|
Qualquer filme, mesmo que se
passe na época mais remota, refere-se, direta
ou indiretamente, ao momento histórico em que
foi produzido. Por exemplo, embora Max Ophüls,
em De Mayerling a Sarajevo (1940), retrate, através
do romance proibido entre a plebéia húngara
e o arquiduque Francisco Ferdinando, a derrocada do
império austríaco e, em conseqüência,
da belle époque e do absolutismo monárquico
(materializada na eclosão da 1a Guerra
Mundial), o foco principal, na verdade, está
na ascensão da Alemanha nazista de Hitler, último
estágio dos conflitos deflagrados na Europa com
a 2a Revolução Industrial e
com o nacionalismo burguês da segunda metade do
século XIX. De forma análoga, se em Os
Sem-esperança Miklós Jancsó
trata da perseguição aos sublevados húngaros
de 1849, é para falar acerca do fracasso do socialismo
autônomo do primeiro-ministro moderado Imre Nagy,
destruído pela invasão soviética
ao país em 1956.
Na Hungria, o movimento autonomista,
liderado pelo advogado Luís Kossuth e que proclamou
a república em 1849, é esmagado pela Áustria,
a qual retoma sua hegemonia. A fim de exterminar a guerrilha
que ainda persiste, ligada à tropa de Sandor,
o exército austríaco prende suspeitos
em forte isolado, onde um dos prisioneiros, Gadjar János
(János Görbe), é forçado,
para escapar da pena capital, a denunciar seus colegas,
identificando os líderes separatistas presentes
entre eles. Em Os Sem-esperança, que tornou
Jancsó conhecido internacionalmente, as principais
armas utilizadas na guerra política que envolve
a maioria austríaca e a minoria húngara
são a delação, o medo, a desconfiança,
a chantagem e a paranóia.
Já nos créditos
iniciais de Os Sem-esperança, Jancsó
expõe a violência e o militarismo que marcam
o filme: sobre desenhos dos mais variados armamentos,
e ao som de Das Lied der Deutschen (símbolo
do nacionalismo germânico, depois adotado pela
Alemanha como hino nacional), narra-se o contexto histórico
em que se situa a ação, ou seja, o fracasso
da revolta de Kossuth devido à aliança
da burguesia - até então, força
progressista que conclamava o proletariado urbano e
o campesinato à revolução - com
a nobreza, de modo a intensificar a industrialização
do império mediante o fortalecimento do Estado
absoluto, único capaz de impedir o avanço
do socialismo utópico. Passado em meados da década
de 1860, durante as unificações da Itália
e da Alemanha (citadas sutilmente pelo prisioneiro que
entoa canção sobre Garibaldi), Os Sem-esperança
apresenta o período em que a Áustria-Hungria
sai enfraquecida da guerra contra a Prússia (Guerra
Austro-Prussiana, de 1866), quando perde para esta todos
os Estados da Confederação Germânica
e, para Piemonte, o Reino de Veneza, restando-lhe como
alternativa modernizar a atrasada economia rural através
do capitalismo oligopolista.
Filmado pelo processo Agoscope,
na proporção 2.35:1, Os Sem-esperança
passa-se, na primeira metade, sobretudo dentro do forte
e da casa ao lado deste, de sorte que a vastidão
do espaço possibilitada pelo formato scope é
negada, ao ser restrita pelas paredes dos interiores,
reforçando assim o aprisionamento dos personagens,
não apenas físico - a própria fortaleza,
as celas minúsculas, os humilhantes sacos com
que lhes cobrem os rostos - , como também moral
e psíquico, posto que suscitados pela traição
e pela desconfiança instauradas entre os ex-companheiros.
Com a morte de Gadjar János, assassinado por
três outros detentos, Miklós Jancsó
transfere a trama para o exterior, verdadeiro descampado
cuja amplidão, no entanto, o diretor cerceia,
pois usa, em toda a largura da tela, recursos tais quais
a profundidade de campo, as entradas e saídas
de quadro, a disposição do terreno e as
configurações geométricas e os
movimentos de dezenas de corpos a fim de recriar o mesmo
sentido claustrofóbico verificado na prisão,
como se, também ao ar livre, não existisse
escapatória para os antigos soldados de Sandor.
Não há, de fato,
liberdade possível para os insurgentes de Kossuth.
Convocados, em aparência, a retornarem ao exército,
são iludidos pelo mítico comandante Sandor
(que sobrevive, como herói, na memória
de sua tropa), o qual barganha o próprio perdão
junto ao imperador Francisco José em troca do
assassinato de todos os velhos combatentes. Ao constatar
que a política, que se baseia somente na traição,
favorece àqueles que já detêm o
poder, Jancsó conecta o Império Austro-Húngaro
do século XIX à Hungria contemporânea,
quando o processo de desestalinização
promovido por Nikita Kruschev se revela pura farsa,
uma vez que não altera os rumos do socialismo
e do domínio soviético sobre a Europa
Oriental. Assim, se em 1849 os austríacos sufocaram
o levante húngaro em nome do capitalismo, em
1956 o Exército Vermelho invade Budapeste sob
o signo da ditadura do proletariado, destituindo e,
por fim, executando o reformista Nagy. Ao invés
da abertura democrática no regime socialista,
o recrudescimento da linha-dura e das perseguições
políticas pelo Partido Comunista húngaro,
submisso à URSS e mero fantoche no teatro de
operações da Guerra Fria.
Ao contrário das obras
de Andrzej Wajda, que explicitam o apoio do cineasta
ao sindicato Solidariedade contra o PC polonês,
como O Maestro (1980) - em que jovem regente
substituto, burocrata do regime, toma o lugar do consagrado
titular, que retornara à terra natal após
anos de exílio - e O Homem de Ferro (1981)
- no qual jornalista dedo-duro se infiltra no sindicato
a fim de delatar um dos líderes do movimento
democrático, cujo pai fora o protagonista de
O Homem de Mármore (1977) - , Os Sem-esperança
não se esgota na denúncia alegórica
das atrocidades cometidas pelo socialismo real soviético
na Hungria pós-1956, visto que articula a política
tanto à moral quanto à tragédia:
aos prisioneiros, resta apenas se manterem fiéis
ao ideal de nação livre encarnado por
Sandor que, todavia, mostra-se não um líder,
mas outro traidor, covarde e oportunista como János,
preocupado mais com o próprio pescoço
do que com o bem-estar de seus homens.
É o descompasso
entre a lenda e o homem, entre o Sandor herói
da causa húngara e o Sandor político de
ocasião, que precipita o desfecho trágico
dos sem-esperança: antes da liberdade, a morte;
em substituição à música
festiva, o retorno derradeiro da funesta Deutschenlied.
Paulo Ricardo de Almeida
|