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Campanha - Eleições
para Cineasta do Brasil!
dedicado
a Bruno Barreto e Arnaldo Jabor
Quem acompanhou os cadernos culturais dos nossos jornais
durante o mês de fevereiro pôde observar
uma inusitada discussão: durante os festejos
carnavalescos, em notinhas em jornais e entrevista a
uma revista, publicou-se um comentário irônico
de Bruno Barreto (em plena fase de divulgação
de seu novo filme) afirmando que "no Brasil tem muito
diretor de cinema" e que "a metade deveria fazer outra
coisa, como dirigir táxi, trabalhar como dentista,
virar comerciante".
Quanta maldade!... É
claro que muita malícia pode ser acrescentada
aos comentários do diretor de O Que É
Isso, Companheiro?. Por exemplo, a de que só
na família Barreto já teríamos
dois candidatos ao volante dos táxis. Ou a de
que isso é um comentário que denigre quem
trabalha no ramo - os taxistas, os dentistas e os comerciantes,
claro. Poderíamos continuar a ironia inclusive
fazendo a pergunta: "você, espectador, entraria
num táxi dirigido por Fulano de Tal?"; ou "você
confiaria no realizador do filme X para ser seu dentista?"
Ou ainda: "você faria
compras na mercearia do Bruno Barreto?".
Poderíamos inclusive
imaginar que os comentários derivam da grande
concorrência que ele encontrou ao tentar emplacar
sua carreira nos EUA, como já sugeriram alguns
cineastas mais maldosos nas matérias dos cadernos
culturais. Poderíamos supor que o talentoso marido
de Amy Irving pode estar preocupado com a concorrência
que seus pais vêm enfrentando (talvez devido a
um excesso de cineastas que nosso mercado não
comporta) para obter patrocínio das estatais
através de leis de incentivo fiscal para fazerem
mais filmes para o grande público e que certamente
serão muito lucrativos. Sendo muito lucrativos
como sempre pretendem ser, os filmes de Barreto poderiam
atrair investidores sem incentivos fiscais ou mesmo
serem financiados pelos sucessos anteriores, mas isso
certamente criaria uma grande bagunça no mercado,
até por depender demais de bilheteria - não
vale a pena...
Talvez, pensariam os mais cruéis,
seja por tudo isso que o primogênito dos Barreto
incomodou-se com a enormidade de coleguinhas que tem
aqui no Brasil - seria mais simples se todos se conhecessem
pelo nome.
Mas isso tudo é pura
maldade. Só injustiça, claro. Os Barreto
e os outros cineastas brasileiros merecem todo o nosso
respeito, assim como os dentistas, os taxistas e os
comerciantes. Talvez os comerciantes tivessem problemas
se cuidassem de suas vendas da maneira que os cineastas
vêm distribuindo seus filmes, mas isso é
só um detalhe.
Na verdade, não é
só um detalhe. Como já foi dito inúmeras
vezes aqui na Contracampo, o investimento em cinema
só se justifica se os filmes forem vistos. Os
filmes só existem quando são vistos. Há
muita justificativa e razão em defender filmes
que são feitos sem apoios estatais e não
conseguem ser vistos, já que o super-mercado
tem donos e não abre espaço para qualquer
produto. Mas já há dez anos que filmes
feitos com apoio através de leis de incentivo
e dinheiro de empresas estatais - e estes filmes continuam
não sendo vistos nem em salas de cinema, nem
em redes de televisão, privadas ou estatais.
Não vendo os filmes, o público e os cadernos
culturais continuam mantendo seus velhos preconceitos.
Parecendo convicto de que não
vale a pena investir dinheiro nos filmes para recuperar
na bilheteria e brigar com os donos do mercado, o clã
dos Barreto (e não só eles) deixa bem
clara a estratégia: se não pode vencê-los,
una-se a eles. Portanto, é unindo-se aos distribuidores
norte-americanos e sendo reconhecido a partir dos valores
deles que o produto nacional de boa procedência
poderá vingar. Isto inclui, como já é
bem sabido, uma já tradicional luta para conquistar
o prêmio mais famoso da indústria, o Oscar.
Observando a situação
sob este aspecto, é preciso que se diga: Barreto
está inteiramente certo.
Não há razão para polêmica.
Se o estado dá dinheiro para filmes caros (que
são "feitos para o público", mas nunca
se sustentam com a bilheteria e sempre precisam do dinheiro
do BNDES de da Petrobras) que terão um "padrão
internacional", de fato é preciso que haja grande
especialização, ao invés de concorrência
predatória na classe. Se o caminho não
é o de produzir e exibir o máximo de filmes
e idéias com o mínimo de verba, há
cineastas demais no Brasil.
Uma vez que concordamos com
Barreto, sugere-se aqui neste artigo, então,
que seja aprofundada a democracia no cinema brasileiro.
Queremos eleições para Cineasta do Brasil!
Afinal, muito mais eficiente
do que produzir vinte filmes por ano, com custo médio
de três milhões, será produzir um
único filme anual, feito com a melhor equipe
técnica e com um orçamento condizente
com a necessidade de competir no Oscar com as melhores
produções - algo em torno de sessenta
milhões, que tal? E sem precisar de contrapartida,
seja cultural ou financeira...
Dessa forma, inclusive, pouparíamos
as empresas estatais de contratar jurados para a chatíssima,
lenta e cara função de avaliar centenas
de projetos para, no final das contas, premiar invariavelmente
os nomes já bem conhecidos dos realizadores realmente
competentes.
Seria algo interessantíssimo
- junto com a eleição para Presidente,
teríamos a eleição para Cineasta.
É um caso, inclusive, em que a propaganda eleitoral
exibida na televisão não seria enganosa
- ao contrário, já seria uma amostra,
um verdadeiro portfólio. Podemos, inclusive,
torcer para que craques já especializados na
função, como Duda Mendonça ou Nizan
Guanaes, arrisquem-se na carreira - com tantos novos
talentos vindos da publicidade fazendo cinema, não
há razão para preconceitos.
Alguns partidos poderiam ser
criados especificamente para a função,
caso seja muito complicado adaptar nossos cineastas
ao quadro partidário atual - ou correríamos
o risco de todos os cineastas preferirem se identificar
com o partido do governo e seus aliados. Na verdade,
no congresso já é assim, mas, bem...
Realmente é divertido
imaginar como alguns de nossos expoentes poderiam se
adaptar à nova situação. Por exemplo,
Luiz Carlos Barreto poderia se tornar um cacique do
PMDB - não precisaria mudar muito. Cláudio
Assis e outros cineastas mais engajados poderiam se
aliar ao P-SOL e lançar o slogan: "quem bate
cartão não vê filme de patrão".
O cavalheiresco Walter Salles poderia fazer campanha,
em parceria com Eduardo Suplicy, em favor de filmes
solidários e da aprovação do programa
de renda mínima (bem, na verdade soaria bastante
estranho ver Walter Salles se submetendo a uma campanha
para ser eleito no Brasil, mas talvez aprovar o renda
mínima seja uma boa razão). Carlão
Reichenbach poderia enfim ser obrigado a fundar o Partido
Anarquista. Ivan Cardoso e Mojica fundariam o Partido
do Terror, sem sucesso nas eleições mas
com grande popularidade entre os jovens. Guel Arraes
poderia repetir a "Caravana" do Lula, só
que dessa vez transmitida para todo o país e
apresentada pela Regina Casé ou pelo Selton Mello.
O programa de apresentação do Luiz Fernando
Carvalho certamente seria o mais longo - ou, pelo menos,
pareceria sempre ser o mais longo. E Eduardo Coutinho
não teria a menor chance, mas certamente realizaria
um excelente documentário sobre os eleitores
e suas expectativas, possivelmente feito apenas com
entrevistas de freqüentadores de uma velha sala
de cinema.
E então, quem sabe, Bruno
Barreto poderá vir a ser o cineasta eleito pelo
povo, mais cedo ou mais tarde. Seu pai decerto costurará
a coalizão mais ampla em todo o país,
e sua mãe organizará exemplarmente sua
campanha. Ele poderá produzir enfim um lindo
filme, um drama histórico chamado A Abolição
da Escravatura, cuja trama cental é uma história
de amor vivida por Antônio Fagundes e Taís
Araújo, tendo como pano de fundo a corte de Pedro
II e da Princesa Isabel. Ou então uma emocionante
biografia de Roberto Carlos, com Rodrigo Santoro interpretando
o cantor e reproduzindo com perfeição
seus gestos e manias. Ou até, quem sabe, uma
ficção científica, com efeitos
especiais caros, sobre o dia em que os brasileiros conquistam
o espaço sideral, colonizando planetas como Saturno
e Plutão.
É pule de dez, a menos
que Fernando Meirelles consiga unir sua competência
ao apoio gringo - através de estímulos
a ONGs em regiões carentes e ao acordo da ALCA.
Mas esse sonho poderia se tornar
apenas o início de um pesadelo para Barreto.
Assim como nosso presidente Lula, BB logo poderia perceber
que governar significa lidar com pressões e aceitar
acordos, possivelmente mais do que ele está acostumado
a fazer nos sets de filmagem.
Afinal, como lidaria Bruno Barreto
com o fotógrafo de seu filme, que provavelmente
será indicado pelos Sarney, um sobrinho-neto
do patriarca José, com um bigode idêntico
ao do tio-avô? Ou BB tentaria antes fazer um acordo
no Mercosul para voltar a trabalhar com o argentino
Félix Monti?
E como reagirá o cineasta
eleito se Antonio Carlos Magalhães resolver indicar
uma jovem atriz baiana para ser a estrela do filme?
Ou se ACM e Jorge Bornhausen iniciarem uma briga para
decidir se as cenas de praia serão feitas na
Bahia ou Santa Catarina? E se o PSDB paulista insistir
em indicar o galã? Ou, pior ainda, e se Aécio
Neves insistir em ser ele mesmo o galã?
Decididamente, não é
fácil fazer um filme no Brasil, quanto mais fazer
política. Só nos resta desejar ao cineasta
eleito que tenha boa sorte. Afinal, dele depende o futuro
do país.
Mas... é preciso ter
muito cuidado na hora de aprovar o orçamento
do filme no congresso nacional. O período de
finalização é especialmente delicado.
E se a coalizão de Barreto começar a se
desfazer nas filmagens? O que acontecerá se o
presidente da Câmara dos deputados decidir indicar
um sobrinho seu para ser o montador?
Daniel Caetano
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