí cairemos, sem dúvida, no espaço das idiossincrasias absurdamente pessoais: o que é um método válido para um, cai por terra para outros. Como só posso falar por mim, posso dizer o que costuma me guiar: antes de tudo, um desejo de misturar ao máximo possível as experiências espectatoriais, o que equivale dizer: sempre que puder assistir àquele raro filme de estúdio americano dos anos 40, tentar não deixar de ver por isso o mais recente filme do Senegal, ou à reprise daquele filme menos conhecido dos anos 80 que você nunca chegou a ver – ah, e rever muita coisa, sempre que der. É possível viver em Paris uma dieta "só de clássicos", mas não me parece a mais saudável – convém balancear os nutrientes. Eu, pelo menos, costumo achar esta mistura completamente rica, oxigenando a experiência de um filme com a do filme seguinte, e do seguinte, e assim por diante. Para tentar explicar um pouco melhor como funciona a minha dieta, vamos ver a primeira semana que eu passei nos cinemas de Paris...

Tudo começou, então, com uma sessão de sábado à noite (sempre absurdamente cheia) no Forum des Images (uma das "cinematecas" mencionadas), que atualmente faz um ciclo chamado Colonies (onde, como convém a uma boa mostra francesa, a partir de um determinado conceito bem geral, cabem as coisas mais inesperadas – surpresas sempre agradáveis). Lá fui ver uma das minhas três milhões setecentas e quatorze mil e trezentas ausências imperdoáveis no repertório (segundo a última contagem), Pequeno Grande Homem (1970), de Arthur Penn – filme que me pegou de surpresa pelo seu humor fino, misturado com um retrato épico, mas nunca perdido em auto-importância, do mito da conquista do Oeste americano e do extermínio dos povos índios. No dia seguinte, contrabalanço a dieta com um outro épico, mas em registro completamente distinto (geográfico, cinematográfico, narrativo), o absolutamente encantador (em todos os sentidos) Princesa Mononoke (1997), de Hayao Myiazaki. A este, segue-se de imediato (na mesma sala), o The Killers (1964), de Don Siegel, impressionante exercício icônico do cinema de gênero americano no seu melhor, com algumas raízes inegáveis de tudo que Tarantino melhor realiza em Pulp Fiction, com um elenco absolutamente arrebatador na sua criação de tipos. De que maneiras ver estes determinados filmes nesta determinada ordem influenciam as leituras e captações uns dos outros, difícil dizer – mas impossível não sentir de alguma forma.

Bom, mas a semana só começa. Na segunda, sessão matinal (maneira usada por algumas cadeias comerciais para exibir filmes menos "bem sucedidos") de um daqueles filmes que perdi em festivais passados, circunstância pela qual nunca me perdoei e achava acabada a chance de vê-lo nos cinemas – Millenium Mambo (2001), de Hou Hsiao-hsien. Da imanência das imagens ao mesmo tempo profundamente realistas e incrivelmente oníricas de Hou, só consigo ir mesmo para uma revisão recente necessária, no caso de O Aviador, de Scorsese – onde reafirmo para mim mesmo os meus pontos positivos e negativos de contato com o filme, que, claro, com todas as suas imperfeições respira muito mais cinema do que a imensa maioria do que se faz no mundo hoje. No dia seguinte, a estréia pessoal na obra de um cineasta importante, momento sempre muito saboreado por qualquer apaixonado pelo cinema: Cavalos de fogo (1964), de Serguei Paradjanov – filme tão estranho aos olhos e ouvidos quanto se possa imaginar, se encontrando nele desde ecos de um Glauber e um Mário Peixoto altamente improváveis como relações diretas (pelas datas etc), mas também cruzamentos bem mais compreensíveis com o cinema de um certo Tarkovski. Uma obra-problema que desafia o olhar e a reflexão, que irrequieta e confunde.

Estes pequenos mergulhos históricos trazem a necessidade de um contato com o cinema de hoje, com o que se faz no mundo em imagens e som atualmente, como forma de tentar entender, de maneira mais abrangente, afinal o que fica desse oceano anterior no qual podemos mergulhar em pontos tão distintos. A busca por tais respostas mais confunde que esclarece, porém (e ainda bem), porque da onda mais recente a chegar na praia, tiramos conclusões tão distintas quanto o dantesco The Final Cut, de Omar Naim (2005), sobre o qual logo falarei mais em texto específico; e o objeto estranho e sublime que é The life aquatic (2004), de Wes Anderson (também a ser melhor observado no futuro). Ambos filmes que lidam, aliás, das maneiras mais opostas, com este problema que traz o acúmulo de imagens da história do cinema (e pessoal dos seus criadores) para a produção contemporânea e suas ambições. Frutos da mesma cinematografia nacional (a americana), mas ao mesmo tempo impossíveis de compreender como trajetórias senão pela distinção completa dos seus olhares para o mundo e para o cinema. E, para o retrato ficar um pouco mais abrangente, vamos por último a um cinema diferente, o do iraniano Bahman Ghobadi, de quem não gostava nada dos filmes anteriores (Tempo de Embebedar Cavalos e Exílio no Iraque), mas que conseguiu me dobrar com este seu recente Tartarugas podem Voar (2004), perdido por mim na Mostra de SP do ano passado numa daquelas difíceis opções de programação, mas agora (felizmente) recuperado.

E aí está uma semana nos cinemas parisienses: trajetória desigual, incerta, incompleta. Mas fascinante demais por todos os seus aspectos (aqui, falei só dos filmes, mas volto depois às salas, aos espectadores, aos caminhos que levam de uma a outra). Acima de tudo, porém, isso: trajetória. Que, indo por onde for, só consegue nos fazer voltar mais e mais ao objeto amado: o filme, os filmes, em sua pluralidade sempre singular. "Ah, mas nem foram tantos filmes assim em uma semana!", diriam vocês. É porque "esqueci" de mencionar a minha outra paixão cinematográfica que Paris completa: a de ver de forma condensada pedaços consideráveis da obra de um cineasta específico. Por isso mesmo, a semana foi recheada, principalmente, com seguidas voltas à sala 2 do Action Ecole para ver em uma semana 7 filmes de Otto Preminger. Sobre eles (filmes, Otto Preminger, Action Ecoles), prometo mandar uma cartinha semana que vem...

Espero que esta encontre todos aí com saúde, e até a próxima!

Eduardo Valente