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A) Do filme de Alain Resnais,
não sei exatamente o que pensar, mas ao menos
que ele mexe em muitas coisas no tocante a uma questão
que não se ousa mais fazer: o que é ser
francês? E que ele faz persistir, contra pré-julgamentos,
irritações, cansaço também
(por causa dessa bizarra mistura de ficção
sociológica, de tese científica, inserções
de cinema antigo), um poder de imaginação
de fato desproporcionado à esse cenário:
nada, desse quadro de sociedade sombrio, dessa "aula
de história" pessimista e dessa comédia
à francesa, se sustenta verdadeiramente. O poder
do filme está em outro lugar. Ele não
age num "conteúdo" (de roteiro, ainda
menos de tese), mas nos espaços e durações
que ele inventa, entre esse roteiro de intrincações
e paralelas, e uma distância que parece filmá-lo
como se fosse ficção científica.
Mas com um medo, um céu de chumbo que a ficção
científica quase não conhece. Esse roteiro
desloca em si toda uma época de limbos, de massas
de imagens, de latências, silêncios opressores,
numa estranha máquina de cinema que filma uma
humanidade ainda muito familiar, mas que agora só
se parece com o horror de seu futuro, na projeção
retroativa de um passado afluente nessas imagens cinzas,
essas fotografias.
B) Talvez Resnais seja o mais
próximo de Welles, seu discípulo mais
independente, mais criador, que transforma todo o problema.
Pois, em Welles, um ponto fixo subsiste, mesmo que ele
comunique com a terra (contra-plongée).
É um presente que se oferece à visão,
a morte de alguém, ora dada no começo,
ora prefigurada. É também um presente
sonoro, a voz de quem recita, a voz off, que
constitui um centro radiofônico cujo papel é
essencial em Welles. [...] A primeira novidade de Resnais
é o desaparecimento do centro ou do ponto fixo.
A morte não fixa um atual presente, tantos os
mortos que assombram as faixas de passado ("9 milhões
de mortos assombram essa paisagem", "200 mil
mortos em 90 segundos"). A voz off não é
mais central, seja porque ela entra em relações
de dissonância com a imagem visual, seja porque
ela se divide e se multiplica (as vozes diferentes que
dizem "Eu nasci..." em Meu Tio da América).
Em regra geral, o presente se põe a flutuar,
afetado por incertezas, disperso no vai-e-vem dos personagens,
ou já absorvido pelo passado.
C) Naturalmente, a idéia
não basta. É impossível saber de
partida se ela é boa, e se o escritor que escolhemos
saberá desenvolvê-la. É preciso
esperar para ter um primeiro texto diante dos olhos.
Em seguida, discute-se. Não é sempre agradável,
pode custar um tempo, pode-se perceber no meio do caminho
que não deu certo. [...] Eu escolho os escritores
que me parecem dotados de qualidades dramáticas,
que têm o sentido do espetáculo. Eu lhes
peço para não pensar na técnica
cinematográfica e permanecer fiéis a sua
própria linguagem. Se eles possuem verdadeiramente
esse senso dramático, eu creio que o trabalho
deles produzirá automaticamente imagens cinematográficas
originais. O escritor tornar-se-á roteirista.
Eu procuro, então, preferencialmente pessoas
que ainda não trabalharam para o cinema: é
uma garantia de frescor.
A) Enquadrar esse filme distanciado
de constatação sociológica (a crise
dos quadros nessa fase de mutaçao do capitalismo)
seria tão insuficiente quanto reduzi-lo a sua
moralidade científica (nossos comportamentos
de concorrrência e dominação arruínam
a saúde). Se ele se assemelha, mais uma vez,
com a ficção científica, é
por seu poder de demonstrar (não vejo nele outra
lição), num cenário de sociedade
contemporânea, que suas construções
de espaços e duração são
capazes de dar a imaginar um tempo e uma geografia que
pode representar, com esse horizonte murado e esse passado
cinza, um mundo muito lacunar, uma falta de herdeiros
sobre a qual pesa o horror dos limbos, do passado, do
futuro, que dão a essa humanidade uma história
hoje inimaginável.
D) Grande admirador de O
Ano Passado em Marienbad, o cientista Henri Laborit
tentou trabalhar com Alain Resnais quando um laboratório
farmacêutico lhe propôs filmar um curta-metragem
sobre um produto que aumentava a capacidade de memória.
O projeto não foi adiante e a partir daí
Resnais procurou um produtor para fazer um longa-metragem.
Uma vez encontrado, ele pediu a Jean Gruault que escrevesse
um roteiro a partir de teses de Henri Laborit misturando
relato científico e romanesco.
C) Há os detalhes, e
em seguida há a composição. Uma
obra pode ser muito realista no detalhe, apoiando-se
numa construção formal rigorosa. Observe
um quadro de Cézanne: nunca se mostrou melhor
a Provence, a paisagem foi apresentada com uma precisão,
uma sensibilidade extremas. Ao mesmo tempo, é
uma composição abstrata, um jogo de linhas
e de formas. A esse respeito, a pintura não-figurativa
não modificou nada. Simplesmente, ao invés
de partir de um objeto, de uma maçã, de
uma árvore, parte-se de um primeiro traço
que é colocado arbitrariamente e em torno do
qual outros traços se organizam em seqüência.
O tema do quadro é o próprio quadro. Talvez
se poderia falar de um realismo formalista, se
essa mistura de palavras tem um sentido. Tenho a impressão,
quando eu filmo, de me prender constantemente aos detalhes.
Tento ser tão exato, tão fiel quanto possível.
Mas eu não perco jamais de vista o conjunto,
a totalidade que é do próprio filme, porque
eu sei que para comunicar alguma coisa, é preciso
passar pelas formas.
B) Meu Tio da América
poderá continuar essa exploração
[existente em Hiroshima mon amour, Muriel,
A Guerra Acabou] das idades. Três personagens,
e cada um tem vários níveis, várias
idades. Há constantes: cada idade, cada faixa
se definirá por um território, linhas
de fuga, obstrução dessas linhas; são
as determinações topológicas, cartológicas
propostas por Laborit. Mas de uma idade a outra, e de
um personagem a outro, a repartição varia.
As idades tornam-se idades do mundo, em suas variações,
porque elas dizem respeito aos próprios animais,
mas também porque elas dizem respeito ao cosmos
sobre-humano, a ilha e seu tesouro.
E) A única razão
de ser de um ser é ser. Ou seja, manter sua estrutura.
É a de se manter vivo. Sem isso, não haveria
ser. [...] Um cérebro não serve para pensar,
mas para agir.
A: Jean-Pierre Oudart, in
Cahiers du Cinéma 314, julho-agosto 1980
B: Gilles Deleuze, Cinema
2. Imagem-Tempo. Paris: Minuit (1ª ed. 1985)
C: Alain Resnais, in L’Arc
31, inverno 1967.
D: Allociné.com (no
texto "Sécrets
de tournage")
E: Henri Laborit in Meu
Tio da América.
Tradução e
adaptação: Ruy Gardnier
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