Os Sem-Esperança
de Miklós Jancsó, Szegénylegények, 1965, Hungria.

Qualquer filme, mesmo que se passe na época mais remota, refere-se, direta ou indiretamente, ao momento histórico em que foi produzido. Por exemplo, embora Max Ophüls, em De Mayerling a Sarajevo (1940), retrate, através do romance proibido entre a plebéia húngara e o arquiduque Francisco Ferdinando, a derrocada do império austríaco e, em conseqüência, da belle époque e do absolutismo monárquico (materializada na eclosão da 1a Guerra Mundial), o foco principal, na verdade, está na ascensão da Alemanha nazista de Hitler, último estágio dos conflitos deflagrados na Europa com a 2a Revolução Industrial e com o nacionalismo burguês da segunda metade do século XIX. De forma análoga, se em Os Sem-esperança Miklós Jancsó trata da perseguição aos sublevados húngaros de 1849, é para falar acerca do fracasso do socialismo autônomo do primeiro-ministro moderado Imre Nagy, destruído pela invasão soviética ao país em 1956.

Na Hungria, o movimento autonomista, liderado pelo advogado Luís Kossuth e que proclamou a república em 1849, é esmagado pela Áustria, a qual retoma sua hegemonia. A fim de exterminar a guerrilha que ainda persiste, ligada à tropa de Sandor, o exército austríaco prende suspeitos em forte isolado, onde um dos prisioneiros, Gadjar János (János Görbe), é forçado, para escapar da pena capital, a denunciar seus colegas, identificando os líderes separatistas presentes entre eles. Em Os Sem-esperança, que tornou Jancsó conhecido internacionalmente, as principais armas utilizadas na guerra política que envolve a maioria austríaca e a minoria húngara são a delação, o medo, a desconfiança, a chantagem e a paranóia.

Já nos créditos iniciais de Os Sem-esperança, Jancsó expõe a violência e o militarismo que marcam o filme: sobre desenhos dos mais variados armamentos, e ao som de Das Lied der Deutschen (símbolo do nacionalismo germânico, depois adotado pela Alemanha como hino nacional), narra-se o contexto histórico em que se situa a ação, ou seja, o fracasso da revolta de Kossuth devido à aliança da burguesia - até então, força progressista que conclamava o proletariado urbano e o campesinato à revolução - com a nobreza, de modo a intensificar a industrialização do império mediante o fortalecimento do Estado absoluto, único capaz de impedir o avanço do socialismo utópico. Passado em meados da década de 1860, durante as unificações da Itália e da Alemanha (citadas sutilmente pelo prisioneiro que entoa canção sobre Garibaldi), Os Sem-esperança apresenta o período em que a Áustria-Hungria sai enfraquecida da guerra contra a Prússia (Guerra Austro-Prussiana, de 1866), quando perde para esta todos os Estados da Confederação Germânica e, para Piemonte, o Reino de Veneza, restando-lhe como alternativa modernizar a atrasada economia rural através do capitalismo oligopolista.

Filmado pelo processo Agoscope, na proporção 2.35:1, Os Sem-esperança passa-se, na primeira metade, sobretudo dentro do forte e da casa ao lado deste, de sorte que a vastidão do espaço possibilitada pelo formato scope é negada, ao ser restrita pelas paredes dos interiores, reforçando assim o aprisionamento dos personagens, não apenas físico - a própria fortaleza, as celas minúsculas, os humilhantes sacos com que lhes cobrem os rostos - , como também moral e psíquico, posto que suscitados pela traição e pela desconfiança instauradas entre os ex-companheiros. Com a morte de Gadjar János, assassinado por três outros detentos, Miklós Jancsó transfere a trama para o exterior, verdadeiro descampado cuja amplidão, no entanto, o diretor cerceia, pois usa, em toda a largura da tela, recursos tais quais a profundidade de campo, as entradas e saídas de quadro, a disposição do terreno e as configurações geométricas e os movimentos de dezenas de corpos a fim de recriar o mesmo sentido claustrofóbico verificado na prisão, como se, também ao ar livre, não existisse escapatória para os antigos soldados de Sandor.

Não há, de fato, liberdade possível para os insurgentes de Kossuth. Convocados, em aparência, a retornarem ao exército, são iludidos pelo mítico comandante Sandor (que sobrevive, como herói, na memória de sua tropa), o qual barganha o próprio perdão junto ao imperador Francisco José em troca do assassinato de todos os velhos combatentes. Ao constatar que a política, que se baseia somente na traição, favorece àqueles que já detêm o poder, Jancsó conecta o Império Austro-Húngaro do século XIX à Hungria contemporânea, quando o processo de desestalinização promovido por Nikita Kruschev se revela pura farsa, uma vez que não altera os rumos do socialismo e do domínio soviético sobre a Europa Oriental. Assim, se em 1849 os austríacos sufocaram o levante húngaro em nome do capitalismo, em 1956 o Exército Vermelho invade Budapeste sob o signo da ditadura do proletariado, destituindo e, por fim, executando o reformista Nagy. Ao invés da abertura democrática no regime socialista, o recrudescimento da linha-dura e das perseguições políticas pelo Partido Comunista húngaro, submisso à URSS e mero fantoche no teatro de operações da Guerra Fria.

Ao contrário das obras de Andrzej Wajda, que explicitam o apoio do cineasta ao sindicato Solidariedade contra o PC polonês, como O Maestro (1980) - em que jovem regente substituto, burocrata do regime, toma o lugar do consagrado titular, que retornara à terra natal após anos de exílio - e O Homem de Ferro (1981) - no qual jornalista dedo-duro se infiltra no sindicato a fim de delatar um dos líderes do movimento democrático, cujo pai fora o protagonista de O Homem de Mármore (1977) - , Os Sem-esperança não se esgota na denúncia alegórica das atrocidades cometidas pelo socialismo real soviético na Hungria pós-1956, visto que articula a política tanto à moral quanto à tragédia: aos prisioneiros, resta apenas se manterem fiéis ao ideal de nação livre encarnado por Sandor que, todavia, mostra-se não um líder, mas outro traidor, covarde e oportunista como János, preocupado mais com o próprio pescoço do que com o bem-estar de seus homens.

É o descompasso entre a lenda e o homem, entre o Sandor herói da causa húngara e o Sandor político de ocasião, que precipita o desfecho trágico dos sem-esperança: antes da liberdade, a morte; em substituição à música festiva, o retorno derradeiro da funesta Deutschenlied.

Paulo Ricardo de Almeida