cronicrítica - alexandre
de Oliver Stone, EUA/Inglaterra/Alemanha/Holanda, 2004

Alexandre visto de dentro


Ver Alexandre, do Oliver Stone, em Atenas, num multiplex ou coisa que o valha, não é um acontecimento comum. Embora esteja na ordem da "fantasia de territorialização", implica uma expectativa de compartilhar com a audiência local uma espécie de intimidade com o contexto da trama, algo que desperta reações latentes que não seriam observáveis imediatamente no resto do mundo. E que dariam para trabalhar num registro de assemelhado à "estética da recepção". Pelo menos foi isso que animou meu status de espectador-turista nesse recanto seminal da civilização. O filme, aliás, é bom e vale a pena.

É claro que esse parágrafo tipo "nariz de cera" não passa de um sofisma - globalização é um conceito que opera sobretudo na indústria cultural, e Alexandre é a mesma maçaroca aqui em Atenas como em Triunfo, Pernambuco, se o multiplex lá chegar. Na era da reprodutibilidade técnica, como queria o Walter Benjamin, acabou a aura da obra de arte, desaparece qualquer traço de singularidade, inclusive do contexto especifico que a cerca. De uma certa maneira, a própria aura da civilização grega também dançou com a saturação de imagens a ela associadas. O cinema de gênero do qual é tributário Alexandre é mais um índice desse estado de coisas. O derradeiro resíduo de uma singularidade grega no contexto do filme foi o pífio protesto da OAB local acerca de uma presumível homossexualidade do herói, explorada pelo Stone. Claro que isso tudo não passa de jogada de marketing - como se os machões contemporâneos se reconhecessem no "fenômeno Alexandre", suas indecisões sexuais ou problemas com mamãe. Só para constar, essa história recebeu por aqui igual ou menos atenção do que no resto do mundo, ninguém deu a mínima. Na sessão que fui, sala meio vazia, a garotada dava risadas nervosas diante das insinuações homo-explícitas, como deve ter rolado em qualquer outro lugar, inclusive Triunfo. Alguém gritou "todo bissexual que eu conheço é bicha" e ficou por isso mesmo.

Mas de qualquer forma pode ser curioso observar, daqui de Atenas, como o Oliver Stone resolveu produzir essa parábola de poder usando a referência do mito "Alexandre". Se o "fenômeno" saiu da Grécia para conquistar o mundo, eliminar as diferenças, no limite "acabar com os controles imigratórios" - como sugere o personagem ao longo da fita, cada vez mais dramaticamente - no planeta unipolar em que vivemos não dá para ignorar que a Grécia é hoje apenas um mercado marginal na "ultima maré vazante do capitalismo", como dizia o Oswald de Andrade. Se a razão filosófica foi inventada por Aristóteles e companhia, e serviu entre outras coisas para informar nosso herói sobre os limites cognoscíveis do mundo, hoje o grego comum "não tem nada a ver com seus antepassados", como informa cinicamente o Routard, guia turístico dos mochileiros franceses perplexos. A Grécia, com seus dez milhões e pouco de habitantes, sobrevive hoje entre outras pela sinecura da União Européia, e suas preocupações geopolíticas limitam-se à procura de proteção contra o gigante turco rosnando a seu lado. Grécia como epicentro de poder, ou de expansão de poder, só mesmo no cinema, e de Hollywood.

Pois o tema central de Alexandre de Oliver Stone é justamente a expansão, ou melhor, o desejo de expansão permanente que anima as poderosas máquinas político-militares. Qualquer analogia com o contemporâneo busheano não é mera coincidência - é proposital, sobretudo vindo da mão de Oliver Stone, um dos raros filmmakers ianques a identificar-se politicamente com a esquerda - se é que é possível falar de esquerda nos EUA. Mas Stone traz para o mito grego uma perspectiva fundamental do imaginário de seu país. No plano épico, a exemplo dos westerns clássicos, o percurso de Alexandre pode ser entendido como uma pulsão para além das fronteiras, permanente superação do horizonte cinematográfico, uma verdadeira libido do espaço. Só que nesse percurso de conquistas depara-se, incontornavelmente, com a alteridade, ou melhor com as varias alteridades - egípcios, persas, hindus e por aí vai. O conquistador resolve até casar com uma representante dessas etnias para gerar um filho-símbolo do seu sonho de integração, malgrado a decepção da sua "entourage", em particular do amigo "predileto", Hefaistos. No conflito entre o mesmo e o outro quem acaba se dando mal é o próprio Alexandre, que finalmente encontra seu limite nas pradarias da Índia, depois de atravessar, justiça seja feita, metade do mundo conhecido.

Mas atenção com esse "downgrade" da Grécia: mesmo "caída", a civilização grega continua a estruturar nosso pensamento. Basta conferir a semântica de diversas palavras usadas nos parágrafos acima. Mesmo no cinema, é evidente que os americanos são tributários da grande sacação épica narrativa que é a Odisséia. Se o retorno de Ulysses depois da guerra de Tróia sedimentou a identidade da nação grega, no Monument Valley de John Ford o percurso de John Wayne encarou os índios Apache para fundar a nação norte-americana através do audiovisual. Ou seja, Hollywood repetiu a receita, e deu certo. Alexandre retoma, em última análise, um método inventado por aqui (pena que o Tróia de Brad Pitt seja uma porcaria).

Mas visto de Atenas, enfim, esse papo de conquista do espaço (inclusive o cinematográfico) não acaba nao faendoz a menor diferença. No local, no particular, importa mais, por exemplo, examinar a dimensão "humana". E nessa Oliver Stone também acertou e errou. Nas estátuas coloridas, perfeito, seu consultor histórico lembrou em boa hora que o mármore "pálido" que costumamos associar à antiguidade não tem nada a ver com a "carnavalização" real daqueles tempos. As festas do rei Felipe da Macedônia estavam mais para bloco de carnaval em Olinda do que corredor frio do Louvre em Paris. A coisa derrapou, entretanto, na dramatização da suposta (homo)bissexualidade de Alexandre, e talvez aí o principal "handicap" tenha sido o casting que selecionou Colin Farrrel, ator mediano sem "presença épica", como dizem os críticos. Ver Alexandre grunhindo como um gato de armazém para sua mulher persa - depois da "despedida" de Hefaistos - não convence de jeito nenhum. Meu vizinho de poltrona no cinema me garantiu que a "indesejada" disse com todas as forças: "tu é gay, meu Grande!", e virou as costas. Para dosar uma cena dessas, tipo chique-perverso, seria preciso um diretor como Bernardo Bertolucci, acostumado ao comportamento depravado da nobreza decadente européia. Não é o caso de Stone.

Outro aspecto engraçado a notar é a caracterização do grande inimigo persa - é bom lembrar que os persas invadiram e saquearam Atenas antes de Alexandre, ou seja, a parada era dura e à altura. Além do imperador homólogo, com close filmado em grande angular, lembrar um pouco o Osama Bin Laden - e por tabela nosso Caetano Veloso, mas essa é acidental - o filme insinua aí um personagem que só faz dançar e lançar olhares para Alexandre, afinal correspondidos. Será que a alteridade que tanto atraiu Alexandre era essa "liberdade"? Um crítico mal-humorado do "Le Monde" disse que todo o "frisson" do fenômeno era fugir das garras da super-mãe, vivida pela melhor atriz do filme, Angelina Jolie, sempre às voltas com tubos e cobras. O édipo da mãe detonou Alexandre e o levou a conquistar o mundo. Com essa observação meio redutora, mas pertinente, voltei para o hotel e programei minha excursão ao oráculo de Delfos no dia seguinte.

João Lanari
Atenas, janeiro de 2005