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Queridos amigos,
Escrevo para vocês daqui
de Paris, onde os desígnios do cinema acabaram
me exilando pelos próximos quatro meses. É
uma mudança e tanto de ares, mas não poderia
perder esta oportunidade de estar na cidade que é,
sem qualquer dúvida, o coração
do cinema mundial (pelo menos como nós gostamos
de pensar o cinema). E, em estando aqui, não
poderia perder a oportunidade de tentar dividir com
os colegas da Contracampo (e se mais alguém calhar
de ler... que bom) pequenas impressões desta
experiência maluca que é vivenciar o cinema
24 horas por dia nesta cidade. Estarei mandando, por
isso mesmo, correspondências semanais para vocês
– que espero e torço que interessem tanto quem
as vai ler por aí quanto me interessa escrevê-las.
* * *
O cinéfilo acostumado
a viver - em setembro no Rio de Janeiro e outubro em
São Paulo, nos maiores festivais de cinema do
Brasil - a deliciosa angústia de se ver frente
a frente a uma programação que oferece
um manancial sempre maior de opções do
que o tempo que temos para acompanhá-las, esse
cinéfilo sabe como é difícil o
trabalho de garimpar e definir certezas sobre o que
se ver ou não naquelas duas semanas. As marquinhas
de caneta naquelas grades de programação,
a dificuldade de algumas escolhas (várias delas
até pela insuficiência de informações
sobre determinados filmes, o que cria um outro movimento
de tentar-se buscar tais informações ao
máximo com todas as possíveis fontes),
e finalmente o prazer dos acertos, a decepção
com os erros, mas acima de tudo a sensação
de mergulho completamente absorto num oceano de imagens
e sons – que, aliás, mais cedo ou mais tarde
cede espaço a uma inegável sensação
de quase afogamento.
Pois bem, é esta mesma emoção que
o habitante de Paris sente toda semana ao abrir o Pariscope
(mais tradicional guia de programação
cultural da cidade). Paris, mais do que a capital do
cinema, é a capital da cinefilia. Seu circuito
possui uma tal variedade de opções a cada
semana que, sem medo, pode-se afirmar que suplanta a
mais interessante semana de qualquer festival que temos
no Brasil. Há o circuito de lançamentos
comerciais mais abrangente no mundo, tanto no que se
refira ao cinema mais industrial quanto aos menores
circuitos de exibição alternativa. Há
pelo menos cinco importantes salas-cinematecas (embora
duas estejam atualmente fechadas) funcionando com mostras
temáticas ao longo do ano todo. E, finalmente,
há o mais completo cardápio de filmes
em circuito de reprises (que vão desde filmes
recentes a constantes e numerosas reestréias
de filmes de diferentes épocas do cinema), completo
por pequenas salas de repertório que realizam
curtas mas sortidas mostras retrospectivas de cineastas
variados (principalmente do cinema americano de tempos
antigos – que são os filmes com mais dificuldade
de acesso nos cinemas, num país como o Brasil).
Claro que é impossível dar conta de se
ver tudo que Paris exibe em cada semana – e aceitar
esta realidade é o primeiro passo para manter
a sanidade na cidade. Na maioria das vezes, afinal,
temos uma agenda de compromissos a cumprir ao longo
da semana, o que nos impede de estar em alguns lugares
em determinados horários. No entanto, mesmo que
a pessoa tenha uma hipotética abertura completa
na sua agenda (o que não deixou de ser minha
realidade nestes primeiros dias desta vinda a Paris),
ainda assim é impossível cumprir com tamanha
maratona – e os motivos podem ser vários outros,
como os nobres limites das finanças pessoais,
a dificuldade de combinar horários entre os próprios
cinemas, mas principalmente, a possibilidade aqui já
citada do tal afogamento em imagens e sons. Afogamento
este que, levado ao paroxismo (nada difícil por
estas bandas) equivale a nada ver ao tudo tentar ver:
sim, é preciso ver o mundo em torno dos cinemas
sempre que possível.
O habitante constante de Paris, inclusive, pode se munir
de importante arma de consolo: sempre haverá
uma próxima semana, uma próxima exibição
possível de determinado filme nos cinemas parisienses.
Esta sensação de que nenhum filme está
completamente fora do alcance de ser visto nas salas
não somente ajuda a se lidar melhor com as perdas,
como para alguém como eu, sempre reticente em
ver filmes pela primeira vez em DVD ou VHS, acaba se
tornando motivo de júbilo pessoal sempre que
se tem acesso àquele título longamente
desejado, numa tela grande (ou mesmo nem tão
grande assim – mas no esplendor de, no geral, cópias
extremamente bem cuidadas em 35mm).
Se é fato que "não vai dar pra ver
tudo", isso não nos torna mais tranquilos
quanto ao problema seguinte: "mas, então,
o que ver?" Aí cairemos, sem dúvida,
no espaço das idiossincrasias absurdamente pessoais:
o que é um método válido para um,
cai por terra para outros. Como só posso falar
por mim, posso dizer o que costuma me guiar: antes de
tudo, um desejo de misturar ao máximo possível
as experiências espectatoriais, o que equivale
dizer: sempre que puder assistir àquele raro
filme de estúdio americano dos anos 40, tentar
não deixar de ver por isso o mais recente filme
do Senegal, ou à reprise daquele filme menos
conhecido dos anos 80 que você nunca chegou a
ver – ah, e rever muita coisa, sempre que der. É
possível viver em Paris uma dieta "só
de clássicos", mas não me parece
a mais saudável – convém balancear os
nutrientes. Eu, pelo menos, costumo achar esta mistura
completamente rica, oxigenando a experiência de
um filme com a do filme seguinte, e do seguinte, e assim
por diante. Para tentar explicar um pouco melhor como
funciona a minha dieta, vamos ver a primeira semana
que eu passei nos cinemas de Paris...
Tudo começou, então, com uma sessão
de sábado à noite (sempre absurdamente
cheia) no Forum des Images (uma das "cinematecas"
mencionadas), que atualmente faz um ciclo chamado Colonies
(onde, como convém a uma boa mostra francesa,
a partir de um determinado conceito bem geral, cabem
as coisas mais inesperadas – surpresas sempre agradáveis).
Lá fui ver uma das minhas três milhões
setecentas e quatorze mil e trezentas ausências
imperdoáveis no repertório (segundo a
última contagem), Pequeno Grande Homem
(1970), de Arthur Penn – filme que me pegou de surpresa
pelo seu humor fino, misturado com um retrato épico,
mas nunca perdido em auto-importância, do mito
da conquista do Oeste americano e do extermínio
dos povos índios. No dia seguinte, contrabalanço
a dieta com um outro épico, mas em registro completamente
distinto (geográfico, cinematográfico,
narrativo), o absolutamente encantador (em todos os
sentidos) Princesa Mononoke (1997), de Hayao
Myiazaki. A este, segue-se de imediato (na mesma sala),
o The Killers (1964), de Don Siegel, impressionante
exercício icônico do cinema de gênero
americano no seu melhor, com algumas raízes inegáveis
de tudo que Tarantino melhor realiza em Pulp Fiction,
com um elenco absolutamente arrebatador na sua criação
de tipos. De que maneiras ver estes determinados filmes
nesta determinada ordem influenciam as leituras e captações
uns dos outros, difícil dizer – mas impossível
não sentir de alguma forma.
Bom, mas a semana só começa. Na segunda,
sessão matinal (maneira usada por algumas cadeias
comerciais para exibir filmes menos "bem sucedidos")
de um daqueles filmes que perdi em festivais passados,
circunstância pela qual nunca me perdoei e achava
acabada a chance de vê-lo nos cinemas – Millenium
Mambo (2001), de Hou Hsiao-hsien. Da imanência
das imagens ao mesmo tempo profundamente realistas e
incrivelmente oníricas de Hou, só consigo
ir mesmo para uma revisão recente necessária,
no caso de O Aviador, de Scorsese – onde reafirmo
para mim mesmo os meus pontos positivos e negativos
de contato com o filme, que, claro, com todas as suas
imperfeições respira muito mais cinema
do que a imensa maioria do que se faz no mundo hoje.
No dia seguinte, a estréia pessoal na obra de
um cineasta importante, momento sempre muito saboreado
por qualquer apaixonado pelo cinema: Cavalos de fogo
(1964), de Serguei Paradjanov – filme tão
estranho aos olhos e ouvidos quanto se possa imaginar,
se encontrando nele desde ecos de um Glauber e um Mário
Peixoto altamente improváveis como relações
diretas (pelas datas etc), mas também cruzamentos
bem mais compreensíveis com o cinema de um certo
Tarkovski. Uma obra-problema que desafia o olhar e a
reflexão, que irrequieta e confunde.
Estes pequenos mergulhos históricos trazem a
necessidade de um contato com o cinema de hoje, com
o que se faz no mundo em imagens e som atualmente, como
forma de tentar entender, de maneira mais abrangente,
afinal o que fica desse oceano anterior no qual podemos
mergulhar em pontos tão distintos. A busca por
tais respostas mais confunde que esclarece, porém
(e ainda bem), porque da onda mais recente a chegar
na praia, tiramos conclusões tão distintas
quanto o dantesco The Final Cut, de Omar Naim
(2005), sobre o qual logo falarei mais em texto específico;
e o objeto estranho e sublime que é The life
aquatic (2004), de Wes Anderson (também a
ser melhor observado no futuro). Ambos filmes que lidam,
aliás, das maneiras mais opostas, com este problema
que traz o acúmulo de imagens da história
do cinema (e pessoal dos seus criadores) para a produção
contemporânea e suas ambições. Frutos
da mesma cinematografia nacional (a americana), mas
ao mesmo tempo impossíveis de compreender como
trajetórias senão pela distinção
completa dos seus olhares para o mundo e para o cinema.
E, para o retrato ficar um pouco mais abrangente, vamos
por último a um cinema diferente, o do iraniano
Bahman Ghobadi, de quem não gostava nada dos
filmes anteriores (Tempo de Embebedar Cavalos
e Exílio no Iraque), mas que conseguiu
me dobrar com este seu recente Tartarugas podem Voar
(2004), perdido por mim na Mostra de SP do ano passado
numa daquelas difíceis opções de
programação, mas agora (felizmente) recuperado.
E aí está uma semana nos cinemas parisienses:
trajetória desigual, incerta, incompleta. Mas
fascinante demais por todos os seus aspectos (aqui,
falei só dos filmes, mas volto depois às
salas, aos espectadores, aos caminhos que levam de uma
a outra). Acima de tudo, porém, isso: trajetória.
Que, indo por onde for, só consegue nos fazer
voltar mais e mais ao objeto amado: o filme, os filmes,
em sua pluralidade sempre singular. "Ah, mas nem
foram tantos filmes assim em uma semana!", diriam
vocês. É porque "esqueci" de
mencionar a minha outra paixão cinematográfica
que Paris completa: a de ver de forma condensada pedaços
consideráveis da obra de um cineasta específico.
Por isso mesmo, a semana foi recheada, principalmente,
com seguidas voltas à sala 2 do Action Ecole
para ver em uma semana 7 filmes de Otto Preminger. Sobre
eles (filmes, Otto Preminger, Action Ecoles), prometo
mandar uma cartinha semana que vem...
Espero que esta encontre todos aí com saúde,
e até a próxima!
Eduardo Valente
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