|
Alexandre
visto de dentro
Ver Alexandre, do Oliver Stone, em Atenas, num
multiplex ou coisa que o valha, não é
um acontecimento comum. Embora esteja na ordem da "fantasia
de territorialização", implica uma
expectativa de compartilhar com a audiência local
uma espécie de intimidade com o contexto da trama,
algo que desperta reações latentes que
não seriam observáveis imediatamente no
resto do mundo. E que dariam para trabalhar num registro
de assemelhado à "estética da recepção".
Pelo menos foi isso que animou meu status de espectador-turista
nesse recanto seminal da civilização.
O filme, aliás, é bom e vale a pena.
É claro que esse parágrafo
tipo "nariz de cera" não passa de um
sofisma - globalização é um conceito
que opera sobretudo na indústria cultural, e
Alexandre é a mesma maçaroca aqui
em Atenas como em Triunfo, Pernambuco, se o multiplex
lá chegar. Na era da reprodutibilidade técnica,
como queria o Walter Benjamin, acabou a aura da obra
de arte, desaparece qualquer traço de singularidade,
inclusive do contexto especifico que a cerca. De uma
certa maneira, a própria aura da civilização
grega também dançou com a saturação
de imagens a ela associadas. O cinema de gênero
do qual é tributário Alexandre
é mais um índice desse estado de coisas.
O derradeiro resíduo de uma singularidade grega
no contexto do filme foi o pífio protesto da
OAB local acerca de uma presumível homossexualidade
do herói, explorada pelo Stone. Claro que isso
tudo não passa de jogada de marketing - como
se os machões contemporâneos se reconhecessem
no "fenômeno Alexandre", suas indecisões
sexuais ou problemas com mamãe. Só para
constar, essa história recebeu por aqui igual
ou menos atenção do que no resto do mundo,
ninguém deu a mínima. Na sessão
que fui, sala meio vazia, a garotada dava risadas nervosas
diante das insinuações homo-explícitas,
como deve ter rolado em qualquer outro lugar, inclusive
Triunfo. Alguém gritou "todo bissexual
que eu conheço é bicha" e ficou
por isso mesmo.
Mas de qualquer forma pode ser
curioso observar, daqui de Atenas, como o Oliver Stone
resolveu produzir essa parábola de poder usando
a referência do mito "Alexandre". Se
o "fenômeno" saiu da Grécia para
conquistar o mundo, eliminar as diferenças, no
limite "acabar com os controles imigratórios"
- como sugere o personagem ao longo da fita, cada vez
mais dramaticamente - no planeta unipolar em que vivemos
não dá para ignorar que a Grécia
é hoje apenas um mercado marginal na "ultima
maré vazante do capitalismo", como dizia
o Oswald de Andrade. Se a razão filosófica
foi inventada por Aristóteles e companhia, e
serviu entre outras coisas para informar nosso herói
sobre os limites cognoscíveis do mundo, hoje
o grego comum "não tem nada a ver com
seus antepassados", como informa cinicamente
o Routard, guia turístico dos mochileiros franceses
perplexos. A Grécia, com seus dez milhões
e pouco de habitantes, sobrevive hoje entre outras pela
sinecura da União Européia, e suas preocupações
geopolíticas limitam-se à procura de proteção
contra o gigante turco rosnando a seu lado. Grécia
como epicentro de poder, ou de expansão de poder,
só mesmo no cinema, e de Hollywood.
Pois o tema central de Alexandre
de Oliver Stone é justamente a expansão,
ou melhor, o desejo de expansão permanente que
anima as poderosas máquinas político-militares.
Qualquer analogia com o contemporâneo busheano
não é mera coincidência - é
proposital, sobretudo vindo da mão de Oliver
Stone, um dos raros filmmakers ianques a identificar-se
politicamente com a esquerda - se é que é
possível falar de esquerda nos EUA. Mas Stone
traz para o mito grego uma perspectiva fundamental do
imaginário de seu país. No plano épico,
a exemplo dos westerns clássicos, o percurso
de Alexandre pode ser entendido como uma pulsão
para além das fronteiras, permanente superação
do horizonte cinematográfico, uma verdadeira
libido do espaço. Só que nesse percurso
de conquistas depara-se, incontornavelmente, com a alteridade,
ou melhor com as varias alteridades - egípcios,
persas, hindus e por aí vai. O conquistador resolve
até casar com uma representante dessas etnias
para gerar um filho-símbolo do seu sonho de integração,
malgrado a decepção da sua "entourage",
em particular do amigo "predileto", Hefaistos.
No conflito entre o mesmo e o outro quem acaba se dando
mal é o próprio Alexandre, que finalmente
encontra seu limite nas pradarias da Índia, depois
de atravessar, justiça seja feita, metade do
mundo conhecido.
Mas atenção com
esse "downgrade" da Grécia: mesmo "caída",
a civilização grega continua a estruturar
nosso pensamento. Basta conferir a semântica de
diversas palavras usadas nos parágrafos acima.
Mesmo no cinema, é evidente que os americanos
são tributários da grande sacação
épica narrativa que é a Odisséia.
Se o retorno de Ulysses depois da guerra de Tróia
sedimentou a identidade da nação grega,
no Monument Valley de John Ford o percurso de John Wayne
encarou os índios Apache para fundar a nação
norte-americana através do audiovisual. Ou seja,
Hollywood repetiu a receita, e deu certo. Alexandre
retoma, em última análise, um método
inventado por aqui (pena que o Tróia de
Brad Pitt seja uma porcaria).
Mas visto de Atenas, enfim,
esse papo de conquista do espaço (inclusive o
cinematográfico) não acaba nao faendoz
a menor diferença. No local, no particular, importa
mais, por exemplo, examinar a dimensão "humana".
E nessa Oliver Stone também acertou e errou.
Nas estátuas coloridas, perfeito, seu consultor
histórico lembrou em boa hora que o mármore
"pálido" que costumamos associar à
antiguidade não tem nada a ver com a "carnavalização"
real daqueles tempos. As festas do rei Felipe da Macedônia
estavam mais para bloco de carnaval em Olinda do que
corredor frio do Louvre em Paris. A coisa derrapou,
entretanto, na dramatização da suposta
(homo)bissexualidade de Alexandre, e talvez aí
o principal "handicap" tenha sido o casting
que selecionou Colin Farrrel, ator mediano sem "presença
épica", como dizem os críticos. Ver
Alexandre grunhindo como um gato de armazém para
sua mulher persa - depois da "despedida" de
Hefaistos - não convence de jeito nenhum. Meu
vizinho de poltrona no cinema me garantiu que a "indesejada"
disse com todas as forças: "tu é gay,
meu Grande!", e virou as costas. Para dosar uma
cena dessas, tipo chique-perverso, seria preciso um
diretor como Bernardo Bertolucci, acostumado ao comportamento
depravado da nobreza decadente européia. Não
é o caso de Stone.
Outro aspecto engraçado
a notar é a caracterização do grande
inimigo persa - é bom lembrar que os persas invadiram
e saquearam Atenas antes de Alexandre, ou seja, a parada
era dura e à altura. Além do imperador
homólogo, com close filmado em grande angular,
lembrar um pouco o Osama Bin Laden - e por tabela nosso
Caetano Veloso, mas essa é acidental - o filme
insinua aí um personagem que só faz dançar
e lançar olhares para Alexandre, afinal correspondidos.
Será que a alteridade que tanto atraiu Alexandre
era essa "liberdade"? Um crítico mal-humorado
do "Le Monde" disse que todo o "frisson" do
fenômeno era fugir das garras da super-mãe,
vivida pela melhor atriz do filme, Angelina Jolie, sempre
às voltas com tubos e cobras. O édipo
da mãe detonou Alexandre e o levou a conquistar
o mundo. Com essa observação meio redutora,
mas pertinente, voltei para o hotel e programei minha
excursão ao oráculo de Delfos no dia seguinte.
João Lanari
Atenas, janeiro de 2005
|