ARRESTED DEVELOPMENT
Mitchell Herwitz, Arrested Development, EUA, 2003
(primeira temporada completa)

Fox: quartas-feiras, às 21h. Reprises: quintas-feiras, 01h e sábados, 18h.

Considerando-se apenas os baixos índices de audiência, a primeira temporada de Arrested Development foi um fracasso. O público americano não acolheu a série com o interesse que ela merecia. No entanto, uma enxurrada de prêmios conquistados ao longo de 2004 (em especial o Emmy para melhor série cômica) parece ter garantido uma sobrevida – e, mais do que isso, garantido sua estética pouco ortodoxa. Sim, porque o grande temor para quem acompanhou com gosto a primeira temporada seria mesmo que Arrested Development, no caso de uma segunda temporada, sofresse alterações em sua estrutura. Um temor, felizmente, não confirmado, já que o começo da segunda temporada, em janeiro deste ano, mostra que a fórmula da série continua intacta, tanto em sua estrutura narrativa, quanto em seu temperamento.

Poderiam existir muitas explicações para o fracasso comercial de Arrested Development. Difícil acreditar, entretanto, que elas estejam em seu argumento. A série tem um tema simples, já arqui-batido: uma família rica prestes a perder tudo que conquistara ao longo dos anos. São os novos ricos adaptando-se à vida de novos pobres. E o problema se agrava ao levarmos em conta que a família Bluth é um ninho de cobras, onde não existe nenhum sentimento fraterno entre seus componentes. É a própria desunião, o egoísmo perfeito.

Fazem parte deste ninho: George Bluth Sr, o patriarca, preso por fraude e desvio de dinheiro da empresa da família; Lucille Bluth, a matriarca, uma perua manipuladora que está sempre armando contra seus filhos – especialmente contra Buster, o filho caçula, cujos problemas emocionais o tornam escravo da mãe, que o domina; George Oscar Bluth II (ou Gob), o filho irresponsável, ex-mágico - foi expulso da Aliança dos Mágicos por revelar segredos dos truques de magia - e paranóico, que sempre acredita estar sendo perseguido pelo irmão Michael, este o único mais ou menos sensato do grupo, responsável pela presidência da empresa depois da prisão do pai; Linday, a filha patricinha e gastadora, que casou com Tobias Funke - um psiquiatra esquisito que trocou a medicina pela carreira fracassada de ator) apenas para implicar com seus pais; Maeby, filha de Lindsay e Tobias, que vive esquecida por seus pais ausentes; e finalmente George-Michael, filho de Michael, que quer moldá-lo a sua imagem, longe das distorções dos Bluth, mas não consegue. George-Michael acaba passando muito mais tempo próximo dos outros membros da família, sofrendo influência dos esquisitões, desenvolvendo, ainda por cima, uma obsessão por sua prima Maeby, sua paixão não correspondida até o início da segunda temporada, quando arruma uma namoradinha igualmente esquisita.

Com a prisão de George Sr., cabe a Michael tentar unir a família e corrigir seus vícios e distorções. Mas os seus esforços são em vão. Cada episódio é uma comédia de erros, onde as boas intenções de Michael sempre fracassam diante das perversidades egoístas dos seus familiares.

É possível que não seja esta trama em si que desagrade o público, mas a ousadia dos autores em levá-la até às últimas conseqüências. Todo mundo sabe como o público de televisão tende a ser conservador em relação a assuntos familiares. Afinal, tendo em vista uma perspectica histórica, seriados, novelas e sitcoms podem ser violentos, eróticos e imorais, mas uma longeva tradição sugere que tais venham a confirmar os bons sentimentos familiares, com reconciliações e lições de vida, ao menos em seu desfecho. E Arrested Development não respeita esta questão. Pelo contrário: a série a ironiza, ao ponto de enganar o público com um terrível jogo de máscaras. Aqui, tudo é interesse e manipulação. Mais ou menos como um Big Brother familiar, em que os personagens arriscam aproximações e reconciliações, apenas para conseguir o que querem. Um exemplo clássico vem de um episódio da primeira temporada, em que Maeby, irritada com a ausência de seus pais, aproxima-se da avó, ela também irritada com seus filhos. As duas conversam rapidamente e surge uma improvável cumplicidade. A avó conclui então que a neta é uma ótima pessoa e diz: "Sabe, acho que devíamos passar mais tempo juntas..." As duas trocam um olhar carinhoso e o espectador acredita que os bons sentimentos irão finalmente florescer nesta série. Mas logo a filha revela: "Isso os deixará furiosos..." - referindo-se, claro, aos seus pais. "Exatamente", concorda então a avó. Quer dizer, a única cumplicidade é a da maquinação, a necessidade de provocar e manipular os membros da própria família.

O que este exemplo comprova é a total desesperança de Arrested Development, sua franca incapacidade de acreditar no homem. Nada de bons sentimentos; quando há alguma licença emotiva é sempre para enganar o espectador, provocar o anti-climax. E este niilismo também se aplica à mise-en-scène minimalista, de uma objetividade rigorosa e eficiente. Os diretores resolveram apostar num tipo de realismo ainda inédito em séries cômicas (o recurso é visto habitualmente em séries policiais), usando, inclusive, a tal "câmera nervosa" e trêmula. Junta-se a isto uma montagem extremamente rápida e fragmentada, voluntariamente confusa, que só consegue ligar a trama graças a uma locução irônica de Ron Howard, e temos uma estética incomum, perfeita para o tom farsesco proposto pela série. Ou seja, é preciso estar muito atento para entender o que acontece em cada episódio – e, convenhamos, pedir tal concentração para o público televisivo seria talvez pedir demais.

Não há dúvida que Arrested Development é uma série ousada e experimental. Sua linguagem reflete mesmo uma nova tendência da dramaturgia televisiva americana, que parece desiludida com a sociedade de seu país. Esteticamente, ela surge de um esgotamento, um cansaço de uma estrutura já muito vista e repetida, que agora começa a se desmistificar. Como se fosse preciso partir do zero, reinventar tudo de novo, à procura de novos caminhos.

Bolivar Torres